O que resultará definitivamente do choque entre esses dois pólos ainda está em aberto e depende de distintas variáveis. No entanto, vemos que o desenvolvimento dessas duas tendências apontam a uma aceleração relevante dos tempos, ao aprofundar as tendências clássicas definidas por Lênin em sua análise sobre o imperialismo como uma época de crises, guerras e revoluções. Tratemos aqui de algumas definições à luz dos últimos acontecimentos.
Os primeiros passos do plano de Trump: acordos frágeis e instabilidade aberta
O genocídio palestino iniciado há exatos dois anos explicitou com toda crueza que o poder real não encontra-se em qualquer entidade do sistema internacional, bem como desmascarou a diferença entre demagogia e prática dos governos do mundo. Em cada desdobramento do genocídio palestino a inação, duplo discurso e aceitação do genocício foi a tônica predominante por parte dos atores estatais internacionais. Agora, frente ao infame plano apresentado por Trump para encerrar este capítulo do massacre contra o povo palestino, e abrir um novo da opressão colonial, a recepção predominante não foi diferente, com representantes de diversos governos saudando a iniciativa.
O Brasil, na figura do ministro de Relações Exteriores, Mauro Vieira, afirmou ver com “bons olhos” a proposta de Trump. Isso depois de Lula ter denunciado o genocídio na tribuna da ONU, mostrando mais uma vez como o governo brasileiro nega-se conscientemente a passar das palavras à ação, não rompendo qualquer relação com Israel. Os governos do Estado Espanhol e da Itália, países em que estão ocorrendo parte das maiores mobilizações contra o genocídio, não apenas comemoraram a proposta de Trump, como ainda chamaram a Global Sumud Flotilha a abortar sua missão humanitária, retirando os barcos da escolta que haviam enviado dias antes. Já os regimes árabes não apenas comemoraram, como foram parte da elaboração do plano.
O plano apresentado por Trump contém 20 pontos é alvo de debates entre as partes enquanto essas linhas são escritas. Dentre as condições previstas na redação original do governo estadunidense figuram o desarmamento imediato do Hamas, sua deportação (provavelmente ao Qatar), cessar fogo e devolução dos reféns em 72 horas, a instituição de um “governo tecnocrata” composto por “palestinos qualificados e peritos internacionais” sob a um “Conselho da Paz” chefiado pelo próprio Trump e ninguém menos que Tony Blair. Em especial este segundo ponto coroa as condições para a reconstrução não da Palestina, mas do colonialismo, negando aos palestinos novamente o direito de determinarem seus destinos.
Do ponto de vista das relações interestatais da região, o acordo proposto por Trump também determina que caso o Qatar seja atacado novamente, como Israel fez há algumas semanas, isso seria entendido como uma ameaça à segurança dos Estados Unidos, sendo passível de retaliação. O Qatar funciona como um local de reuniões extra-oficiais para organizações como o Hamas e os governos da região, e o seu ataque por Israel foi entendido como uma violação a este caráter, além de se tratar de um aliado histórico dos Estados Unidos.
Ademais, o plano de Trump deixa completamente impunes os crimes do genocídio cometido por Israel, deixando impunes cerca de 68 mil mortos, incontáveis feridos, além de vários crimes de guerra como o uso de armas químicas e a instrumentalização da fome como arma de guerra. Trump deu um ultimato para aceitação do plano até domingo, dia 05 de outubro, anunciando que caso a resposta seja negativa pode-se esperar um “inferno na terra” em Gaza. Como se isso não fosse o que a entidade sionista apoiada por ele já não está fazendo há dois anos, graças às armas, patrocínio e apoio estadunidense.
O Hamas, conjuntamente com a Jihad Islâmica e Frente Popular Palestina, fez uma primeira declaração na sexta-feira, dia 03 de outubro, afirmando que aceita o acordo com algumas condições. Em troca da libertação dos reféns israelenses vivos e mortos, principal demanda das manifestações que ocorreram em Tel Aviv em oposição a Netanyahu nos últimos meses, o Hamas exige a saída imediata de Israel da Faixa de Gaza. Isso altera o plano original de Trump, que não definia uma retirada israelense completa na primeira fase, nem na segunda, mas em um momento inespecífico quando Gaza estivesse “longe do terrorismo”. Além disso, o Hamas disse estar disposto a entregar a administração de Gaza a um órgão palestino independente, em "em coordenação nacional e com apoio árabe-islâmico".
A formulação ambígua propositalmente não expressa claramente se o Hamas aceitaria ser excluído dessa coordenação, já que o grupo afirmou ter a expectativa de participar das decisões em Gaza frente a um eventual cessar fogo. De acordo com o seu comunicado, o Hamas afirmou que: "Quanto às demais questões apresentadas na proposta do presidente Trump que dizem respeito ao futuro da Faixa de Gaza e aos direitos legítimos do povo palestino, isso está vinculado a uma posição nacional unificada e fundamentada nas leis e resoluções internacionais pertinentes, a ser discutida em um quadro nacional palestino amplo, do qual o Hamas fará parte e contribuirá com plena responsabilidade". O Hamas também não aceitou desarmar-se, ponto fundamental para Israel.
Mas independente da variável nada secundária de Israel aceitar a negativa do Hamas em se desarmar, o fato é que na conjuntura pronunciando-se desta maneira o grupo palestino devolve a contradição para Israel. Caso mantenha-se irredutível e não aceite os termos do Hamas, Netanyahu corre o risco de perder os reféns, o que teria consequências incalculáveis para o seu já frágil governo, que é alvo de manifestações cada vez mais frequentes sob essa pauta. Neste sentido, até o momento, o governo de Netanyahu respondeu laconicamente que está “pronto para receber os reféns” e que vai “ajudar o plano de Trump, nos termos implicados, a se concretizar”.
Trump rapidamente replicou a resposta do Hamas em suas redes sociais, afirmando que tudo estava rumando para um acordo que selaria uma “paz duradoura”, e chamando Israel a parar os bombardeios sobre Gaza, ao que Israel respondeu afirmando que passará a realizar “apenas operações defensivas”. Depois de dois anos de financiamento do genocídio palestino, agora Trump busca postular-se como um promotor da paz e da estabilidade, se auto-congratulando por um acordo extremamente frágil, cuja execução pode levar a novos níveis de instabilidade. Nada está garantido.
Uma demonstração disso é a frequente afirmativa de que o plano tem diversos estágios, e que o único em que há uma aparente negociação clara é a libertação dos reféns, cuja exigência de Trump é que seja feita em 72 horas, ao que o Hamas respondeu ser irreal. O Hamas tem consciência que os reféns ainda são a sua maior cobertura contra uma eventual quebra do pacto por Israel, e a tendência é que tente libertá-los gradualmente, conforme os demais pontos sejam efetivamente negociados. Uma nova rodada de negociações deve acontecer no Cairo entre os dias 4 e 5 de outubro entre delegações de Israel, o enviado de Trump para Oriente Médio, Steve Witkoff e representantes do Hamas. Nesta nova rodada espera-se definir o escopo da retirada durante a primeira fase do acordo, além da posição do Hamas de manter armas leves, e as áreas precisas para as quais o exército se retiraria durante as três fases da proposta, uma vez que a redação do acordo não especifica. Não está descartado que dessa rodada haja uma ruptura entre as partes, já que está claro que a posição do Hamas não aceita pontos fundamentais para Israel, que almeja não apenas a libertação dos reféns, mas impor a ocupação da Faixa de Gaza e forçar uma nova correlação de forças permanente contra o povo palestino na região, o que até o momento estava sendo executado através do genocídio.
Sequestro da Global Sumud Flotilha e o despertar internacional
As negociações do plano coincidiram com a aproximação às praias de Gaza da Global Sumud Flotilha, uma iniciativa composta por dezenas de barcos com ativistas de 44 países, que levava ajuda humanitária aos palestinos. Essa missão que vinha repercutindo enormemente nas redes sociais, enquanto foi vergonhosamente silenciada nos grandes meios com raras exceções, já havia recebido amplo apoio do movimento internacional pró-Palestina.
Os sionistas de Israel, que vem perdendo a batalha pela opinião pública internacional com crescentes questionamentos e mobilizações contra o genocidio e a ocupação colonialista, desde o início tentaram reprimir a Flotilha denominando-a ridiculamente como “Sumud-Hamas”. Primeiro realizaram 13 ataques com drones, nas expectativa de intimidar os ativistas enquanto eles estavam ancorados nos portos da Tunísia em 9 de setembro, outro ataque absolutamente ilegal mostrando que para Israel a impunidade é uma premissa. Posteriormente, conforme a Flotilha se aproximava, deu-se a interceptação e o sequestro dos tripulantes no dia 1 de outubro em águas internacionais, mais um crime cometido pelo estado sionista. Os ativistas foram então levados, e encarcerados na prisão de Ketziot, uma prisão conhecida pelas péssimas condições. Através do contato com o advogado, soube-se que os ativistas estão sendo torturados através da privação de água e comida.
Este tratamento não é uma surpresa. Uma das figuras mais abjetas do governo sionista, Ben Gvir, ministro da segurança nacional, que não deve nada a qualquer fascista proeminente, já havia anunciado que tratataria os membros da Flotilha como “terroristas”. Um vídeo circulando nas redes sociais mostra Ben Gvir comemorando o sequestro, ofendendo os prisioneiros rendidos, e recebendo como resposta gritos em coro “Free Palestine” (Palestina Livre). No dia 04 de outubro Israel anunciou que deportou a primeira leva de ativistas, direcionando 137 deles para a Turquia. Quando são apreendidos, Israel propõe que os ativistas assinem uma ridícula declaração na qual assumem ter invadido ilegalmente território israelense. Os que se negam são obrigados a encarar mais tempo na prisão, ao que os sionistas cinicamente declaram que “(os ativistas) estão deliberadamente obstruindo o processo de deportação, preferindo permanecer em Israel”.
Mas os objetivos da Flotilha foram cumpridos, apesar de não terem conseguido entregar a ajuda que levavam aos palestinos. A elevada moral dos membros da Sumud Global Flotilha, que conta com uma delegação de 14 brasileiros, dentre os quais Bruno Gilga, militante do MRT e do Esquerda Diário, denunciou e demonstrou na prática o que é Israel como uma formação decadente, colonialista, genocida e ilegítima, expôs de maneira contundente o fracasso dos atores do “sistema internacional”, e a necessidade de confiar na mobilização dos povos do mundo, da juventude e dos trabalhadores para a resolução da causa palestina.
Tanto é assim, que inúmeras manifestações massivas ocorreram espontaneamente logo que os membros da Flotilha foram sequestrados. A Itália se transformou em um epicentro das manifestações, com greves dos estivadores chamadas pela União Sindical de Base, arrastando milhares de pessoas às ruas em cidades como Roma, Milão, Torino, Bari, Veneza, Firenze, Palermo e Bolonha, reivindicando tanto o fim do genocidio quanto a libertação imediata dos ativistas da Flotilha. Em Barcelona cerca de 300 mil pessoas saíram às ruas, em uma mobilização que já dura vários dias desde a prisão das delegações da Sumud. Espera-se que ainda ocorram mobilizações massivas em mais de 40 cidades, e que além da libertação dos sequestrados por Israel e do fim do genocídio serão exigidas também a ruptura de todas as relações do governo do Estado Espanhol com Israel. Além disso, houveram manifestações massivas em Paris, apesar da repressão de Macron contra os que se mobilizam, bem como em Berlim, onde prisões arbitrárias contra o movimento pró-Palestina tem sido uma constante. Também aconteceram manifestações na Argentina, onde a Frente de Esquerda se organizou junto a vários setores.
Todas essas ações demonstram que a causa Palestina está sendo o motor de um despertar de consciência internacional histórico. Setores cada vez mais amplos passam a entender e denunciar com muita propriedade os elos de ligação entre o imperialismo, as burguesias e interesses capitalistas, e a sustentação de Israel como um projeto sionista, e portanto colonialista, racista e ilegítimo contra os palestinos. Independente dos rumos que o precário acordo de Trump possa ter, essa consciência não irá retroceder, e o seu impacto é duradouro. Isso demonstra que apesar dos horrores cometidos pelo imperialismo e por Israel, a causa palestina outrora considerada complexa demais, ou mascarada pela propaganda sionista e imperialista de originar-se por fatores religiosos, é na verdade uma luta de libertação nacional legítima e necessária, na qual se jogam os interesses não apenas da população palestina, mas de todos os povos e da classe trabalhadora do mundo.