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Problemas de Pequim no Oriente Médio

Parte da edição: 08.03.2026

Em meio à agressão imperialista dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, avizinha-se a pergunta: onde está a China? A reação chinesa foi condenar os ataques como “inaceitáveis” e apresentar-se como potência mediadora, incentivando a diminuição das tensões. Quais problemas surgem no horizonte chinês?

Em meio à agressão imperialista dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, avizinha-se a pergunta: onde está a China? A reação chinesa foi condenar os ataques como “inaceitáveis” e apresentar-se como potência mediadora, incentivando a diminuição das tensões. Não se aventurou a muito mais do que isso.

Junto à Rússia, a China é o principal parceiro diplomático e geopolítico do Irã. Em 2021, a China e o Irã assinaram um acordo de cooperação de 25 anos com o objetivo de expandir os laços em áreas como energia, além de integrar o Irã à Nova Rota da Seda. O serviço de rastreamento de navios Kpler estima que 87,2% das exportações anuais de petróleo bruto do Irã têm como destino a China, o que ressalta a importância econômica da China para Teerã, enquanto o Irã permanece um parceiro relativamente pequeno no comércio global da China. Apesar disso, um prolongado período de conflito envolvendo o Golfo, em especial o Estreito de Ormuz, afetaria substancialmente a China e outras regiões de importância para Pequim, como a África.

Pequim adere à tradicional postura de não envolver-se diretamente em atritos estrangeiros, especialmente quando se trata de agressões imperialistas orquestradas pelos Estados Unidos e seus parceiros mundiais. Tal foi a postura da China diante do genocídio do povo palestino em Gaza, espectadora da limpeza étnica promovida pelo Estado terrorista de Israel, que ora bombardeia o Irã (com a ajuda indispensável dos Estados Unidos, de Biden a Trump). Assim também diante do ato de guerra neocolonial de Trump contra a Venezuela, crescentemente convertida, com a colaboração submissa do regime chavista, em protetorado estadunidense.

Alguns analistas dizem que as consequências da arriscada aposta dos Estados Unidos contra o Irã beneficia a China. Isto explicaria seu estado expectativo. De certa perspectiva, não há dúvida quanto a isso. Trump entrou em uma guerra no “cemitério militar” dos Estados Unidos durante as últimas duas décadas. Assumiu para si a febre neoconservadora que levou Washington a derrotas no Iraque e no Afeganistão. Sem estratégia clara, ofuscado pelo espetáculo dos bombardeios iniciais, que passaram a substituir um plano político claro, Trump arrisca enredar os Estados Unidos em uma aventura militar sem um final certo. Estabeleceu uma coalizão contrarrevolucionária com Israel, tendo interesses estratégicos divergentes com Netanyahu, desesperado e adicto à “guerra permanente” por sua própria sobrevivência. Em queda nas pesquisas e com uma economia debilitada (assolada pela inflação crescente em meio ao aumento do preço do petróleo e do gás natural), Trump vê apenas 27% da população estadunidense apoiando a empreitada, com a base do MAGA dividida.

São todas boas notícias para Pequim, que certamente se deleita em ver os Estados Unidos gastando no Oriente Médio mísseis anti-balísticos THAAD e os mísseis interceptadores Patriot, de difícil construção, ou caros sistemas de defesa aérea e ataque naval. Trata-se de um teatro de operações importante, mas secundário, em relação à Ásia-Pacífico, e especialmente Taiwan, por ora fora do radar de Washington. Enquanto isso, Xi Jinping e o PCCh realizam em atmosfera aparentemente normal as “Duas Sessões”, as sessões plenárias anuais do Congresso Nacional do Povo.

Mas essa é uma parte incompleta da questão. A China se depara com problemas graves diante dos ataques dos Estados Unidos, que por trás da nova Estratégia de Segurança Nacional e lema da reconquista do “Hemisfério Ocidental’, vem deteriorando a situação de países integrados ao sistema de aliança chinês.

Obstáculos na preparação militar

As operações dos Estados Unidos na Venezuela e no Irã são sentidas em Pequim como um alerta amargo sobre a própria ausência de uma adequada preparação militar. Os bombardeios imperialistas que assassinaram Ali Khamenei e boa parte da alta cúpula militar iraniana aconteceram apenas semanas depois da maior crise no alto escalão militar chinês desde a era Mao.

No final de janeiro, Xi Jinping eliminou do cargo o mais poderoso comandante militar chinês, o vice-presidente da Comissão Militar Central (CMC), Zhang Youxia, e o chefe do Estado-Maior Conjunto, Liu Zhenli. Tendo previamente destituído He Weidong, ex-vice-presidente da CMC, e Miao Hua, ex-diretor de trabalho político da CMC, terminou por liquidar toda a alta cúpula do principal corpo político de direção do Exército.

Oficialmente, Zhang Youxia é investigado por ter desafiado “os alicerces do controle do partido sobre as Forças Armadas, prejudicando gravemente a influência do partido sobre a liderança absoluta do Exército de Libertação Popular (ELP).” Em outras palavras, teria contrariado, em tese, a liderança do próprio Xi Jinping sobre o Exército. Entretanto, tem relevo a acusação de ter causado “grande dano à efetividade de combate do exército”. As comunicações posteriores do PLA Daily (órgão central das Forças Armadas chinesas) mostram que a preocupação do governo é a incúria e indiferença da direção militar operacional na solução dos problemas militares estruturais do país.

Centralmente, a ausência de treinamento adequado das tropas para situações de guerra nas novas condições técnicas, a inabilidade em assegurar um moderno sistema integrado de tecnologia e comando C4ISR (acrônimo em inglês que significa Comando, Controle, Comunicações, Computadores, Inteligência, Vigilância e Reconhecimento), e a insuficiência na fusão da tecnologia civil com a militar. Tais problemas estão ainda sem solução clara à vista.

Xi Jinping, através do PLA Daily, dissera em fevereiro que “A organização dos exercícios deve focar no combate, destacando seu caráter de teste e confronto, e reduzindo gastos desnecessários [...] O ELP deve garantir que cada centavo atenda às necessidades reais de treinamento e prontidão de combate”. No discurso inaugural das “Duas Sessões”, o primeiro-ministro Li Qiang anunciou incremento de 7% no orçamento militar da China, menor que o do ano anterior (7,2%), e apenas uma fração dos gastos militares dos Estados Unidos (US$900 bilhões).

Nova percepção sobre os Estados Unidos?

“O Oriente está em ascensão, o Ocidente está em declínio”, disse Xi Jinping em 2021. Não há dúvida de que estamos diante de um processo de acelerada decadência hegemônica dos Estados Unidos, geminada à liquidação da velha ordem liberal. Isso não equivale, entretanto, a um caminho desimpedido da China pela preeminência capitalista.

Um importante conselheiro político do governo chinês, Zheng Yongnian, afirmou em entrevista ao South China Morning Post que “apesar de certas vozes na China sugerirem que os EUA estão em declínio, estas ações mostraram que a capacidade de ação militar de Washington depende exclusivamente da sua vontade para aplicá-la”. Zhu Feng, reitor da Universidade de Nanjing e especialista em assuntos internacionais, coincide com a constatação: a rapidez operacional dos EUA impõe desafios cognitivos para a China.

Não é a primeira vez que o Oriente Médio foi terreno do “despertar” chinês para as diferenças tecnológico-militares com os Estados Unidos. A Guerra do Golfo de 1991 havia demonstrado o impacto decisivo da guerra moderna impulsionada pela tecnologia sobre a estratégia tradicional do ELP, baseada em grandes números de infantaria. Poucos anos depois, apesar de certos ajustes incrementais, a China seria humilhada pelos EUA na Crise do Estreito de Taiwan, em 1995: bastou o envio de dois grupos de porta-aviões, o USS Nimitz e o USS Independence, para deter os testes de mísseis chineses contra Taipei.

O Partido Comunista Chinês enxerga a distância que há entre os significativos avanços nacionais em tecnologia militar e a real capacidade estratégica e operacional para vencer confrontos militares decisivos. Como testemunha Shi Yinhong, professor da Renmin University em Pequim, os métodos, a preparação e a capacidade bélica de Washington são claramente superiores aos da China.

Sistema de alianças fraturado

Na Venezuela e no Irã, os Estados Unidos golpearam partes importantes do sistema de alianças da China. Sua conduta diante da agressão a aliados próximos revela a indisposição do Partido Comunista Chinês em arriscar-se por parceiros enredados nas atividades imperialistas do seu rival.

Já mencionamos a importância do Irã como fornecedor de petróleo a baixo custo para Pequim. Não é diferente o caso da Venezuela, ainda que em uma escala menor (1,38 milhão de barris de petróleo por dia via Irã, 389 mil via Venezuela). Mais importante para a China era a existência, até então, de um governo amigável que lhe abria as portas do Caribe, geopoliticamente, e as portas do seu território às empresas estatais extrativistas, do ponto de vista econômico.

A abertura venezuelana à entrega de petróleo e minerais estratégicos para a China está altamente questionada. Trump deixou claro que um de seus objetivos é interromper o acesso chinês aos recursos naturais de Caracas. O Secretário do Interior dos Estados Unidos, Doug Burgum, reuniu-se com Delcy Rodríguez para elaborar uma reforma do sistema minerador venezuelano, que busca deixar de fora as estatais chinesas.

“Hemisfério Ocidental” se refere especialmente, ainda que não exclusivamente, ao subcontinente americano, em que a China passou a ser o principal parceiro comercial de muitos países, deslocando relativamente os Estados Unidos. A atenção de Washington contra a China se concentra aí, e subjaz as ameaças feitas à Colômbia, ao México, ao Panamá, à Groenlândia. O ministro da guerra Pete Hegseth, diante da comportada audiência de representantes da Argentina, Bolívia, Peru, Chile, na chamada “2026 Americas Counter Cartel Conference”, retomou a diatribe estadunidense sobre o controle continental, a ser alcançado militarmente ou através das eleições de políticos aliados. Stephen Miller reafirmou que a opção militar é a “única saída” na América Latina. A sobreextensão estratégica dos Estados Unidos nos dois lados do globo pode se provar ineficaz, e levar Trump a encruzilhadas de difícil solução. Para a China, entretanto, a ameaça de perder espaços de acumulação capitalista na América Latina não é mais uma questão restrita à arena de competitividade comercial.

A espera chinesa

Há muito em jogo para Pequim com os acontecimentos no Irã. Do ponto de vista econômico, sua dependência do petróleo e do gás natural russos tende a aumentar diante das novas realidades de Teerã e Caracas. O aumento no preço dos combustíveis, ainda que não afete de imediato as reservas petrolíferas de um país que armazenou commodities nos últimos anos, vai ter impacto na inflação de produtos básicos. Geopoliticamente, o avanço da China no Oriente Médio, simbolizado em 2023 pela mediação de um acordo de distensão entre Irã e Arábia Saudita, está posto em questão. Segue tendo influência significativa sobre distintos países, como Paquistão, e inclusive aliados dos Estados Unidos como Arábia Saudita e Israel - tomado enquanto país individual, a China se tornou o maior parceiro de importações de Tel Aviv. Apesar disso, o destino da guerra contra o Irã reembaralha o tabuleiro regional.

Trump está encadeado nas contradições de sua própria política. Se a hipótese de mudança de regime em Teerã não se materializar, e a retirada se mostrar politicamente inviável depois de um envolvimento militar em profundidade, a ofensiva imperialista corre o risco de se arrastar no tempo. O Irã, que sabe ser inevitável ser atingido por uma força superior, deseja uma guerra prolongada de desgaste. Sua política, de ampliar ataques contra bases e ativos no Golfo, busca elevar o custo global do conflito. Tais tensões geram opções cada vez mais difíceis a Washington, que parece ter se inebriado com uma ilusória “infalibilidade da política armada”.

Se os reveses estadunidenses no Oriente Médio preenchem as esperanças de Pequim, a ofensiva imperialista torna, ao mesmo tempo, mais sombrias as perspectivas da China, uma potência capitalista reacionária com problemas estruturais para disputar seu novo lugar na ordem de exploração mundial.