Estudos do Banco Central estimam que aproximadamente 24 milhões de pessoas físicas realizaram ao menos uma transferência via Pix para empresas de apostas entre janeiro e agosto de 2024. Apenas em agosto daquele ano, as transferências identificadas chegaram a R$ 20,8 bilhões[1].
A explosão das bets, no entanto, não caiu do céu. Foi uma decisão política que abriu as portas para que a extorsão oligopolizada se instalasse no país. No apagar das luzes do governo Temer, em dezembro de 2018, as apostas esportivas foram legalizadas no Brasil. A medida era coerente, vindo de um governo que procurava abrir novas fronteiras para a acumulação capitalista ao mesmo tempo em que avançava sobre direitos sociais e trabalhistas, custe o que custar. O mesmo governo que aprovou a reforma trabalhista, ampliou a terceirização e constitucionalizou duas décadas de restrições ao gasto público deixou como uma de suas últimas heranças a abertura de um mercado que transformaria a aposta em mais uma gigantesca máquina privada de captura da renda popular.
Bolsonaro encontrou essa porta aberta e decidiu escancará-la. Durante seu governo, as bets se multiplicaram em uma velocidade impressionante, ocuparam as camisas dos principais clubes, os campeonatos, as transmissões esportivas, os portais de notícias e as redes sociais, com influencers marcadamente alçados por esse negócio profundamente lucrativo. Em 2021, seu governo modificou as regras do setor e chegou a celebrar oficialmente a possibilidade de “destravar um mercado promissor”. Ao mesmo tempo, deixou terminar o prazo para regulamentar efetivamente uma atividade que já havia se espalhado pelo país. E como cereja do bolo, os jogos on-line seriam incorporados expressamente à legislação posteriormente, já no terceiro governo Lula, que optou inicialmente por regulamentar e tributar esse enorme mercado em vez de proibi-lo.
A expansão desse mercado tornou particularmente cruel a combinação entre vulnerabilidade econômica e promessa de enriquecimento rápido. Quanto mais difícil se torna alcançar alguma estabilidade por meio do próprio trabalho, maior pode ser a atração exercida pela ideologia de que uma aposta seja capaz de modificar uma vida inteira. E essa é a lógica perversa de tudo.
Depois de anos de expansão desenfreada das bets e sites de apostas, o governo Lula finalmente as proibiu, tanto sobre eventos esportivos reais quanto sobre jogos online. Além do mais, Lula só decidiu pela proibição diante de um cenário eleitoral empatado, precisando tirar da cartola algo que lhe favorecesse. Diferente dos que criticam a medida por ser eleitoreira, é preciso dizer que o estarrecedor é essa medida ter sido tomada nas circunstância em que foi feita. Mais ainda, ver que há algo mais profundo e cruel que deve ser combatido.
As bets são apenas a ponta do iceberg
O endividamento das famílias brasileiras é uma manifestação particularmente agressiva do problema das bets, mas não sua origem. Desaparecendo todas as plataformas de apostas do território nacional, permanecerá de pé uma sociedade na qual milhões de pessoas recorrem continuamente ao crédito para financiar necessidades, antecipar consumo ou enfrentar situações nas quais a renda disponível está longe de atender as necessidades mais básicas da população.
A Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor da Confederação Nacional do Comércio registrou que 82% das famílias brasileiras possuíam algum tipo de dívida em agosto de 2026, mantendo o maior nível da série histórica. Vale dizer que a pesquisa considera dívidas com cartão de crédito, cheque especial, carnês, crédito consignado, empréstimos e financiamentos, inclusive quando suas parcelas estão sendo pagas regularmente. O dado mais grave aparece justamente quando observamos a dívida de inadimplência. No mesmo mês, 29,9% das famílias tinham contas em atraso e 12,5% declaravam não possuir condições de quitá-las[2].
A distribuição desse endividamento pelas diferentes faixas de renda oferece uma indicação ainda mais importante sobre sua natureza social. Entre as famílias com renda mensal de até três salários mínimos, o percentual de endividados chegou a 85,1% em agosto e a proporção com contas atrasadas alcançou 38,8%. Nesse mesmo segmento, 18,3% afirmavam não possuir condições de pagar as pendências. Nas famílias de renda mais elevada, os indicadores eram substancialmente menores. Acima de dez salários mínimos, por exemplo, 72,3% estavam endividadas e 14,9% possuíam contas em atraso. Ou seja, a dívida atravessa diferentes classes e grupos sociais, mas sua transformação em inadimplência está profundamente relacionada à renda disponível. Mais ainda, o problema começa a aumentar quando o crédito deixa de representar uma forma de “antecipação de consumo” e passa a funcionar como mecanismo recorrente para administrar a insuficiência ou instabilidade da renda.
Analisando os dados, é uma premissa da discussão considerar que o trabalhador não utiliza cartão de crédito apenas porque deseja consumir antecipadamente. Em inúmeros casos, o crédito serve para distribuir no tempo despesas vitais que não cabem integralmente no salário presente. Alimentação, medicamentos, moradia, transporte e contas domésticas disputam uma renda que pode não ser suficiente para absorver todas as necessidades familiares no momento em que elas aparecem. É o que mostra a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor. Em julho de 2026, as famílias endividadas comprometiam em média 29,5% de sua renda mensal com dívidas. O cartão de crédito, por sua vez, estava presente em 85,3% das famílias endividadas.
Essa característica possui consequências profundas para a relação entre trabalho, consumo e sistema financeiro e é uma das formas mais modernas de ampliação da exploração do trabalho. Isso porque uma parcela do salário futuro passa a estar comprometida antes mesmo de ser recebida. O trabalhador vende sua força de trabalho no presente enquanto antecipa parte da remuneração futura por meio do crédito. Quando esse mecanismo se reproduz continuamente, o crédito passa a integrar a própria reprodução cotidiana da força de trabalho. Ou seja, podemos afirmar que a expansão das relações financeiras sobre a vida social não ocorre somente quando indivíduos compram ações, fundos de investimento ou títulos públicos. Ela ocorre também quando o salário passa pelo cartão de crédito, pelo empréstimo pessoal, pelo crédito consignado ou pelo financiamento.
É nessa engrenagem que o sistema bancário ocupa uma posição decisiva. Bancos e instituições financeiras não aparecem simplesmente depois que trabalhadores e famílias tomaram decisões equivocadas de consumo. O crédito constitui parte estrutural do funcionamento do capitalismo contemporâneo. Ele serve para milhões de trabalhadores como uma imposição diante das necessidades da vida.
A precarização das relações de trabalho reforça essa dinâmica, mesmo em um cenário de baixa taxa de desocupação. Precisamos considerar a qualidade do tipo de trabalho. É parte fundamental do quadro atual estar ocupado e, simultaneamente, depender do crédito para administrar o orçamento doméstico. Em outras palavras, a expansão do emprego, por si mesma, não elimina essa contradição quando parte significativa das relações de trabalho continua marcada por baixos rendimentos, precarização e brutal informalidade.
A financeirização da vida
O que vemos, e é uma característica cada vez mais presente das sociedades contemporâneas, é uma verdadeira financeirização da vida cotidiana. Para tanto, basta que o trabalhador seja obrigado a comprar alimentos no cartão, parcelar um eletrodoméstico, financiar uma moto para fazer entregas, recorrer a um empréstimo diante de uma emergência ou renegociar uma dívida anterior. O sistema financeiro penetra a reprodução cotidiana justamente porque o acesso ao dinheiro necessário para satisfazer determinadas necessidades não coincide necessariamente com o momento em que essas necessidades precisam ser atendidas. A dívida estabelece, assim, uma relação sobre a renda futura e permite que uma parcela dela seja apropriada posteriormente sob a forma de juros.
Mas a financeirização da vida não penetrou apenas no orçamento das famílias. Ela ganhou também um enorme terreno ideológico. CDB, CDI, Tesouro Direto, fundos de investimento e previdência privada passaram a fazer parte do vocabulário cotidiano de milhões de pessoas que vivem do próprio trabalho.
A força dessa transformação está justamente em sua naturalização, que é produto da distribuição de direitos. Uma vez que o salário não é estável e a aposentadoria não é garantida, o que resta é mercado financeiro para garantia do futuro. A financeirização deixa de ser somente uma relação econômica e se torna também uma forma de pensar a vida.
Há ainda outra dimensão desse processo que ultrapassa o endividamento privado e conduz diretamente à discussão sobre o Estado. Enquanto ouvimos falar na imprensa exaustivamente sobre o “equilíbrio fiscal", pouco ou nada se diz do papel da dívida pública nessa equação. É uma fake news disseminada a torto e à direito por economistas ilustrados que o problema do “equilíbrio fiscal” ocorre quando se gasta mais do que se arrecada.
Basta ver que nos doze meses encerrados em julho de 2026, a diferença entre as receitas e as despesas do setor público, sem considerar os juros da dívida, resultou em um déficit de R$ 89,3 bilhões. No mesmo período, as despesas contabilizadas como juros nominais (juros contabilizados sobre a dívida pública, sem descontar os efeitos da inflação) chegaram a R$ 1,15 trilhão, quase treze vezes aquele valor[3]. Dá para imaginar o estrago de uma cifra como essa se considerarmos décadas e décadas em que esses juros exorbitantes foram sendo drenados.
Isso questiona aquela ode permanente pela austeridade e o “equilíbrio fiscal”, e desmente a ideia de que a dívida pública é uma espécie de obrigação moral que deve ser paga religiosamente. Ela é a palavra de ordem para quem afirma que o financiamento da saúde, educação e moradia devem ser sacrificados para que se paguem juros exorbitantes que favorecem grandes bancos.
A sabedoria popular condena como perverso aquele que tira o doce da boca de uma criança. No caso do chamado “equilíbrio fiscal”, a perversidade assume outra escala, pois significa retirar de milhões de pessoas aquilo que há de mais elementar para a vida — comida, saúde, educação e moradia. E é nesse ponto que o circuito se fecha. A dívida pública funciona, assim, como um mecanismo permanente de imposição da austeridade, que destrói direitos sociais, rebaixa salários, piora as condições de trabalho, precariza as condições de vida e empurra parcelas cada vez maiores da população para o endividamento como forma de sobrevivência.
Forma-se assim esse circuito usurpador na qual as bets eram apenas um dos seus componentes. No mercado de trabalho, milhões dependem da venda da própria força de trabalho em condições marcadas por fortes desigualdades de renda e por diferentes graus de precariedade. Na esfera do consumo, uma parcela expressiva das famílias utiliza o crédito como elemento regular de organização da vida econômica, comprometendo sua renda futura e transferindo parte deles sob a forma de juros. No âmbito estatal, a dívida pública e a política monetária organizam outro gigantesco circuito financeiro, no qual títulos públicos constituem ativos fundamentais para bancos, fundos, investidores institucionais e outros detentores da riqueza financeira. São mecanismos que se integram, expressando o peso extraordinário assumido pelo capital financeiro na economia e que sugam de maneira permanente os salários da classe trabalhadora.
As bets não inventaram o trabalhador endividado. Encontraram uma sociedade na qual o crédito já havia se tornado parte permanente da administração da vida familiar e da busca por sobrevivência. Encontraram também uma população para a qual a distância entre aquilo que o trabalho proporciona e aquilo que se deseja ou necessita alcançar se aprofunda.
Quando o trabalho não representa um caminho seguro para a garantia das condições mínimas de vida, a possibilidade de acertar uma combinação de resultados esportivos ou o movimento de uma tela pode adquirir uma força social que ultrapassa qualquer cálculo racional de probabilidades. O acaso passa a ocupar o espaço deixado pelo bloqueio das expectativas de futuro. Mais do que isso, a ideologia do “empreendedorismo”, ensinada também nas escolas do Novo Ensino Médio, que busca atribuir aos indivíduos, por fora das condições concretas e das relações sociais, a responsabilidade quase exclusiva de seu “sucesso” ou “fracasso” também está a serviço disso. Não é uma novidade no neoliberalismo, mas foi exacerbada nos últimos anos em consonância com o aprofundamento da precarização do trabalho, como no caso das plataformas. Enriquecer passa a depender de “iniciativas” e “méritos” próprios, em contraposição à garantia de direitos. O acaso figura como um componente disso.
É por isso que a impressionante dimensão alcançada pelas apostas no Brasil só pode ser compreendida por esse ângulo. Por isso, o debate aberto pela proibição das bets não deveria terminar nas bets.
Por isso, toda ladainha liberal não tem nenhuma capacidade explicativa e tampouco pode apresentar uma resposta. Não basta substituir a condenação moral do apostador pela condenação moral do endividado, nem imaginar que a chamada educação financeira seja capaz de resolver aquilo que possui raízes na distribuição da renda, nas relações de trabalho e na estrutura do sistema financeiro. Ensinar uma família a organizar seu orçamento pode ser útil, mas uma planilha doméstica não modifica salários, não elimina a informalidade, a exploração do trabalho, não reduz por si mesma as taxas de juros e não altera a distribuição da riqueza.
As bets levaram uma dimensão dessa lógica ao paroxismo ao transformar diretamente esperança, desespero e compulsão em uma indústria de dimensões extraordinárias. Sua proibição atinge uma das formas mais predatórias assumidas recentemente por esse processo. Mas permanecerão os cartões de crédito, os empréstimos, os juros, a desigualdade salarial, a precarização do trabalho e uma estrutura econômica na qual a dívida se tornou parte da vida cotidiana de milhões de trabalhadores. É justamente quando as luzes das plataformas de apostas começam a se apagar que vale a pena olhar para aquilo que continuará funcionando normalmente na manhã seguinte.
A questão de fundo, portanto, exige compreender de maneira integrada a exploração do trabalho e a crescente subordinação da renda dos trabalhadores ao sistema financeiro. Não é casual que o mesmo governo Temer que promoveu uma das mais profundas reformas trabalhistas das últimas décadas tenha também aberto as portas para as bets. De um lado, ampliavam-se as possibilidades de flexibilização e precarização das relações de trabalho. De outro, abria-se uma nova fronteira de subtração do trabalho e ampliação da acumulação capitalista.
Inclusão pelo consumo, submissão pelo crédito
A ampliação do consumo popular por meio da expansão do crédito constitui um dos pilares do lulismo. É um problema que não é novo atravessou também a experiência dos governos Lula 1 e 2. Já em seu primeiro governo, em 2003, foi institucionalizado o crédito consignado para trabalhadores, permitindo que empréstimos fossem pagos mediante desconto diretamente na folha salarial. Para os bancos, tratava-se de um grande negócio, uma vez que a parcela da dívida podia ser retirada da folha salarial antes mesmo que o trabalhador dispusesse dela. O crédito ajudava a ampliar imediatamente a capacidade de consumo sem que fosse necessário produzir uma transformação correspondente na distribuição da propriedade e da riqueza. O trabalhador podia comprar mais no presente ao preço de comprometer uma parcela de seu salário futuro. A inclusão pelo consumo caminhava, assim, junto com uma incorporação mais profunda das famílias trabalhadoras aos circuitos do capital financeiro.
Há aqui também aquilo que Chico de Oliveira, em seu célebre Hegemonia às Avessas, identificou como uma despolitização da pobreza e da desigualdade. O problema deixa de aparecer fundamentalmente como resultado das relações entre as classes, da exploração do trabalho e da distribuição da propriedade e da riqueza, para ser tratado cada vez mais como uma questão de administração da pobreza e ampliação do acesso ao consumo. Essa foi uma das contradições centrais do lulismo. Houve uma melhora real nas condições materiais de parcelas importantes da população, mas a chamada inclusão social ocorreu sem uma transformação correspondente das estruturas econômicas que produzem a desigualdade. O trabalhador passou a consumir mais, mantendo inalterada sua posição nas relações de propriedade e de poder. E o crédito teve um papel decisivo nessa operação, pois permitiu ampliar imediatamente o consumo popular ao mesmo tempo em que incorporava milhões de trabalhadores mais profundamente aos circuitos financeiros.
Vendo a atualidade dessa crítica, é também por isso que programas como o Desenrola reaparecem continuamente. Renegociam dívidas, reduzem encargos e podem oferecer um alívio real e imediato para milhões de famílias, mas não eliminam as condições que produziram o endividamento. O trabalhador renegocia hoje e pode voltar a se endividar amanhã porque continuam existindo salários miseráveis, juros elevados e a dependência permanente do crédito. É, em grande medida, enxugar gelo. E há uma contradição ainda maior, pois ao mesmo tempo em que o Estado socorre o trabalhador endividado, também ajuda a recuperar créditos que o sistema financeiro tinha dificuldade de receber, reinserindo esses trabalhadores no mercado de crédito. O circuito se fecha sem que sua estrutura seja rompida. A dívida é renegociada, o devedor volta a pagar e os bancos preservam uma relação na qual parcelas crescentes da renda do trabalho continuam subordinadas ao sistema financeiro.
Por isso, não surpreende o fato de que a proibição das bets tenha aparecido somente agora no apagar das luzes do terceiro mandato de Lula. O problema não começa no aplicativo de apostas e tampouco termina quando ele desaparece do celular. Permanece uma sociedade na qual milhões de trabalhadores precisam antecipar seu salário, perdendo uma parte dele através dos juros, para viver no presente e na qual bancos e instituições financeiras transformam essa necessidade em uma fonte permanente de rentabilidade.
No outro polo, Flávio Bolsonaro e seu amor, Donald Trump, são hoje dois dos representantes mais acabados de um programa que aprofunda a financeirização da vida. A agenda ultraliberal de Flávio combina privatizações, desregulamentação, novas formas de contratação e redução do gasto público, ampliando o espaço justamente para o terreno fértil que prosperaram as bets. Trump leva essa lógica ao extremo, com cortes de impostos para os mais ricos, desregulamentação financeira e abertura de novas fronteiras de acumulação, inclusive através dos criptoativos. O resultado é uma sociedade em que cada vez mais dimensões da vida são transformadas em negócio e submetidas aos interesses do grande capital financeiro. O trabalhador perde direitos e serviços públicos e ganha, em seu lugar, dívidas e a obrigação de se virar individualmente na selvageria do capitalismo.
Das bets ao sistema financeiro
Levar a sério essa conclusão significa ir além da proibição das apostas e questionar os próprios mecanismos de financeirização da dívida. Uma política voltada aos interesses dos trabalhadores teria de colocar em discussão a anulação imediata das dívidas das famílias assalariadas, começando pelas mais pobres e dívidas de consumo essencial, a oferta de crédito barato para as necessidades sociais, incluindo pequenos comerciantes e pequenos agricultores, revogação integral da reforma trabalhista, da lei de terceirização com aumento imediato do salário mínimo de acordo com as necessidade calculadas pelo Dieese. Nesse marco, insere-se a luta pelo fim da escala 6x1, e a defesa do lazer e do tempo livre, para além da exploração e do adoecimento nas bets. Teria também de enfrentar o problema da dívida pública e os mecanismos pelos quais ela condiciona o orçamento estatal, construindo uma grande luta pelo seu não pagamento. E através dela, expandir a discussão sobre a própria estrutura do sistema financeiro, hoje organizado fundamentalmente segundo os interesses da acumulação privada, avançando para sua estatização e unificação em um sistema bancário público único, sob controle social, inclusive para que Vorcaros de todo o tipo não continuem sendo os compradores gerais da República.
Não basta impedir que uma casa de apostas retire dinheiro do bolso do trabalhador enquanto se considera natural que uma parcela crescente de seu salário seja capturada por juros e dívidas. Combater as bets até o fim significa enfrentar uma das manifestações mais grotescas de um problema muito maior. A questão decisiva é quem se apropria da riqueza produzida pelo trabalho, quem controla o crédito e o sistema financeiro e quais necessidades determinam sua utilização. Se a proibição das bets abriu uma discussão nacional sobre o destino do salário de milhões de trabalhadores, ela deveria servir não para encerrar esse debate, mas para levá-lo às últimas consequências. Afinal, o futuro não pode continuar hipotecado aos bancos antes mesmo de ser vivido.