Raça e classe na chacina carioca
Ao longo da quarta-feira (29) íamos nos dando conta de que a violenta operação policial de Claudio Castro era uma chacina sem parâmetros históricos no Estado, que superou o número oficial de mortos do Massacre do Carandiru. A quantidade de pessoas assassinadas aumentava na medida em que os moradores iam buscar seus parentes e amigos na Serra da Misericórdia, local que compreende uma mata que liga o Complexo da Maré e da Penha. Neste local foram resgatados 70 corpos de pessoas assassinadas, muitas com punhos amarrados, marcas de tiro na nuca e facadas, ou seja, evidências de tortura e execução. Nessa mesma mata, ainda com os policiais do BOPE dentro, mães, sobrinhas e irmãs sabendo que seus filhos e parentes poderiam ainda estar vivos rendidos pela polícia, tentaram se aproximar para pedir para que eles fossem presos e não assassinados de forma sumária, mas foram recebidas a tiros. Parentes e familiares das vítimas, após reconhecerem os corpos das pessoas nas proximidades da mata, na praça da Vila Cruzeiro e no IML, organizaram um ato em frente ao Palácio Guanabara, sede do governo estadual, exigindo justiça e explicações por conta das inúmeras evidências de violações de direitos humanos. A brutalidade desta chacina expressa a lógica que engendra as profundas marcas do racismo no Brasil.
A operação contou com um enorme aparato das forças de repressão. Foram acionados 2,5 mil policiais para cumprir 100 mandados de prisão e 180 de busca e apreensão, afastando qualquer ideia aventada pela opinião pública de que a operação foi “mal planejada”. Ao contrário, por mais que publicamente analistas políticos tenham tentado se distanciar da megaoperação por lamentarem a mortes dos policiais ou até mesmo porque deveria ter sido feita com mais integração com o governo federal, um aspecto eles defenderam em uníssono o governo Castro: o banho de sangue na Serra da Misericordio nomeada de “muro do BOPE”. A tática reivindicada por cada um à sua maneira - bolsonaristas, opinião pública e a Frente ampla - foi uma “armadilha” montada pela polícia militar para executar pessoas rendidas e sem defesa que tentavam fugir para o Complexo do Alemão. Otávio Guedes, analista da Globo News, afirmou que foi uma “tática inteligente e bem sucedida”, algo também exaltado pelo secretário da PM carioca que defendeu a tática como a forma de matar “bandidos”, sem ferir inocentes.
Não se trata aqui de fazer nenhuma defesa política do “crime organizado”, não apenas por cumprir um papel reacionário nas favelas com suas próprias leis e práticas degeneradas, mas também por terem laços com Estado e até mesmo com as milícias em algumas regiões. Em 2021, a denúncia sobre negociação entre a Secretaria de Administração Penitenciária de Castro e líderes do Comando Vermelho, envolvendo a possível volta de Marcinho VP para presídio carioca levou à prisão temporária do secretário titular da pasta e dois assessores, além da abertura de processo criminal de associação para o tráfico. As relações espúrias entre Estado e “crime organizado” servem para garantir os lucros dos grandes empresários do tráfico de drogas que se beneficiam e vivem mansões e bairros nobres dentro e fora do Brasil. As operações policiais são meros teatros que assassinam, em sua maioria, jovens e trabalhadores que, no retorno para casa, ou mesmo durante seu sono, se veem no lugar errado e na hora errada, como se revela no depoimento de várias mães e familiares dos assassinados, que não conseguem ter qualquer explicação de porque estão diante do cadáver de seus entes queridos.
O que mais chamou a atenção por parte do governo estadual bolsonarista e da opinião pública racista foi o nível de naturalização do massacre que ocorreu. Certamente, deste setor racista nunca esperamos nada, mas as denúncias dos familiares das vítimas sobre a inegável desumanização de seus parentes assassinados pelo Estado, abre uma reflexão acerca da relação entre está chacina e as dinâmicas do racismo no Brasil. Desde o dia seguinte à chacina, não param de surgir entrevistas e declarações nas redes sociais de parentes sobre a crueldade a que seus filhos, sobrinhos e irmãos foram submetidos. Há denúncias de decapitação de um corpo que não havia uma marca sequer de tiro que nos leva a acreditar que a pessoa foi decapitada viva. Marcas de facas espalhadas pelo corpo, tiros na parte de trás da cabeça, indícios fortes de que pessoas foram executadas já rendidas pela polícia. As famílias das vítimas que denunciam Castro como mandante dos assassinatos questionam o Estado por que seus familiares não tiveram o direito de sobreviver, serem presos ou socorridos, como foi o caso dos policiais baleados.
Ao contrário, eles foram executados sem nenhum direito de defesa, como se no Brasil houvesse pena de morte e como se ela se fizesse assim, sem direito de contraditório, defesa; como se a instituição policial tivesse, formalmente, o direito de polícia e juiz. Esse método da justiça burguesa, por si só, já fala muito sobre a agudização – um giro à direita – das relações raciais no Brasil. Enquanto ricos e poderosos gozam do direito de cometer crimes quase que livremente - a título de ilustração podemos falar de apologia ao nazismo, por parte de membros da extrema direita; empunhar e disparar tiros nas ruas, como fez Zambelli; apologia ao estupro, como fazem figuras de extrema direita incel -, enquanto grandes conglomerados capitalistas promovem terror e morte impunemente, como a Vale, responsável pelos desastres de Brumadinho e Mariana; as massas negras, faveladas, empobrecidas, membros da classe trabalhadora, são considerados “bandidos” sem qualquer direito de contraditório (aquela ideia de que todo mundo é inocente até que se prove o contrário).
O sentimento de que uma pessoa foi reduzida a um bicho ou simples objeto, uma coisa, pela imposição da violência do Estado, nos permite comparar essa amostra do que a classe dominante é capaz de fazer em nome de seus próprios interesses, com os momentos da escravidão quando o negro também não tinha direito a nada, nem a sua própria vida que era propriedade do senhor de engenho, e que portanto tinha direito de mutilar, torturar, matar, gerando aos olhos do Estado nada mais do que dano à própria propriedade.
A carne mais barata do mercado
Operações como essa, que se repetem de tempos em tempos no Brasil, servem para fortalecer regional e nacionalmente a política da extrema direita racista na dita pauta de “segurança pública” no sentido reacionário de ver a favela e a periferia como espaços legítimos para qualquer tipo de violência do Estado. Algo bastante similar com que Tarcísio fez em São Paulo, ao mesmo tempo que tentava passar a privatização do metrô e da Sabesp, sua polícia promovia um banho de sangue na Baixada Santista. Não à toa, no dia seguinte à chacina, governadores bolsonaristas se reuniram com Castro para fazer balanço da operação, estavam presentes Tarcísio de Freitas (São Paulo) e Ronaldo Caiado (Goiás) e Romeu Zema (Minas Gerais). A legitimação de tamanha violência e a pilha de corpos exibidos nas grandes mídias contribuem para um fator fundamental da ideologia racista. A desumanização desses indivíduos contribui para a ideia de que a favela não vale nada, de que quem vive lá não vale nada, e se podem matar aos montes, podem pagar uma miséria pelas suas horas de trabalho. As vidas roubadas de mais de 130 pessoas ajudam a que as de milhões de negras e negros por todo o país sejam encaradas pelo imaginário coletivo como vidas baratas.
A guerra ao terror, como pudemos ver, ao contrário de acabar com a violência social, a aumenta. Não só pelas operações assassinas, indefensáveis, mas também porque o seu efeito de médio e longo prazo é na verdade o aumento da violência social. Com o aprofundamento do racismo e a concentração em gasto público em polícia e repressão, se barateia ainda mais o trabalhador negro, que também perde direitos sociais em nome do financiamento das forças repressivas. O efeito disso é mais pobreza, mais miséria, portanto, mais violência social e mais munição para o “crime organizado”, que recruta trabalho barato e ilegal entre jovens para quem o que o capitalismo entrega é precarização, desemprego e fome.
É categórico: conforme se aprofunda a crise capitalista, se fortalecem os discursos de extrema direita que a nível mundial elegem suas próprias carnes baratas, o que se altera a depender do cenário local. Acompanham esses discursos um incremento dos aparatos repressivos, que adquirem a seu favor muito mais recursos novos do que direitos sociais elementares que atuariam de forma cabal contra o desenvolvimento do crime organizado, que também se incrementa diante do aprofundamento da pobreza, desemprego e miséria social. Em todos os lados, do que estamos falando é de luta de classes: diante da possibilidade de perder o controle de uma sociedade que tem feito funcionar a serviço dos seus interesses, a burguesia, que já conta com o Estado como sua ferramenta de manutenção da exploração capitalista, o faz agora funcionar a serviço de aumentar o racismo que serve como plataforma para a superexploração de negras e negros. Interessados no incremento do racismo estão os grandes capitalistas brasileiros, para quem pagar menos no trabalho negro é uma grande vantagem, mas eles não são os únicos.
Para americano ver - o racismo dos governos e polícias brasileiras e a doutrina Monroe 2.0
Castro há oito meses atrás mandou relatórios sobre a atuação do Comando Vermelho no Estado com o objetivo de caracterizar o grupo como terrorista a fim de inserir o Brasil dentro do raio de ação geopolítico norte-americano que em nome de combater supostamente o “narcoterrorismo”, vem ampliando sua ingerência na Venezuela e Colômbia. Com a chacina do Complexo da Penha, se intensificou esse processo, Cláudio Castro e Felipe Curi (secretário da polícia civil carioca), defendem que a chacina foi em nome de combater “narcoterroristas”. Sob esse pretexto, Trump vem bombardeando barcos nas costas daqueles países de forma sumária, intensificando a presença militar na região e aumentando o risco de invasão.
Desde janeiro deste ano, com o retorno de Trump ao posto de presidente dos EUA, tem se fortalecido a campanha e as ações voltadas à influência militar e econômica do país sobre a América Latina. O peso que a gestão tem dado a buscar recuperar seu peso no continente tem sido chamado por analistas de uma doutrina Monroe 2.0, que em 1823 declarava uma intenção fortemente colonialista ao seu Congresso, dizendo “América para os americanos”, inaugurando uma fase histórica de intervenções e políticas de controle e dominação sobre todo o continente. Desde o início da crise capitalista atual, em 2007-8, o peso do imperialismo estadunidense na América Latina tem se afrouxado e cedido espaço para a China. Agora, com uma retórica de “guerra às drogas”, o que Trump faz é enfrentar indiretamente a influência chinesa sobre o continente.
Assim como a burguesia e seus governantes brasileiros não tem nenhum problema real com o tráfico de drogas – e não fazem nada que seja para verdadeiramente combater o “crime organizado” porque lucram com a proibição das drogas – Trump também não tem. Enquanto inclusive semanticamente busca formas de transformar o crime organizado numa espécie de terrorismo – e portanto as intervenções na América Latina serem parte de uma agenda de “guerra ao narcoterror”, que dialoga com uma base social interna ao país. Sabemos, na verdade, que a burguesia está, boa parte dela, envolvida com os diferentes mercados ilegais do planeta – tráfico de drogas, de pessoas, de armas – e que os montantes de mercadorias – e pessoas – que são traficados pelo planeta não poderiam ter o volume que tem sem a colaboração dos Estados nacionais como um todo.
Mercados ilegais são parte fundamental do lucro capitalista a nível global. O que foi e segue sendo fundamental pro imperialismo não é, portanto, o combate ao crime, mas convencer a classe trabalhadora mais estável, sindicalizada, não migrante, branca, de que a classe trabalhadora negra, árabe, migrante, latina, não vale nada, e assim, rebaixar ainda mais suas condições de vida a serviço da superexploração imperialista.
A luta pelo fim das chacinas é uma agenda que se fortalece a partir de uma perspectiva antiimperialista e de combate às intervenções e ingerências imperialistas em nosso país e continente. É por isso que não basta rechaçar uma ou outra extrema direita. Enquanto Castro dá um aceno direto e sanguinário da sua vinculação ao projeto de Trump, a Frente Ampla faz demagogia criticando aspectos da operação policial, mas trabalha para contribuir ao imperialismo vendendo a foz do Amazonas e mantendo vivas as reformas antioperárias que também foram feitas para agradar o capital imperialista, que no final da conta, lucra com a retirada de direitos sociais via pagamento da dívida pública. É preciso lutar para recolocar uma perspectiva revolucionária diante das massas jovens e trabalhadoras do Brasil, contrastando com as cenas de barbárie oferecidas pela sociedade capitalista. Se o neoliberalismo foi bem sucedido em afastar das massas a perspectiva da revolução social, como se o mundo só pudesse ser o que ele é, é preciso lembrar, diante dessa catástrofe planejada, que outras virão enquanto a sociedade capitalista existir.
Conclusão
Neste momento onde houveram atos por todo o país contra a chacina da política de Castro, é necessário que as centrais sindicais convoquem paralisações para impor justiça por todas as vítimas. Devemos seguir a denúncia deste massacre racista que tem objetivos eleitorais e políticos para instalar um clima de “medo social” para que a extrema-direita capitalize eleitoralmente em 2026 não apenas com discursos racistas e reacionários, mas também chacinas e operações policiais violentas nas favelas. Por isso não podemos ter nenhuma confiança de que a solução poderá vir das mãos da extrema direita que agora organiza um “consórcio da paz” liderado por Castro com outros governadores bolsonaristas de Minas Gerais, Distrito Federal, Mato Grosso do Sul, São Paulo e Goiás, com o objetivo de “Integrar” os Estados para supostamente combater o “crime organizado”, se apoiando no “exemplo” do Rio de Janeiro. Segundo o próprio Castro, “é do Rio para o Brasil”.
Tampouco, podemos confiar que o governo Lula pode dar alguma resposta aos problemas profundos que envolvem Estados, “crime organizado” e violência policial. O Ministro da Justiça Ricardo Lewandowiski e Castro criaram o “Escritório de Combate ao Crime Organizado” para integrar o governo carioca com o governo federal para pensarem em conjunto a questão da “segurança pública”. Não será se aliando com a extrema direita que coleciona chacinas e inúmeros assassinatos de trabalhadores, crianças e adolescentes negros que teremos alguma resposta aos problemas da violência policial e racismo.
É necessário construir uma luta independente para impor justiça por todas as vítimas da Chacina da Penha, o fim das operações policiais que só servem para derramar sangue negro e de trabalhador nas favelas e pelo Fora Castro, governador bolsoanrista que utiliza de chacinas para se fortalecer politicamente no Estado. Além disso, não podemos confiar na polícia que mata para investigar os crimes que eles mesmo cometem, devemos batalhar por uma investigação independente. Essa investigação independente tem que ter garantido por parte do Estado os recursos para trabalhar, acesso aos arquivos de investigação, contratação de peritos independentes, participar das produções de provas, entrevista com as testemunhas e ter acesso a todo o tipo de informação por parte do Estado.