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“Recessão sexual”: quando o mercado devora o desejo

12.04.2026

Entre o grito libertário de Maio de 68 na França e a paradoxal cultura hipererotizada que, no entanto, presencia um colapso silencioso da intimidade, filósofos, sociólogos e psicólogos falam de “recessão sexual”. Seria um sintoma de um desejo devorado pelo mercado? “Incel” e “celvol” são os novos rótulos de um “mercado sexual” fracassado?

Há mais de meio século, as barricadas de Maio de 68 desafiavam o capitalismo e o autoritarismo estatal. Não se tratava apenas de demandas políticas, mas da aspiração de viver de outra maneira. O lema “é proibido proibir” era um grito contra a repressão policial e uma declaração de guerra à moral burguesa que cerceava o desejo. A juventude sonhava com corpos livres, prazer compartilhado e uma erótica libertada dos espartilhos religiosos e familiares. Nesse espírito, seus protagonistas buscaram encarnar, na própria forma de se organizar e lutar, os valores de uma sociedade distinta, baseada na autonomia, na solidariedade e na rejeição das repressões cotidianas.

Hoje, esse horizonte parece se dissipar em uma paradoxo: vivemos na era da máxima exposição sexual, mas também da mínima atividade com outros. Diferentes pesquisas globais indicam que os encontros sexoafetivos diminuíram, especialmente entre os jovens. Em 2024, apenas 37% dos adultos tinham relações sexuais semanalmente (contra 55% em 1990), e um em cada quatro jovens de 18 a 29 anos não teve relações no último ano. Essa tendência é chamada de “recessão sexual”.

Como pode ser que, em uma época saturada de imagens, aplicativos, discursos e promessas sobre o prazer, se transe cada vez menos? O que aconteceu entre aquela revolução e este presente?

Quando o desejo foi mercantilizado

A resposta deve ser buscada na contrarrevolução neoliberal. O capitalismo lançou uma ofensiva total sobre a vida. Aquilo que a juventude de 68 queria libertar, o neoliberalismo mercantilizou. A promessa de autonomia foi devorada por um sistema que transformou cada aspecto da existência — inclusive o desejo — em ativo, produto, campo de desempenho.

Não apenas reconfigurou as economias; o neoliberalismo promoveu um regime de valores baseado no individualismo extremo, moldando uma subjetividade narcisista. Não proibiu o desejo: transformou-o em mercadoria, integrando a hipersexualização como mais uma engrenagem do consumo.

A paradoxo do mercado: hipersexualização e recessão

Por que, em uma sociedade que se apresenta como sexualmente liberada, se transa cada vez menos? Porque hoje não se vendem apenas corpos: vendem-se fantasias padronizadas, técnicas de otimização, a promessa de um desempenho “exuberante”.

Assim, a sexualidade deixa de ser um espaço de exploração e encontro; deixa de ser território de jogo para se tornar uma meta, uma tarefa de autoexigência. Surgem o medo do fracasso, a ansiedade de desempenho, a comparação constante com padrões inalcançáveis. O desejo, em vez de fluir, paralisa sob o peso da avaliação; em vez de se expandir, se esgota. A sexualidade se torna mais uma exigência, em um contexto de precariedade laboral, cansaço crônico e competição permanente. Por isso, a recessão sexual não expressa falta de estímulos: expressa saturação e medo.

Nesse processo, o neoliberalismo semeou a competição individual, provocando um esgotamento que acabou por sufocar o próprio desejo. Vende a ilusão de uma liberdade sexual plena, mas, longe de concretizar a utopia de corpos livres e vínculos desatados da moral repressiva, acabou por mercantilizá-la e esvaziá-la de sua potência afetiva e relacional.

Nesse cenário, o outro deixa de ser semelhante. Torna-se rival, objeto, recurso. Enfraquecem-se os vínculos de cuidado e cooperação, enquanto a exigência permanente de autossuficiência e desempenho corrói a capacidade de intimidade. Como alerta o psicanalista italiano Luigi Zoja: “Hoje encontramos infinitas ‘prefigurações’ do desejo sexual. Já não vêm do interior da personalidade, como o que chamamos eros, mas chegam fabricadas pelo mercado ou pela pressão de determinados grupos”. Para as mulheres, o modelo são influenciadoras que promovem ideais de beleza inalcançáveis; para os homens, a pornografia massiva, que difunde a imagem de um “super-homem sexual” impossível de ser reproduzido. Soma-se a isso o mito dos “gymbros”, que pregam o sucesso com mulheres através de um corpo perfeito.

Como analisa a socióloga Eva Illouz em O fim do amor, trata-se de uma transformação estrutural da vida emocional sob o neoliberalismo. A intimidade deixou de ser refúgio frente ao mercado e foi colonizada por sua lógica. A liberdade sexual conquistada pelas lutas feministas e juvenis do século XX foi reconfigurada como liberdade de escolha permanente. O resultado não foi emancipação, mas subordinação ao consumo.

Incel, celvol: rótulos do mal-estar

Nesse contexto proliferam identidades como “incel” (celibatários involuntários) e “celvol” (celibatários voluntários). Não são apenas escolhas individuais: são sintomas sociais. Expressam frustração, raiva e desconexão de uma geração que recebeu acesso ilimitado ao prazer — inclusive via aplicativos — mas foi privada das condições materiais e afetivas para encontros genuínos.

O termo “incel”, criado nos anos 1990, refere-se a pessoas que desejam relações, mas se sentem incapazes de consegui-las. Em fóruns online, muitos expressam discursos que culpam mulheres por seu “fracasso sexual”, acusando-as de interesseiras e manipuladoras.

Por trás disso, há baixa autoestima, isolamento social e consumo frequente de pornografia violenta. Soma-se uma dependência emocional paradoxal que, frustrada, pode se converter em busca de validação pela força. Frustração transformada em ódio.

A socióloga Eva Illouz e o psicólogo Edgar Cabanas, em Happycracia, ajudam a entender esse processo: a indústria da felicidade promete prazer ilimitado em troca da autoexploração. Muitos internalizam o discurso do mérito individual, mas colhem solidão e rejeição. Em vez de questionar o sistema, direcionam a frustração contra mulheres.

Illouz já havia apontado que, no “capitalismo escópico”[N1], as relações se tornam “relações negativas”: marcadas por incerteza e ausência de rituais. Quando tudo vira mercadoria, o outro vira objeto de avaliação constante, e a vulnerabilidade se esconde atrás de armaduras emocionais — frequentemente substituída pela agressividade.

Quando o sexo vira obrigação

A recessão sexual também decorre de outro imperativo: é preciso transar — e com frequência, entusiasmo e performance adequada aos padrões do mercado. Quem foge disso é patologizado. Não é repressão clássica, mas sua forma invertida: a obrigação de desfrutar.

A filósofa Ana de Miguel chama isso de “neoliberalismo sexual”: não uma ampliação real da liberdade, mas um mandato de prazer. O foco se desloca das condições sociais para a responsabilidade individual, ocultando pressões de gênero, padrões estéticos e precariedade.

O mercado tecnológico do desejo

Aplicativos como Tinder não são neutros: transformam relações em consumo rápido, competição constante e oferta infinita. O outro vira imagem. Quanto mais opções, maior a dificuldade de compromisso. Surge uma sensação permanente de provisoriedade.

O resultado não é liberdade, mas ansiedade, incerteza e dificuldade de sustentar vínculos. O sexo se torna imediato, desconectado do tempo da relação, e também um mecanismo de autoavaliação.

O desejo, então, deixa de se orientar ao outro e se recolhe ao eu, alimentando insegurança e narcisismo defensivo. Mas o erótico envolve risco, distância, alteridade — justamente o que a cultura neoliberal elimina ao exigir disponibilidade total, visibilidade e otimização

A perda do ritual e a base material

Luigi Zoja aponta a perda de rituais e vínculos simbólicos como parte da crise. Em uma sociedade imediatista, o erótico — que exige tempo e elaboração — é destruído. Ele fala em “infantilização afetiva”: busca de gratificação instantânea sem tolerância à complexidade emocional.

A psicóloga e sexóloga Belén Rojas observa que a recessão sexual é multifatorial: ficar em casa, pedir comida ou consumir pornografia parece mais seguro do que enfrentar a possibilidade de frustração. A precariedade econômica também pesa. A cultura da satisfação imediata reduz o incentivo ao encontro

A saída é coletiva

A história da sexualidade é também a história da luta contra sua domesticação. Hoje, o desejo não é reprimido abertamente, mas organizado e disciplinado pelos imperativos de desempenho, competição e produtividade.

A “recessão sexual” não é um problema individual ou geracional, mas o sintoma de uma forma de vida marcada por precariedade, exaustão e isolamento. Um sistema que nos quer hiperconectados, porém sós.

Não haverá liberdade sexual real sem questionar essas condições materiais. Enquanto o desejo estiver subordinado ao mercado, a promessa de libertação será ilusória.

Diante disso, torna-se urgente lutar por tempo, estabilidade e espaços de encontro fora da lógica do consumo — e também por uma cultura baseada na solidariedade, no cuidado e no reconhecimento do outro.

Em um mundo que produz isolamento, construir vínculos é uma forma de resistência.

A próxima revolução sexual não será apenas sobre fazer mais sexo, mas sobre criar um mundo em que o desejo se liberte da lógica do desempenho, da competição e da exploração. Um mundo orientado pelo encontro, pelo prazer compartilhado e pela comunidade.

Porque não haverá liberdade sexual enquanto permanecerem intactas as estruturas de dominação capitalista. E a saída — a única saída — é coletiva.