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Repensando o gauchismo em uma perspectiva crítica: entrevista com a musicista Clarissa Ferreira

Parte da edição: 21.09.2025

Nessa semana Farroupilha, onde no Rio Grande do Sul se comemora a Guerra dos Farrapos, se é ensinado nas escolas a cantar o hino riograndense e orgulhar-se de ser gaúcho de uma guerra por interesses das elites dominantes e escravocratas. Nesse sentido, é importante repensar os significados desse processo e do que é ser gaúcho, sob uma perspectiva crítica.

“Acordo e miro a coxilha

o retumbar do estrondo

e as sombras vão se expondo

nau do destino flotilha

atenta para armadilha

o avanço inimigo

velho tratado antigo

a guerra não tem um rosto

na guerra tome seu posto

mas saiba quem tá contigo

em tudo nelas eu vejo

nas mães da praça de maio

movem a força de um raio

a paz como um só desejo

cada clarão relampejo

as mães da faixa de Gaza

peleando por sua casa

também as de Nicarágua

lavam o luto na água

silêncio queima em brasa [..]”

Canção “Guerra”, por Clarissa Ferreira

A cultura gaúcha, que transborda as fronteiras nacionais por ter raízes em comum na região platina, é um campo em disputa. Com marcas da ancestralidade indígena e africana que muitas vezes o Movimento Tradicionalista Gaúcho tenta apagar, propagando ideologias patriarcais e reacionárias, a identidade gaúcha possui diversas facetas, que tentam ser ocultadas, mas que revelam a história de povos que sempre resistiram à opressão e a submissão. Em um contexto de aumento dos casos de violência de gênero, sobretudo no Rio Grande do Sul, o que revela a persistência de uma ideologia profundamente patriarcal, é ainda mais importante repensar o lugar da mulher na cultura gaúcha que, para nós do Esquerda Diário e do Pão e Rosas, não é o lugar das prendas recatadas, mas sim das mulheres que não abaixam a sua cabeça para o machismo e a exploração.

É nessa perspectiva, de analisar mais a fundo a cultura gaúcha, que entrevistamos a musicista e pesquisadora Clarissa Ferreira, nascida em Bagé, conhecida por questionar as noções hegemônicas e dominantes do gauchismo, com uma atenção especial em seus trabalhos e produções para uma perspectiva de gênero. Autora do livro “Gauchismo Líquido”, lançado pela Editora Coragem, em 2021, Clarissa reflete sobre a formação da identidade cultural e musical gaúcha, questionando o lugar da mulher, do negro e do indígena no Rio Grande do Sul, suas continuidades e descontinuidades hoje.

1. Na sua visão, como pode ser definido o gauchismo e qual sua relação com ele?

O gauchismo é um movimento musical, artístico e social, relacionado com a identidade do gaúcho a partir do universo agropastoril e seu imaginário, uma cultura, um movimento ideológico que foi mudando ao longo do tempo. Agora, ele não é estanque também, porque possui diversas faces e visões dentro dele. Bom, a minha relação com o gauchismo, o meu primeiro contato, começa quando começo a tocar no CTG (Centros de Tradicionalismo Gaúcho), mas antes mesmo disso eu já tinha uma memória afetiva, ouvindo músicas gaúchas desde criança na cidade onde nasci, em Bagé. Depois, já estando na graduação, em Pelotas, fui convidada a tocar em CTGs e, um ano depois, em festivais nativistas.

O que mais me tocou nessa trajetória de conhecer e pesquisar o gauchismo foi a curiosidade de saber como ele se constituiu, suas diversas fontes, porque, como eu disse, são muitas faces, não possui uma história única. Uma reflexão que eu venho fazendo nessa semana farroupilha de 2025 é como esse gauchismo é representado hoje. Isso porque é necessário ver o outro lado dessa história que nos é contada, que tem um viés específico e está a serviço de interesses específicos.

Eu, por exemplo, tenho muitas críticas à Guerra dos Farrapos. Há várias fontes históricas que colocam que foi uma guerra financiada através da venda de escravos. O livro de Juremir Machado, “História Regional da Infâmia”, contesta alguns mitos do imaginário da guerra dos farrapos, mostrando que, por trás dos discursos hegemônicos e heróicos, era uma guerra cujos recursos eram tirados da venda de pessoas escravizados. Hoje, eu acho que já tem bastante fontes históricas que desmontam alguns mitos em torno do tradicionalismo, e que, de certa forma, as pessoas vão ressignificando o gauchismo e a ideia do que é ser gaúcho.

Ao mesmo tempo, se olharmos a história de uma forma positivista e factual , a gente perde de ver que essa história adquiriu um outro significado para as pessoas, porque hoje o acampamento Farroupilha por exemplo tem um caráter de ser verdadeira festas populares. É importante ver que o gauchismo é um espaço de disputa também, de disputas simbólicas, de busca por diversidade e pertencimento, e de espaço físico também. Tenho estudado as formas que o mercado vai agenciando essas identidades, vai se apropriando delas como forma de fazer um produto que não está ao alcance de todos. É importante se questionar dentro da cultura gaúcha quem está conseguindo acessar esses espaços. Será que as mulheres conseguem tocar nesses festivais de música gaúcha por exemplo? Eu já vi que não, que as mulheres não tocam ou tocam muito pouco nesses espaços. Agora mesmo na semana farroupilha eu tenho acompanhado os artistas que tocam nos diferentes festividades e tem pouquíssimas mulheres. Outra reflexão que é importante de se fazer é quanto custa ser gaúcho, a quais classes sociais esses eventos estão à serviço. Acho que todas essas reflexões são importantes para olharmos com uma perspectiva crítica, mas não rígida, do que é o gauchismo.

2. É interessante pensar que, ao mesmo tempo que a identidade gaúcha é usada para criar um sentimento nacional e regionalista mais encerrado em si mesmo, ela é uma identidade que é internacional, por não ser exclusiva do Brasil. Como você percebe isso na sua pesquisa?

Com certeza, para mim é aí que está a riqueza de se estudar o gauchismo, porque nesse estudo se vê que é um movimento amplo, não se trata de uma história única. Esse movimento ultrapassa fronteiras, porque diz respeito à cultura platina, com raízes culturais e históricas em comum e também com toda uma ancestralidade negras e indígenas, que muitas vezes é invisibilizada

3. No caminho dessa reflexão, como você vê o papel do negro, do indígena e da mulher na cultura gaúcha?

Se vê as marcas negras, indígenas e femininas em diversos aspectos da cultura gaúcha. Desde pensarmos nos hábitos do chimarrão, do churrasco. Quando se estuda mais a fundo a forma de lidar com as ervas, com as plantas, com a carne, se vê que isso é bastante proveniente do manejo dos povos indígenas, a erva mate é guarani. Se vê também essas marcas nas palavras pampeanas, a palavra “milonga” por exemplo é de origem africana, assim como também o seu ritmo. Então toda essa cultura dos pampas tem uma origem de povos ancestrais. O primeiro texto do Gauchismo Líquido é sobre isso inclusive. Quando se fala sobre a representação indígena na cultura gaúcha, por exemplo, se fala como se eles não existissem mais, como se fosse uma coisa que já acabou, que não tem marcas e territórios. Eu acho que fazem isso para se livrar dessa culpa de quem subjugou e explorou os povos indígenas, e que ainda hoje negam a sua existência, os seus direitos e as suas identidades. O mesmo ocorre para a questão das mulheres, não só no Rio Grande do Sul, porque existe o patriarcado que subjuga as mulheres não só aqui, mas no mundo inteiro. Agora, é importante refletir sobre as particularidades. A própria ideia do que pode ser a mulher gaúcha, todo esse mito da prenda já é algo que busca limitar o que é ser mulher no Rio Grande do Sul. A minha pesquisa busca justamente se relacionar com o que é ser mulher gaúcha, que não é uma identidade única. Existe um livro chamado “Prendas e Anti Prendas: Uma História da Educação Feminina no Rio Grande do Sul”, da Guacira Lopes Louro, em que ela fala sobre toda uma educação machista reforçada pelo tradicionalismo, por essa figura da prenda. Ao mesmo tempo, nesse livro, ela comenta sobre um outro lado da história das mulheres, que seriam as “anti prendas”, mulheres que conseguiram sustentar os seus desejos, e não aceitavam esses estereótipos.

Então, uma potência da cultura gaúcha é esse encontro de várias culturas, uma fusão de várias identidades. Se discute a identidade gaúcha desde meados de 1800, após a guerra dos farrapos, desde então se tem uma produção teórica bem grande, que é tensionada e disputada o tempo inteiro e é justamente nesse tensionamento que se produz coisas interessantes. Temos por exemplo expoentes importantes da musica gaúcha que são negros e trazem uma bagagem ancestral e cultural fundamental, como na música negra aqui do Rio Grande do Sul, com o Giba Giba, que traz o Sopapo[N1] , instrumento tipicamente afro riograndense.

4. Nesse caminho das figuras femininas gaúchas que não eram exatamente prendas, você traz bastante a figura da Berenice Azambuja, uma musicista que entrava nos palcos com a chiripá masculina e desafiou bastante os padrões de gênero. Como ela entra no seu trabalho?

Claro, a Berenice Azambuja é um exemplo disso, de uma mulher que não se entregava para os padrões. Era uma mulher que, na década de 80 desafiava o patriarcado, subia nos palcos e expressava quem ela era sem se enquadrar nesses estereótipos da mulher gaúcha . Ela deixou 17 álbuns, um legado bastante rico para a música, sendo reconhecida nacionalmente. Tenho estudado bastante ela, e tem sido muito bom para repensar nesse regionalismo. Inclusive, estamos fazendo um tributo a ela, num projeto chamado Legado, no espaço 373, em Porto Alegre, na próxima quarta, dia 24/09.

Além disso, nesse sentido de pensar nossa história criticamente, lanço nessa semana farroupilha uma nova canção chamada “Guerra”, que é uma pajada, um estilo de poesia crioula, que busca repensar essa relação com os conflitos, as guerras. O intuito é justamente fazer essa reflexão sobre as guerras do passado e as guerras atuais que estamos vivendo, pensando também o lugar das guerrilheiras latino americanas.

5. Essa identidade cultural comumente difundida como gaúcha atende a quais interesses?

Ao mercado. O mercado consegue nos afetar de várias formas, a gente cai nele por mais que não queira, então ele consegue tocar no nosso sentimento de pertencimento. Então ele determina quem e o que vai ter espaço para aparecer e o que não vai ter espaço. O mercado também tem um movimento de se apropriar e de certa forma também produzir identidades. Aqui, produzimos recentemente o show da Valéria Barcellos, a primeira cantora trans a cantar músicas gaúchas. Na Argentina já temos grupos de dissidência de cultura gaúcha, tradicional há muitos anos, algo que aqui ainda não está instaurado, estamos começando a dar pequenos passos somente agora.

Portanto, o mercado não tem nenhuma questão ou preocupação ética. Será que as mulheres, as LGBTs tem o mesmo espaço que os homens nos shows? Eu acredito que o antídoto disso é pensar nas formas dessa produção, como consumimos arte? Será que estamos valorizando culturas locais? Eu já abri mão de muitas coisas em nome de princípios que são importantes pra mim. Abri mão de tocar em vários espaços para ser independente, para ter meu espírito crítico livre, para não ter que me atrelar a outras visões que não concordo.

6. Nesse percurso onde você foi desenvolvendo e expressando mais a sua visão crítica no seu trabalho, quais foram seus maiores desafios?

O maior desafio foi conseguir ter coragem de conseguir colocar essas ideias no mundo. No início foi tenso, foi pesado. Lidar com as consequências de expressar para fora uma visão mais crítica, envolveu muitos embates, conflitos, discordâncias e acho que a gente aprende muito com isso. Acho que eu ter feito esse grito desconfortável abriu espaço para que outras pessoas pudessem também expressar suas visões no seu trabalho de uma forma mais leve. Hoje eu vejo que meus amigos e amigas se relacionam com isso de um jeito mais leve e acredito que esse movimento é muito coletivo, eu acabo trocando com várias áreas do conhecimento, na própria academia.

O lado bom disso é que agora me parece que está um pouco mais fácil de plantar. Agora, depois de ter colocado a crítica, me vejo em uma nova fase, tentando ver mais o outro lado também e consigo ser mais empática. “Botar fogo no parquinho” é importante e deve ser feito, mas também temos que ter pessoas mais mediadoras desses mundos na cultura gaúcha. Essa semana eu estive em uma entrevista em uma conversa com o presidente do MTG, e procurava justamente essas intersecções. Sempre vai ter intersecções de mundos diferentes nas diferentes áreas das artes e do conhecimento, e as coisas são mais complexas do que questões pessoais. O gauchismo é um pouco aquela relação com a família para mim. Tu ama, quer que te aceitem do jeito que tu é, mas é preciso que saibam quem tu é, sem que tu tenha que abrir mão disso.