O ex-secretário de Finanças — e agora nomeado ministro das Relações Exteriores — Pablo Quirno publicou na rede social X, no dia 20 de outubro, que “a Secretaria de Finanças anuncia que iniciou as tratativas para levar adiante uma operação de recompra da dívida soberana”. Em troca, basicamente, busca-se obter nova dívida que permita alongar os prazos de pagamento e aliviar a situação dos próximos anos. Com isso, espera-se alcançar uma redução do risco-país que permita emitir nova dívida, algo que, com o nível atual (657 pontos), ainda parece distante.
Quirno também informou que o banco J.P. Morgan foi designado para assistir o governo nesse processo. Essa escolha é chamativa e suspeita, já que esse funcionário (assim como o ministro Luis Caputo e grande parte da equipe econômica) é ex-empregado desse banco. O governo não explicou por quais mecanismos o J.P. Morgan foi designado, nem quais vantagens o banco oferece em relação a outros, tampouco qual benefício obterá por sua “assistência”.
A aposta é uma aventura perigosa. O glorioso J.P. Morgan foi quem iniciou, em abril de 2018, uma corrida cambial contra o governo de Mauricio Macri, o que levou o governo da aliança Cambiemos a recorrer com urgência ao socorro do FMI. Mais tarde, isso resultou em um crescente desarranjo financeiro e cambial.
As aventuras do J.P. Morgan na Argentina têm vários capítulos fraudulentos. Hernán Arbizu, um ex-executivo desse banco, fez revelações sobre como, durante a primeira década do século XXI, o glorioso J.P. Morgan ofereceu uma estrutura financeira usada por diversos ricos do país para evadir impostos, lavar dinheiro e fugir com capitais para paraísos fiscais. Mesmo nos Estados Unidos, o J.P. Morgan foi sancionado por operações non sanctas: em 19 de novembro de 2013, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos anunciou um acordo com o banco, pelo qual a instituição deveria pagar US$ 13 bilhões em multas por suas más práticas hipotecárias, que levaram à crise de 2008.
A chegada de Jamie Dimon, CEO do J.P. Morgan, a Buenos Aires nos dias anteriores às eleições de 26 de outubro, para presidir o evento anual da instituição com seu encontro de gala no Teatro Colón, é um símbolo do desembarque do capital financeiro imperialista para moldar o destino econômico do país nos próximos anos.
Outra vez a “chuva de investimentos”
Após a vitória eleitoral de Milei, será que se liberarão os animal spirits do investimento capitalista que poderiam tirar o capitalismo argentino do letargo em que se encontra há mais de uma década? Não há motivos para esperar que os aportes de capital em “ativos produtivos” — que não ocorreram durante a primeira metade do mandato — se concretizem agora. Se a política econômica se orientar a corrigir os desequilíbrios macroeconômicos com carry trade e dívida que tragam dólares e fortaleçam o peso, os sinais são contrários à recuperação da competitividade. As medidas do governo apontam para recuperar essa competitividade por meio de reformas trabalhista e tributária, que se somariam ao RIGI para atrair capitais. Ainda que reste ver se o governo conseguirá implementá-las, essas medidas agradam aos mercados e ajudam a disciplinar a força de trabalho, mas, sozinhas, não alteram as perspectivas futuras da economia: o ciclo econômico — a possibilidade de materializar lucros encontrando demanda para o que se produz — é o que move a economia em primeiro lugar, e não a redução do custo trabalhista ou tributário.
Além disso, Milei teria de convencer a burguesia local e estrangeira a deixarem de transferir, de forma recorrente, os frutos de suas atividades no país para os circuitos financeiros internacionais ou para suas matrizes: desde que o controle cambial foi parcialmente levantado, o balanço cambial do Banco Central mostra um saldo líquido negativo de quase US$ 18 bilhões em compra e venda de dólares no período de abril a agosto deste ano. É bem conhecido que muitos empresários compram dólares como pessoas físicas, já que as empresas não estão autorizadas a adquirir dólares para remeter lucros — uma restrição que o governo prometeu eliminar a partir de 2026.
Na última década e meia, o país não consegue sair do impasse: no contexto de estagnação econômica desde 2012 (e retrocesso em termos de PIB per capita), nos poucos anos em que a economia cresce, o balanço cambial do Banco Central se torna negativo e, portanto, não se acumulam reservas. Por isso, o país carrega a crise da dívida como uma mochila da qual não consegue se livrar. A ideia de um incremento exportador com mais vendas externas de hidrocarbonetos, minerais e produtos agropecuários para conseguir dólares é uma ilusão, ao menos para o próximo quinquênio. Não apenas porque os pagamentos da dívida são crescentes, mas também porque os investimentos do RIGI — se algum dia se concretizarem — exigem tempo de maturação dos projetos antes que se comece a exportar.
Além disso, desde a década de 1990 o país experimentou um salto importante em suas exportações e no saldo comercial, mas a restrição externa (isto é, os entraves ao crescimento e ao desenvolvimento) pela falta de dólares reaparece com frequência. Isso ocorre porque os dólares se esvaem com os pagamentos da dívida e com a fuga de capitais por diversos mecanismos utilizados pela grande burguesia para paraísos fiscais, ou pelas empresas imperialistas para suas matrizes.
Essa dinâmica estrutural da economia não se altera com um resultado eleitoral. O panorama que se abriu para a economia após as eleições, na medida em que se mantenha o “veranico” financeiro, não é de decolagem, mas, no máximo, de uma recuperação moderada do crédito que possa estimular a atividade de forma modesta.
Seu verão financeiro, o inverno do nosso descontentamento
O atual verão financeiro pode estimular miragens. A ideia de que “virou-se a página” e de que agora sim “tudo está de acordo com o plano” (TMAP). Como se Milei e Caputo não tivessem provocado a evaporação de uma quantidade massiva de recursos devido aos desequilíbrios externos, para chegar às eleições com a ilusão da desinflação: desde os dólares da anistia fiscal de 2024 até aqueles antecipados pelo setor de cereais em troca da redução das retenções em outubro, passando pelo empréstimo do FMI e pela nova dívida com o Tesouro dos EUA tomada pelo Banco Central. A “nova” política que transparece na apresentação de Werning continuará apoiada nos mesmos desequilíbrios e fragilidades, ainda que o Banco Central compre algumas reservas. Como se viu em 2018, quando os mercados viraram as costas a Macri, os dólares acumulados através do carry trade podem se dissipar no ar em poucos meses. Ainda que a águia careca com peruca laranja esteja atenta para intervir caso seja necessário salvar novamente o sócio argentino de Trump, o plano caminha rumo a novas instabilidades.
Mas mesmo enquanto tudo pareça “ir bem” e continue a melhora das variáveis financeiras, Milei, Caputo, Trump e Bessent planejam usar esse tempo para impor medidas que só beneficiam os mais ricos: redução de impostos sobre o capital e grandes patrimônios, flexibilização trabalhista, aumento da idade de aposentadoria. A intervenção imperialista na economia argentina, à qual Milei se agarrou com entusiasmo, tem como objetivo atacar violentamente as condições de vida do povo trabalhador. É necessário organizar a resistência a esse modelo, para não sermos mais uma estrela na bandeira ianque.