Capa: Sobre o retorno da questão estratégica e os debates a partir da nova posição de Myriam Bregman e da esquerda

Sobre o retorno da questão estratégica e os debates a partir da nova posição de Myriam Bregman e da esquerda

Por Daniel Tupinamba |
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Entrevista publicada originalmente em espanhol no dia 30/08/2026 no Ideas de Izquierda Argentina

Conversamos com Emilio Albamonte e Matías Maiello sobre como pensar os problemas estratégicos em uma nova etapa da situação internacional, muito mais convulsiva, na qual voltam a se desenvolver fenômenos políticos à esquerda. A conversa também percorre algumas lições das últimas décadas e os debates que se desenvolveram em torno do que Daniel Bensaïd chamou, no início do século, de “o retorno da questão político-estratégica”. Albamonte e Maiello são coautores de Estratégia socialista e arte militar e de Debates e fundamentos para a luta pelo socialismo hoje.

DANIEL TUPINAMBÁ: A partir da nova posição da esquerda em nível nacional, abriram-se muitos debates. Há a série de entrevistas em que Emilio foi desenvolvendo várias questões. Vocês vêm elaborando há anos sobre estratégia, mas o contexto mudou. Se tivessem que fundamentar por que hoje é preciso discutir estratégia, o que diriam?

EMILIO ALBAMONTE: Diria, para começar, que as discussões que estamos colocando — desde os debates sobre programa e estratégia que estão no manifesto do PTS até a questão da auto-organização, da coordenação, da frente única etc. — não são apenas discussões conjunturais. Existem problemas de estratégia, entendida como a articulação dos combates táticos em função da “arte de vencer”, que a esquerda revolucionária vem carregando desde o fim do último grande ascenso mundial da luta de classes, o de 1968-1981, e que depois, nas décadas de retrocesso, ficaram totalmente relegados. Se não os enfrentarmos seriamente, então cada vez parece que é preciso reinventar tudo desde o princípio, e isso tem um preço. Eu já mencionava isso em algumas das entrevistas anteriores, a partir do ângulo da história argentina, quando dizia que não é a primeira vez que a esquerda se depara com uma grande oportunidade. Duas vezes nas últimas décadas, a esquerda teve um peso político importante e, nas duas vezes, o perdeu.

E hoje temos diante de nós uma oportunidade que, em termos de amplitude, não tem precedentes por aqui. Já foram formados 180 comitês por um partido da nova classe trabalhadora em muitas cidades de todo o país. Mais precisamente, os comitês se estendem por mais de 150 localidades de 21 províncias. Além disso, estamos dando os primeiros passos na coordenação nacional com diversas organizações sindicais, estudantis, sociais, ambientais, feministas e de aposentados para organizar a “Marcha da Bronca”, no dia 19 de setembro, contra Milei, com a perspectiva de lutar por uma greve geral. Estamos diante de um governo que não apenas vem mal, mas que sofreu uma derrota parcial no último dia 6 de agosto, com a lei de estrangeirização da terra, quando houve uma mobilização que enfrentou a repressão. Muitos companheiros e companheiras dos comitês participaram, e para alguns foi a primeira experiência desse tipo.

MATÍAS MAIELLO: E em breve haverá eleições legislativas nos EUA, nas quais Trump, que hoje tem uma rejeição interna de 65%, pode perder e ficar como um “pato manco”, o que complicaria ainda mais a situação de Milei. Estamos diante de mudanças profundas na etapa da situação internacional, embora ainda não tenha ocorrido uma mudança decisiva na relação de forças entre as classes. Durante muito tempo, a esquerda revolucionária atuou em condições de retrocesso, quando se postulava o “fim da história”, com o neoliberalismo consolidado como único horizonte. Hoje, combina-se a ofensiva imperialista de Trump, que tem a América Latina como um de seus epicentros, com o fato de que os Estados Unidos estão sofrendo uma derrota estratégica no Irã. Depois de seis meses de bombardeios, Trump não conseguiu alcançar seus objetivos estratégicos. O Irã transformou o Estreito de Ormuz em um “centro de gravidade” que afeta a economia mundial, e agora os Estados Unidos, depois de perder munições e sistemas de defesa em grande escala, pretendem lançar uma nova ofensiva econômica, isolando o Irã de todos os países do mundo. Essa nova ofensiva já nasce manca, porque a única maneira pela qual poderia funcionar seria travando uma guerra comercial contra a China — que é a principal compradora do petróleo iraniano —, e os Estados Unidos não podem nem querem fazer isso.

Junto a isso, as direitas duras que vencem eleições na América Latina não têm hegemonia em sociedades cada vez mais polarizadas e, portanto, não conseguem governar com estabilidade. Também vemos, nos últimos anos, processos de luta de classes que reaparecem em países muito diferentes e fenômenos políticos à esquerda nos Estados Unidos, na Grã-Bretanha, na França e na Alemanha, capitalizados, em geral, por variantes neorreformistas. A particularidade argentina é que, aqui, o fenômeno político à esquerda ocorre com uma esquerda que se reivindica trotskista.

Pois bem, um fenômeno à esquerda não é uma estratégia. A pergunta é o que fazemos nós com isso, e aí, obviamente, a reflexão estratégica é fundamental, assim como tirar as conclusões das batalhas anteriores.

DT: Comecemos, então, pelo ponto de partida. O que o neoliberalismo significou do ponto de vista da estratégia e do programa? Pergunto isso porque, em geral, ele é discutido como política econômica e muito menos como uma operação que transformou as correntes que diziam representar a classe trabalhadora, incluindo o próprio trotskismo.

MM: Costuma-se analisá-lo como um pacote de contrarreformas (privatizações, flexibilização trabalhista, abertura comercial, desregulamentação financeira), e tudo isso é verdade. Mas, do ponto de vista da relação de forças, o que distingue essa etapa, que na época chamamos de “restauração burguesa”, está na maneira como a derrota foi produzida. Há derrotas como a da Comuna de Paris de 1871, que deixou o movimento operário sem revoluções por mais de trinta anos e, no entanto, inspirou os revolucionários do século XX. Com a ofensiva neoliberal aconteceu algo muito diferente, porque os trabalhadores viram suas próprias organizações se voltarem contra eles, em uma escala ainda maior do que havíamos visto em diferentes momentos do século XX. As burocracias dos Estados operários burocratizados, a URSS, a República Popular da China etc., não apenas se colocaram à frente da restauração capitalista, como também elas próprias se transformaram em capitalistas e em aplicadoras dos planos neoliberais. Nos países capitalistas, a social-democracia, que já havia demonstrado seu caráter politicamente contrarrevolucionário durante a eclosão da Primeira Guerra Mundial, em 1914, mas conservava um papel reformista no âmbito social, passou a executar diretamente as contrarreformas neoliberais, e os partidos comunistas ocidentais seguiram um caminho semelhante. Em certo sentido, o correlato disso na Argentina foi o papel do peronismo com Menem, que veio completar a obra socioeconômica da ditadura genocida.

EA: É preciso enxergar isso em um período longo, porque o que se encerra aí é um ciclo que atravessa todo o século XX. As grandes derrotas do movimento operário nesse século vieram “de dentro”. Ou seja, nessas derrotas as burocracias operárias tiveram um peso determinante. Primeiro, em 1914, com o alinhamento da social-democracia alemã e da grande maioria dos partidos da Segunda Internacional atrás de seus próprios imperialismos diante da eclosão da Primeira Guerra Mundial. Como dizia Trotsky, a organização oficial da classe trabalhadora, a social-democracia, atuou não como uma organização de combate contra o Estado burguês, mas como órgão auxiliar desse Estado para disciplinar o proletariado. Depois veio o stalinismo que, no período entre guerras, fez algo semelhante com a Terceira Internacional, porém em uma escala ainda maior. No entanto, terminada a Segunda Guerra Mundial, a social-democracia voltou a administrar concessões ao movimento operário no marco do boom econômico do pós-guerra. No caso da burocracia stalinista, ela era o principal obstáculo à revolução mundial, mas continuava assentada sobre a propriedade estatizada e o planejamento (burocrático) da economia na URSS. O que muda com o neoliberalismo é que essa fronteira desaparece: essas burocracias passam para o outro lado com armas e bagagens. Já não se trata de conter a luta por meio do reformismo, mas de participar diretamente da ofensiva dos próprios capitalistas, muitas vezes liderando-a. No Leste, a equação foi ainda mais brutal, uma vez que as burocracias descobriram que a melhor maneira de preservar seus privilégios era entregar-se ao imperialismo, liquidando as conquistas e tornando-se elas próprias proprietárias dos meios de produção.

DT: Neste ponto, convém destacar que o fato de a derrota ter vindo em grande medida “de dentro” não significa que não tenha havido grandes lutas de resistência...

MM: Claro. Circula a ideia de que o neoliberalismo se impôs ocupando um vazio, por meio de transformações objetivas, quase como uma mudança de época sem batalha. Mas a realidade é muito diferente. Foi um longo processo. Para se impor, o neoliberalismo primeiro teve que derrotar a sangue e fogo os processos revolucionários dos anos 1970 na América Latina; depois, por meio de uma combinação de desvio e derrota, desativou-os nos países imperialistas. Ainda em 1980-1981, do outro lado da “Cortina de Ferro”, ocorreu o processo revolucionário na Polônia, que foi fundamental porque poderia abrir o caminho para a revolução política contra a burocracia. A Polônia é um grande exemplo porque ali surgiu o sindicato “Solidariedade”, que chegou a ter 10 milhões de filiados e desenvolveu importantes elementos de democracia pela base. Foi uma luta enorme, mas dentro do movimento atuavam setores da Igreja e setores pró-capitalistas, e nenhuma das correntes do trotskismo daquela época conseguiu articular uma alternativa. Então, em 1990, Lech Walesa, o principal dirigente do “Solidariedade”, chegou à presidência da Polônia, mas para aplicar a chamada “terapia de choque”, destinada a restaurar o capitalismo. No artigo “Nos limites da Restauração burguesa”, sustentamos que na Polônia se perdeu a última oportunidade de deter a restauração capitalista.

EA: A esses processos, por sua vez, seguiu-se um longo período de resistência à ofensiva neoliberal que atravessou toda a década de 1980. A Grã-Bretanha é um grande exemplo, que desmente claramente a ideia de que o neoliberalismo tenha se consolidado sem grandes batalhas. O problema é que esses enormes combates não chegaram a se transformar em uma contraofensiva do movimento de massas. Entre 1982 e 1990, no país com a mais antiga tradição sindical da Europa, houve a experiência municipal de Liverpool, conquistada pela organização trotskista The Militant, a grande greve dos mineiros, que durou um ano e foi o conflito operário mais longo e massivo da Europa do pós-guerra, e, no final da década de 1980, uma rebelião de massas contra o poll tax (um imposto que cobrava uma taxa fixa igualmente do trabalhador e do burguês), que acabou derrubando Thatcher. Foram oito anos de resistência. O que faltou não foram forças sociais dispostas a lutar, mas uma organização que as unificasse e conduzisse, enquanto a burocracia sindical e o trabalhismo oscilavam entre o apoio verbal às lutas e o alinhamento com a ofensiva thatcherista, como no caso de Liverpool.

No entanto, diante desse tipo de combate — e poderíamos dizer algo semelhante em relação aos anos 1970 na Argentina — não foram tiradas as conclusões estratégicas. Pelo contrário, chegou-se ao que Daniel Bensaïd chamou de “grau zero da estratégia”. Por exemplo, não se fez um balanço do fracasso da “semiestratégia” de orientar sua política para o “operário médio”, adotada pela corrente de Nahuel Moreno, nem da estratégia foquista e guerrilheira de setores da esquerda, como o PRT-ERP. Nós, no livro Debates e fundamentos para a luta pelo socialismo hoje, dizemos que nem a corrente morenista, nem o PO de Altamira, fizeram jamais um balanço de conjunto dos erros e acertos diante do ascenso que começou com o Cordobazo e terminou com a ditadura militar de 1976. Pior ainda: depois da derrota da Argentina na Guerra das Malvinas e da crise da ditadura, não promoveram nenhuma discussão estratégica que permitisse perceber que, mesmo sob uma democracia burguesa, o conteúdo pró-imperialista da ditadura continuava presente nos governos “democráticos”. Nahuel Moreno chegou, inclusive, a dizer que havia triunfado uma “revolução democrática”, o que deu origem a múltiplos erros políticos e à ruptura dessa corrente com a vitória do menemismo, que, como diz Matías, levou até o fim a obra socioeconômica da ditadura militar. A falta de balanço foi acompanhada por uma política de participação nas lutas reivindicativas, sindicais e nas eleições burguesas como única estratégia, sem preparar a esquerda classista nem mesmo para as oportunidades que teve. No caso de Altamira e de sua corrente, tomaram o “sucesso” de sua participação nas mobilizações de desempregados e no movimento piqueteiro como uma estratégia, chegando inclusive a dizer que o novo sujeito social da revolução argentina eram os piqueteiros, sem levar em conta que os sindicatos e o movimento operário empregado não participaram em grande escala das mobilizações de 2001 e que, portanto, essas mobilizações puderam ser canalizadas por um peronismo que abandonou sua face neoliberal e mostrou uma face reformista para evitar uma saída revolucionária.

MM: Em relação aos anos 1970, nós nos propusemos a realizar um estudo sistemático de toda essa etapa para abordar as tendências que se desenvolveram no movimento operário e fazer um balanço do que cada corrente de esquerda fez. Isso está desenvolvido na pesquisa de Insurgência operária na Argentina 1969-1976, o livro de Ruth Werner e Facundo Aguirre, assim como em múltiplos artigos anteriores e posteriores, questão que retomamos no livro mencionado por Emilio.

DT: Vocês mencionavam os debates propostos por Daniel Bensaïd sobre a questão estratégica. Vamos entrar um pouco mais nisso. Daniel Bensaïd, lembremos, foi dirigente e um dos principais teóricos da Liga Comunista Revolucionária (LCR) e da corrente internacional cujo principal referente foi o trotskista belga Ernest Mandel, agrupada em torno do Secretariado Unificado da IV Internacional. Em 2007, ele levantou essa questão do “retorno da questão político-estratégica”, que nós também debatemos, na época, em nossa corrente internacional, então chamada de Fração Trotskista e atualmente CRP (Corrente Revolução Permanente). Que importância vocês dão hoje a essa reflexão?

MM: Bensaïd diagnosticou um “eclipse do debate estratégico” desde o início dos anos 1980, em contraste com as discussões que, nos anos 1970, haviam alimentado as experiências do Chile dos Cordões Industriais e da presidência de Allende e da Revolução dos Cravos em Portugal e, inclusive, embora com características muito diferentes, os processos na Nicarágua e na América Central. E cunhou a fórmula do “grau zero da estratégia” para descrever o movimento de retirada e deserção do campo estratégico liderado por intelectuais de esquerda como Foucault e Deleuze depois das derrotas europeias, no qual a estratégia se diluía em uma soma de resistências sem possibilidade de vitória.

EA: Nós retomamos esse diagnóstico, primeiro em uma série de conferências que proferi sobre o tema e, depois, em um extenso artigo de 2011 que mencionamos anteriormente, “Nos limites da Restauração burguesa”, que escrevemos com Matías, e posteriormente no livro Estratégia socialista e arte militar. O que apontamos ali é que, se com Foucault e Deleuze a estratégia havia sido reduzida a zero entre a intelectualidade de esquerda, ela também havia sido reduzida a zero dentro do próprio trotskismo. Daí afirmarmos que também se havia chegado ao “grau zero da estratégia trotskista” quando, no início dos anos 1980 do século passado, a maioria das correntes provenientes do trotskismo abandonou, seja explicitamente ou por omissão, a teoria-programa da revolução permanente. Não quero me deter aqui, porque isso daria outra entrevista, mas gostaria de destacar que o abandono da revolução permanente tinha como correlato nada menos que o abandono da luta pela hegemonia da classe trabalhadora na revolução, tanto na periferia quanto nos países imperialistas.

MM: Era um clima de época. De mãos dadas com o “fim da história” veio o postulado de que a democracia burguesa era a única democracia possível, ao mesmo tempo em que se retirava dela seu conteúdo de classe para utilizá-la como cobertura para a ofensiva neoliberal. A luta pelas liberdades e pelos direitos políticos deveria ser prudentemente separada das transformações socioeconômicas estruturais indispensáveis para sua plena realização. Uma das versões teóricas dessa abordagem, que depois se tornou muito popular entre o neorreformismo europeu e os “populismos” latino-americanos, foi a de Ernesto Laclau. Em sua abordagem da democracia e do “populismo”, desaparecem seus fundamentos objetivos — as bases econômicas do capitalismo, a opressão imperialista, as classes sociais, as relações de força — e o que se busca é “radicalizar a democracia” sem adjetivos e/ou conseguir articular um populismo progressista.

EA: Nesse marco, a atitude de boa parte da esquerda argentina diante das formulações de Bensaïd foi oposta à nossa. O Partido Obrero descartou o Secretariado Unificado com o rótulo de “contrarrevolucionário” e, com isso, poupou-se de todo o debate. Ou seja, abandonaram a caracterização de “centristas” — isto é, de que oscilavam entre o reformismo e a revolução — que até então um setor do trotskismo mantinha sobre o Secretariado Unificado, passando a classificá-lo diretamente como reformista no plano político (e contrarrevolucionário no plano social). Em outras palavras, apagando a diferença em relação à social-democracia e ao stalinismo. Portanto, não havia nada a discutir, não apenas em relação às suas propostas políticas, mas sequer em relação às suas formulações teóricas. Então já não havia nada a estudar.

Nós fizemos o oposto. Os quadros do PTS e da então FT-CI leram o debate de Bensaïd quando ele surgiu, reconhecemos nele fios de continuidade com a tradição, discutimos seriamente com ele e retomamos o debate sobre as hipóteses estratégicas da greve geral insurrecional, a da guerra popular prolongada etc. Ter debatido durante anos com as correntes do Secretariado Unificado e ter enfrentado, na prática, suas propostas políticas, como a do Novo Partido Anticapitalista (NPA) — acompanhada da substituição do programa de um governo revolucionário dos trabalhadores por um anticapitalismo genérico — é uma das razões pelas quais nossa corrente internacional, junto com os companheiros de Révolution Permanente, pôde se desenvolver na França até se tornar hoje talvez a corrente mais dinâmica da extrema esquerda daquele país.

Quem se recusa a discutir com uma tradição, seja a sua própria ou a de outra corrente, geralmente acaba repetindo seus erros.

DT: Emilio vem insistindo, nas entrevistas, no desenvolvimento de instituições de auto-organização como uma questão estratégica de primeira ordem. Poderíamos dizer que, nessa questão do grau zero da estratégia, esse é um dos aspectos que ficaram pelo caminho? E em que sentido?

MM: Claramente. Veja o caso do teórico marxista dos anos 1970, Nicos Poulantzas, que ainda hoje, mais de quatro décadas após sua morte, continua tendo um peso importante, inclusive canônico, em publicações como a Jacobin. Em seu último livro publicado em vida, Estado, poder e socialismo, ele sustenta que o problema de Lenin foi que, diante do reformismo social-democrata, de seu parlamentarismo e de seu pânico em relação ao conselhismo, o que ele propôs foi uma substituição radical da democracia formal pela democracia direta ligada aos conselhos/sovietes. Ele dá a entender que seria preciso atribuir a deriva stalinista da URSS à substituição da democracia representativa (o parlamentarismo burguês) pela democracia direta de base (o que, em nossos termos, seria um governo baseado em organismos de auto-organização do movimento de massas, como os sovietes). Ou seja, o problema da degeneração burocrática da Revolução Russa teria como ponto de partida o fato de Lenin ter dado um peso excessivo aos sovietes e não — apesar de tomá-lo como um dos elementos — o fato de Stalin ter liquidado os sovietes para substituí-los por um aparato burocrático.

A formulação não surgiu em qualquer momento. Estamos falando do final dos anos 1970, período do que se chamou de “eurocomunismo”, que foi a guinada realizada, nos anos 1970, pelos grandes partidos comunistas da Europa Ocidental (o italiano, o espanhol, o francês), quando adotaram uma via nacional, parlamentar e gradual ao socialismo, com a aspiração de governar dentro das instituições existentes. Foi a longa marcha pelas instituições, baseada na ideia do Estado capitalista como campo estratégico em disputa. Se a relação de forças se expressa dentro do Estado, não é necessária nenhuma revolução ou, no mínimo, ela passa para um distante segundo plano. Desaparece a passagem à ofensiva, e a acumulação de forças passa a ser concebida nos marcos do regime, em vez de ser forjada para o combate. Ou seja, deixam-se de lado todos os problemas estratégicos centrais.

EA: Também por outra via, correntes trotskistas deixaram de lado a questão dos sovietes. Em 1995, escrevemos com Fredy Lizarrague e Manolo Romano “A estratégia soviética na luta pela República operária”, no qual discutimos a interpretação de Nahuel Moreno, segundo a qual os “sovietes” ou conselhos haviam sido uma característica da Revolução Russa e das revoluções do primeiro pós-guerra, mas que, dali em diante, os “sovietes” haviam sido uma exceção ou simplesmente não voltaram a surgir.

É uma discussão central, porque, se os “sovietes” ou as tendências em direção a eles foram simplesmente uma exceção histórica, então a ideia da auto-organização como estratégia ou, como a chamávamos na época, a “estratégia soviética”, não faz muito sentido ou é puro normativismo e, de qualquer maneira, não existe aí nenhuma tarefa estratégica. O que esse raciocínio encobre é o papel das direções que liquidaram a auto-organização das massas cada vez que ela apareceu. Foi o caso do Chile, com os Cordões Industriais em 1973; da Bolívia, com a Assembleia Popular de 1971; da Revolução Portuguesa de 1974, com os comitês de empresa, de moradores e de soldados; da Revolução Iraniana de 1979, com os shoras etc. Ou seja, esse tipo de instituição tendeu a surgir na maioria dos processos revolucionários. A questão é que elas foram contidas, desviadas ou esmagadas, muitas vezes pelas próprias direções do movimento.

Por isso, nós tiramos a conclusão inversa e falamos em estratégia soviética. Já expliquei em outras entrevistas por que sustento que a auto-organização é estratégica e não apenas tática, mas o que quero destacar com isso é que não se trata de uma conclusão menor ou conjuntural. Ela diz respeito a um dos aspectos centrais do balanço histórico do século XX e à estratégia que dele se depreende.

Se os organismos de auto-organização são ferramentas que se utilizam ou se deixam de lado conforme a ocasião, tanto faz como a classe chega ao poder. E não dá no mesmo. As revoluções que triunfaram sem organismos de auto-organização, dirigidas por partidos-exército, deram origem a Estados burocratizados desde sua própria origem. Essa é a conclusão oposta à que apresentávamos a respeito de Poulantzas.

DT: Você acabou de destacar como, em muitos dos processos revolucionários nos quais surgiram organismos de auto-organização, eles foram boicotados de diferentes maneiras pelas próprias direções do movimento de massas. E isso me leva à pergunta sobre o tipo de partido necessário para enfrentar esse problema. No primeiro capítulo de Estratégia socialista e arte militar, vocês respondem a isso com uma figura de Lenin: a do “tribuno do povo”. Gostaria que aprofundássemos um pouco essa questão...

EA: A figura do tribuno da plebe vem da República Romana. Era um cargo que o próprio povo romano havia criado para defender seus interesses contra os patrícios e o Senado. Babeuf, principal dirigente da ala esquerda da Revolução Francesa, tomou essa expressão para dar nome ao seu jornal, “O Tribuno do Povo”. Daí Lenin a retoma para afirmar que o militante revolucionário deve assumir como próprias todas as injustiças sofridas pelos setores oprimidos da sociedade e orientá-las para uma luta comum contra o Estado. Ele contrapõe essa política hegemônica à figura do secretário sindical ou “secretário de trade union”, que luta apenas por aumentos salariais e reivindicações sindicais no local de trabalho ou na categoria, mas não vai além disso. Ou seja, ajuda a sustentar a luta econômica contra os patrões e o governo, mas para aí. Por isso, não incorpora os aliados, todos os setores oprimidos que não fazem parte da categoria e sem os quais nenhuma luta séria é possível, muito menos uma revolução socialista. Em outras palavras, vai na contramão da luta para que a classe trabalhadora possa se transformar em um sujeito hegemônico.

Isso é fundamental para os debates que temos aqui, porque o peronismo não é apenas a burocracia sindical: décadas de peronismo também deixaram arraigado no movimento operário um senso comum sindicalista e de conciliação de classes. Isso foi parcialmente questionado, em seu momento, pelo classismo que surgiu com o Cordobazo, mas, depois da derrota, a esquerda voltou a posições que nós definimos como “lute” (por fábrica ou categoria, em lutas reivindicativas) e “vote” (uma vez a cada dois anos, nas eleições parlamentares). Isso é um arremedo de estratégia que, evidentemente, é incapaz de enfrentar as ofensivas burguesas e transformá-las em uma contraofensiva operária e popular. Sem discutir isso, a esquerda fica 100 anos atrasada em relação aos debates da III Internacional, sem falar nas contribuições de Gramsci nos Cadernos do Cárcere.

MM: Em Estratégia socialista e arte militar, também discutimos com as interpretações mais light do “tribuno do povo” como um simples denunciador das injustiças, que é como o interpreta o historiador norte-americano Lars Lih, em seu livro sobre o Que fazer? de Lenin. O que define o “tribuno do povo” para Lenin não é apenas denunciar todas as injustiças sofridas pelos oprimidos, mas o que ele faz com essa denúncia. É um conceito de combate. E isso não se resolve agitando genericamente “greve geral” e “fora Milei” como se fossem um mantra. Georges Sorel, teórico do sindicalismo revolucionário do início do século XX, em suas Reflexões sobre a violência, ao se opor à deriva eleitoralista da social-democracia, concebia a greve geral como um mito unificador do proletariado, como uma imagem capaz, por si só, de unificar a vontade das massas. Mas o problema é como se constrói efetivamente a greve geral. Toda vez que se agita superficialmente a greve geral, sem levar em conta a questão de qual coordenação e quais organismos, qual frente única são necessários para chegar a ela, estamos mais próximos de Sorel do que de Lenin. A ideia de tribuno do povo aponta justamente para como articular uma política hegemônica da classe trabalhadora capaz de articular as forças — próprias e do conjunto dos oprimidos — para levar esses combates até o fim.

Há correntes que denunciam e permanecem no “dogma” socialista, mas, na prática, adaptam-se ao sindicalismo mais rasteiro, sem deixar de gritar “greve geral”. É uma separação entre o reivindicativo e o político, entre a classe operária com seus diferentes setores e seus aliados. É como se a “greve geral” fosse um fenômeno puramente espontâneo, e não uma construção que faz parte de uma estratégia que conta com a participação dos revolucionários nos locais de trabalho, de estudo e nos movimentos sociais para construir essa “greve geral”.

EA: Nesse sentido, como uma espécie de “prova”, justamente, estamos impulsionando uma Marcha Nacional da Bronca, junto com diversos setores dos sindicatos combativos, do movimento estudantil, delegados, delegadas e ativistas do movimento operário, referências das lutas ambientais e das lutas pelas liberdades democráticas, do movimento de aposentados, setores do movimento feminista, das comunidades originárias, assim como da grande maioria das organizações de esquerda. É uma marcha cujo objetivo é fazer com que todas as reivindicações se expressem. Unificar todas as lutas que as diferentes burocracias dividem e mantêm em vias separadas e ver se é possível dar um salto na recuperação das organizações de massas como ferramentas de luta, para avançar concretamente em direção a uma greve geral que derrote Milei e a ofensiva patronal.

O sucesso estratégico ou não desse tipo de iniciativa também dirá algo sobre o grau de maturidade ou imaturidade de uma alternativa aos planos da burocracia e do peronismo. Esse tipo de iniciativa centralizada busca unificar as múltiplas lutas dispersas para ajudá-las a alcançar uma expressão geral. Nos dois anos e meio do governo Milei, houve múltiplas lutas, em geral derrotadas ou insuficientes. Nós, com o impulso de um movimento por um partido da nova classe trabalhadora, não queremos criar mais um partido de esquerda, mas trabalhar decisivamente para que esses processos triunfem.

DT: Aqui entra outro ponto sobre o qual queria que falássemos. Nos debates que mencionávamos anteriormente, a partir de Bensaïd, sobre o retorno da questão político-estratégica, um tema central é o da tática da “frente única”. O marxista britânico Perry Anderson a apresentava como o último grande debate promovido pela Terceira Internacional dirigida por Lenin e Trotsky, antes de sua degeneração burocrática. O próprio Gramsci considera suas reflexões como uma continuação da política de Lenin e da III Internacional sobre a frente única operária...

EA: É uma discussão enorme, que muitas vezes é vulgarizada ao extremo e reduzida a uma tática de cobrança e denúncia da burocracia: exigimos que a CGT convoque um plano de luta ou uma greve geral e, se não o fizer, nós a denunciamos. A tática da frente única é muito mais do que isso. Foi um grande debate da III Internacional nos tempos de Lenin e Trotsky. Existem todas as pesquisas do marxista canadense John Riddell, que reconstroem com bastante minúcia todas essas polêmicas. Ela surgiu por volta de 1921, na Alemanha, como uma iniciativa dos trabalhadores comunistas de Stuttgart, que lançaram uma “carta aberta” aos demais partidos operários (incluindo a social-democracia reformista) e aos sindicatos, propondo ações conjuntas para lutar por salários, aumento das aposentadorias, subsídios, vinculando esses problemas a palavras de ordem mais estruturais que atacavam as questões de fundo.

A Terceira Internacional posteriormente generalizou essa tática. A fórmula popular que utilizavam era “bater juntos, marchar separados”, na qual “bater juntos” significa unificar as fileiras da classe trabalhadora acima das divisões impostas pela burocracia para enfrentar o inimigo de classe, enquanto “marchar separados” dizia respeito à luta por um programa e uma estratégia revolucionários. Ou seja, lutar juntos, mas não misturar as bandeiras com os reformistas, e realizar uma experiência comum com os trabalhadores que ainda confiam nas direções conciliadoras, travando a luta por esse programa e essa estratégia. Longe de ser uma mera cobrança à burocracia para depois denunciá-la, a tática da frente única busca articular volumes de força para o combate.

Os stalinistas liquidaram essa tradição e iniciaram uma guinada para a luta de “classe contra classe”, que caracterizava a social-democracia como “socialfascismo”, o que contribuiu para a derrota do proletariado alemão e para a ascensão do nazismo. Depois dessa derrota, e sem nenhum balanço, passaram à política de subordinar o movimento operário às “alas esquerdas” das burguesias, no que ficou conhecido como política de “Frente Popular”. Esse tipo de discussão tem uma relevância muito concreta para resgatar e desenvolver o pensamento dos clássicos do marxismo e da III e IV Internacionais. Todos aqueles que hoje enchem a boca para denunciar a burocracia, mas não apresentam caminhos alternativos para trabalhar sobre sua base — rejeitando, na prática, a tática da frente única operária ou um caminho em direção a ela — estão, na realidade, repetindo os erros elementares do stalinismo no “Terceiro Período”.

Para que essa tática tenha sucesso, não é preciso apenas que haja maturidade e indignação no proletariado, mas também certo peso da esquerda classista sobre os trabalhadores. Na Argentina, estamos em uma situação muito inicial, na qual ambos os fatores são incipientes.

Obviamente, como o período mileísta demonstrou amplamente, a burocracia não quer nenhuma frente única; sua força está na divisão do movimento operário e de massas. Ela o faz, em geral, quando não tem outra alternativa. Por isso, para impor a frente única, são necessárias forças. Para abordar esse problema, nós resgatamos uma série de desenvolvimentos feitos por Trotsky nos anos 1930 sobre o que ele chamou de “comitês de ação”. Ou seja, a necessidade de instituições de unificação e coordenação dos setores em luta, combativos, e das organizações políticas da classe trabalhadora, que possam evitar que a energia mobilizada pelo movimento de massas se dilua em combates isolados e sem continuidade, e que sirvam para impor a frente única e fazer explodir a estrutura burocrática que esmaga o movimento operário, assim como, de diferentes formas, os diversos movimentos. Por sua vez, essas instituições de auto-organização são uma fonte inestimável de novas forças necessárias para a construção de um partido revolucionário.

MM: Nesse sentido, em Debates e fundamentos para a luta pelo socialismo hoje, esquematizamos diferentes caminhos para impor a frente única. O primeiro é o próprio impulso das massas quando passam à ação, uma unificação “de fato”, como, por exemplo, a que ocorreu a partir das jornadas revolucionárias de dezembro de 2001 e que se cristalizou em uma aliança entre o movimento de desempregados e setores das classes médias, o famoso “piquete e panela”, do qual os sindicatos ficaram de fora em decorrência da ação da burocracia. Mas a esquerda não pode esperar que a frente única seja imposta pelo impulso das massas. Isso significa desconhecer que as forças do regime atuam constantemente para retirar os movimentos das ruas e devolvê-los aos canais institucionais, seja por meio de desvio, repressão ou da combinação de ambos. O período pós-2001 foi um exemplo disso.

Por isso, a chave está nas outras duas. Por um lado, a forma de impor a frente única por meio da ação de um partido revolucionário, que, para consegui-lo, precisa ser uma força política poderosa, constituindo uma parcela decisiva da classe trabalhadora organizada sindical ou politicamente. Trotsky, em suas “Teses sobre a frente única”, afirma que, para poder convocar a frente única em seu próprio nome, o Partido Comunista precisava liderar um quarto ou um terço dela. E, por outro lado, há uma terceira forma de impor a frente única — relacionada ao que Emilio dizia anteriormente sobre os “comitês de ação” —, que seria a partir da articulação dos setores em luta que constituem a vanguarda do movimento operário em instituições de coordenação capazes de impor seu peso à burocracia. Uma dinâmica desse tipo ocorreu em 1975, quando as Coordenadoras Interfábricas obrigaram a burocracia a aderir à greve geral de 7 e 8 de julho. DT: Como entraria, nesse esquema, a questão da Marcha da Bronca?

EA: Ela faz parte dessa luta, embora, repito, de forma ainda muito incipiente. Demos alguns passos iniciais, como a autoconvocação realizada na Faculdade de Ciências Sociais da UBA, que contou com a participação de pessoas do AMBA. Depois houve uma reunião nacional no último dia 22 de agosto, na qual se conectaram companheiros e companheiras de diversas províncias. Agora, no dia 5 de setembro, haverá uma nova reunião no Parque Lezama. São primeiros passos que apontam para a perspectiva de instâncias de coordenação que precisam ser desenvolvidas.

DT: Ficaram alguns debates estratégicos para retomarmos em próximas entrevistas, mas antes de encerrarmos gostaria, brevemente, de entrar em uma discussão mais geral sobre o problema da estratégia. É claro que uma abordagem como a que estamos discutindo vai além do objetivismo, de qualquer espera passiva para que “as condições amadureçam” ou da expectativa de que uma explosão espontânea resolva, por si só, problemas que o trabalho estratégico precisa preparar. Mas, por outro lado, surge a objeção de que uma abordagem desse tipo seria voluntarista. O que vocês diriam diante disso?

EA: Se falamos da relação de forças, parece-me importante introduzir um conceito de Clausewitz que considero fundamental para pensar essa questão. Ele dizia que a força total tinha dois componentes: a força material, que é o mais fácil de medir, e a força moral, na qual, no nosso caso, entrariam a disposição para lutar, a confiança, o ódio de classe acumulado, o ânimo de setores que não aparecem em nenhuma estatística. O problema desta última é que ela não pode ser medida fora do combate entre forças materiais. Grande parte da dificuldade da estratégia está no fato de que ela precisa lidar com forças que não podem ser medidas até que sejam colocadas em jogo.

Por isso, o problema do voluntarismo precisa ser colocado com precisão. Voluntarista é aquele que ignora os elementos objetivos da relação de forças, que confunde seus desejos com as forças reais. Mas é igualmente um erro, e bastante mais frequente na esquerda, tratar como um dado exato aquilo que só pode ser conhecido na prática. A relação de forças não é uma fotografia tirada antes de agir, mas algo que, em parte, é medido enquanto se age. E, cada vez que se coloca algo à prova, aparecem limites que não eram visíveis e disposições que também não eram conhecidas.

MM: A mobilização de 6 de agosto contra a lei de terras mostrou algo disso. Antes dela, parecia que tudo conspirava contra que fosse massiva. Ao “não à greve” da burocracia, somava-se o fato de que o governo havia retirado, no dia anterior, o capítulo sobre a estrangeirização da terra, e os meios de comunicação apresentaram a situação como se o conflito tivesse sido desativado. Além disso, chovia torrencialmente. E, no entanto, a praça ficou lotada, e as pessoas resistiram por mais de três horas aos gases e às balas de borracha. Houve disposição para a luta. A própria mobilização do dia 6 mostrou uma força moral maior do que a que se previa inicialmente.

EA: Por isso, a resposta à objeção do voluntarismo não é defensiva. O que avançarmos no desenvolvimento dos comitês por um partido da nova classe trabalhadora, em atuar como tribunos do povo, no impulso à auto-organização, à coordenação etc., também constitui um elemento da relação de forças e, sobretudo, das possibilidades de modificá-la.

Os comitês não devem ser entendidos apenas como a construção de uma força que intervenha no espaço eleitoral, mas como a organização de um embrião de partido que luta para unificar todos os setores combativos, romper a passividade e mostrar que existe uma alternativa desde baixo ao domínio das grandes patronais e do imperialismo, que se expressam no governo de Milei.

Toda estratégia eleitoralista que não tente fazer isso estará condenada ao fracasso e, para além dos votos que qualquer nova força política possa obter, não estará trabalhando para criar uma alternativa histórica ao domínio do capital.