Silicon Valley e a máquina de guerra imperialista
O manifesto da Palantir Technologies, lançado há alguns dias, gerou ampla polêmica. Seus 22 pontos são uma espécie de resumo das ideias principais do livro The Technological Republic: Hard Power, Soft Beliefs, and the Future of the West, do qual Alex Karp é coautor, junto com Nicholas Zamiska. Ambos defendem que, para que os Estados Unidos recuperem seu lugar como potência política e militar global, seria necessário um novo Projeto Manhattan — em referência ao programa secreto de pesquisa e desenvolvimento (1942–1945) cujo objetivo foi construir a bomba atômica. A diferença é que, agora, o objetivo seria acelerar o desenvolvimento de aplicações militares da inteligência artificial para que os EUA mantenham uma vantagem permanente sobre a China.
Não se trata apenas de uma reflexão: é o que a Palantir Technologies e outras Big Tech estão fazendo hoje. As tecnologias da Palantir foram e são fundamentais para Israel aumentar o ritmo dos bombardeios e do genocídio em Gaza; também são utilizadas pelo Immigration and Customs Enforcement (ICE) para acelerar deportações, e foram usadas para localizar e identificar manifestantes em Minneapolis. Esse horizonte da “república tecnológica” vai além da Palantir: Google, Amazon e Microsoft fornecem infraestrutura e software essenciais ao exército israelense, sendo centrais na transformação de dados brutos em alvos para ataques e limpeza étnica. Trata-se de uma fusão entre o Vale do Silício, startups tecnológicas israelenses e violência colonial. Esse é o uso que o capitalismo reserva aos desenvolvimentos mais avançados do “intelecto geral”, como dizia Karl Marx — isto é, da ciência e da técnica.
Karl Marx afirmava que a barbárie da civilização burguesa se manifestava com formas respeitáveis na Inglaterra e de maneira nua e brutal no domínio colonial da Índia. Seguindo essa ideia, podemos dizer que, nos últimos 40 anos, sob o neoliberalismo, o imperialismo tentou se revestir de “formas respeitáveis”, com discursos de defesa da democracia, missões humanitárias e direito internacional. Grandes empresas tecnológicas como Google e Amazon se apresentavam como supostas defensoras da diversidade. No entanto, a crise da ordem neoliberal — da qual o projeto autoritário de Donald Trump é uma expressão — abre espaço para que capitalistas como Peter Thiel ou Elon Musk revelem, sem disfarces, o rosto mais predatório e brutal do capitalismo.
Os discursos tecno-autoritários de Peter Thiel e de outros membros da elite do Vale do Silício são uma espécie de reedição dos discursos dos capitalistas coloniais do século XIX: uma ideologia crua, sem mediações, na qual afirmam seu direito de dominar ao se considerarem superiores à maioria da humanidade. Cecil Rhodes, figura emblemática do colonialismo britânico, afirmou em sua época que o mundo já estava totalmente conquistado e colonizado e que, se pudesse, anexaria outros planetas. Essa ideia ecoa fortemente no presente, quando capitalistas como Peter Thiel e Elon Musk disputam novos espaços de acumulação, inclusive no espaço, que pretendem ocupar com satélites e foguetes. Essa linguagem do “hard power” é também a linguagem do imperialismo — de um neocolonialismo sem disfarces.
Peter Thiel, Carl Schmitt e a identificação do inimigo
Peter Thiel não é apenas um dos homens mais ricos do mundo, com uma fortuna em torno de 23 bilhões de dólares, mas também alguém que busca formular, inclusive com pretensões teóricas, uma ideologia que expresse a prática da oligarquia capitalista dos megabilionários. Em 2007, publicou um texto que condensa bastante essa visão de mundo sob o título The Straussian Moment (“O momento straussiano”), em referência ao filósofo político Leo Strauss, cuja obra teve grande influência no neoconservadorismo. Ali, Thiel lamenta a vulnerabilidade do mundo ocidental e retoma o jurista alemão Carl Schmitt — que, em seu tempo, teve vínculos com o nazismo — para defender que a chave é que o Ocidente deve saber definir o inimigo, o qual, como não poderia deixar de ser, seria o mundo islâmico, sob a lógica do “choque de civilizações”.
Nesse texto, Thiel defendia a necessidade de um líder que se colocasse acima dos mecanismos de “freios e contrapesos” da democracia norte-americana:
Nenhum Alexandre, o Grande, está à vista para cortar o nó górdio de nossa época. Além disso, a maquinaria constitucional dos Estados Unidos impede avançar diretamente. Ao “opor ambição contra ambição” com um elaborado sistema de freios e contrapesos, evita-se que uma única pessoa ambiciosa reconstrua a antiga República.
Em linha com esse raciocínio, há também uma glorificação da espionagem em massa como mecanismo central para garantir o controle da população:
Leo Strauss também nos lembra o contexto excepcional necessário para complementar o regime dos Estados Unidos: “A sociedade mais justa não pode sobreviver sem ‘inteligência’, isto é, ‘espionagem’, mesmo que a ‘espionagem seja impossível sem suspender certas regras do direito natural’”. [...] deveríamos considerar ECHELON, a coordenação secreta dos serviços de inteligência em todo o mundo, como um caminho verdadeiramente decisivo para a pax americana.
A partir desse texto, é possível entender por que Peter Thiel se entusiasmou e se tornou um dos principais financiadores das campanhas eleitorais de Donald Trump e J. D. Vance para que chegassem ao governo. O problema dessa perspectiva é que a tentativa bonapartista de Donald Trump vem enfrentando dificuldades por todos os lados: não apenas pelos conflitos internos no aparato estatal, mas também pelas mobilizações “No Kings”, pelo levante em Minnesota e pelas derrotas estratégicas em sua ofensiva contra o Irã. Trump caminha para uma provável derrota nas eleições de meio de mandato de novembro. O semanário The Economist, em sua mais recente previsão estatística, aponta-o como perdedor — não apenas com a perda da Câmara dos Representantes, o que já parece quase certo, mas atribuindo cerca de 48% de probabilidade de também perder o controle do Senado.
A fantasia dos “deuses tecnológicos”
O imaginário tecno-autoritário costuma apresentar empresários como Peter Thiel ou Elon Musk como arquitetos onipotentes do futuro. Mas essa narrativa oculta uma realidade material: as tecnologias não se produzem sozinhas. O romance clássico de ficção científica de Philip K. Dick se intitulava Do Androids Dream of Electric Sheep? (“Androides sonham com ovelhas elétricas?”); hoje poderíamos perguntar: Elon Musk e Peter Thiel sonham com escravos elétricos? Provavelmente sim — mas o fato é que a inteligência artificial e as máquinas não se criam por conta própria: há pessoas por trás, mais especificamente milhões de trabalhadores e trabalhadoras em todo o planeta, sem os quais essas tecnologias não existiriam.
Peter Thiel e os tecno-capitalistas se veem como novos deuses, mas não são: os satélites que colocam no espaço, os supercomputadores que processam informações, os softwares, tudo isso é produto do trabalho de milhões de pessoas. E essa é uma força social enorme, capaz de colocar em xeque os capitalistas. Há poucos dias, teve início uma greve de trabalhadores da Samsung Electronics, na Coreia do Sul: cerca de 40 mil trabalhadores se mobilizaram diante da empresa, exigindo aumento salarial e ameaçando iniciar uma greve mais radical em maio. Trata-se do maior fabricante mundial de chips de memória, responsável por produzir componentes utilizados nos aceleradores de IA da Nvidia. É apenas um exemplo. A classe trabalhadora ocupa posições estratégicas em escala global: nas fábricas de chips, nas minas de cobre (sem cobre não há chips), nos data centers, no transporte, nos portos, nos bancos etc. Na Itália e em outros países, surgiram inclusive plataformas de trabalhadores das empresas de tecnologia contra a guerra — um sinal significativo. Nessas cadeias globais de valor, das quais dependem as grandes empresas tecnológicas, reside o poder material que a classe trabalhadora possui para enfrentar os capitalistas.
O próprio projeto autoritário e militarista das Big Tech enfrenta obstáculos políticos. Um símbolo disso é a insistência, presente no manifesto da Palantir Technologies, em retomar o serviço militar obrigatório. A realidade é que, nem nos Estados Unidos nem nos Estados imperialistas europeus, as maiorias estão dispostas a morrer em guerras em defesa da oligarquia capitalista. Nos termos do teórico clássico da guerra Carl von Clausewitz, essas potências possuem muita “força material”, mas pouca “força moral”: são incapazes de mobilizar amplos setores da população para seus projetos bélicos. E a guerra não é apenas destruição, mas a capacidade de impor a própria vontade ao inimigo — algo que o imperialismo norte-americano vem tendo dificuldade em fazer.
Se há algo que a guerra no Irã evidencia é que toda a tecnologia da Palantir Technologies e das Big Tech não foi suficiente para impor seus objetivos imperialistas no país. A integração entre grandes empresas de tecnologia e o exército dos EUA é profunda, indo além de contratos. Em junho de 2025, executivos como Shyam Sankar (Palantir), Andrew Bosworth (Meta Platforms), Kevin Weil (OpenAI) e Bob McGrew (Thinking Machines Lab) foram empossados como tenentes-coronéis no Exército dos Estados Unidos. Michael Obadal, executivo da Anduril Industries — também financiada por Peter Thiel — ocupa o cargo de subsecretário do Exército norte-americano. Ainda em meados do ano passado, OpenAI, Google, xAI e Anthropic firmaram contratos de cerca de 200 milhões de dólares com o Departamento de Defesa.
Peter Thiel aparece como um dos expoentes mais destacados do tecno-autoritarismo, mas está longe de ser uma figura excêntrica isolada, como muitas vezes o apresenta certo progressismo. Ele é, na verdade, um representante típico da classe capitalista. Vale lembrar que um ícone do capitalismo norte-americano de outra época, Henry Ford, era um admirador declarado do nazismo.
Tecnologia, general intellect e futuros alternativos
O conhecimento social geral — aquilo que Karl Marx chamava de general intellect —, contido no desenvolvimento científico e técnico acumulado pela humanidade, não é criado por megabilionários como Peter Thiel. Ele é produzido por legiões de cientistas, técnicos e trabalhadores. O que esses megabilionários fazem é se apropriar desse conhecimento, moldá-lo e colocá-lo a serviço de seu objetivo central: a obtenção de lucro — ou diretamente como instrumento de destruição militar e controle das populações.
Em meados do século XIX, em seus Grundrisse, Karl Marx já destacava até que ponto as próprias condições do processo da vida social haviam sido remodeladas pelo conhecimento social geral. O desenvolvimento de máquinas, locomotivas, ferrovias, do telégrafo elétrico etc. eram, segundo Marx, “órgãos do cérebro humano criados pela mão humana; força objetivada do conhecimento”, que se tornavam órgãos da vontade humana, evidenciando até que ponto o general intellect havia se convertido em força produtiva [1]. Hoje, a esses “órgãos do cérebro humano” somam-se inúmeros desenvolvimentos: dos microchips e satélites às redes de internet, passando pela genética, robótica e inteligência artificial.
O general intellect alcançou dimensões muito superiores às de toda a história anterior. No entanto, sob o capitalismo, esse conhecimento social geral transforma-se em propriedade privada desde a sua origem e é confrontado com o trabalhador coletivo como algo alheio. Mas, arrancado do comando do capital e ressignificado, possui o potencial de libertar a humanidade do trabalho alienado: reorganizar a produção, a reprodução social e diversos aspectos da vida cotidiana, reduzindo ao mínimo o tempo de vida dedicado ao trabalho como imposição para a sobrevivência e transformando-o em “tempo livre” para os trabalhadores e trabalhadoras.
A perspectiva de um socialismo “de baixo para cima”, isto é, baseado em organismos democráticos de autodeterminação das maiorias — como foram os “conselhos” ou sovietes [2] nas revoluções do século XX — parte da crítica à propriedade privada capitalista dos meios de produção (fábricas, terras, matérias-primas etc.). Seu objetivo é organizar os recursos econômicos para além do critério do lucro, planejando democraticamente o que produzir, como, quanto e para quê, em função das necessidades sociais e de uma relação mais equilibrada com a natureza. Para isso, hoje já existem recursos informáticos e capacidades de processamento de informação em tempo real que poderiam facilitar enormemente essa tarefa. De fato, os debates sobre o uso das novas tecnologias para uma futura planificação socialista vêm ganhando novo impulso com autores como Evgeny Morozov, Daniel Saros, Paul Cockshott e Maxi Nieto, entre outros. Uma planificação democrática e racional da economia desse tipo é, ao mesmo tempo, indispensável para conter a destruição do planeta impulsionada pelo capitalismo.
Claro que isso só seria possível se esses recursos fossem utilizados para esse fim — e não para os projetos de Peter Thiel e da oligarquia capitalista das Big Tech, voltados ao desenvolvimento de forças destrutivas, ao controle social e à intensificação da exploração do trabalho. Em termos do desenvolvimento da cooperação e do general intellect, nossas condições estão a anos-luz daquelas existentes na época de Karl Marx. Ainda assim, a perspectiva apontada por ele — de que “já não seja, de modo algum, o tempo de trabalho a medida da riqueza, mas sim o tempo disponível” [3] — é mais atual do que nunca. A questão, ontem como hoje, continua sendo libertar esse potencial das amarras impostas pelo capital. [1] Marx, Karl, Elementos fundamentales para la crítica de la economía política (Grundrisse) 1857-1858, Tomo 2, México, Siglo XXI, 1997, p. 230 [2] Organismos desse tipo não se desenvolveram apenas na Rússia (1905 e 1917), mas também na Alemanha, com os räte (1918); na Itália, com os conselhos de fábrica (1919–1920); na Revolução Húngara (1956), com os conselhos de operários e camponeses; na Revolução Portuguesa (1974), com os comitês de fábrica, de moradores e de soldados; na Revolução Iraniana (1979), com os shoras; no Chile, com os Cordões Industriais (1972–1973), entre muitos outros. As Coordenadoras Interfábricas da Argentina, em 1975, expressaram em menor medida a mesma tendência. No entanto, essas expressões de poder constituinte estiveram, em todos os casos, submetidas a uma enorme pressão — não apenas repressiva, mas também de assimilação aos regimes burgueses. Mostrou-se indispensável a ação de um partido revolucionário para impulsioná-las além desses limites e transformá-las em verdadeiras instituições revolucionárias (para um desenvolvimento mais aprofundado, ver: Emilio Albamonte e Matías Maiello, “A cooperação como potência da classe trabalhadora e a luta pelo socialismo”). [3] Marx, Karl, Elementos fundamentales para la crítica de la economía política (Grundrisse) 1857-1858, ob. cit., p. 231.20.