Artigo originalmente publicado em alemão na página do Klasse Gegen Klasse no dia 11/01/2026.
Para compreender a mudança na ordem mundial, a ciência política remonta à teoria naval da era imperialista clássica. O marxismo pode assimilar suas conclusões?
Vivemos em uma época de retorno. [1] A nova política de “quintal” dos EUA contra a Venezuela é o exemplo mais recente disso. Enquanto na ordem mundial de Yalta (entre os EUA e a União Soviética até 1991) [N1] as fronteiras foram traçadas e os conflitos em grande medida relegados à periferia, desde o início da guerra pela Ucrânia em 2022 voltamos a nos encontrar em uma ordem mundial imperialista mais “clássica”, uma luta “de todos contra todos”, como a denominou em sua época o profético analista Thomas Hobbes. A ordem de Yalta havia congelado parcialmente essa luta no centro por meio de um compromisso de classes, e a restauração burguesa, com a breve ordem unipolar de aproximadamente 1991 a 2008, a havia retardado. A ordem mundial atual é marcada pelo declínio contraditório da hegemonia dos Estados Unidos, que, em sua fraqueza, reedita a Doutrina Monroe. É marcada pela ascensão igualmente contraditória da China. E é marcada pela perda de forças ordenadoras e reconhecidas no sistema mundial, como o foram os Estados Unidos e a União Soviética em Yalta, e, a partir de 1991, apenas os Estados Unidos.
Dado que o presidente norte-americano Trump não apenas questiona a chamada ordem baseada em regras, mas deixa escombros por onde passa sempre que pode, os teóricos pró-imperialistas também se ocupam criticamente de sua estratégia. Aqui queremos debater a historiadora e pesquisadora militar norte-americana Sarah Paine. A ordem baseada em regras de que fala o liberalismo — no sentido mais amplo do termo, como usado nos Estados Unidos — é uma ordem na qual existem normas reconhecidas para a acumulação de lucros capitalistas entre os Estados. Ela abrange, em particular, as instituições internacionais criadas na ordem de Yalta, como o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional (FMI), as Nações Unidas (ONU), a Organização Mundial do Comércio (OMC), acordos e organizações humanitárias, mas também a OTAN ou a União Europeia (UE), ou seja, instituições do multilateralismo que o regime trumpista hoje ou está minando (como a OTAN) ou atacando abertamente (como a UE na guerra tarifária ou as instituições da ONU com cortes de financiamento e sanções). Essas instituições eram sedimentos de um compromisso de classe mundial entre os Estados Unidos e a União Soviética, que já não existe e que necessariamente vêm se desmoronando desde 1990.
Ao mesmo tempo, a liberdade do comércio mundial, que durante a ordem de Yalta prometia certa prosperidade do capitalismo e, com isso, podia subornar partes da aristocracia operária ao menos nos centros, está sendo questionada, especialmente na Alemanha: o pacifismo relativo do comércio, do qual a República Federal da Alemanha (RFA) se beneficiou por muito tempo com seu “dividendo da paz”, encontra-se em uma crise histórica. Assistimos ao retorno de uma política de canhoneiras, seja com a tentativa de golpe por parte dos Estados Unidos na Venezuela, seja com as tensões no mar do Sul da China e diante de Taiwan por parte da República Popular da China (RPC). E o mar encontra seu reflexo no mercado de bens e finanças em geral, com o retorno de tarifas punitivas massivas e as dúvidas sobre a soberania dos bancos centrais.
A pergunta que se colocam os intelectuais do imperialismo norte-americano é: como os Estados Unidos podem manter seu papel hegemônico na ordem mundial ou, se isso não for possível, desenvolver ao menos um papel tão forte quanto possível em uma nova ordem mundial que permita obter lucros máximos para o capital norte-americano de forma permanente? Soma-se a isso a pergunta: como os Estados Unidos devem reagir à ascensão da China na ordem mundial? E: quais instituições internacionais e sistemas de alianças são úteis para isso, quais estratégias terrestres e marítimas o imperialismo deve empregar e quais deve evitar?
Queremos analisar essas questões do imperialismo norte-americano para desenvolver nossas próprias questões da classe trabalhadora a partir das contradições do capitalismo. Para isso, neste artigo nos ocupamos de uma separação teórica na ciência política e na ciência militar, concretamente entre as potências terrestres e marítimas e suas estratégias (ordens marítimas e continentais), para depois discutir exemplos atuais da política mundial do conflito sino-estadunidense e chegar a uma conclusão sobre o papel da própria classe trabalhadora em relação à “terra e ao mar”.
1. Teses sobre o poder terrestre e marítimo
Sarah Paine, professora emérita de Grande Estratégia no U.S. Naval War College, escreve na revista Foreign Affairs sobre a rivalidade entre China e Estados Unidos, assim como sobre os problemas da ordem mundial, com base em estratégias terrestres e marítimas (ou ordens continentais e marítimas), em seu artigo “By Land or By Sea”.[2] Para isso, recorre à distinção clássica no campo das ciências políticas e militares entre potências marítimas e potências terrestres, tal como desenvolvida e diferenciada historicamente por Alfred Thayer Mahan e Julian Corbett, entre outros.[N2]
Para Paine, existe uma diferença fundamental entre potências terrestres e marítimas, cuja origem está na geografia, mas que também é uma questão de grande estratégia de uma nação, do regime de segurança de um país: se a segurança nacional é estabelecida por meio da conquista de territórios, grandes exércitos, guerras “de vida ou morte”, o enfraquecimento de Estados vizinhos e, em geral, um jogo militar de soma zero, ela fala de potências terrestres. Se o poder de uma nação provém principalmente de seu controle sobre o comércio mundial por meio de marinhas de alto-mar permanentes e do exercício de coerção por meio da influência econômica, Paine fala de potências marítimas. Portanto, como já dizia Mahan, a estratégia marítima ou continental não depende apenas da geografia, mas também do caráter do povo e do governo de um Estado. [3]
A distinção e a avaliação entre potências terrestres e marítimas são controversas: o fundador da teoria da grande potência marítima, o almirante Alfred Thayer Mahan[4], partia quase da identidade entre controle dos mares e prosperidade econômica por meio do comércio. Ele se ocupou principalmente do poder marítimo como hegemonia sobre os oceanos em benefício de uma nação e deduziu a superioridade dos mares a partir do modelo da Grã-Bretanha — provavelmente não de forma totalmente desinteressada, já que, como oficial da marinha, também promovia a então ainda fraca marinha de guerra dos Estados Unidos. Seu objetivo político, que conseguiu alcançar, foi a criação de uma frota de alto-mar para os Estados Unidos, que, após sua morte, substituiu a hegemonia britânica: a transformação dos Estados Unidos de uma potência terrestre isolacionista em uma potência marítima com atuação ofensiva em nível mundial confirmou historicamente a ideia fundamental de Mahan.
Não surpreende, portanto, que desde a década de 1990 Mahan tenha sido amplamente retomado na República Popular da China, com o objetivo de construir sua própria frota de alto-mar, já que o país quer competir com os Estados Unidos e, no século XX, possuía uma marinha historicamente fraca. A doutrina naval de Mahan refletia a reconstrução de uma frota de alto-mar contra o domínio dos Estados Unidos na região do Pacífico.[5]
Julian Corbett[6], contemporâneo e rival de Mahan, partiu da constituição do comércio e do poder marítimo, mas enfatizou a interação entre poder marítimo e terrestre, diplomacia e comércio para o sucesso militar e econômico das nações. Esse civil abastado queria convencer seu país natal, a Grã-Bretanha, de que não poderia confiar apenas em seu poder naval, mas que, combinando-o com o poder terrestre, realmente venceria guerras, já que ninguém pode possuir os mares como território. Para Corbett, o “domínio do mar” existe como um espectro.[7]
Com Corbett, podem-se representar estratégias nacionais que não se concentram exclusivamente no mar, mas que, como a chinesa, devem desenvolver uma presença naval estratégica tanto no mar do Sul da China quanto no oceano Índico e no estreito de Malaca, a fim de disputar uma hegemonia local que proteja o comércio da República Popular frente à hegemonia global dos EUA e frente à Índia, dificulte uma intervenção militar norte-americana contra a China e amplie sua influência em sua própria busca por hegemonia com a “Rota Marítima da Seda” (MSR).[8]
Com base na distinção entre potência terrestre e potência marítima, Sarah Paine debate várias teses sobre a orientação estratégica da China e dos EUA, que dizem respeito, em primeiro lugar, aos oceanos, mas que também levantam questões importantes sobre a ordem mundial como um todo: segundo essa teoria, a China, como potência terrestre, tem limitações estratégicas, já que a potência marítima pode operar de maneira mais eficiente. A soberania insuficiente da China sobre seu próprio “quintal” limita sua capacidade de competir com os Estados Unidos pela hegemonia.
Segundo essa visão, os Estados Unidos poderiam vencer a corrida com a China se dominarem as doutrinas da potência marítima (livre comércio, “ordem baseada em regras”, o exército principalmente como força protetora da economia livre), mas perderiam se adotarem em maior medida as doutrinas da potência terrestre (guerras continentais, minar a ordem multilateral, política externa de conquista), como estaria ocorrendo atualmente com Trump. Até aqui a tese, que obviamente favorece uma ordem marítima.
Paine resume o dilema estratégico-militar da China em comparação com a Alemanha antes da Segunda Guerra Mundial, um país preso entre a ordem marítima e a continental, da seguinte maneira:
“A decisão do país de integrar-se à ordem mundial existente para prosperar indicava que, apesar de seu governo autoritário, poderia aspirar a uma orientação marítima. Inclusive construiu uma grande armada. Mas Pequim não pode utilizar essa armada de forma confiável em tempos de guerra, já que suas costas estão cercadas por mares estreitos, rasos, pontilhados de ilhas e fechados. Nesse sentido, assemelha-se à Alemanha, que construiu grandes frotas navais que não pôde utilizar de forma confiável nas duas guerras mundiais. O Reino Unido bloqueou as estreitas águas do Mar do Norte e do Mar Báltico, o que paralisou o tráfego comercial alemão e limitou o transporte marítimo principalmente aos submarinos. Na Segunda Guerra Mundial, Berlim precisou das longas costas da França e da Noruega para garantir um acesso mais confiável para seus submarinos, mas isso ainda assim não foi suficiente para sua armada, e muito menos para sua marinha mercante. A China depende ainda mais do comércio e das importações do que a Alemanha naquela época, especialmente de energia e alimentos. As dificuldades econômicas decorrentes da interrupção de seu comércio marítimo enfraqueceriam sua economia.”[9]
Enquanto isso, Sarah Paine analisa a crescente orientação continental do governo norte-americano como uma ameaça ao seu próprio imperialismo, ainda antes do ataque à Venezuela, que, como “política de quintal” continental segundo a Doutrina Monroe, confirma a tese de Paine:
“No último ano, Washington tem se orientado cada vez mais para uma abordagem continental. Os Estados Unidos sempre contarão com suas barreiras naturais — o Atlântico e o Pacífico — para proteger o continente. Mas também compartilham longas fronteiras com o Canadá e o México, e Washington está provocando conflitos com ambos os países. Insultou numerosas democracias amigas, impôs tarifas a parceiros comerciais e paralisou instituições internacionais que promovem o crescimento econômico mundial por meio do estabelecimento e da aplicação de regras. As considerações de Washington sobre anexar o Canadá, conquistar a Groenlândia da Dinamarca e retomar o Canal do Panamá mudarão, no mínimo, de forma permanente os hábitos de consumo e os planos de férias dos canadenses e dos europeus. No pior dos casos, romperão as alianças ocidentais.”[10]
Paine resume os problemas para a ordem mundial, que ainda é liderada pela hegemonia norte-americana — em cuja defesa escreve:
“Nunca antes houve tanto em jogo no conflito entre a ordem continental e a ordem marítima baseada em regras. Há muitas potências nucleares, e os Estados Unidos estão cada vez menos dispostos a atuar como garantidor último [‘Ultimate Guarantor’, no original] do sistema global atual, apoiando seus aliados e ampliando seu escudo nuclear.”[11]
A seguir analisaremos com mais detalhe o conceito de garantidor último, pois nele se baseava a relativa estabilidade do período anterior, quando os Estados Unidos podiam atuar como “gendarme mundial” reconhecido. Trump pode sequestrar militarmente chefes de Estado, mas já não pode esperar criar com isso uma nova “Pax Americana”.
Na entrevista sobre seu artigo[12], Sarah Paine explica ainda que a ordem marítima baseada em regras inclui, por exemplo, a conexão por meio de cabos de comunicação submarinos e a livre transferência de mercadorias por mar — uma ordem que, acrescentamos, foi minada pelos próprios Estados Unidos frente a seus aliados quando, no mínimo, toleraram o ataque ao gasoduto germano-russo Nord Stream em 2022.
Por outro lado, a possível conquista de Taiwan pela República Popular da China corresponderia a uma lógica continental clássica, uma opção que o presidente Xi Jinping mantém em aberto e que é favorecida pela política de canhoneiras igualmente continental de Trump em relação à Venezuela. No contexto do colapso das normas internacionais, que até agora funcionaram perfeitamente em benefício do imperialismo norte-americano, Paine considera que ataques marítimos como o do Ansar Allah (Houthi) são apenas sintomas; também aqui, à luz dos acontecimentos atuais, caberia acrescentar que a pirataria dos próprios Estados Unidos contra petroleiros venezuelanos é o sintoma mais grave.
Como consequência do problema da ordem, Paine pergunta: os acordos comerciais poderão ser cumpridos no futuro? Será possível negociar normas? Ou o mundo enfrenta o retorno de acordos bilaterais muito custosos e de guerras?
Na concepção da ordem marítima, segundo Julian Corbett, o mar não pertence a ninguém (tampouco segundo Alfred Thayer Mahan, mas ele parte do princípio de que o “poder marítimo” se aproxima relativamente da posse do mar). Essa afirmação baseia-se numa diferença em relação à guerra terrestre: de um ponto de vista puramente geográfico, não é possível tomar posse do mar, isto é, construir posições permanentes nele, habitá-lo. Não existe um “Waterworld”. No mar, as fortalezas e os territórios da guerra terrestre passam a um segundo plano; o que conta são as comunicações (isto é, o comércio) através do mar, bem como todas as condições que as tornam possíveis ou as impedem. Uma ordem baseada em regras sobre o mar permite, por exemplo, comunicações em águas profundas, garantias de segurança e rotas marítimas o mais eficientes possível para o transporte de contêineres e petróleo, assim como a pesca e, agora também, a mineração submarina.
Entretanto, os portos, canais e regiões costeiras deste mundo pertencem a alguém — e Trump os tem especialmente na mira, por exemplo com suas ameaças contra o Canadá e a Groenlândia, seu ataque à Venezuela e sua pretensão de reivindicar o Canal do Panamá. Na seção seguinte, analisam-se os problemas que a atuação continental dos EUA coloca para seu papel como potência garantidora da ordem mundial em relação à China e, em profundidade, as contradições da nova estratégia de segurança nacional de Trump.
2. Situação: crise de hegemonia nos mares do mundo. Quem garante o livre comércio?
O controle do comércio pelo poder marítimo (“Sea Power”) ocupa um lugar central na estratégia militar de Alfred Thayer Mahan. No século XXI, esse controle é exercido de forma generalizada, liderado pelo poder imperialista hegemônico dos Estados Unidos e mediado por instituições internacionais. Os Estados Unidos assumiram o papel de garantidor último (Ultimate Guarantor), militarmente por meio do controle das rotas marítimas e do escudo nuclear, e financeiramente como credor de última instância (lender of last resort).
Pois, afinal, quem garante que os automóveis da Alemanha cheguem em segurança à América do Sul, que os chips de computador de Taiwan cheguem à Europa e que o armamento dos Estados Unidos chegue à Ásia Ocidental? Quem garante que se obtenha algo em troca dos dólares e que não se seja invadido por uma potência regional caso se mantenha lealdade aos Estados Unidos?
Vejamos um exemplo atual:
No acordo de livre comércio — que ainda não havia sido assinado no momento do fechamento desta edição — entre o Mercosul e a União Europeia, as partes negociam a eliminação de tarifas entre a UE e Argentina, Bolívia, Brasil, Paraguai e Uruguai. Isso é ainda mais importante para eles, já que os Estados Unidos deixaram de ser um parceiro comercial confiável — sobretudo porque já não se alinham com a UE na questão da Ucrânia — e impõem tarifas cada vez mais elevadas aos Estados da UE, de maneira pouco previsível, inclusive por razões políticas. Isso prejudica os agricultores europeus, que ameaçam fazer fracassar o acordo — um elemento da luta de classes que resulta das distorções da ordem mundial.
Mas suponhamos que se chegue a um compromisso e o acordo seja concluído: quem garantirá então que as mercadorias sejam efetivamente transportadas e cheguem livres de tarifas?
Como resposta, poderia-se citar “o direito internacional”, “o direito marítimo internacional” etc. Mas todas essas são respostas fictícias, pois “a situação dos contratos internacionais congela por um tempo um determinado equilíbrio imperialista hegemônico”.[13] Se está claro quem faz cumprir o código de trânsito nas rotas terrestres de determinados países, não existe um ator policial desse tipo em nível mundial.
Os marxistas compartilham essa visão do mundo com neorrealistas como Sarah Paine, razão pela qual ambas as correntes podem chegar a conclusões em parte semelhantes, apesar de terem visões de mundo em parte opostas. O direito internacional encontra-se historicamente em posição fraca: as medidas da Corte Internacional de Justiça (CIJ) e do Tribunal Penal Internacional (TPI) contra Israel por genocídio, por exemplo, não apenas são ignoradas pelos Estados Unidos e pela Alemanha, como também são combatidas de maneira mais ou menos aberta; os Estados Unidos chegaram inclusive a impor sanções a juízas do TPI.
Isso não se aplica apenas ao nível superestrutural: na prática, os Estados Unidos também pisoteiam o direito marítimo internacional. A Marinha dos EUA, orgulho dos Estados Unidos, atua atualmente sob controle político do governo Trump como uma frota pirata sem disfarces, persegue barcos pesqueiros à vista de todos e massacra supostos náufragos antes de sequestrar um presidente.
Não se trata aqui de uma lamentação sobre a ilegalidade do exército norte-americano segundo o direito internacional. Os Estados Unidos só se preocuparam com o direito internacional quando isso lhes foi útil. Trata-se de uma análise do problema da hegemonia dos Estados Unidos como potência garantidora dos mares: assim, repete-se o tema das tarifas punitivas arbitrárias estabelecidas politicamente no mar por meio de pirataria repentina.
Como essa nação pode ser um “intermediário honesto” para os demais quando se trata de proteger o livre comércio? Todos os povos devem temer que suas mercadorias não cheguem ao destino, sejam confiscadas ou que, de repente, lhes sejam aplicadas tarifas arbitrárias. Dessa forma, os Estados Unidos estão colocando em risco seu papel de potência garantidora — provavelmente porque já não podem agir de outra maneira —, o que é um sinal não apenas de uma estratégia equivocada, mas sobretudo de sua fraqueza como potência hegemônica.
Outras potências percebem as mensagens da política de tarifas punitivas e do bloqueio à Venezuela e, no futuro, protegerão mais suas frotas mercantes. Isso representa um retorno à política naval do século XIX e do início do século XX, quando todas as grandes potências necessitavam de sua frota para garantir o comércio — só que nas condições do século XXI, com sua economia financeira e seu armamento nuclear. E as relações comerciais tornaram-se ainda mais importantes na globalização, sobretudo porque as cadeias de suprimento e produção se expandiram, e a rede de dependência da produção no exterior já não pode ser substituída, nem sequer por um breve período, por matérias-primas e meios de produção próprios.
Esse aparente anacronismo — o retorno à época dos grandes bloqueios e das guerras tarifárias — é acompanhado pela atualização da Doutrina Monroe por parte dos Estados Unidos: a concentração em seu próprio “quintal” imperialista, com a atual intervenção na Venezuela, mas também com um controle mais forte do Canal do Panamá, em vez de uma política mais orientada ao ultramar.
A Doutrina Monroe, modificada diversas vezes, estabelece que não se deve interferir nos assuntos europeus e que não se deve tolerar a ingerência da Europa nos assuntos americanos.[14] Trata-se, portanto, de uma política isolacionista, tal como prometeu o presidente Trump e tal como anunciou, de forma modificada, em sua nova “estratégia de segurança”.
Estratégia de segurança nacional: retorno ao poder terrestre com uma nova Doutrina Monroe?
A estratégia de segurança nacional do governo Trump, publicada em dezembro de 2025[15] [16], abrange cinco áreas do mundo:
Primeiro, o hemisfério ocidental — isto é, América e Caribe — que, com um corolário trumpista da Doutrina Monroe, passam a ser considerados mais do que nunca como seu próprio “quintal” e devem ser defendidos da influência externa, neste caso implicitamente da China como adversária.
Segundo, a Ásia: menciona-se em particular o controle sobre Taiwan como fabricante de semicondutores e como acesso à segunda cadeia de ilhas, bem como o controle sobre o Mar do Sul da China — também implicitamente dirigido contra a China nessa região do mundo.
Terceiro, a Europa: pretende-se alcançar aqui uma “estabilidade estratégica” com a Rússia; além disso, o governo Trump quer se opor à “perda de identidades nacionais” e à “extinção civilizacional” da Europa, isto é, promover um fortalecimento da extrema direita.
Quarto, o Oriente Médio: parte-se da premissa de que o aumento da produção energética própria dos EUA permite uma despriorização estratégica da região, onde os investimentos passam a ter maior importância; além disso, mantém-se a política dos Acordos de Abraão e busca-se assegurar o controle das rotas marítimas.
Quinto, a África: é o tema que recebe menos atenção no documento. Em vez de “difundir a ideologia liberal”, reforçar-se-á uma política de interesses norte-americanos com determinados Estados.
A estratégia de segurança norte-americana, com sua reiteração da Doutrina Monroe, não demonstra força, mas fraqueza dos EUA: com a diminuição da hegemonia norte-americana — que, como demonstra a ameaça de guerra contra a Venezuela, não pode ocorrer de forma pacífica — a potência hegemônica se retrai para sua própria esfera de influência sob o lema “America First”, onde também disputa poder com sua rival China, sobretudo porque a Venezuela faz parte desde 2018 da Rota Marítima da Seda (MSR), e a República Popular da China inquieta os EUA com suas relações econômicas em numerosos países latino-americanos.
No entanto, a atual repressão violenta pode empurrar ainda mais o Brasil para os braços de Pequim e, assim, produzir o efeito contrário ao desejado na grande estratégia.
Trump está reduzindo a prioridade de seus aliados europeus, ofendendo-os com sua política de segurança e de tarifas, e obrigando-os a uma reorientação que os afasta cada vez mais da antiga Pax Americana e os aproxima da multipolaridade de uma ordem mundial imperialista “neoclássica”, de alianças mutáveis. O chanceler alemão Friedrich “BlackRock” Merz ainda não quer reconhecer isso e, em sua avaliação da invasão da Venezuela, deixa um rastro de bajulação em relação a Washington — mas isso não restituirá o antigo papel da Alemanha como subordinada dos Estados Unidos.
A mudança também se reflete nos enormes gastos militares, sobretudo dos países europeus, que tentam compensar a retirada gradual dos EUA como potência garantidora. Por fim, a política oportunista de Trump na Ásia Ocidental e na África agravará os conflitos nacionais e de classe nessas regiões.
O problema subjacente à questão marítima entre Estados Unidos e China é a crise do conjunto da ordem capitalista “baseada em regras”: o livre comércio, a relativa independência dos bancos nacionais, a autoridade das organizações internacionais e a força coesiva das alianças ocidentais do século XX — todas até agora lideradas pelos EUA. Diante desse cenário mais amplo, a estratégia de segurança representa uma pretensão “pós-hegemônica” dos Estados Unidos, ainda que isso não seja admitido. Os objetivos são fixados em um patamar mais baixo.
Contudo, é preciso considerar uma limitação: o documento de estratégia de segurança é, antes de tudo, um documento do partido de Trump. Se os democratas chegarem à Casa Branca, a política mudará. O texto também é muito tático para um documento estratégico e não contém uma grande estratégia no sentido estrito. Trump substituiu a política de Estado por uma política partidária de curto prazo, como demonstra o fato de ter escrito insultos contra antigos presidentes nas placas comemorativas. Ainda assim, o trumpismo é uma expressão da impossibilidade de os Estados Unidos retornarem ao seu antigo papel na antiga ordem mundial.
Esse retorno tampouco é possível para a base da ordem mundial: as classes sociais. Na última seção nos ocuparemos delas, invisíveis para o neorrealismo, mas, em última instância, a força motriz da história.
3. Luta de classes pelos mares
Uma limitação fundamental da escola realista da ciência política é considerar os Estados como as unidades últimas do sistema mundial. Contudo, suas forças internas não podem ser explicadas além da ideia de que simplesmente aspiram à “prosperidade” ou à “segurança”. Mas isso sempre significa a prosperidade e a segurança de uma classe — e, no sistema mundial atual, com exceção de Cuba e Coreia do Norte, existem apenas Estados nos quais governa a classe capitalista.
O exemplo do acordo do Mercosul mostra que os agricultores (uma classe mista em si mesma) desempenham um papel na história quando os Estados capitalistas negociam o livre comércio.
A crise do sistema capitalista mundial não reside na necessidade de segurança dos Estados em si, mas tem origem na concorrência capitalista entre capitalistas, que, no imperialismo, competem entre si em blocos para repartir constantemente o mundo e seus lucros[N3]. Para isso, são impulsionados pela tendência à queda da taxa de lucro e pelas crises de superacumulação e superprodução, que conduzem a recessões e colapsos econômicos recorrentes.
Ou seja, não é o desejo de território em si nem a prosperidade por meio do comércio em si que determinam as potências terrestres e marítimas no capitalismo, mas a necessidade de gerar lucro. As categorias mahanianas de geografia, governo e comércio desempenham um papel no sistema mundial, mas a categoria de “caráter nacional” de Alfred Thayer Mahan não consegue apreender adequadamente as condições capitalistas do sistema mundial (Carl von Clausewitz já enfrentara problema semelhante).
Há duas condições negligenciadas na visão (neo)realista:
Primeiro, os países capitalistas não são internamente unificados, mas representam tanto os interesses coletivos dos capitalistas de todo o país — por meio do “capitalista ideal” — quanto os interesses imediatos de capitalistas individuais (como, por exemplo, os capitalistas do setor energético frente à Venezuela). Se o lucro é suficientemente elevado ou está ameaçado, não há risco alto demais para o capital de um capitalista. Em última instância, as guerras tornam-se inevitáveis quando as margens de lucro tendem a zero ou quando a produção se superaquece.
Isso já era intuído pelo almirante Alfred Thayer Mahan, formado no lado dos estados do Norte durante a Guerra Civil norte-americana, quando considerava a guerra não apenas legítima, mas imperativa em determinadas condições, como a prosperidade da nação.[17]
Assim, os capitalistas dos EUA já não podem resolver seu problema estrutural apenas por meio do comércio mundial, mas também precisam atuar como “potência terrestre” no sentido de Mahan. A política agressiva dos EUA em relação a vizinhos como Groenlândia, Canadá e México não é apenas resultado de um pensamento estrategicamente equivocado do governo e de sua administração — aqui o idealismo se esconde no neorrealismo! —, mas também uma simples expressão da concorrência capitalista de todos contra todos.
Esse princípio foi apenas amortecido — nunca eliminado — pela anomalia da ordem mundial de Yalta e pela fase intermediária de relativa unipolaridade dos EUA até 2008. Da mesma forma, o comportamento agressivo da China em relação a seus vizinhos não é apenas um problema de pensamento continental, mas também de concorrência capitalista. Em segundo lugar, não são os Estados que, em última instância, fazem a história, mas sim as lutas de classes. Os Estados são o resultado e o instrumento das lutas de classes, mas não a força motriz da história em si. O encanto do neorrealismo durante a ordem de Yalta consistia em poder ignorar as contradições internas dos Estados e considerar tanto os Estados capitalistas quanto os Estados operários como as últimas e verdadeiras unidades do sistema mundial. Esse pensamento também correspondia ao compromisso de classe em nível mundial. Nele existiam sistemas concorrentes, mas a teoria stalinista do “socialismo em um só país” permitiu ao imperialismo um respiro e prosperidade por um período, ao sufocar as revoluções socialistas no pós-guerra. Com o fim da ordem de Yalta em 1990, o capitalismo se normaliza após um período de transição de lucros extraordinários derivados da restauração capitalista (“momento unipolar” da ordem mundial). A ordem mundial capitalista retorna, assim, a um sistema cada vez mais anárquico.
Cada ação dos capitalistas — algo que os neorrealistas não conseguem explicar — tem como consequência ações de sua classe antagonista, os trabalhadores. Estas podem ir desde greves até revoluções, passando por levantes populares e revoltas, do âmbito nacional ao local e internacional. Os conflitos de classe e as questões democráticas tornam-se antagônicos quando são liderados pela classe trabalhadora, como as greves gerais na Itália em solidariedade à Palestina no outono de 2025. Seu ponto de partida foi o genocídio contra a Palestina. Em entrevista sobre seu artigo, Paine critica o governo de Netanyahu por preocupar-se mais com sua própria sobrevivência do que com o bem-estar da nação, o que certamente não é totalmente infundado. No entanto, deixa de lado que o governo israelense de extrema direita é resultado de contradições insolúveis da ocupação por parte do próprio sionismo, que por sua vez é fruto da redistribuição imperialista do mundo em condições capitalistas. Aqui também se torna evidente o idealismo do neorrealismo, pois não é possível oferecer uma explicação material definitiva das ações em parte irracionais dos governos sem compreender as contradições do capitalismo em sua etapa final, o imperialismo. Esse genocídio, por sua vez, deu origem a um dos maiores movimentos juvenis mundiais das últimas décadas em solidariedade à Palestina.
Uma luta local na Palestina tornou-se internacional, uma luta democrática converteu-se em luta de classes, no sentido da teoria da revolução permanente. Porque também para os trabalhadores e trabalhadoras vale o seguinte: o mar em si pode não pertencer permanentemente a ninguém, mas os portos sim. A aliança dos trabalhadores portuários com a flotilha global Sumud tornou possível a aplicação de elementos da revolução permanente. Na flotilha, centenas de ativistas solidários com a Palestina, entre eles italianos, navegaram em uma ação coordenada com suprimentos de ajuda para Gaza. Os trabalhadores portuários de Nápoles já haviam anunciado previamente sua intenção de paralisar a Itália caso as forças armadas israelenses os atacassem. Depois que o exército israelense capturou a flotilha em violação do direito marítimo internacional e sequestrou e maltratou os ativistas, os trabalhadores portuários da Itália cumpriram sua promessa: junto com a juventude, lideraram duas greves gerais em todo o país, e a pressão da campanha foi tão grande que até as burocracias sindicais tiveram de mobilizar-se contra sua vontade. A greve geral não apenas permitiu confrontar a colaboração do imperialismo no genocídio, como também possibilitou que trabalhadores e jovens passassem à ofensiva contra o governo de direita e as leis repressivas, antigreve e antibloqueio. Uma luta por direitos democráticos e contra o imperialismo na periferia havia dado origem ali, graças à intervenção consciente e dirigente da vanguarda operária, a uma luta de classes no centro imperialista: a revolução permanente em ação.
Provavelmente não é coincidência que o impulso para a greve geral na Itália tenha vindo do porto, já que o setor marítimo do trabalho está submetido a grandes transformações. Assim, os portos atravessam mudanças profundas devido aos avanços na automação, à perda relativa de importância dos portos ocidentais frente aos asiáticos (e especialmente os chineses), até o papel dos portos como porta de entrada da influência chinesa no exterior (tanto no imperialismo concorrente, como Hamburgo; anteriormente, como precedente, Atenas, quanto no semicolonial, como Bagamoyo, na Tanzânia). Ainda mais diretamente afetados estão os marinheiros, em sua maioria do Sudeste Asiático, que pagam o preço da crescente insegurança no mar, enquanto as tendências à desglobalização não levam, de forma alguma, à dissolução das estruturas de propriedade e posse na navegação mercante. Para esse setor da classe trabalhadora internacional é especialmente importante desenvolver um programa independente que não se subordine a uns ou outros exploradores, sobretudo considerando que, na ordem mundial, é de se esperar mais guerras comerciais e intervenções que afetarão especialmente os trabalhadores marítimos, e nas quais estes podem desempenhar um papel particular como vanguarda da classe trabalhadora internacional.
Há duas principais linhas de direção reformista da classe trabalhadora que minam a necessária independência da classe trabalhadora em relação à burguesia: o multilateralismo burguês e o campismo. Enquanto o multilateralismo burguês, nos termos de Paine, insere-se mais na lógica da potência marítima e oferece — sob a hegemonia do maior imperialista — uma prosperidade capitalista pacífica às custas dos explorados e oprimidos, o campismo insere-se mais na lógica das potências terrestres, que veem um jogo de soma zero entre dois ou mais blocos capitalistas e se colocam ao lado de um deles. O multilateralismo encontra-se, por exemplo, na fé na União Europeia por parte de uma parcela da esquerda, e também, em parte, na fé nas Nações Unidas e no direito internacional como instância superior que traria justiça. Essa perspectiva foi enfraquecida mundialmente pelo trumpismo, mas na Alemanha continua sendo a doutrina oficial do reformismo, do SPD aos Verdes e ao Partido Die Linke, assegurando assim a lealdade de sua base. O campismo está mais presente no (pós)stalinismo, em setores do maoísmo ou na Aliança Sahra Wagenknecht (BSW), como herdeiros especialmente direitistas do stalinismo, que consideram Rússia ou China como aliadas contra o imperialismo estadunidense. A lógica do campismo voltou a fracassar recentemente na Venezuela. Ali, o regime, por muito tempo elogiado pelo campismo como anti-imperialista, acaba de capitular diante dos Estados Unidos: a vice-presidente Delcy Rodríguez anunciou a cooperação com os Estados Unidos.
As duas faces da mesma moeda — o multilateralismo burguês e o campismo — subordinam a classe trabalhadora aos líderes burgueses e a entregam a seus inimigos, sejam os capitalistas do Ocidente ou do Oriente. Uma posição independente da classe trabalhadora, ao contrário, aproveita suas próprias posições estratégicas na produção e no comércio, como nos portos, para pôr fim aos capitalistas em todo o mundo e se aliar aos oprimidos do planeta. O bloqueio de armas e mercadorias destinadas a guerras imperialistas, assim como a organização de apoio aos trabalhadores e oprimidos que são atacados, como na Venezuela ou na Palestina, pode apontar uma saída «contagiosa» da classe trabalhadora para as guerras e crises capitalistas. Para isso, os trabalhadores necessitam de consignas transitórias, começando pela abertura dos livros contábeis e pela marcação dos envios de armas, para que possam decidir sobre o transporte. Essas demandas transitórias podem ser o primeiro passo rumo a greves portuárias contra o envio de armas a guerras imperialistas e genocídios, assim como rumo ao controle e, em última instância, à gestão do tráfego de mercadorias pelos próprios trabalhadores, sob a direção de outros setores da classe trabalhadora e em aliança com os povos oprimidos.