Há um paralelo entre a conduta da China e a máxima atribuída a Napoleão Bonaparte, ao observar os austríacos abandonarem uma posição favorável em Austerlitz: “Nunca interrompa seu inimigo quando ele está cometendo um erro”.
A China aderiu a esta peça de sabedoria política. Assistiu a Donald Trump deslizar em seus equívocos, e agravar o declínio estratégico dos Estados Unidos, em meio à agressão imperialista contra o Irã. Como diz o The Economist, “Nem todas as guerras têm um vencedor. Mas toda guerra tem pelo menos um perdedor e, se o cessar-fogo marcar o fim da guerra no Irã, o maior perdedor será Donald Trump."
À parte inconvenientes, a China é até agora a maior beneficiária da guerra. Mais do que o prejuízo temporário real no seu fluxo energético, para Xi Jinping importa fazer os EUA saírem mal do conflito.
É o que se desenha neste momento. Trump chega ao frágil acordo de interrupção de hostilidades em uma posição de desvantagem de negociação, sem conseguir alcançar os objetivos políticos estabelecidos, exibindo os limites da coerção militar estadunidense, e na condição de espectador do controle militar do Irã sobre o estratégico Estreito de Ormuz.
Mas a China foi também indispensável para a conclusão do acordo de cessar-fogo, influenciando decisivamente a mediação do Paquistão. Por quê? Cada etapa da guerra tem sua própria lógica. A China não assistiu aos erros de Trump passivamente, e nem desejou que este mergulho no abismo chegasse às últimas consequências numa região em que possui alto interesse estratégico.
A China quer um Oriente Médio desimpedido para negócios
Uma coisa é assistir ao seu maior rival afundar-se em território iraniano; outra é permitir que essa autodegradação estratégica atinja os sérios interesses econômicos da China no Oriente Médio. É neste contexto que Pequim complementou sua política: a pressão para que o Irã aceitasse um acordo que, nas condições atuais, nasceria necessariamente desvantajoso aos Estados Unidos, e que pudesse evitar uma maior escalada. Mais que isso, o cessamento da guerra oferece ao capitalismo chinês colher os frutos de mais um capítulo da desmoralização imperialista no Oriente Médio.
Após o fracasso dos bombardeios iniciais em alcançar o “regime change”, e a reabertura do escoamento energético do Golfo, o relógio estratégico passou para as mãos de Teerã. Carpe diem para a China. O país agarrou o momento, contribuindo nos bastidores para sustentar o esforço de Teerã, assim como havia feito em favor da Rússia contra a Ucrânia. Com ares de neutralidade, Pequim se converteu em um fornecedor-chave de percloratos essenciais para a produção de propelentes sólidos para mísseis, assim como de microeletrônica e módulos de satélite BeiDou 3 (o sistema chinês de GPS para ataques de precisão) para que o Irã atingisse alvos estadunidenses e de seus aliados regionais. Para todos os efeitos, a China auxiliou o Irã no fechamento do Estreito de Ormuz.
A situação mudou de figura para os chineses quando Trump ameaçou aniquilar a infraestrutura elétrica iraniana, caso um acordo não fosse atingido. As consequências da destruição das fontes de energia que abastecem o funcionamento do sistema de extração e refino de petróleo e gás natural (como a usina térmica de Damavand, ou a usina nuclear de Bushehr) trariam enormes problemas para a China. A retaliação sobre o conjunto da infraestrutura energética do Oriente Médio - a Cidade Industrial de Ras Laffan, no Catar, maior centro mundial de produção e exportação de gás natural, ou o Campo petrolífero de Ghawar, na Arábia Saudita - alteraria o equilíbrio econômico de todo o mundo por um período indeterminado.
A ameaça de escalada é um problema para a China. Em primeiro lugar, porque poderia garantir aos EUA algo que até então fora incapaz de assegurar: o precedente da abertura forçada do Estreito de Ormuz. O principal responsável pela política externa chinesa, Wang Yi, fez uma série de ligações para seus homólogos na região enfatizando a necessidade de um cessar-fogo e de que os países não recorressem à força para reabrir o estreito. A China vetou junto à Rússia uma resolução permissiva dessa natureza na ONU. Esse acontecimento poderia encorajar ameaças extremistas similares dos Estados Unidos em cenários de guerra futuros, como na Ásia-Pacífico.
A principal preocupação, entretanto, é econômica. Apesar de grande produtora, a China importa mais de 70% do petróleo que consome (11 milhões de barris por dia), e 40% dessas importações vêm do Oriente Médio passando por Ormuz. A China é a maior compradora de petróleo iraniano (13% de suas importações marítimas vem do país através de Ormuz), assim como fertilizantes e insumos estratégicos como o gás hélio, um subproduto da produção de gás natural, que é crítico para a fabricação de semicondutores e tecnologias para Inteligência Artificial. Um conflito prolongado poderia não só comprometer rotas comerciais e elevar os custos de importação, mas acarretar em problemas de abastecimento para a indústria de alta tecnologia na China. Ao pressionar pelo cessar-fogo, Pequim protegeu não apenas sua relação estratégica com Teerã, mas também sua segurança energética.
Além disso, a decisão de atuar reflete uma estratégia política mais ampla: evitar que o Oriente Médio mergulhe em instabilidade, proteger seus interesses econômicos e consolidar sua imagem como contrapeso à hegemonia dos EUA. Os investimentos econômicos da China no Oriente Médio são vastos e multifacetados, abrangendo energia, infraestrutura, tecnologia e finanças, e constituem um pilar fundamental da Nova Rota da Seda. Na Arábia Saudita, a China investiu bilhões em projetos petroquímicos e empreendimentos de energia renovável, alinhando-se à Visão 2030 de Riyadh enquanto garante suprimentos de petróleo de longo prazo. Nos Emirados Árabes Unidos, os investimentos chineses abrangem a produção de veículos elétricos, a aviação e a tecnologia digital. No Catar, acordos de fornecimento de gás natural envolvem a propriedade de campos de extração, como o de North Field East e North Field South.
O interesse em assegurar o fornecimento de matérias-primas do Irã, da Arábia Saudita, dos Emirados Árabes, do Catar e também de Israel - a China se tornou a maior exportadora de mercadorias para Tel Aviv, e tem investimentos em portos e ferrovias de alta velocidade dentro desse enclave colonial genocida - coloca o Oriente Médio como a segunda zona de influência mais importante para Pequim, junto à África. Não interessa a Pequim ver a destruição, por longos anos, de uma infraestrutura da qual se beneficia cada vez mais.
Não menos importante é a possibilidade de avançar o intercâmbio em yuans nas transações energéticas. Alguns já se referem ao fenômeno como o petroyuan. Sem a capacidade de deslocar ainda a posição hegemônica do dólar, a China aproveita o caos causado pelos Estados Unidos para avançar na utilização de sua moeda. O Sistema de Pagamentos Interbancários Transfronteiriços da China (CIPS) registrou recentemente um valor de transações em um único dia de 1,22 trilhão de yuans (US$ 178,5 bilhões), em boa medida tendo como origem o Oriente Médio. O Irã é um dos países convencidos a utilizar o yuan como forma de atenuar o efeito das sanções por parte de Washington.
Como afirma Federico Fubini ao Le Grand Continent, “O dólar se mantém firme por razões estruturais muito reais, mas que não são motivos de confiança, já que não há alternativa. Essa resistência por falta de alternativas é frágil, pois se baseia mais no custo de saída do que na confiança na solidez do emissor. No entanto, esse custo não é fixo. Ele diminui à medida que as alternativas se fortalecem, ainda que lentamente. Cada contrato de petróleo firmado em yuans, cada reserva central parcialmente reconstituída em ouro, cada acordo bilateral denominado em renminbi reduz imperceptivelmente esse custo. O processo é lento, invisível nos mercados cotidianos”.
As dificuldades da China ficam obscurecidas pelos erros não forçados de Trump. Em meio aos preparativos de cessar-fogo, Xi Jinping exigiu aos comandantes militares chineses assumirem a liderança na “restauração e promoção das boas tradições do Partido e do Exército”, abandonarem as “posturas equívocas” e permanecerem fiéis à identidade nacional. O problema “Zhang Youxia” parece ter ficado em segundo plano. Mas a formação de generais leais, e a ausência de especialistas e militares de carreira no Comitê Militar Central, parecem itens sem solução à vista para um país com objetivos expansionistas na Ásia-Pacífico e sobre Taiwan.
Talvez mais que a máxima de Napoleão, a China segue uma diretriz clássica de Sun Tzu: derrotar o inimigo em cem batalhas não é a excelência suprema; a excelência suprema consiste em vencer o inimigo sem ser preciso lutar. Consegue a façanha por cortesia de Trump. Os próximos episódios dirão que grau de avanço o reacionário capitalismo chinês terá sobre as posições tradicionais do imperialismo estadunidense no Oriente Médio.