Uma enorme vitória diante da repressão. Foi cumprida a promessa. Enquanto os estivadores italianos e a USB (Unione Sindacale di Base) [União Sindical de Base - NdT] haviam anunciado que responderiam com greve e métodos de luta de classes em caso de ataque à Global Sumud Flotilha, um dia de greve geral selvagem ocorreu em toda a Itália, nesta sexta-feira, 3 de outubro. Uma mobilização ainda mais massiva do que a de 22 de setembro, que já testemunhava o retorno do movimento operário italiano com força no cenário europeu.
Apesar das intimidações do governo e da tentativa de declarar a greve ilegal, a USB e os estivadores conseguiram colocar os trabalhadores italianos em greve e nas ruas, enquanto arrastavam a CGIL (Confederazione Generale Italiana del Lavoro) [Confederação Geral Italiana do Trabalho - NdT] e outros sindicatos para a batalha: segundo os números preliminares, mais de dois milhões de pessoas se manifestaram hoje, enquanto a metalurgia, o setor logístico e a educação estiveram especialmente mobilizados. Uma demonstração de força operária à qual se uniu o movimento estudantil, que saiu massivamente às ruas em solidariedade com a Flotilha e o povo palestino.
Da logística aos transportes, passando pela educação
A greve geral colocou em movimento os setores de saúde, educação, logística e transportes (dos portos e estações ferroviárias ao pessoal das rodovias, táxis e tráfego aéreo), com imensas manifestações em mais de 70 cidades italianas. A confederação Fiom-CGIL anunciou uma forte adesão dos metalúrgicos também, com taxas de greve superiores a 80% em algumas empresas.
Quanto ao setor de transportes, a greve dos ferroviários foi desencadeada por 24 horas, das 21h de 2 de outubro até 21h de 3 de outubro. Os trens de longa distância não foram impactados, mas os ônibus, bondes e metrôs de todo o país foram afetados, ao contrário do que aconteceu em 22 de setembro. Em Roma, onde a CGIL anunciou um manifestações de 300.000 pessoas, que também subiu pela rodovia A24, paralisando todo o tráfego na província, a estação Termini não foi ocupada pelos manifestantes como em 22 de setembro, mas cancelamentos e atrasos superiores a 150 minutos foram anunciados, enquanto em Milão Central, atrasos de mais de cinco horas foram registrados em algumas linhas.
Em Gênova, as entradas do porto foram fechadas desde o início da manhã, enquanto a administração fechou trechos da rodovia que passavam pela cidade e os manifestantes ocuparam a estação Sampierdarena e a estação Principe. O porto comercial de Salerno também foi fechado, com os manifestantes ocupando a rodovia para paralisar o tráfego, e o mesmo aconteceu no porto de Ancona pela tarde.
Em Vicenza, uma manifestação bloqueou um dos cruzamentos da rodovia A31, enquanto em Perugia, cerca de 5.000 manifestantes se dirigiram para as plataformas da estação ferroviária. Apesar da presença massiva das forças de polícia, os manifestantes também bloquearam o entroncamento da rodovia em Pescara, onde os motoristas manifestaram seu apoio ao buzinarem e aplaudirem os manifestantes.
Em Milão, uma parte da manifestação de 100.000 pessoas – com exceção da seção da CGIL – tomou a rodovia periférica, enquanto em Bolonha, a rodovia periférica e a rodovia A14 foram ocupadas.
Em Nápoles, uma maré humana (80.000 pessoas) se dirigiu ao porto: os manifestantes ultrapassaram o bloqueio policial caminhando com as mãos levantadas e ocuparam a infraestrutura estratégica. Em Livorno, desde a manhã o tráfego comercial foi completamente bloqueado na entrada e saída do porto, enquanto barreiras e incêndios no grande cruzamento rodoviário em frente impediam também a passagem dos veículos transportando passageiros para os ferries. Até mesmo em Trieste, um protesto de 500 manifestantes – cujo número aumentou ao longo do dia – bloqueou o porto desde a manhã, fechando a principal via de acesso.
Em Pádua, por outro lado, milhares de pessoas convergiram para o Interporto (vila de carga), tentando bloquear a estrutura que abriga várias empresas cúmplices do genocídio em Gaza devido às suas relações com Israel. A polícia respondeu com canhões de água e gás lacrimogêneo. Finalmente, em Pisa, os manifestantes bloquearam o aeroporto Galileo Galilei, onde realizaram um protesto pacífico.
Por sua vez, a companhia Ryanair desviou 26 voos do aeroporto de Bolonha para Forlì, para evitar as repercussões da greve: o secretário-geral da CGIL de Bolonha denunciou esse ato e declarou que "nada ficará impune".
Enquanto isso, a rodovia de quatro faixas Florença-Pisa-Livorno foi bloqueada pelos manifestantes nos dois sentidos, paralisando o tráfego regional na Toscana, enquanto a organização Giovani Palestinesi anunciou o bloqueio da plataforma logística de Pioltello, nos arredores de Milão, "uma das principais centros da indústria bélica no norte da Itália", onde operam empresas que têm sangue palestino nas mãos, como a Logtainer, uma empresa afiliada ao gigante do transporte de contêineres Maersk, no centro de uma campanha internacional de boicote.
Quanto ao setor da educação, a greve foi massiva e a maioria dos colégios e escolas na Itália estavam fechados. Entre outros, a sede universitária de Palazzo Nuovo em Turim, a Sapienza em Roma, a Alma Mater em Bolonha, a Normale em Pisa, a Statale em Milão, bem como uma infinidade de colégios em todo o país foram ocupados. A participação dos estudantes foi considerada impressionante por todos os grandes jornais do país: hoje, a geração Z fez volume nas ruas.
Manifestações em todo o país
Em Turim, os organizadores falam de 70.000 pessoas manifestando, com diversas ações diante da sede da Amazon, do tribunal de justiça e da Officine Grandi Riparazioni (OGR), o estabelecimento que Jeff Bezos e Ursula Von der Leyen estavam visitando na Italian Tech Week. Já na noite de 2 de outubro, enquanto mais de 20.000 pessoas desciam às ruas pela Flotilha, alguns manifestantes já haviam invadido o complexo industrial OGR em protesto contra o evento, enquanto outros ativistas de bicicleta conseguiram entrar na pista do aeroporto de Caselle, causando uma suspensão temporária do tráfego aéreo, e bloquearam a rodovia Turim-Savona. No dia 3 de outubro, por outro lado, militantes do sindicato SiCobas bloquearam o centro de distribuição da Amazon em Brandizzo, enquanto outros confrontos com a polícia ocorreram do lado de fora da OGR, totalmente barricada.
Em Florença, o secretário regional da CGIL fala de 100.000 pessoas: algo nunca visto, segundo ele, desde as manifestações do movimento No Global em 2002. Vários manifestantes colocaram barreiras nas plataformas da estação ferroviária Campo di Marte para impedir a circulação dos trens.
Em Palermo, os números também são históricos – 30.000 pessoas, segundo os organizadores – no comício diante da estação central, enquanto no restante da Sicília, as manifestações também afetaram Catania, onde os manifestantes ocuparam a estação, e Messina. Na Sardenha, 30.000 pessoas em Cagliari e mobilizações em toda a região. Mesmo na Calábria, uma região geralmente isolada dos movimentos políticos, vários protestos foram chamados em Catanzaro, Reggio Calabria, Vibo Valentia, Cosenza, Crotone e Lamezia Terme, totalizando 15.000 pessoas, segundo a CGIL.
Por outro lado, na frente da manifestação de várias milhares de pessoas que desfilaram nas ruas de Bari, na Apúlia, não estavam os sindicatos, nem as instituições, nem os partidos, que ficaram reservados para o final da manifestação, mas sim a comunidade palestina e os estudantes do ensino médio, os grandes protagonistas dessa mobilização. No aeroporto de Bari também, dois voos de chegada foram cancelados devido à greve.
Em Veneza, onde quase todos os trens de chegada e partida foram cancelados, houve duas marchas, uma de Mestre e outra do centro da cidade: o plano era se encontrar na Ponte della Libertà, bloqueando a estrada que a atravessa e conecta a ilha à terra firme.
Em Bolonha, até mesmo os detentos empregados pela empresa "Fare impresa" da prisão de Dozza entraram em greve, renunciando não só ao salário, mas também à liberdade, pois para eles, um dia de trabalho lhes permite sair ao ar livre e escapar de um dia de confinamento.
Contra o genocídio e seus cúmplices
Uma vitória importante enquanto o governo, Salvini e Meloni tentavam criminalizar a greve. De fato, a Comissão de Garantia considerou a greve selvagem de 3 de outubro ilegal, expondo as organizações sindicais que participaram a possíveis sanções, enquanto Giorgia Meloni critica os trabalhadores insinuando que a greve de sexta-feira não tinha outro objetivo senão prolongar o fim de semana: as últimas medidas desesperadas de um governo agora encurralado. Os principais sindicatos não recuaram diante das intimidações e, mesmo assim, lançaram o chamado.
Uma tentativa de repressão que ilustra o apoio incondicional de Giorgia Meloni ao genocídio em curso em Gaza. O regime italiano que mantém o omertà sobre a questão palestina e mantém laços criminosos com o projeto de colonização em andamento do outro lado do Mediterrâneo. Com a ajuda de uma oposição dócil, o governo Meloni defendeu o genocídio em curso e se posicionou como o núcleo duro da internacional reacionária na Europa: votando a favor de Israel na Assembleia das Nações Unidas, difundindo teorias conspiratórias sobre a "islamização da Europa", adotando medidas islamofóbicas, como o controle das mesquitas no país, até a repressão das vozes pró-palestinas e os casos de espionagem política das forças de oposição, como a infiltração de cinco agentes da esquadra antiterrorista de Cambiare Rotta e Potere al Popolo nas organizações de esquerda radical vinculadas ao sindicato USB. Deve-se lembrar também que hoje, a Itália é o terceiro maior exportador de armas para Israel, depois dos Estados Unidos e da Alemanha.
Em todas essas ocasiões, os dirigentes italianos mostraram que estavam mais preocupados com as relações diplomáticas com Donald Trump e Benjamin Netanyahu. Impulsionada pela pressão do movimento de massa e dos dias de greve para mudar sua posição, enviando fragatas militares para escoltar a Flotilha, Meloni rapidamente voltou aos velhos hábitos, ordenando à marinha que voltasse antes do ataque israelense, enquanto pedia aos ativistas que voltassem atrás. Uma sabotagem frente ao qual o povo italiano disse hoje basta.
Não importa que a greve não tenha sido declarada legítima, não importa a aplicação anticonstitucional do famoso decreto de segurança, uma medida quase à beira da perseguição política pela qual o governo Meloni criminalizou a dissidência, intensificando a repressão legal contra as manifestações, a resistência às forças de ordem, os bloqueios de estradas, as ocupações e os bloqueios de infraestruturas estratégicas: nada disso impediu a classe trabalhadora italiana de se organizar para descer às ruas e bloquear tudo, bloquear tudo, mais uma vez.
"Avanti!"
E não para por aí: amanhã, 4, uma manifestação nacional foi convocada em Roma, enquanto a iniciativa lançada pela USB "100 piazze Gaza" [100 praças Gaza - NdT] continua, com ocupações permanentes e acampamentos de tendas nas principais praças de todas as cidades italianas. Os portos de todo o Mediterrâneo estão se coordenando para bloquear cada contêiner com destino a Israel, seguindo o exemplo dos estivadores italianos, com resultados notáveis. Diversos sinais encorajadores também vêm do setor aéreo, como os comunicados dos trabalhadores da CGT, Sud e Solidaires exigindo a interrupção das entregas de armas a partir da plataforma do aeroporto Roissy Charles-de-Gaulle em Paris.
A classe trabalhadora mostra o caminho, na Itália. Enquanto a mobilização desta sexta-feira deu ao movimento pela Palestina um caráter massivo, inédito em 2 anos, ao mesmo tempo que o fortaleceu com a greve e os métodos da luta de classes, tudo deve ser feito para que os trabalhadores franceses se juntem à batalha por Gaza, ampliem ainda mais e enviem uma mensagem ao mundo inteiro: o movimento operário não deixará Israel massacrar impunemente o povo palestino.