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Um negro a menos

29.03.2026

Parte da edição: 29.03.2026

Para os moradores dos bairros periféricos do imenso Brasil, a pena de morte está sempre presente, tanto quanto a pena de vida. E o necrotério nunca está muito longe.

As más notícias chegam inevitavelmente de madrugada. Elas têm a noite inteira para fermentar e apodrecer. Uma chamada em grupo no WhatsApp da família só pode anunciar uma tragédia. Foi nessa madrugada que soube que a polícia ou um esquadrão de extermínio (que diferença faz?) havia assassinado o filho da minha prima. Isso aconteceu na Bahia, no nordeste brasileiro. Lá onde milhões de africanos negros, sequestrados na África, eram desembarcados. Lá onde a terra é vermelha e quente, como o sangue que escorria das costas laceradas dos escravos rebeldes punidos por seus senhores e opressores europeus.

O que isso tem a ver? Tudo. A abolição da escravidão, para a maioria dos negros desses lugares, não significou nada além de morrer de fome em liberdade. Cada geração representava um elo frágil castigado pelo tempo, despojada de sua identidade cultural, alienada por religiões impostas, enquanto sua própria interpretação religiosa era criminalizada. Nascer, carecer de quase tudo, com sorte um pouco de escola, certamente muitas dificuldades, ainda mais violência, sem futuro, sem esperança sequer, torrentes de suor, algumas pequenas alegrias, dor, morrer ou ser morto.

Não foi diferente para o filho da minha prima. Ele tinha um nome muito bonito. Era jovem, tinha um sorriso alegre. Ele não era inocente, mas foi, acima de tudo, uma vítima. Uma vítima de todo um sistema. Mas talvez ele nunca tenha sabido disso. Cinco homens encapuzados, na casa dele, encarregaram-se de exterminá-lo. A polícia ou um esquadrão, que diferença faz? “A vida da criminalidade”, dizem, para desculpar, para legitimar, para mudar de assunto. Primeiro, deixam você morrer de fome; depois, amontoam toda a miséria no mesmo lugar; em seguida, usam alguns jovens para vender isso ou aquilo, mas principalmente para lucrar; jovens dos quais já tiraram toda a possibilidade de se tornarem o que sonham ser; jovens que são jogados no pântano do cinismo e do niilismo. Mas jovens que, mesmo assim, sonham um pouco, jovens que sorriem, jovens que amam e são amados. Jovens que não conseguem escapar. Jovens que são mortos porque é preciso “restaurar a ordem” ou porque não há mais espaço na prisão ou porque é preciso “vingar um camarada caído” ou porque, para eles, não valem nada e têm total impunidade para fazer o que bem entenderem. Um negro a menos, o que isso importa, não é mesmo?

Os cinco homens encapuzados encarregaram-se de desfigurá-lo, de atirar em seu rosto, a última humilhação para a última despedida daqueles que ficam, daqueles que mais sofrem. Daquelas que mais sofrem. Pois nesta “terra de homens que matam”, são as mães, as avós, as tias e as irmãs que mais sofrem. Sua irmã viu tudo, viveu tudo. Ele pediu para não ser morto na frente dela. Será que o sofrimento dos negros alguma vez lhes importou? Um tiro na cabeça. Porque é assim que se mata os negros, principalmente os pobres, por lá.

“É preciso exigir justiça! Mas ele era um criminoso…”

Não! Os criminosos são aqueles que lucram com a manutenção de milhões de pessoas na miséria, aqueles que fazem delas peões descartáveis, passíveis de serem mortos, aqueles que nos falam de “segurança” e que comemoram o assassinato de cada jovem como se fosse um gol na final da Copa do Mundo. Pois para os moradores dos bairros periféricos do imenso Brasil, a pena de morte está sempre presente, tanto quanto a pena de vida. E o necrotério nunca está muito longe: bala perdida, bala que atinge o alvo, faca, brigas, acertos de contas, polícia, forças especiais, esquadrões de extermínio.

Ironicamente, esse assassinato ocorre na mesma semana em que as Nações Unidas declaram que o tráfico de africanos negros constitui o “mais grave crime contra a humanidade”. São mais de 400 anos de escravidão direta e quase dois séculos sofrendo suas consequências: racismo, exclusão social e econômica, milhões de mortos de fome, violência estatal e de seus paramilitares, mas também violência patronal e superexploração.

Essa declaração não vai mudar a vida de nenhum negro.

Ela não vai apagar nenhum sofrimento. Mas ela estabelece a ligação entre esses mais de 400 anos de escravidão e o assassinato desse primo, negro, que mal havia saído da adolescência; ela explica sua curta vida. O governo brasileiro votou a favor dessa resolução na ONU. No entanto, para o Estado brasileiro, esse primo de belo nome e sorriso cheio de vida não passará de um número, de mais um negro a menos. Ele não irá atrás de quem se esconde por trás das capuzes, de quem arma essas gangues, de quem financia o tráfico, de quem lucra muito com isso. Os delinquentes da classe burguesa, por sua vez, não correm o risco de ter a cabeça explodida em sua sala de estar ou em seu quarto. Esses senhoritos nem mesmo são incomodados pela justiça deles; e se lhes acontecer a infelicidade de serem desmascarados, são convocados de maneira civilizada aos tribunais, onde são tratados de “doutor” antes de serem julgados por seus pares.

Para eles, um negro a mais ou a menos tanto faz. Mas essa história ressoa pelo mundo, nas ruas da periferia das grandes cidades nos quatro cantos do mundo, onde o capitalismo amontoa a miséria de todas as cores e crenças. Um dia, será nesses bairros operários e populares que o punho enfurecido se erguerá para agarrar a Hidra pela cabeça e cortá-la. Esse dia chegará.

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Luta Negra