1) Nas últimas décadas vimos a expansão do chamado setor de serviços em detrimento do setor industrial fabril em muitos países centrais para o capitalismo e mesmo em países periféricos como o Brasil (sempre importante relativizar esse fenômeno a partir do olhar da totalidade, levando em consideração a expansão industrial em países como a China e os do sudeste asiático). Como vê essa transformação?
Há uma tendência mundial de expansão quantitativa da força de trabalho alocada no chamado setor de serviços em detrimento de uma diminuição relativa da classe trabalhadora no setor fabril. Isso não quer dizer que o setor fabril seja menos relevante para a alocação de força de trabalho, sendo apenas a expressão mais visível de um processo histórico que ocorre há séculos na fábrica: as constantes e intensas transformações na produtividade do trabalho fabril, que tendem a reduzir parte do trabalho vivo, posteriormente realocado no setor de serviços. Diferentemente, apenas muito recentemente o setor de serviços como um todo passou a apresentar incrementos de produtividade relevantes na relação entre trabalho vivo e trabalho morto, e ainda assim com diversas limitações. Ou seja, para realizar um montante x de valor, o setor de serviços necessita de muito mais trabalho vivo que o setor fabril. Isso explica, em parte, a tendência recente de expansão na alocação da força de trabalho no chamado setor de serviços.
É interessante notar que essa expansão ocorreu de forma distinta em diferentes países do mundo. Em países de capitalismo central, que em algum momento tiveram uma indústria altamente desenvolvida, o setor de serviços inicialmente se expandiu com notável heterogeneidade, altos salários e alto grau de qualificação da força de trabalho, de modo que muitos economistas e sociólogos europeus do século XX viam essa expansão como sinônimo de desenvolvimento e prosperidade de um país. De forma oposta, em diversos países periféricos a expansão desse setor se deu sem o prévio desenvolvimento fabril. Isso quer dizer que parte importante do proletariado de serviços nos países periféricos foi formada inicialmente por trabalhadores e trabalhadoras oriundos do trabalho agrícola. Nesses países, o setor terciário sempre teve como traço marcante o trabalho informal, precarizado, mal remunerado, com baixa qualificação formal, e em grande parte alocado no pequeno comércio. Atualmente, o avanço das plataformas digitais aprofunda e intensifica uma precarização que já era estrutural no setor de serviços dos países periféricos, ao mesmo tempo em que introduz novos mecanismos de controle, fragmentação e exploração do trabalho.
2) Diversos autores, como Antonio Negri, argumentaram que, pelas características do trabalho imaterial envolvido nesse setor (como a impossibilidade de se quantificar o mais-valor na mercadoria), a economia política marxista teria se tornado obsoleta. Poderia nos dar um panorama deste debate e como você o vê?
Antonio Negri se inclui entre aqueles que superestimaram os potenciais positivos no que os economistas chamam de setor de serviços e que ele próprio denomina trabalho imaterial. Nesse sentido, diversas hipóteses de Allan Fisher e Colin Clark, formuladores da ideia de setor de serviços, foram posteriormente reelaboradas sociologicamente por Negri e sua escola. O argumento central da chamada “sociologia do trabalho imaterial” sustenta que a economia política marxista não seria capaz de explicar a expansão do setor de serviços, em função da suposta impossibilidade de mensuração do valor nesse setor, já que o mais-valor seria produzido apenas na esfera da produção fabril e agrícola. Trata-se, contudo, de um equívoco completo, por diversas razões. Em primeiro lugar, esses autores desconsideram que, embora se apresentem como formuladores do conceito, a noção de trabalho imaterial não foi criada por eles, mas já se encontrava presente na economia política clássica. Autores como Say e Storch já tratavam de “produtos imateriais” e “trabalho imaterial”, e Marx, como leitor rigoroso desses autores, enfrentou diretamente essas formulações em sua obra. Em segundo lugar, Marx afirma de maneira explícita que os trabalhos vinculados à produção imaterial podem gerar mais-valor, apresentando diversos exemplos, como o professor, a cantora, o arquiteto, o ator, o escritor e o poeta. Em terceiro lugar, a alegada impossibilidade de mensuração e quantificação do valor nas atividades do setor de serviços não refuta a teoria do valor marxiana, pois, para Marx, o valor não se define primariamente como uma grandeza mensurável, mas como uma relação social específica, isto é, um tipo de relação entre pessoas em uma determinada sociedade, que pode se reproduzir também no setor de serviços. Produzir valor significa, nesse sentido, contrair determinadas relações capitalistas de produção, e não simplesmente ter o trabalho quantificado, mensurado ou contabilizado. Por isso, sustento que o problema da quantificação em Marx é, em grande medida, um pseudoproblema, ou um problema que não se coloca.
3) Autores de tradição marxista tentaram responder à essas afirmações?
Muitos autores marxistas partiram para a defesa da validade da teoria de Marx, mas, em grande medida, de forma equivocada. Na ânsia de defender Marx diante das tentativas de atualização propostas por Negri com seu debate sobre o trabalho imaterial, passaram a negar a validade dessa categoria e a reduzir todo o debate a uma noção particular do que seria a materialidade. Raymond Williams, por exemplo, considera que o termo imaterial é insuficientemente materialista; Christian Fuchs o trata como um termo desimportante por estar contido apenas em rascunhos de Marx; outros autores sustentam que o imaterial seria inexistente. Em minhas pesquisas, pude perceber que negar a existência ou a validade da produção imaterial é negar uma parte extremamente importante e relevante do pensamento de Marx, sendo que Marx foi o primeiro pensador a entender cientificamente a dinâmica da produção capitalista nos ramos da produção imaterial, algo que a economia política anterior a ele, e algo que parte da teoria social posterior a ele, negava como possibilidade. Portanto, me alinho a uma vertente do marxismo que afirma outra construção do que seria o trabalho imaterial, cuja formulação encontra uma síntese precisa em Ricardo Antunes, que há muito tempo insiste que generalizar falsamente as dimensões do trabalho imaterial é tão equivocado quanto negá-las. Ou seja, não negamos e nem superestimamos a vigência do trabalho imaterial, com a finalidade de compreender sua real funcionalidade no modo de produção capitalista.
4) Como poderíamos pensar o trabalho imaterial a partir das categorias propostas por Marx?
Nos seus estudos de filosofia desde a juventude, Marx considerou a existência de um complexo humano que ele chamou de “espiritual”, um conceito utilizado por diversos filósofos anteriores a ele. A dimensão espiritual pode ser definida como aquela que abrange os aspectos estéticos, afetivos, intelectuais, culturais e morais etc. dos seres humanos. Em certas traduções brasileiras de Marx, o espiritual é traduzido equivocadamente como “intelectual” ou “mental”, o que reduz a sua abrangência. Ninguém traduz o livro de Max Weber como “A Ética Protestante e a Mentalidade do Capitalismo”, mas, nas traduções brasileiras de Marx, esse equívoco é recorrente, talvez pelo receio de tratar seu materialismo com um conceito aparentemente idealista. No entanto, Marx é muito coerente ao pensar a dimensão espiritual de forma totalmente materialista, embasado em seus condicionamentos históricos e sociais. Em A Ideologia Alemã, Marx e Engels demonstram que a produção espiritual ou o trabalho espiritual seriam formas possíveis de exteriorização da atividade do ser social que estão relacionadas ao trabalho de poetas, cientistas, filósofos, músicos, professores, políticos, juristas, religiosos etc. É importante notar que alguns desses exemplos de trabalho espiritual são retomados por Marx décadas depois como manifestações dos ramos do que ele chama de produção imaterial. Isso me levou a considerar que o conceito de trabalho espiritual é a forma embrionária do conceito de trabalho imaterial. Portanto, a forma de ser do trabalho imaterial é similar, porém não idêntica, à do trabalho espiritual: um trabalho que não se objetifica imediatamente em um produto físico e que, por isso, possui características produtivas e circulatórias próprias. Marx demonstrou como a produção imaterial também pode produzir mais-valor, e consequentemente valorizar o capital. Cabe a nós realizar a segunda parte da tarefa: compreender porque esse tipo de produção possui uma relevância central para o capitalismo contemporâneo.
4) Em suas elaborações, como em seu último livro A Dialética do Trabalho Imaterial, publicado em 2023 pela editora Lavrapalavra, você levanta a hipótese de que o Capital contemporâneo teria preferência pelo setor de serviços pela alta velocidade da rotação de capital (o que explicaria a expansão exponencial dos setores de e-comercce, seu atual objeto de estudo) . Poderia desenvolver essa ideia?
Muito tem se falado sobre as dificuldades de ganhos significativos de produtividade no setor de serviços quando comparado à produção fabril. Por exemplo, determinados ramos da produção fabril, após transformações técnicas no ambiente de trabalho, conseguiram ter aumentos de produtividade superiores a 700%. Esse tipo de incremento de produtividade é impossível em diversos ramos do setor de serviços. Para ilustrar essa impossibilidade, o transporte de pessoas mediado por aplicativos: é impossível realizar uma corrida 700% mais rápido que um táxi. Porém, a produtividade não é o único aspecto relevante ao se observar a produção de valor. Um aspecto igualmente relevante quanto a produtividade é a rotação do capital. A rotação do capital diz respeito ao tempo em que um capital é investido na produção, passa por diversos estágios, até ser consumido pelo consumidor final, e o dinheiro do consumo ser reinvestido novamente no processo. A rotação de um capital de uma mercadoria material fabricada na China e consumida no Brasil pode demorar meses. Diversos ramos da produção imaterial, ou do setor de serviços, não possuem tamanha dificuldade na rotação, uma vez que possuem a característica de seus serviços serem consumidos no instante exato de sua produção. Isso quer dizer que sua rotação tende a ser muito mais rápida que a rotação de uma mercadoria material. Diversos cálculos econômicos provam que um capital pequeno que consegue promover muitas rotações se valoriza mais que um capital grande que promove poucas rotações, ou seja, para efeitos de produção de valor, não é só o incremento de produtividade que importa, sendo o tempo de rotação uma característica central.
Nas plataformas de e-commerce com entregas de última milha, essa tendência vigora com bastante intensidade. Além de ter o tempo de rotação reduzido por conta da característica do serviço prestado não resultar em um produto material, essas plataformas também contam com uma ampla formação de estoques, uma atividade circulatória que, além de ser produtora de valor, também permite o controle político das mercadorias armazenadas. Portanto, o e-commerce se vale de atividades intensamente produtivas dentro do setor de circulação, atua com tempos de rotação reduzidos e diminui o tempo de rotação dos capitais produtores de mercadorias materiais que se beneficiam de sua celeridade. Na minha interpretação, isso explica a taxa de lucro dessas plataformas, que tem ultrapassado a lucratividade de algumas empresas clássicas da produção fabril. O e-commerce tem reorganizado não só a circulação do valor no capitalismo contemporâneo, como a sua produção.
5) Nos últimos anos temos visto uma pluralidade de formas de luta e organização surgir neste setor, como o surgimento de sindicatos de trabalhadores nos galpões da Amazon e nas lojas da Starbucks nos EUA, assim com os breques dos entregadores de app aqui no Brasil. Poderia falar sobre suas potencialidades de luta?
O setor de serviços, pela característica de sua composição altamente heterogênea, já foi visto como pouco propício à organização coletiva. No entanto, o que vemos hoje é o contrário: trabalhadores jovens e precarizados estão recolocando a luta coletiva no centro da experiência de trabalho. No caso da Amazon, há algo relevante: trata-se de uma tentativa de reorganizar a luta de classes em ambientes profundamente hostis à organização coletiva. A criação do Amazon Labour Union, um sindicato independente de trabalhadores da Amazon, tem conquistado importantes vitórias na organização dos trabalhadores de e-commerce, demonstrando que é possível construir o potencial reivindicatório ao romper o isolamento e o medo organizativo dentro dos centros logísticos.
Já no caso dos entregadores de aplicativos, como aqueles vinculados ao iFood, a potência aparece em outra chave. Aqui, o mais impressionante é a capacidade de organização sem um local de trabalho comum e formal. Mobilizações como o Breque dos Apps revelam uma forma de luta que se estrutura com intenso uso de redes sociais e a partir de experiências compartilhadas de precarização (bloqueios, remuneração variável, custos transferidos). A potencialidade, nesse caso, está na capacidade de coordenação rápida e ampla, mesmo em condições de extrema fragmentação.
Há ainda um outro aspecto importante, que diz respeito à especificidade desses ramos produtivos: essas lutas incidem diretamente sobre pontos estratégicos da circulação do capital. Diferentemente do espaço fabril clássico, onde a greve interrompia a produção stricto sensu, a interrupção da entrega ou do transporte pode bloquear a última etapa da realização do valor. Ou seja, um breque de entregadores ou uma greve em centros logísticos pode ter efeitos imediatos sobre o funcionamento da cadeia de valor como um todo, e não apenas na produção fabril. Isso confere a essas lutas a importância de abrir mais uma frente de embate contra o capital, indo para além do setor de transformação. Essa pluralidade organizativa é central para a organização da classe trabalhadora na luta contra as formas contemporâneas de capital.