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Zhang Youxia e a severa crise no aparato militar chinês

Parte da edição: 08.02.2026

Estaria Xi Jinping testemunhando fissuras dentro das Forças Armadas?

Em 24 de janeiro, o Ministério da Defesa Nacional da República Popular da China anunciou que o vice-presidente da Comissão Militar Central (CMC), Zhang Youxia, e o chefe do Estado-Maior Conjunto da CMC, Liu Zhenli, enfrentam investigação por “graves violações disciplinares e legais”. Zhang teria desafiado “os alicerces do controle do partido sobre as Forças Armadas, prejudicando gravemente a influência do partido sobre a liderança absoluta do Exército de Libertação Popular (ELP).” Lingling Wei, no The Wall Street Journal, afirmou que Zhang Youxia teria sido acusado de vazar informações sobre o programa nuclear do país para os EUA, e de aceitar subornos por atos oficiais, incluindo a promoção de um oficial a ministro da Defesa.

Há névoa sobre a realidade da situação. São improváveis as hipóteses sobre a conquista por Washington de um espião de alta patente no Politburo. Em cenário mais provável, Zhang estaria fortalecendo seu perfil dentro das Forças Armadas, depois de eliminar rivais no curso da campanha "anticorrupção", representando um desafio à autoridade de Xi Jinping (algo embaralhado por analistas como sinólogo australiano Richard McGregor e Yang Zi).

A investigação penal sobre Zhang Youxia, como ápice da campanha “anticorrupção” nas Forças Armadas, significa na prática que Xi Jinping esvaziou toda a sua liderança militar em um expurgo sem precedentes desde a morte de Mao Tsé-tung em 1976.

Trata-se de um terremoto político dentro do aparentemente intocável oceano burocrático do Partido Comunista Chinês. O expurgo de um general de alta patente, o segundo na hierarquia militar e funcionário partidário próximo de Xi Jinping desde sua ascensão ao poder em 2012, não é igual às demais. Se Zhang for formalmente demitido, ele será o oficial militar na ativa de mais alto escalão destituído por Xi Jinping. Se também perder seu assento no Politburo, será a primeira vez que dois de seus membros serão expurgados no mesmo mandato de cinco anos desde que o ELP reprimiu os protestos da Praça Tiananmen em 1989.

Os últimos acontecimentos são a evidência mais clara até agora da magnitude dos problemas que Xi Jinping ainda enfrenta na tentativa de transformar o Exército de Libertação Popular em uma força de combate moderna. Depois de mais de uma década de “campanha anticorrupção” generalizada e a ofensiva contra a falta de foco no combate real, que resultou na demissão de dezenas de generais (mais de 4 mil militares ceifados desde 2012) e na reforma estrutural do ELP, os problemas continuam.

O hermetismo da política chinesa dificulta a captação das ondas de choque, que habitualmente são sentidas, em sua maior parte, pela hierarquia de funcionários e sua cadeia política de comando. Por ora, não transparecem sintomas de que a posição particular de Xi Jinping esteja em risco. O abalo sísmico na burocracia, entretanto, pode se reverter em problemas internos graves para a autoridade do presidente chinês.

Isso porque o sinal emitido por Xi Jinping, um Ricardo III em Pequim, é de que ninguém além de si mesmo é imprescindível para o projeto do “grande rejuvenescimento da nação chinesa”. Ademais, demonstra que preside um governo marcado pela eliminação sistemática de potenciais rivais, que muitas vezes incluem aqueles que originalmente eram seus aliados ou apoiadores próximos.

Como descreve o sinólogo Jonathan Czin, estamos diante de uma mudança geracional nas Forças Armadas. “Toda uma geração do Exército foi praticamente decapitada. O que isso sugere é que Xi estava farto da safra de líderes por alguma razão — possivelmente razões diferentes para pessoas diferentes. Mas ele claramente determinou, em algum momento: ‘Não gosto dessa safra e preciso me livrar deles todos’”.

Xi deseja chegar ao centenário do Exército de Libertação Popular, e ao 21º Congresso do PCCh, ambos a serem celebrados em 2027, com um plantel mais disciplinado ainda do que havia conseguido em 2022. Mas parece rumar a esses acontecimentos nacionais como um governo bonapartista assediado por incertezas internas e desconfiança na burocracia estatal. As facções internas À primeira vista, essa medida se encaixa no padrão administrativo de Xi Jinping: usar expurgos anticorrupção para, alegadamente, incrementar a eficiência e aptidão na utilização de recursos e melhorar “moral pública” do Partido - enquanto promove a própria autoridade indiscutida no regime e concentra em si as diretrizes do poder.

Mas o quilate do general expurgado - e a celeridade nos procedimentos - chamam uma atenção particular. Zhang Youxia era vice-presidente adjunto da Comissão Militar Central, órgão governamental do Exército de Libertação Popular da China - é o órgão que controla de facto as Forças Armadas, capitaneado pelo próprio Xi (e por todos os secretários-gerais desde 1949, como Mao Tsé-tung e Deng Xiaoping). Segundo apenas a Xi na estrutura de comando militar, Zhang era há muito considerado o aliado militar mais próximo do presidente chinês. Como se não bastasse, seus pais, Zhang Zongxun e Xi Zhongxun, trabalharam em estreita colaboração no Exército de Campo do Noroeste do ELP em 1947, durante a Guerra Civil.

Sua destituição ofuscou a saída de Liu Zhenli, outro membro sênior da Comissão Militar Central, que dirigia o Departamento de Estado-Maior Conjunto. Ao todo, dos seis membros da CMC (além de Xi), cinco foram destituídos de alguma forma, quer sob a atual investigação, quer com processos já finalizados. He Weidong, ex-vice-presidente da CMC, e Miao Hua, diretor de trabalho político da CMC, haviam caído em 2025. Foram precedidos pela queda de Li Shangfu, ex-Ministro da Defesa expurgado em 2023. A Comissão Militar Central - mais uma vez, o órgão político-militar mais importante da China - agora conta com apenas dois membros: Xi Jinping, e Zhang Shengmin, que, ironicamente, dirige a Comissão de Inspeção Disciplinar — o principal investigador interno de todas essas campanhas anticorrupção.

Em outras palavras, não se trata de uma medida administrativa de rotina. Analistas como Denis Wilder, da Georgetown University, afirmam que muitas das recentes expulsões orquestradas nas Forças Armadas foram motivadas pela rivalidade entre uma facção liderada pelo general Zhang e outro grupo que construiu sua carreira principalmente servindo no leste da China (províncias como Zhejiang e Fujian), alguns deles quando Xi era funcionário público na região. A facção de Zhang Youxia, que incluía vários “red princelings” (membros de famílias proeminentes no PCCh) prevaleceu. Isso lhe teria conferido uma autoridade sem precedentes. Mas também o tornou uma ameaça potencial para Xi Jinping. “Ele é um velho teimoso e rude e, embora tenha se aliado a Xi, nunca foi seu subordinado”, diz Wilder ao The Economist.

Mesmo que a campanha anticorrupção seja uma marca registrada da era Xi Jinping para ampliar e concentrar os poderes do secretário-geral, enquanto reorienta e aprimora as capacidades tecnológico-militares da China, é provável que ela não tenha eliminado a existência de tais facções. Historicamente, o PCCh foi comovido por lutas internas de distintas facções, muitas das quais levaram a processos de descontentamento social e luta de classes. Mao teve choques emblemáticos com figuras centrais do partido, como Liu Shaoqi e Lin Biao, entre as décadas de 1960 e 1970, e eventos como a Revolução Cultural permearam estas disputas (assim como deram origem a outras facções). Mesmo após as reformas de Deng Xiaoping, entre os anos 80 e os anos 2000, a Facção de Xangai (ligada a Jiang Zemin, representante dos interesses econômicos das províncias orientais) e a Facção Tuanpai (Liga Comunista da Juventude, ligada a Hu Jintao) disputaram e dividiram nichos no aparato estatal.

Xi Jinping tratou de eliminar tais divisões a fim de concentrar poder. Em muitos sentidos, teve êxito na empreitada, mas é possível que a extensão e a amplitude dos expurgos tenha nutrido velhos ressentimentos e novas reconfigurações internas na burocracia. Tais acontecimentos podem prefigurar conflitos sociais imprevisíveis. Prontidão militar como incógnita Em todo caso, a movimentação recente no alto escalão militar deixa o país sem um dos únicos generais com experiência em guerras - Zhang Youxia é veterano, junto a Liu Zhenli, da Guerra Sino-Vietnamita de 1979. Sem o vice-presidente operacional da CMC, abre-se uma incógnita sobre como a cadeia de comando deve agora funcionar.

Este pode ser um revés importante para o governo Xi que, durante os últimos anos, retratou sua crescente prontidão militar para combates reais, e a adequação com a mais avançada teoria de coordenação e comando das distintas forças, como um dos aspectos centrais de sua ascensão como potência. A investigação e remoção de Zhang Youxia (que possuía uma hoste de figuras leais, estando nas Forças Armadas desde a década de 1980), o expurgo de He Weidong (ex-aliado político de Xi, com quem serviu na província de Fujian nos anos 80, visto como rival de Zhang) e de Miao Hua (outro acólito do presidente chinês), deixam poucas possibilidades de militares experimentados em cargos políticos de relevo. Dificulta também a coordenação entre as distintas armas do Exército, investidas em conseguir capacidade de combinar operações aéreas, terrestres, marítimas, cibernéticas e espaciais.

O efeito moral sobre as tropas será provavelmente grande. O expurgo dos líderes do Exército implica a continuidade da perseguição sobre os elementos leais a esses generais entre os soldados. A história de tais tipos de expurgos sob governos burocráticos de tradição ou matriz stalinista são reveladores, para além de suas diferenças estruturais. Os expurgos de Stalin sobre o Exército Vermelho transformaram-no em um gigante cambaleante, como ficou evidente em seu péssimo desempenho durante a Guerra de Inverno de 1939 e a Operação Barbarossa de 1941. Em 1978, o expurgo de Pol Pot sobre os comandantes militares levou ao rápido colapso das defesas do Khmer Vermelho na guerra com o Vietnã.

Certamente haverá impacto sobre a escala e o ritmo de preparação militar chinesa para operações de larga escala, especialmente em um cenário muito complexo como o de uma operação de intervenção sobre Taiwan. A implosão do Alto Comando no interior da Comissão Militar Central agrava as debilidades de um Exército que carece de oficiais e generais com prática e experiência em guerras. Se Xi Jinping já se encontrava insatisfeito com as insuficiências das Forças Armadas, sua decisão de extinguir potenciais rivais foi levada a cabo ao preço de aprofundar muitos outros problemas. Para a “missão Taiwan”, quais generais? Segundo Tristan Tang, em artigo para o Jamestown, uma comparação entre os editoriais do PLA Daily, publicados no dia seguinte ao anúncio dos expurgos do ex-vice-presidente do CMC, He Weidong, e aquele publicado depois no caso de Zhang Youxia e Liu Zhenli, revela diferenças políticas que poderiam lançar luz sobre a razão do expurgo. Entre elas, divergências sobre Taiwan.

Em comparação com a queda em ruína de He Weidong, ocasião em que as declarações oficiais o descreveram como tendo “abandonado sua missão original, perdido os princípios do partido, sofrido um colapso de crença e traído a lealdade” - não foi essa a linguagem aplicada a Zhang. Contra o general, a acusação é de quebra de autoridade. Segundo o autor, “embora ambos os casos tenham citado danos à ‘ecologia política’ do ELP, Zhang foi descrito como causador de ‘graves danos à consciência política das forças armadas’. Essa formulação sugere que Zhang não priorizou a lealdade política como princípio orientador da construção militar”. Além disso, as autoridades “acusaram He Weidong e outros de ‘prejudicar gravemente’ o sistema, enquanto acusaram Zhang e Liu de ‘pisotear gravemente’ o mesmo. O primeiro implica obstrução que diluiu as ordens de Xi, enquanto o segundo implica desafio direto ou desrespeito”. Assim também, “a linguagem oficial afirmou que He Weidong ‘prejudicou gravemente a imagem’ dos quadros superiores, enquanto Zhang Youxia ‘prejudicou gravemente a imagem e a autoridade’ da liderança da CMC. Essa distinção sugere que as divergências de Zhang e Liu com Xi atingiram um nível visível e amplamente reconhecido dentro do PLA”.

Entre os indicadores militares, por sua vez, o artigo sugere que Zhang e Liu perderam o poder porque seus resultados na construção da força e na preparação para a guerra não atenderam às expectativas e podem ter “comprometido a exigência de Xi Jinping de que o ELP seja capaz de invadir Taiwan até 2027”. A declaração oficial acusou explicitamente Zhang e Liu de causar “graves danos ao desenvolvimento da capacidade de combate”, uma acusação ausente no caso de He Weidong. Essa distinção indicaria que

a liderança do PCCh considerou as ações de Zhang e Liu como tendo um impacto negativo direto na capacidade militar do ELP. He Weidong e outros "causaram graves danos à... construção da defesa nacional" (给...国防...造成极大损害), enquanto Zhang Youxia e Liu Zhenli "causaram sérios danos ao... Estado" (对...国家...造成极为恶劣影响). As referências ao "Estado" apontam para um desenvolvimento nacional mais amplo. Em termos militares, esse conceito se concentra em resistir a ameaças externas ou, no contexto específico da RPC, em alcançar a unificação com Taiwan.

Muitos destes componentes podem figurar entre as razões do expurgo, ainda que não haja evidências suficientes para determinar as diferenças procedimentais de punição a cada membro da Comissão Militar Central. Xi Jinping tem como política militar central a preparação e a prontidão para o combate, com uma construção militar expansiva e assertiva. Zhang parece ter favorecido tempos mais dilatados e minimizado a importância da prontidão imediata ao combate. Trata-se de um aspecto importante de questionamento de autoridade, mesmo que não fosse realizado com intenção consciente de frustrar os objetivos do governo. Os problemas de Xi à luz do concorrente norte-americano Há, entretanto, outros cálculos em jogo, e também aquilo que alguns chamam de “nova abordagem” de Pequim em relação ao modo de reunificar-se com Taiwan.

De um lado, após um longo período de expurgos na alta cúpula do Exército, a China voltou a realizar exercícios militares de alta precisão no Estreito de Taiwan, em resposta ao anúncio de que os EUA de Trump aprovaram o montante de US$ 11 bilhões em vendas de armas à ilha. O governo quis mostrar que, independente da crise de reconfiguração do aparato das Forças Armadas, o caminho para a reconquista de Taiwan segue seu curso. Por outro lado, Xi Jinping parece entender que, em geral, Trump não está especialmente interessado em fazer provocações sobre Taiwan. As duras afirmações da primeira-ministra japonesa, Sanae Takaishi, acerca da decisão do imperialismo japonês de encarar uma possível intervenção chinesa em Taiwan como “questão de sobrevivência nacional”, não contaram com respaldo de Trump. O governo norte-americano, em verdade, tratou de disciplinar o Japão a moderar sua retórica - uma humilhação a Tóquio, que sequer contou com uma declaração de apoio diante das ameaças da China.

Ademais, como diz Jonathan Czin, a Estratégia de Segurança Nacional de Trump sequer menciona Taiwan, e concentra sua atenção agressiva no objetivo de domínio do “Hemisfério Ocidental” - dentro do qual Taipei não se encontra. A situação política em Taiwan, também, parece favorecer a China. “O presidente Lai Ching-te, que a China detesta, está em apuros políticos em seu país após a campanha fracassada de destituição neste verão. Haverá uma eleição em 2028, e a nova liderança do partido oposicionista (Kuomintang) está fazendo comentários muito favoráveis sobre Pequim. Do ponto de vista de Pequim, eles têm espaço para respirar, e 2028 é provavelmente o próximo grande ponto de inflexão em que eles percebem uma oportunidade real de moldar e mudar a dinâmica”, diz Czin.

Em outras palavras, a expulsão de Zhang Youxia pode dizer respeito não a uma atitude particularmente reticente quanto a Taiwan, mas sim com a decisão do governo central de adotar uma postura que combine a aceleração da preparação militar com um diálogo político mais aceitável à população taiwanesa. Isso não altera a fixação da burocracia do PCCh em reconquistar Taiwan de qualquer maneira, inclusive pela força - mas a administração parece desejar diluir a narrativa exclusivamente militar em demonstrações de soft power, como o Dia da Restauração de Taiwan, uma jornada de celebração comum que marcou em outubro de 2025 o 80º aniversário da rendição japonesa na ilha. Wang Huning, membro do Comitê Permanente do Politburo, discursou na ocasião sobre os benefícios econômicos, energéticos, culturais e de bem-estar que a reunificação traria para toda a população da ilha. Como afirma Yang Kai-huang, professor da Ming Chuan University, “Pequim está adotando uma abordagem dupla: moldar a opinião pública – abordando as preocupações dos taiwaneses, destacando os benefícios da reunificação para as pessoas comuns e ampliando o alcance judicial sobre figuras pró-independência – e, ao mesmo tempo, usar uma postura militar para dissuadir os Estados Unidos e o Japão”.

Pode ser que o impacto da remoção de Zhang na capacidade do ELP de invadir Taiwan não tenha sido uma preocupação para Xi Jinping. A abordagem do general em relação à preparação para a guerra provavelmente não se alinhava aos seus objetivos. Não está claro, entretanto, se tem outros oficiais que aceitam sua linha diretriz, dentro de um círculo de confiança cada vez mais rarefeito, dividido por disputas e receios mútuos.

Assim, nada indica que Xi Jinping estaria mais próximo de seu objetivo. Ademais, a crise no aparato militar chinês é acompanhada por um momento complexo na economia, que continua desacelerando aos patamares mais baixos em 40 anos - ainda que significativo diante da decadência econômica global. Décadas de crescimento desequilibrado levaram a um enorme excesso de capacidade estrutural, que a envolvem em tendências deflacionárias, manifestação de uma constante crise de superprodução. A taxa de desemprego da juventude urbana é alta, atingindo em dezembro de 2025 a taxa de 16,5% na população entre 16 e 24 anos. Com a diminuição dos empregos, especialmente na construção civil e nas fábricas, o contingente migratório para as cidades tende a diminuir, forçando uma deflação na força de trabalho disponível. O Ministério dos Assuntos Rurais da China emitiu um alerta em dezembro, declarando que o governo deve “evitar um problema em grande escala” de migrantes “ficando” em suas aldeias natais. Ao mesmo tempo, o campo já não oferece grande apoio aos que perdem empregos na cidade. Muitos trabalhadores de origem rural renunciaram aos seus direitos de uso da terra, arrendando-os a outros que permaneceram no local. Em 2008, menos de 10% das famílias rurais tinham cedido os seus direitos sobre a terra; hoje, esse número aproxima-se dos 40%.

A China, ademais, enfrenta uma crise demográfica de proporções. A população chinesa vem encolhendo por anos seguidos, refletindo aumento do custo de vida, incremento do desemprego e receio sobre o futuro - o que prontificou o Partido Comunista a aplicar uma (muito impopular) reforma da previdência em 2024. O disciplinamento férreo dos trabalhadores por uma burocracia reacionária tende a aumentar e gerar novos choques.

Tais problemas são difíceis de lidar com a perspectiva de disputas faccionais no Estado. Não há dúvida de que a burocracia em Pequim enxerga na crise política interna do imperialismo de Trump (a fraqueza da economia norte-americana, a queda na popularidade presidencial, a revolta da opinião pública contra o ICE e os métodos protofascistas da perseguição aos imigrantes, etc.) um elemento que lhe dá tempo e espaço para ensaiar. Mas Xi Jinping parece mais debilitado para tais empreendimentos de envergadura histórica, com um aparato estatal mais envolvido em desconfianças internas.