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O capitalismo de plataforma e a guerra. Notas sobre o imperialismo do século XXI

Parte da edição: 05.04.2026

Artigo publicado originalmente em espanhol no dia 30/03/2026 na página Hormiga Roja e traduzido para esta edição da Revista do Instituto Casa Marx como tribuna aberta.

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I. A fusão do capital tecnológico e o aparelho militar

Não é frequente que um contrato governamental revele com tanta transparência a mutação interna do capitalismo contemporâneo. Em julho de 2025, o Departamento de Defesa dos Estados Unidos e a empresa Palantir Technologies formalizaram um acordo no valor de dez bilhões de dólares. Mas o montante, embora impressionante, é secundário. O essencial é que, por meio de setenta e cinco disposições operacionais, foram transferidas a uma corporação privada funções que até recentemente constituíam o núcleo das funções militares estadunidenses.

A cerimônia teve um detalhe adicional: o secretário de Defesa conferiu graus de tenente-coronel honorário a executivos da Palantir Technologies, da Meta Platforms e da OpenAI. O que aparentemente era um gesto protocolar convertia-se, na prática, na dissolução simbólica da fronteira entre a hierarquia militar e a cúpula tecnológica.

Essa convergência não é um acidente nem uma concessão pontual. Trata-se da manifestação de um processo histórico que, às vésperas da Primeira Guerra Mundial, alguns analistas identificaram como a fusão do capital industrial com o capital bancário no interior do imperialismo, no qual os Estados imperialistas se organizavam para ir à guerra em defesa de “seu capital nacional”.

Um século depois, essa fusão adquiriu uma nova forma: a integração orgânica entre o capital monopolista tecnológico e o aparato militar do Estado. A novidade não é a aliança, mas o fato de que a tecnologia se tornou o terreno privilegiado onde se decidem tanto a acumulação quanto a capacidade de coerção.

O que hoje presenciamos não é uma crise que interrompe uma ordem pacífica, mas a explicitação do que o capitalismo sempre foi: um estado de guerra permanente que se apresenta como normalidade. Os números, os contratos, os algoritmos de extermínio não são exceções; são o rosto desnudo de uma paz que nunca existiu.

II. Gaza: genocídio assistido algoritmicamente

O caso do genocídio em Gaza oferece a ilustração mais crua dessa simbiose. Segundo uma investigação publicada pela +972 Magazine, a Palantir Technologies coordena ações bélicas do governo israelense de Benjamin Netanyahu.

Os sistemas da empresa alimentam um programa conhecido como “Lavender”, que atribui a cada habitante da Faixa uma pontuação numérica com base na probabilidade de pertencer a organizações armadas ou militantes. Seis oficiais de inteligência israelenses confirmaram que os resultados eram tratados como decisões humanas: a máquina não é verificada, é obedecida.

O genocídio do povo palestino (mais de setenta mil mortos até janeiro de 2026, segundo a ONU) não é um subproduto acidental, mas o corolário “lógico” de um sistema projetado para otimizar a velocidade dos bombardeios à custa da verificação humana.

O que se observa aqui é um fenômeno que poderia ser denominado genocídio assistido algoritmicamente. Não porque os algoritmos decidam, mas porque reorganizam o processo de tomada de decisão militar de modo a tornar mais eficiente a produção de vítimas civis.

Um executivo da Palantir Technologies, questionado sobre o massacre sob esse método, respondeu com uma frase que dificilmente teria sido dita publicamente há uma década: afirmou que foram mortos “majoritariamente terroristas, é verdade”. Alex Karp, diretor da empresa, já havia antecipado com uma franqueza incomum: “nosso produto é usado às vezes para matar pessoas”. A normalização dessa declaração no discurso corporativo é um sintoma de até que ponto a indústria tecnológica internalizou sua função na cadeia letal do Estado.

Não se trata, além disso, de uma aplicação confinada a zonas de guerra. Documentos vazados em 2026 mostram que a Palantir Technologies fornece à agência migratória dos EUA ICE uma ferramenta chamada ELITE, que processa dados do Medicaid (programa de saúde pública para pessoas de baixa renda) para elaborar mapas de deportação.

A mesma lógica que classifica edifícios em Gaza como alvos é agora aplicada a bairros em Minnesota. A tecnologia testada em territórios coloniais retorna à metrópole como técnica de controle social. Em ambos os casos, o efeito não é apenas a morte ou a deportação, mas a produção de um novo tipo de subjetividade: aquela que aceita sua própria existência como um dado dentro de uma base de controle, uma pontuação que determina seu valor.

III. O autômato fascista

A analista Francesca Bria cunhou um conceito útil para pensar essa constelação: o “Complexo Tecnológico Autoritário”. Ela o descreve como uma arquitetura integrada (uma “pilha” ou “stack”, na linguagem informática) que não substitui as instituições democráticas por meio de um golpe clássico, mas as esvazia silenciosamente por meio de contratos de software e capital de risco.

A Palantir Technologies opera como uma espécie de sistema operacional do governo dos Estados Unidos, mas seu alcance é global. O Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido confiou-lhe seus dados por 330 milhões de libras, ao mesmo tempo em que o país firmava uma aliança em inteligência artificial para defesa de 1,5 bilhão. A Alemanha destinou 25 milhões de euros à vigilância policial com sua tecnologia; Itália, França e Polônia assinaram acordos semelhantes. Em nenhum caso houve debates parlamentares significativos. Na América Latina, acordos com a Palantir Technologies estão em curso com diversos governos de direita e extrema direita da região.

No entanto, a relevância da empresa não se esgota em sua penetração contratual. Nos últimos anos, ela passou a explicitar uma visão ideológica que evidencia a transição política das “Big Tech” do Vale do Silício. Diferentemente de outras grandes empresas tecnológicas, que costumavam se apresentar como plataformas neutras, a Palantir Technologies reivindica abertamente seu alinhamento político e geopolítico.

Essa posição foi expressa no livro The Technological Republic, escrito por seu CEO Alex Karp, no qual se defende que as empresas tecnológicas devem colaborar ativamente com os Estados ocidentais — especialmente com o governo de Donald Trump — nas áreas de defesa, inteligência e segurança. Na mesma linha, o cofundador Peter Thiel, também autor de Zero to One, sustenta a ideia do declínio da democracia liberal e aposta em formas concentradas de poder tecnológico. Não é por acaso que ambos têm sido apontados como propagandistas de um novo “fascismo tecnológico”.

Mais do que uma simples empresa de software, a Palantir Technologies se posiciona como um ator-chave na articulação entre o setor privado e o aparato estatal. Seus sistemas são utilizados por agências como a CIA e a NSA, bem como por forças de segurança e governos em diversos países.

Sua expansão se insere em um contexto marcado pelo fortalecimento da vigilância digital após os atentados de Ataques de 11 de setembro de 2001, quando a gestão massiva de dados se tornou central para a “segurança nacional” dos EUA. A empresa se apresenta como parte do bloco ocidental na disputa tecnológica global, especialmente frente à China, defendendo a ideia de que a tecnologia não é neutra, mas uma ferramenta a serviço de um projeto político.

Esse posicionamento tem gerado críticas de diversos setores, que alertam para os riscos de consolidar formas de “governos algorítmicos” antidemocráticos, nos quais decisões sensíveis — desde políticas migratórias até práticas policiais e operações militares — são cada vez mais mediadas por sistemas automatizados desenvolvidos por atores privados.

Nesse cruzamento entre tecnologia, poder e segurança, a Palantir Technologies surge como um caso paradigmático das novas formas assumidas pelo capitalismo contemporâneo: um modelo em que a acumulação não se apoia apenas no consumo de massas, mas também na provisão de infraestruturas de dados para a gestão do Estado, o controle social e o extermínio de populações.

O que aqui se configura, no entanto, não é um mero autoritarismo tecnológico. Trata-se de uma nova forma de governo que não se expressa (ainda) como partido único, mas que se exerce por meio de máquinas de guerra que integram os humanos como seus componentes, como diria Maurizio Lazzarato. O fascismo já não se anuncia com camisas pardas, mas com contratos de software, capital de risco e gestão algorítmica.

Estamos diante de uma forma recursiva de fascismo que reaparece em nossa história planetária como um autômato fascista que ordena autocraticamente o genocídio dos despossuídos, o ataque às classes trabalhadoras e às “populações descartáveis”, o fechamento de fronteiras e a lógica opressiva do trabalho escravo. Esse autômato é impulsionado pelo desejo de desmantelar o Estado democrático, promovendo as novas regras do monopólio e do capital nacionalista.

Outras “big techs” também seguem esse caminho. A Anduril Industries, fundada por um ex-executivo da Palantir Technologies, desenvolveu a plataforma Lattice, que integra satélites, radares e imagens de combate para que missões militares sejam planejadas e executadas automaticamente. A empresa afirma ter alcançado o “Nível 5 de autonomia”: identificar, atacar e retornar sem intervenção humana. Sua avaliação gira em torno de 30,5 bilhões de dólares; seus contratos de defesa, 22 bilhões. O Pentágono anunciou, em julho de 2025, que até 2027 integrará plenamente armas autônomas em suas operações.

A SpaceX, por meio de sua divisão Starshield, privatizou de fato as comunicações via satélite da OTAN. A Itália integrou o Starlink à sua infraestrutura militar estratégica, criando uma dependência crítica de um fornecedor privado estrangeiro.

A esses três nomes soma-se uma constelação de fundos de capital de risco — como Founders Fund, Andreessen Horowitz e 1789 Capital — que atua como mecanismo de governança ativa, financiando empresas alinhadas a um novo nacionalismo imperialista. Francesca Bria os denominou “capital patriótico”: a aliança orgânica entre capital fictício, tecnologia e Estado.

O quarto vértice, que completa esse quadro, é a OpenAI (ChatGPT). Fundada em 2015 como uma organização sem fins lucrativos comprometida com a inteligência artificial “para o benefício da humanidade”, em 2023 eliminou a cláusula que proibia usos militares. Em dezembro de 2024, associou-se à Anduril Industries para incorporar seus modelos a sistemas de defesa antiaérea. Um mês depois, assinou um contrato milionário com o Pentágono. A trajetória da OpenAI sintetiza a evolução do setor: da promessa humanitária à integração plena na cadeia de valor letal do Estado.

Nos últimos meses, Microsoft, Meta Platforms e Google competiram por contratos de defesa dos Estados Unidos. Enquanto isso, os contratos do governo de Donald Trump com a Anthropic foram rescindidos após a empresa se recusar a permitir o uso militar de sua IA. Não se trata, contudo, de uma disputa comercial comum: é uma luta pela hegemonia dentro do complexo militar-industrial-tecnológico, e todas as partes compartilham o pressuposto de que a venda de capacidades de vigilância, classificação e destruição ao Estado constitui um dos negócios centrais da indústria em um cenário de guerra internacional em curso.

IV. Imperialismo do século XXI: velhos traços, novas formas

Esse breve relato pode ajudar a compreender a natureza da transformação do imperialismo no século XXI. Costuma-se dizer que o imperialismo mudou de forma, mas talvez seja mais preciso afirmar que ele atualizou seus fundamentos. Cinco traços definiam essa fase do capitalismo no início do século XX: a concentração monopolista, a fusão do capital bancário e industrial, a exportação de capital, a partilha do mundo entre monopólios e a divisão territorial entre potências. Cada um desses traços se reconfigura hoje em torno da emergência do capitalismo de plataformas, da inteligência artificial e da guerra internacional.

Os monopólios tecnológicos como OpenAI–Microsoft, Google, Meta Platforms e Amazon controlam verticalmente infraestrutura computacional, plataformas, dados e trabalho científico altamente qualificado.

O capital algorítmico-financeiro apresenta todas as características do capital fictício: a avaliação da OpenAI em 157 bilhões de dólares (fevereiro de 2025) não corresponde a lucros presentes, mas a expectativas de rendas futuras — isto é, a títulos sobre mais-valia ainda não produzida.

A exportação de infraestrutura (cabos submarinos, centros de dados, modelos pré-treinados) tornou-se a forma contemporânea da exportação de capital fixo. A divisão do mundo impõe padrões, protocolos e vieses que reproduzem a hierarquia Norte-Sul sob a aparência de neutralidade técnica.

Enquanto isso, a guerra comercial entre Estados Unidos e China por semicondutores, computação quântica e terras raras passou a ocupar o lugar que, no início do século XX, era ocupado pelas disputas coloniais. A guerra comercial foi o prelúdio da guerra propriamente dita.

Nesse cenário, para um imperialismo em declínio como o dos Estados Unidos, a preparação de uma guerra contra China e Rússia implica submeter militar e economicamente a América Latina (considerada seu “quintal”). Há mais de uma década, nossa região tornou-se um campo central da disputa entre China e Estados Unidos. A influência econômica e tecnológica chinesa na América Latina é decisiva. A mudança de época indica que já não estamos apenas diante de uma guerra que se desenvolve no terreno econômico, mas também militar.

Nesse quadro, o capital norte-americano também precisa submeter a Europa, o que gera enormes contradições e agudas paradoxos nos países europeus: os governos do continente proclamam sua aspiração à autonomia estratégica enquanto suas infraestruturas são progressivamente subordinadas a plataformas dos Estados Unidos. O NHS britânico com a Palantir Technologies, a defesa italiana com o Starlink da SpaceX, a polícia alemã com sistemas de vigilância estadunidenses sem controle parlamentar: tudo isso descreve uma integração silenciosa na órbita do complexo tecnológico norte-americano.

V. Trabalho vivo, trabalho morto e as contradições do capitalismo de plataformas

Outro aspecto que ilustra a mutação do imperialismo é a mudança do eixo da lógica econômica que o impulsiona. No centro dessa lógica encontra-se uma transformação na relação entre o trabalho vivo e o trabalho morto cristalizado em máquinas. Tradicionalmente, o capitalismo tende a aumentar a proporção de maquinaria, infraestrutura e tecnologia em relação ao trabalho humano diretamente empregado. O que caracteriza o capitalismo de plataformas — e, em particular, a inteligência artificial — é que ele condensa milhões de horas de trabalho pretérito (dados rotulados por trabalhadores mal remunerados no Sul global, infraestrutura computacional massiva, pesquisa científica apropriada) para deslocar o trabalho presente, cognitivo e não cognitivo, em uma escala sem precedentes.

Esse processo engendra três consequências que atravessam toda a economia contemporânea. A primeira é uma pressão sustentada sobre a taxa de lucro: à medida que cresce o investimento em capital fixo tecnológico em relação à massa de trabalho assalariado, a capacidade de gerar lucros tende a diminuir, a menos que se obtenham rendas extraordinárias. Os monopólios tecnológicos conseguem justamente compensar essa tendência por meio da captura de rendas monopolistas derivadas do controle de plataformas, dados e padrões. Essa base rentista das principais empresas globais foi, de forma equivocada, qualificada como “tecnofeudalismo” [1].

A segunda consequência é uma contradição cada vez mais visível entre o desenvolvimento das forças produtivas e as relações de produção existentes. A inteligência artificial possui um imenso potencial técnico para reduzir o tempo de trabalho socialmente necessário. Contudo, no marco capitalista, esse potencial não se traduz em redução da jornada de trabalho nem em libertação do trabalho, mas em desemprego estrutural e precarização. A tecnologia que poderia emancipar transforma-se, sob o império do valor, em instrumento de exploração, militarização e destruição das próprias forças produtivas que a engendraram. As forças produtivas convertem-se em forças destrutivas.

A terceira consequência é uma tendência à centralização extrema. O investimento inicial necessário para desenvolver modelos de ponta ou infraestrutura computacional em larga escala está ao alcance de apenas alguns poucos conglomerados. O resultado não é o mercado competitivo invocado pela retórica empresarial, mas um oligopólio consolidado desde a origem, no qual as barreiras de entrada são praticamente intransponíveis.

Essa análise, à primeira vista abstrata, materializa-se nos fenômenos descritos nas seções anteriores. A concentração da Palantir Technologies, da Anduril Industries e da OpenAI no mercado de defesa; a capacidade desses atores de impor suas condições aos Estados nacionais; a subordinação de infraestruturas estratégicas europeias a decisões corporativas tomadas na Califórnia — tudo isso deriva diretamente dessa estrutura de acumulação.

VI. Geopolítica da guerra permanente

A dimensão geopolítica acrescenta uma camada adicional. Na história do capitalismo, a desigualdade entre centros e periferias nunca foi um resquício que a modernização acabaria eliminando, mas uma condição estrutural de funcionamento. Hoje, essa desigualdade se reproduz no capitalismo de plataformas e na irrupção da inteligência artificial. Algumas análises denominam essa nova configuração de “colonialismo recursivo”, no qual projetos coloniais são reciclados por meio da abstração algorítmica.

Desse modo, a guerra na Ucrânia atuou como campo de testes para drones autônomos; os semicondutores tornaram-se o petróleo do século XXI; as terras raras são extraídas no Congo sob condições semicoloniais para alimentar centros de dados do Vale do Silício; o trabalho cognitivo é explorado no Quênia para treinar modelos que operam em Wall Street. Gaza aparece como laboratório de uma “gestão algorítmica” do extermínio; o Sul global, como um todo, funciona como reserva de recursos, trabalho barato e território de experimentação de uma guerra internacional dirigida por forças que dão conteúdo político aos algoritmos.

A crise mundial de 2007–2008 é o antecedente direto do atual cenário de guerras. A disputa entre Estados Unidos e China pela supremacia em inteligência artificial, semicondutores e computação quântica substituiu as antigas rivalidades interimperialistas. As sanções à Huawei, a proibição de chips avançados e a disputa pelas terras raras são suas manifestações mais visíveis. E, como em toda fase de crise hegemônica, a tendência à guerra não surge como acidente, mas como saída sistêmica para contradições que não podem ser resolvidas por vias produtivas. Nessa medida, a guerra internacional torna-se cada vez mais acentuada.

VII. Resistência e futuro

O diagnóstico traçado exige também perguntas sobre as formas de resistência e a imaginação do futuro. Como lutar contra um capitalismo cujas empresas produzem máquinas que não apenas matam, mas também produzem a subjetividade daqueles que as enfrentam? Como enfrentar a guerra em curso?

Aqueles que ainda confiam na recuperação da soberania estatal ou no retorno a uma democracia parlamentar da “belle époque” não compreenderam a natureza do que enfrentam. Aqueles que buscam refúgio no “local” também serão alcançados pela dinâmica histórica. Os movimentos de esquerda não podem permanecer no presente nem regressar ao passado.

As “Big Techs” que impulsionam a guerra e hoje privatizam a soberania não são uma anomalia ou corrupção do Estado, mas sua verdade mais íntima, agora exposta. Por isso, as regulações do capitalismo são totalmente insuficientes.

Diante disso, uma das tarefas centrais é construir uma política de esquerda com escala e capacidade de expansão.

Uma tarefa inadiável é recuperar ou reinventar o sentido de futuro. E, nessa batalha, a luta pelo socialismo aparece como um horizonte urgente, necessário e atual. Uma inteligência artificial sob o socialismo seria radicalmente distinta: treinada com trabalho livre, projetada coletivamente, orientada a reduzir o trabalho necessário e expandir o tempo livre, com código aberto e subordinada a necessidades planejadas.

Nesse ponto, recupera-se o legado da modernidade, pois apenas uma nova forma de ação universal pode derrubar o capitalismo parasitário. Isso implica disputar uma reorientação da tecnologia e um controle operário e democrático dos meios de produção algorítmicos. Na prática, significa repensar demandas clássicas à luz das tecnologias contemporâneas: reorientação da economia para bens socialmente úteis, redução da jornada de trabalho, renda básica universal. Mas isso não é suficiente.

Porque o problema não é apenas quem controla as máquinas, mas que tipo de máquinas construímos. Trata-se de inventar outras máquinas, outras práticas e outra subjetividade.

É também nas práticas de auto-organização dos movimentos sociais, nas experiências sindicais e do movimento operário, nas práticas de desobediência e nas redes de solidariedade que emergem em meio à precariedade, que se encontram os ensaios dessa nova subjetividade. A guerra não é a única possibilidade, nem a barbárie um destino inevitável.

A tarefa histórica é múltipla: nomear o adversário com precisão, organizar-se internacionalmente e disputar poder real. Mas também — e talvez sobretudo — construir as condições para que a subjetividade produzida por esse poder deixe de ser a única possível. Porque a guerra terminará quando formos capazes de construir um futuro que a torne irrelevante.