O autor de One Piece, Eiichiro Oda, já declarou uma vez, quando questionado sobre qual seria a nacionalidade dos personagens do Mangá. Luffy, o personagem principal, seria um jovem brasileiro. E por qual motivo os jovens brasileiros poderiam se orgulhar disso? Por qual motivo a bandeira deste bando de piratas está sendo erguida em cada revolta e protesto que surge no planeta?
Entenda um pouco a história
Monkey D. Luffy, um desajustado, pobre e rebelde desde criança, revolta-se com seu avô, herói da Marinha, e decide, após uma experiência marcante com um pirata, ser o Rei dos Piratas. Em sua jornada, Luffy vai recrutando outros tantos rejeitados, oprimidos e perdidos para sua aventura em se tornar o Rei dos Piratas. Para tal precisa encontrar um grande tesouro, que dá nome à obra: One Piece. Durante toda a jornada, são perseguidos pela Marinha e o Governo Mundial, que mantém uma realeza escravocrata, os Tenryuubito, no poder. O anime já ultrapassa os mil episódios. Seus fãs já criticaram seu ritmo lento. A animação por anos foi inconstante, as lutas, definitivamente, não são as melhores coreografadas, tão pouco os efeitos sonoros chamam à atenção. O que, então, manteve por décadas leitores e espectadores fiéis de várias gerações?
Todos os seus seguidores em seu bando sofreram algum tipo de opressão, tiveram uma marcante experiência de vida envolvendo a violência de poderosos, a exclusão, a solidão. Entretanto, o coração de One Piece está no seu enredo: Luffy é um personagem principal simples, como muitos dos Shonens (“animes para meninos adolescentes”) mas, diferente de outras obras, como Naruto, que deseja ser o líder militar de sua vila (Hokage) ou My Hero Academia, que deseja ser o maior herói da sociedade, ou Demon Slayer, que basicamente são uma elite militar, Luffy, o Chapéu de Palha, não tem por sonho um cargo militar entre os dominadores, seu sonho é ser o Rei dos Piratas, para desespero de seu avô herói da Marinha e uma certa felicidade de seu pai, líder do Exército Revolucionário - sim, há uma organização literalmente revolucionária em One Piece, cujo objetivo é derrubar o governo mundial e destruir os Tenryuubito. Luffy é um rebelde em sua essência e, embora um jovem simples que adora comer mais do que tudo, possuí um senso de justiça extremamente preciso e coloca sua vida para proteger seus companheiros.
Há uma fórmula pronta que sempre se repete em One Piece: para chegar ao tesouro final o bando do Chapéu de Palha passa de ilha em ilha, enfrentando vilões cada vez mais fortes, entre piratas que governam ilhas em nome do Governo Mundial à Almirantes. Nessas ilhas, Luffy conhece a população local e logo está tomado pelos dramas de seus novos amigos. Luffy vê a opressão e não a aceita. Junto com seus companheiros, enfrenta déspotas e opressores que exploram a população local. O bando pirata supera sua força anterior e vence, libertando este povo. E, por mais repetitivo que seja, é impossível não sentir uma satisfação imensa ao ver Luffy socar um vilão que explora o trabalho dos povos das diferentes ilhas, que os tortura, prende e os deixa famintos. Essa é a receita existente desde os primeiros episódios, e segue funcionando muito bem, Esta é a coluna vertebral de One Piece que garante o seu tamanho sucesso entre diversas gerações, incluíndo a geração Z.
Ocorre que, para além disso, há a atuação de diversos atores no universo de One Piece. Há um povo chamado “homens peixe” que foram escravizados durante toda a história e possuem um herói marcante, Fisher Tiger (Uma alegoria aberta à Malcolm X ou outras lideranças negras). Como dito, há o Exército Revolucionário - o pai e o irmão de Luffy são dirigentes desta Guerrilha, suas roupas são marcadamente inspiradas pela vestimenta dos revolucionários franceses, entre suas lideranças, há uma Drag Queen. Monkey D. Dragon, pai de Luffy, pretende destronar os Tenryuubito e derrubar o Governo Mundial, lutando pela autodeterminação dos povos das diferentes ilhas, pelo fim da escravidão e da opressão.
Para a felicidade do pai, seu filho deu um belo soco, muito bem desenhado e animado por sinal, em um Tenryuubito que havia escravizado seus amigos “homens peixe”. Uma cena que marcou a obra e é sempre celebrada pelos fãs. Socar aquele membro da realeza mundial significaria ser perseguido pelo alto escalão da Marinha, o que não impediu Luffy. Ainda que não seja um revolucionário consciente como o pai, Luffy sempre se alia aos oprimidos por um instinto natural de justiça, libertando por onde passa nações do imperialismo do Governo Mundial.
Cena de Luffy socando um Tenryuubito
Em outro arco, o Bando do Chapéu de Palha decidiu invadir uma prisão de segurança máxima para libertar uma companheira de sua Flotilha - façamos essa comparação que já percorre as redes. Única sobrevivente de um genocídio de um povo, morto pelo Governo Mundial por possuírem o conhecimento de um passado, um saber perigoso par ao domínio dos Tenryuubito. Nico Robin, recrutada por Luffy para o bando pirata, é a única sobrevivente capaz de ler uma antiga língua que explica as origens do universo de One Piece. Por isso, esta jovem mulher foi perseguida e presa pela Marinha. O Bando do Chapéu de Palha não deixou barato, invadiu a prisão, libertou Nico Robin e declarou guerra à Marinha.
Nico Robin sofria de uma depressão severa por ser a única sobrevivente de seu povo, não desejava viver. Luffy, antes de libertá-la da prisão, exigiu saber e teve a resposta: “Eu quero viver!”
Muito mais analisado, como a inspiração na resistência negra no novo poder de Luffy - Gear 5 - mas fiquemos por aqui. Quer saber mais do Bando do Chapéu de Palha? Acompanhe a obra!
Há diversos problemas condenáveis muito óbvios, como a extrema objetificação de mulheres e a secundarização de seu papel, como muitos animes da mesma geração. Contudo, One Piece é uma obra que surge na hegemonia neoliberal e trata de imperialismo e opressão. Um sopro da luta pela liberdade em plena dominação dos Estados Unidos, quando o mito do “fim da história”, após a queda da URSS, virou uma arma para os defensores do capitalismo. Se a luta de classes continua se recuperando após décadas de crise subjetiva da classe trabalhadora e sua divisão tremenda, One Piece mostrou que a história não havia acabado, nem um pouco, tanto na realidade como nas páginas de One Piece.
É necessário refletir os motivos da ascensão da bandeira dos Chapéu de Palha como símbolo de revolta internacional entre a geração Z e o que isso indica sobre os ventos que sopram as velas do nosso mundo contemporâneo.
O medo reformista da revolta espontânea
Muitas das revoltas mais recentes ocorrem na Ásia. Com diferentes graus de intensidade e violência, a marca foi a forte presença de uma juventude que se reivindica como parte da “geração z”. Uma reivindicação, inclusive, de caráter reativo às constantes acusações de gerações mais velhas sobre uma “preguiça”, “falta de responsabilidade”, ou “frescuras”. O caráter dessas manifestações se deu sem uma direção política clara, com um caráter espontâneo e explosivo, trazendo à superfície a indignação de jovens após anos de pautas acumuladas. É possível identificar semelhanças com Junho de 2013 no Brasil e na sequente revolta chilena de Outubro de 2019.
No Chile o resultado foi a ascensão de Gabriel Bóric como desvio institucional reformista da luta nas ruas após anos de governos neoliberais. No Brasil, após anos de políticas social-neoliberais dos governos do PT, gerindo a “grande fazenda do mundo” e auxiliando as “Global Players” como JBS, Junho de 2013 fez acender uma geração de negros, mulheres e LGBTS que ganharam protagonismo no Movimento Estudantil. O ano de 2014 foi seguido de um recorde de greves operárias. Mas petistas fazem o seguinte balanço de Junho de 2013: era a “semente do fascismo”. Desconsideram nisso o seu papel crucial na direção da UNE e CUT, por exemplo, ao trair e abandonar a juventude nas ruas: afinal, o PT estava mais preocupado em manter bons bilhões ao Plano Safra e em reprimir uma revolta que surgiu na gestão de Haddad na cidade de São Paulo e de Alckmin no Estado de São Paulo. A pergunta “porquê milhões de jovens saíram às ruas?” é proibida aos reformistas.
É necessário cuidado para não culpar a revolta legítima de jovens quando o problema é outro: a incompetência e traição das lideranças tradicionais dessa esquerda que mais deseja gerir o Estado e governar junto com capitalistas do que acabar com a opressão e a exploração, isso em todo o planeta.
Há, em comentários nas redes sociais, aqueles que já condenam as revoltas da geração Z como algo destinado a ser reacionário. Uma intervenção de forças obscuras, com “palavras em inglês”, que será necessariamente cooptado pela direita. Há de se pensar, de fato, nos diferentes aspectos de cada revolta que está eclodindo, mas isso não justifica a condenação antecipada da revolta da juventude, sem ao menos refletir o que ela significa e como podemos dar, justamente, uma direção revolucionária e emancipatória para toda essa energia que explode. É isso que partidos da ordem, como o PT, desejam: o temor da luta de classes e a paz com latifundiários e banqueiros.
Não é de antemão "uma revolução colorida" as revoltas da juventude a nível internacional. Menos ainda algo preocupante o uso da bandeira pirata. A associação entre One Piece com a luta pela libertação palestina é massiva e internacional: Luffy libertaria a Palestina”.
Antes de uma postura de temor frente a revolta e a explosão de contradições sociais, é necessário pensar na relação fundamental entre as massas e sua direção política. Quando essa direção trai as massas e gere o Estado burguês, é de uma hipocrisia imensa desconfiar da revolta espontânea. É na conciliação de classes e nas traições da esquerda que as "revoluções coloridas" se alimentam. O PT fez isso muito bem com Junho de 2013 no Brasil: fazer a luta de classes parecer como uma ameaça, quando o que mais nos ameaça e abre espaço para extrema-direita é governar junto com a Faria Lima, Latifundiários e empresários da fé!
Sendo assim, este símbolo compartilhado revela uma experiência generalizada entre jovens de várias nações pelo mundo. Nos identificamos com os personagens desajustados, que sofrem a opressão e exploração de governos corruptos. Há uma sensação de falta de perspectiva generalizada em diversos países, o desemprego, a pobreza e as guerras são realidade, ou fantasmas bem próximos, de centenas de milhões de jovens.
Em uma época de imperialismo decadente, com Trump no poder, a bandeira dos Chapéu de Palha surge como um símbolo anti-imperialista, espontâneo e massivo. A associação entre as classes dominantes da realidade com os Tenryuubito, a ligação entre a Marinha e as Forças Armadas opressivas por todo o mundo, são uma leitura compartilhada por toda a juventude.
Ainda que de forma espontânea, em especial nesta “primavera asiática” cujo último epicentro esteve em Nepal, toda simbologia da bandeira pirata indica tendências interessantes na subjetividade da geração Z: uma sede por justiça, uma abominação à opressão dos governos e o rechaço ao imperialismo. Tal fenômeno de revolta protagonizado pela juventude pode ser visto se mesclando à ações da classe operária, como na França, mas, em especial, na Itália, onde a classe trabalhadora, entre professores e portuários, e a juventude fizeram uma greve geral contra o genocídio na Palestina e em defesa da Global Sumud Flotilha, recentemente interceptada por Israel.
Luffy, disse o criador da obra, seria brasileiro. Façamos justiça para tal honra. Na Unicamp, a pressão do movimento estudantil fez a Reitoria romper relações com empresas israelenses. Na USP, a pressão continua. É possível e necessário fazer muito mais, basta as direções majoritárias do Movimento Estudantil, em especial da UNE, deixarem de governar junto com os Tenryuubito brasileiros e cumprirem com o seu dever, que deixaram de fazer, por exemplo, ao ignorar o último ato em defesa da palestina no último domingo, pela libertação imediata de todos os capturados pela Marinha israelense, entre os quais dois trabalhadores da USP e outros brasileiros, que já estão de volta.
A juventude brasileira pode e deve cumprir um papel muito mais relevante internacionalmente em defesa da Palestina. Não há qualquer paz na proposta de Trump, elogiado e aplaudido pelo governo brasileiro. O projeto colonialista de Israel se mantém. Podemos começar a fazer jus à homenagem de Eiichiro Oda de sermos os principais inspiradores de Luffy, criador da bandeira da geração Z.