1 A crise do “Ocidente” e o desafio da China
A China se converteu em um ator protagonista no sistema capitalista internacional e um dos dois polos de uma economia mundial cada vez mais fragmentada, pautada pelas preocupações de segurança geopolítica, “desvinculações estratégicas”, protecionismo e conflitos tarifários. Essa constatação ganha contornos específicos no contexto do fim de ciclo da era neoliberal, que implicou a articulação relativamente harmônica das economias e cadeias globais de valor nas mais de três décadas do pós-Guerra Fria. A velha ordem mundial ditada pela unipolaridade estadunidense está em crise, com a própria decadência hegemônica do imperialismo norte-americano e as fraturas no antigo corpus do “Ocidente”, hoje fragmentado pela política disruptiva de Donald Trump e seu desprezo pelas tradicionais alianças transatlânticas.
Dentro desse processo, de reatualização das características da etapa de crises, guerras e giros bruscos no cenário global, a China emergiu como potência voraz, a segunda economia mundial com o segundo maior orçamento militar no mundo, um país que deixou de ser mero receptor de capitais e investimento estrangeiro direto para tornar-se uma nação que disputa nichos de acumulação de capital entre os Estados mais débeis. Com isso, a ascensão chinesa coloca o país como ator fundamental nas disjuntivas da crise capitalista, e também como receptáculo de seus efeitos. A China de Xi Jinping, como nunca antes, desloca para os alicerces de seu edifício nacional todas as contradições mais explosivas da economia e da luta de classes mundial.
Essa transformação tem sérias consequências para a estrutura capitalista. A principal delas é que a China se torna um ator influente – e decisivo – na disputa por quem pagará os custos do esgotamento da globalização neoliberal. Diante da ausência de novos espaços considerável de acumulação capitalista - como foi a própria China a partir de sua reabsorção na esfera de extração de mais-valor na década de 1990 - e o facto de que, após a crise do Lehman, os resgates estaduais deixaram empresas economicamente muito enfraquecidas e que não investem, as tendências a fricções geopolíticas com implicações militares se tornam cada vez mais inscritas na situação, ainda que não se tenham generalizado em um conflito global.
Dentro dessa dinâmica, em que os Estados Unidos seguem sendo a principal potência imperialista dentro do sistema capitalista global, a China desempenha um papel que para sua história é inédito na partilha dos recursos mundiais. A Guerra da Ucrânia, que representa o momento mais importante de questionamento do esquema de dominação arquitetado pela globalização, foi usado pela China para avançar paulatinamente seu desafio “revisionista” da unipolaridade estadunidense. Neste conflito, tanto os Estados Unidos quanto a China, sem ter tropas no terreno, continuaram sua política por outros meios: os EUA com o comando da OTAN, lutou para preservar a ordem unipolar saída da Guerra Fria, subordinando os capitais da Rússia e da China; e a China avançando em sua aliança com Moscou, mas em uma aliança cada vez mais assimétrica como consequência da dependência da Rússia em relação à China, após a ruptura com o Ocidente (assimetria que gera ressentimentos em Moscou). A China não quer subverter o sistema econômico capitalista que sublinha essa ordem, e sim melhorar sua posição nele.
Paralelamente, a China ainda busca as condições tecnológicas e militares que lhe permitam expandir o desafio à primazia dos Estados Unidos em assuntos de importância global. Se é verdade que a ascensão chinesa alterou o velho esquema de domínio indisputado dos Estados Unidos, cumpre reconhecer que o país se eleva a partir de bases mais atrasadas, comparativamente às potências já estabelecidas. Esses fatores de incongruência nos ritmos de desenvolvimento são fundamentais para entender os alcances e os limites relativos à emergência chinesa, que só poderão ser resolvidos no terreno das disputas interestatais e da luta de classes internacional.
Hoje, a China capitalista se encontra sob o regime bonapartista unipartidário do Partido Comunista Chinês, que sobreviveu à restauração, administrando seus efeitos. A China tem um modelo capitalista sui generis, bastante distinto do que conhecemos tradicionalmente no Ocidente, pela marca do “dirigismo estatal” e as condições de gênese da restauração, que absorveu as conquistas da Revolução de 1949. O PCCh conservou nas suas mãos alguns nichos estratégicos da economia (energia, telecomunicações, transporte, finanças), mas coloca sua máquina estatal a serviço da promoção da lei do valor e da projeção internacional do seu capital nativo, em que a propriedade estatal tem influência mas é proporcionalmente cada vez menor diante do crescimento do setor privado. Mantém o país como um pólo manufatureiro global através do disciplinamento férreo da colossal classe trabalhadora chinesa. Sem a repressão sistemática e a disciplina coercitiva nos locais de produção, negando qualquer tentativa de organização operária, seria impensável que o PCCh pudesse manter seu esquema industrial.
A base não replicável do avanço da China, de um país com trajetória colonial para uma superpotência capitalista que passa a modificar a dinâmica interna dos países mais frágeis, tem como fundamento a absorção pela contrarrevolução das conquistas da Revolução de 1949, sem a qual esse salto seria impensável. A Revolução havia unificado o país, criado pela primeira vez em sua história um Estado soberano forte, fez emergir uma camada de milhões de trabalhadores saídos da miséria, com formação educacional e disciplina, atingindo índices elevados de alfabetização e expectativa de vida, e edificou mecanismos de controle econômico – planificação (ainda que burocrática), a nacionalização dos ativos industriais estratégicos, etc. – dentro de um marco institucional relativamente descentralizado, que permitia a autonomia das províncias. Nascido já deformado burocraticamente, a República Popular não abonava a existência de organismos de democracia direta do tipo da Comuna ou dos conselhos soviéticos, nem a expansão internacional das conquistas de 1949. O isolamento e o atraso, alimentados pela situação mundial de retrocesso das conquistas operárias – a queda do Muro de Berlim e o desaparecimento da União Soviética – desataram as forças que trariam a China de volta para o novelo do capitalismo global.
Toda a fase de reformas de restauração capitalista que começou com Deng Xiaoping no final da década de 1970 e se acelerou durante a década de 1990, culminando na entrada da China na OMC em 2001, foi precedida pela reaproximação de Pequim com Washington, que começou com a cúpula entre Nixon e Mao. A China se tornaria um elo fundamental nas cadeias globais de valor. Isso se devia à disponibilidade de uma força de trabalho massiva, barata e qualificada, cuja mobilidade dentro do país era rigorosamente controlada pelo PCCh. Esse controle facilitou a rápida disponibilização de dezenas de milhares de trabalhadores para empresas nas Zonas Econômicas Especiais, onde se localizavam projetos de produção voltados para a exportação. Assim, a China tornou-se a grande “fábrica do mundo”. Sua integração ao capitalismo global foi fundamental para a ofensiva internacional do capital contra o trabalho, o ciclo neoliberal que a partir da década de 1980 varreu os ganhos trabalhistas. Isso ocorreu em países imperialistas e periféricos, enquanto as corporações transnacionais aumentavam suas margens de lucro.
A China e os países capitalistas desenvolvidos (imperialistas) mantiveram uma relação simbiótica durante o período neoliberal. Particularmente com os EUA, durante a década de 2000, falava-se de “Chimerica” para descrever os laços estreitos estabelecidos. Obviamente, a relação nunca foi isenta de tensões. Após o massacre de Tiananmen em 1989, as relações esfriaram. Houve também um pico de tensão durante a Guerra do Kosovo, quando um dos mísseis lançados pelas forças da OTAN em Belgrado atingiu a embaixada chinesa. Mas esses foram eventos isolados em uma relação eminentemente cooperativa.
Após a Grande Recessão, uma nova dinâmica começou a emergir nas relações da China com os EUA e outras grandes potências. Da perspectiva dos EUA, a ideia de que a China representava uma ameaça ao seu domínio ganhou força crescente. A admissão de que o Tesouro dos EUA dependia da compra de títulos pela China para financiamento foi uma demonstração clara da força econômica do gigante asiático. Isso alimentou o debate crescente entre os estrategistas estadunidenses sobre como agir diante da “ameaça chinesa”, nem sempre com as mesmas posições (como vemos entre John Mearsheimer e Henry Kissinger, por exemplo). O “pivô para a Ásia” de Obama se materializou tanto em um aumento do destacamento militar no Sudeste Asiático quanto na busca pelos acordos de livre comércio mais ambiciosos propostos até o momento, o TTIP e o TPP. Sob Trump, o objetivo de conter a China se traduziu em políticas substancialmente diferentes, uma "guerra comercial", que teve como pano de fundo a competição, especialmente em questões tecnológicas. Em termos de segurança, a pressão pela aliança Quad (composta por EUA, Japão, Austrália e Índia) foi uma das demonstrações mais evidentes de uma demonstração de força diante da ascensão da China. Trump autorizou vendas recordes de armas para Taiwan, enquanto divulgava as viagens navais pelo Estreito de Taiwan, que se tornaram rotina. Biden foi ainda mais agressivo na restrição ao acesso da China a tecnologias críticas, como semicondutores, assim como a pressão por alianças regionais de segurança no Sudeste Asiático contra a China. Em 2021, foi estabelecida a AUKUS, a aliança militar estratégica entre Austrália, Reino Unido e Estados Unidos para a região do Indo-Pacífico.
Da perspectiva da China, a crise de 2008 havia confirmado a falibilidade do capitalismo ocidental e o momento de aparecer como um “modelo alternativo” de governança e perspectiva econômica, sob o suposto "socialismo com características chinesas" - eufemismo para descrever o tipo de capitalismo selvagem na China com a dominação estatal do Partido Comunista Chinês. Em resposta ao “pivô para a Ásia" de Obama, Xi introduziu o conceito de um “novo tipo de relações entre grandes potências”. Essa mudança na postura global da China foi complementada pelo conceito de “comunidade com um futuro compartilhado para a humanidade” que busca enfatizar a ideia de que a liderança chinesa pretende desempenhar um papel positivo e construtivo nos assuntos globais. Isso fez ressurgir a temática do suposto “multilateralismo benigno” sob a liderança da China, e que tem influência nas discussões públicas de setores populistas, neorreformistas ou “nacionalistas progressistas” que se identificam com a noção do “Sul Global”. Trata-se de um espectro de opinião com o qual viemos debatendo em inúmeros materiais da FT-CI, sempre de um ponto de vista antiimperialista e de independência frente a todos os Estados capitalistas.
Ao mesmo tempo em que preservava a propriedade estatal majoritária de alguns ramos estratégicos e limitava a desregulamentação do setor financeiro, deixando inúmeras alavancas de intervenção ativa no planejamento econômico nas mãos do Estado, ampliou o surgimento, a presença e a consolidação de um robusto setor privado que recebeu fartos benefícios para enriquecer-se, na medida em que adaptava-se aos objetivos do Estado. A classe trabalhadora chinesa protagonizou inúmeros processos de luta e resistência contra os efeitos da restauração e o fortalecimento do setor privado, desde as lutas no campo na década de 2000 contra as expropriações de terras de Hu Jintao, até a onda de greves na indústria automotriz e eletrônica em Guangzhou na década de 2010. Não houve ausência de luta de classes, embora ainda não tenha alcançado um caráter ameaçador como durante a revolta da Praça Tiananmen, onde a revolta estudantil foi seguida pela entrada da classe trabalhadora. A repressão governamental, que escalou tremendamente na era Xi Jinping, derrotou esses processos, incrementando os obstáculos já substantivos para a organização operária nos locais de trabalho. Não obstante, a desaceleração da economia chinesa, a crise do setor imobiliário e os problemas de superprodução da indústria, assim como a alta taxa de desemprego na juventude e o anseio por maiores direitos democráticos, podem gerar novos processos que, num país como a China, inevitavelmente envolverão elementos operários.
Considerando as razões pelas quais a China se tornou mais assertiva, não se pode ignorar as tensões que um desenvolvimento tão rápido como o que a China experimentou inevitavelmente geram em qualquer sociedade. Isso tem efeitos potencialmente desestabilizadores, que podem ser seu principal calcanhar de Aquiles. A intensificação das rivalidades internacionais podem se exacerbar, e gerar consequências graves internas no âmbito social e econômico, processos que estão em aberto e que poderiam alterar o curso do desenvolvimento chinês.
A rivalidade entre os EUA e a China se intensificou sem alterar qualitativamente a extrema interdependência econômica. Os EUA representam o principal mercado consumidor do país. Os Estados Unidos possuem apenas o segundo maior setor manufatureiro do mundo, respondendo por 13% da produção global, enquanto a China responde por mais que o dobro, 35%. Portanto, embora as medidas tarifárias de Donald Trump durante seu novo mandato às vezes ameacem levar a uma dissociação drástica, elas são difíceis de sustentar. Devemos considerar o desafio da China e a discussão sobre seu lugar no sistema global à luz das peculiaridades históricas impostas por essa internacionalização da produção no século XXI.
2 China no concerto de potências
É interessante partir de uma série de dimensões quantitativas que nos permitem situar a China na hierarquia internacional. Elas nos dão uma ideia da força material acumulada pela formação socioeconômica chinesa. Tomadas em conjunto, revelam um avanço avassalador, no qual, em muitos aspectos, ela superou em muito diversas potências imperialistas (em muitos casos, todas elas, exceto os Estados Unidos).
2.1 Produto Interno Bruto (PIB) e lugar no comércio mundial: A economia chinesa hoje é dois terços do tamanho da dos Estados Unidos, se medida em valores atuais, segundo estimativas do Fundo Monetário Internacional. Mas se esses números forem ajustados pela paridade do poder de compra para corrigir o efeito da depreciação da moeda, o resultado é que o PIB da China é um terço maior que o dos EUA.
A peculiaridade da China reside no fato de que essa preponderância em termos de tamanho coincide com o fato de que, medida em termos de produção per capita, ela cai acentuadamente em direção ao meio do ranking. O FMI classifica a China em 72º lugar, com um PIB per capita (medido em PPC) que mal chega a 30% do dos EUA. Para se ter uma ideia, Argentina e Chile estão acima da China neste indicador. Este é um exemplo das disparidades produtivas que assolam o gigante asiático, onde centros de acumulação de capital apoiados pela tecnologia mais avançada, como os das cidades costeiras, coexistem com condições muito mais precárias e pouco competitivas em termos capitalistas.
O volume de produção está diretamente ligado à importância adquirida pela China como parceira comercial. A internacionalização acelerada da produção desde a década de 1970 foi organizada tendo os Estados Unidos como principal destino da produção de bens finais, o país com o maior mercado em termos de poder de compra. Essa situação mudou drasticamente com a ascensão da China. No final da última década, a China era o principal parceiro comercial de 128 dos 190 países. Os Estados Unidos permaneceram como o principal parceiro comercial em apenas 30% desses países. O gráfico abaixo dá uma ideia dessa importância adquirida.
Essa preeminência se explica principalmente pela posição da China como fornecedora de bens industriais. Com quase 40% da produção mundial localizada na China, em muitos casos não há opções de fabricação fora das fábricas localizadas lá. Mesmo muitos produtos cuja montagem final é feita em outros países dependem de componentes que só podem ser obtidos de fabricantes chineses.
2.2 Produtividade do trabalho: Houve um salto formidável na produtividade, com uma defasagem ainda abismal em comparação aos níveis globais. A transformação da China na oficina de manufatura do mundo foi acompanhada por um aumento formidável na produtividade. Entre 1990 e 2025, a produtividade por hora trabalhada aumentou 15 vezes na China. Durante o mesmo período, os EUA nem sequer dobraram sua produtividade. No entanto, apesar desse salto, os EUA têm atualmente quatro vezes a produtividade horária da China e três vezes a produtividade por pessoa. Esses números são um tanto enganosos, porque o valor adicionado computado inclui a parcela que as multinacionais norte-americanas se apropriam da produção gerada em suas cadeias de valor globais em outras geografias, incluindo a China. Mesmo assim, esse número reflete os paradoxos inerentes ao desenvolvimento desigual e combinado da China. Este país, na verdade, abrange várias Chinas, com realidades produtivas muito díspares.
2.3 Empresas líderes: Há alguns anos, a China surpreendeu a todos ao ultrapassar os EUA no número de empresas incluídas no ranking Fortune Global 500. Em 2024, os EUA reverteram essa situação, ultrapassando a China com 139 empresas entre as 500 maiores, seis a mais que o gigante asiático. Em 2025, a liderança dos EUA se repetiu, com 138 empresas entre as maiores do mundo, em comparação com 130 sediadas na China. No caso da China, algumas empresas foram incluídas no ranking devido à sua expansão dentro do país, e não à sua internacionalização. No entanto, este é um exemplo claro da posição dos gigantes corporativos chineses.
2.4 Internacionalização do renminbi: Uma das expressões paradoxais de seu desenvolvimento desigual e combinado é a dificuldade que a China encontrou para criar uma moeda nacional amplamente utilizada fora de suas fronteiras. À medida que a moeda de um país se torna mais amplamente utilizada internacionalmente, o escopo para a formulação de políticas econômicas se expande. Os Estados Unidos, cuja moeda é de longe a mais utilizada para transações, como moeda de reserva para bancos centrais e como moeda para emissão de múltiplos ativos financeiros, aproveitam essas vantagens para sustentar grandes déficits em sua balança de pagamentos externa. O que seria impossível para qualquer outro país financiar, os Estados Unidos conseguem graças ao uso generalizado do dólar. Nessa área, a China está muito atrás de outros países.
O Federal Reserve (Fed) compila um indicador de uso de moeda, que é uma média ponderada da participação de cada moeda nas reservas cambiais divulgadas globalmente (peso de 25%), volume de transações cambiais (25%), uso de cada moeda na emissão de dívida em moeda estrangeira (25%), moeda estrangeira e ativos bancários internacionais (12,5%) e moeda estrangeira e passivos bancários internacionais (12,5%). O que podemos observar é que o notável crescimento da influência comercial da China não foi acompanhado por uma capacidade equivalente de fortalecer o papel internacional de sua moeda. O Fed registra que o uso do dólar representa 65% do total, o euro 24% e o renminbi 3,1%. Embora seja verdade que, nas bolsas de commodities, Pequim tenha tido mais sucesso em realizar transações sem usar o dólar, isso não diminuiu a primazia do dólar nas transações, nem na participação relativa de moedas utilizadas como reservas, nem nos mercados de emissão de dívida soberana.
2.5 Investimento estrangeiro direto (IED): Outro exemplo de poder econômico é a expansão internacional de empresas por meio do Investimento estrangeiro direto (IED). É preciso ter em mente que, enquanto até algumas décadas atrás a exportação de capital era exclusividade dos países imperialistas, hoje muitos países "emergentes" e "em desenvolvimento" também exportam capital; ou seja, seus residentes realizam investimento estrangeiro direto. Portanto, a hierarquia entre os países hoje não se baseia na exportação ou não de capital, mas sim no grau dessa exportação e no saldo líquido entre o capital "exportado" e o capital recebido. Aqui podemos observar a extraordinária expansão da China, que ocorreu em apenas 20 anos.
A China foi por muito tempo um ímã para investimento estrangeiro direto. Continua sendo até hoje, mas também se tornou um concorrente do resto do mundo como investidor.
Desde 2013, a China implementou a Nova Rota da Seda em todo o mundo, envolvendo diversos projetos de infraestrutura (estradas, portos, ferrovias) financiados por capital chinês. Além disso, empresas chinesas têm viajado pelo mundo para adquirir outras empresas, tanto em países dependentes quanto em outros países imperialistas. Em alguns casos, isso tem levantado preocupações entre os Estados sobre as implicações geopolíticas de algumas aquisições que permitiram à China acesso a tecnologias-chave. Se considerarmos apenas a China, excluindo Hong Kong e Macau, o fluxo de IED gerado no país em 2024 foi o terceiro maior do mundo, depois dos EUA e do Japão. Se somarmos o IED gerado na China ao gerado em Hong Kong, teríamos o segundo maior gerador de IED em 2024.
Como receptora de IED, a China ficou em quarto lugar, depois dos EUA, Cingapura e Hong Kong. Somando China e Hong Kong, ela ficaria em segundo lugar, ultrapassando Cingapura. Isso reflete sua posição de destaque nas cadeias globais de valor, mas também a atratividade de seu mercado. Cabe destacar que, em meio ao turbulento cenário internacional, o IED direcionado à China caiu expressivos 30% no ano passado, diferentemente do que ocorreu, por exemplo, nos EUA, onde a atração de capital que alcançou cresceu significativamente, de US$ 230 bilhões para US$ 279 bilhões. Em termos de estoque acumulado de IED no exterior, a China ocupa atualmente o terceiro lugar. É superada pelos EUA e pela Holanda. Mas se adicionarmos Hong Kong à contagem, o estoque acumulado de IED é maior do que o de toda a Europa. Apenas os EUA estão em posição superior.
A China destaca-se, assim, como um ator de grande relevância no movimento internacional de investimentos destinados à produção, tanto pelo capital que atrai quanto por sua participação na competição global por investimentos. O estoque de IED gerado pela China era de apenas 0,3% do total global há 25 anos e agora está em 7,1%. É um claro protagonista em uma área quintessencial das operações imperialistas: a extração de mais-valia para além das fronteiras nacionais e a participação em redes internacionais de valorização.
2.6. Exploração do trabalho e dos recursos naturais: A China vem multiplicando sua presença internacional com grande volume (e estoque) de exportação de capitais, e disputa por nichos de acumulação capitalista com as potências do “Ocidente” sobre países mais frágeis. A projeção internacional dos seus grandes corporações sé uma característica que manifesta os traços imperialistas cada vez mais patentes do Estado capitalista chinês.
Por exemplo, para mover a indústria dos semicondutores, da robótica e dos data centers necessários para a inteligência artificial, a China precisa de energia elétrica. Desde 2018, as empresas estatais chinesas avançaram vorazmente no setor elétrico de países dependentes, especialmente na América Latina. No Chile, a China Southern Power Grid International adquiriu 28% da Transelec, uma empresa de transmissão de energia elétrica, enquanto a State Grid Corporation of China (SGCC) adquiriu a Chilquinta, uma distribuidora local de energia elétrica em Valparaíso, e a Compañía General de Electricidad (CGE), a maior distribuidora de energia elétrica do país. Isso deixou a estatal chinesa como proprietária de duas das quatro distribuidoras de energia elétrica do Chile, controlando 57% da distribuição e cobrindo toda a rede no norte do país. No Peru, a China Southern Power Grid comprou a Enel em 2023 juntamente com a China Yangtze Power International, empresa controlada pela China Three Gorges (CTG), o que significa que a totalidade da distribuição de energia elétrica na região metropolitana de Lima (10 milhões de habitantes) e mais da metade do território peruano passa a ser controlada por empresas chinesas. Entre 2007 e 2022, a China investiu US$ 32,5 bilhões no setor elétrico brasileiro. A State Grid, que venceu o maior leilão da história do Brasil para linhas de transmissão de energia elétrica, é responsável pelo fornecimento de energia a 60 milhões de pessoas no Brasil, e junto a State Power Investment Corp. constroi uma infraestrutura de milhares de quilômetros de linhas de transmissão de propriedade chinesa, que escoam a eletricidade produzida no Nordeste, por usinas eólicas, solares e hidroelétricas, para o Centro-Oeste. Essa interferência na grade energética de países mais frágeis altera aspectos significativos da sua economia interna, e deve ser levado em conta na questão programática contra a dupla dependência da América Latina.
Assim também, a extração de minérios é fundamental como substrato material das tecnologias de nova geração, dos semicondutores, da Internet das Coisas e da inteligência artificial. Se tomarmos apenas os minerais estratégicos diretamente envolvidos na produção de baterias elétricas (lítio, cobalto, grafite), a China usufrui de posição de destaque frente aos competidores globais: processa mais de 90% do grafite mundial e é responsável por mais de dois terços da capacidade mundial de processamento de cobalto e lítio. As empresas chinesas têm investimentos significativos em diversos projetos de mineração e extração na Argentina, dando à China acesso ao triângulo do lítio, uma área na Argentina, Bolívia e Chile que contém 50% do lítio mundial. Isso gera conflitos com a comunidade mapuche, que já se enfrenta com as políticas persecutórias dos governos locais, pressionados por multinacionais estadunidenses e europeias. No Equador, onde a China tem empresas de mineração no “Cinturão do Cobre” (como Mirador e San Carlos Panantza), há resistência de comunidades indígenas (como os Shuar) contra a destruição do meio ambiente e a expropriação de suas terras ancestrais. Além disso, suas empresas detêm 80% da produção de cobalto na República Democrática do Congo, onde está localizada mais da metade (60%) da produção global do minério. No Congo, empresas chinesas como a CMOC Group (China Molybdenum Company) e a Sicomines, junto a empresas imperialistas como a anglo-suíça Glencore, são responsáveis por uma série de violações dos direitos humanos: despejos forçados, superexploração do trabalho (que inclui trabalho infantil) e milhares de mortes derivados de acidentes laborais. As greves na mineração, que se enfrentam também com capital chinês, estão frequentemente associadas a baixos salários, condições de trabalho perigosas e falta de compensação adequada. Greves mineiras contra as longas horas de trabalho, baixos salários e péssimas condições de trabalho ocorrem na Zâmbia e no Zimbábue, países africanos em que a China tem investimentos em cobre e lítio. Nos últimos anos, empresas mineradoras como a Heijin e a Tsingshan Group Holdings são acusadas de expulsar comunidades nativas de seus locais ancestrais no Zimbábue, um problema já assinalado na América Latina, o que gera por vezes protestos com traços anticoloniais, em defesa dos direitos dos povos originários.
Assim, a China já se converteu em uma das grandes potências extrativistas que exploram regiões como a África, a América Latina e o sudeste asiático, explorando trabalho e construindo infraestruturas imprescindíveis para facilitar a penetração de seu capital (como portos ou redes de transporte dos assentamentos na costa, sendo o Porto de Chancay, no Peru, que será o maior porto comercial da América Latina, nascido sob controle de Pequim). O extrativismo chinês retroalimenta sua máquina industrial-militar, de modo não muito distinto das fases que atravessaram as grandes potências imperialistas no curso de seu crescimento como metrópoles absorvedoras de matérias-primas para impulso do seu capital a nível mundial.
As obras de infraestrutura na Nova Rota da Seda apresentam mais uma forma de intervenção na economia interna dos países, e fazem parte orgânica das necessidades de Pequim - tanto como forma de ganhar influência maior sobre países dependentes, quanto como via mais adequada para escoar parte da sobrecapacidade produtiva da China. 146 países fazem parte do projeto (53 na África, 22 na América), de todos os continentes. A questão vai além do que se convencionou chamar de “armadilha da dívida”, que em determinada medida encadeia os países-sede dos projetos ao pagamento dos custos de construção. A China passa a ter influência política sobre o que é decidido por países mais frágeis (especialmente na África, mas estamos vendo fenômenos dessa natureza na América Latina também, como no caso do Peru com o Porto de Chancay), quando o assunto é demasiado próximo dos interesses de Pequim. A China, por exemplo, financiou e construiu novos edifícios parlamentares em quinze países africanos, incluindo Lesoto, Zimbabwe e Malawi, e até mesmo o prédio da União Africana na Etiópia. Muitos desses “presentes” são feitos mediante condições restritivas, como o esfriamento das relações com Taiwan, a permissão de ganhos de licitação a empresas chinesas, a redução de supervisão das leis trabalhistas sobre projetos de interesse chinês, assim como a liberação de restrições ambientais. A Rota da Seda é acompanhada por acordos de segurança. Quase 40 países africanos mantêm algum tipo de relacionamento com agências de segurança chinesas, como Egito, Tanzânia e Nigéria. Entre eles, estão a proteção de ativos da Rota da Seda, que são fatores de infraestrutura que Pequim utiliza (especialmente portos e ferrovias) para projetar seu capital internacionalmente; mas também acordos de treinamento das forças de segurança e das forças armadas desses países. De fato, Moçambique, Namíbia, Seicheles, Tanzânia, Zâmbia e Zimbábue recebem mais de 90% de suas armas da China, e mantêm relações de segurança muito próximas com o PCCh. Empresas de defesa da China, como a gigante NORINCO, abriram escritórios comerciais na Angola, Nigéria, África do Sul, bases que utiliza para expandir suas operações de fornecimento regular de armas e munições no Sahel (Burkina Faso, Mali, Níger), região em que o imperialismo francês vem perdendo muitas posições em nome do bloco Rússia-China. Ou seja, a Rota da Seda é, entre outras coisas, a porta de entrada da influência político-militar de Pequim - procedimento menos custoso do que a edificação de “bases militares”, mas que prepara também o seu surgimento no horizonte.
Além da contribuição na deterioração do meio-ambiente, as leis trabalhistas são violadas com permanência, especialmente com o não pagamento de salários atrasados (caso da greve nas minas de níquel na Indonésia, em que a China opera na construção civil através de contratos da Nova Rota da Seda), mas também assédios, retenção de passaportes, péssimas condições de trabalho e uso de violência física.
Esta nova realidade mostra que a China passa a intervir nos processos internos das economias de inúmeros países dependentes, muitos deles com trajetória colonial, e alterar sua dinâmica própria, obrigando-as a saltar etapas. Tudo isso a fim de garantir rotas comerciais, acesso irrestrito e seguro a cadeias de fornecimento de matérias-primas, e a exploração de recursos humanos, naturais e energéticos para o incremento de sua condição de potência. Empresas norte-americanas e europeias, de potências imperialistas clássicas, já o faziam durante décadas; a novidade é que empresas estatais e privadas chinesas passam a disputar nichos de acumulação capitalista, quer em joint-ventures com empresas locais, quer em cooperação com multinacionais imperialistas ou mesmo atuando individualmente. Os avanços são desiguais, e o ritmo é heterogêneo; mas o vetor e a direção do desenvolvimento são decisivos: a superpotência tecnológica e econômica da China é parte do desenvolvimento dos seus traços imperialistas na edificação de grandes monopólios, na exportação de capitais, na exploração do trabalho do proletariado de muitas regiões do mundo, e na preparação das condições para a expansão militar de Pequim.
2.7. O avanço tecnológico da China: Segundo o The Economist, em 2003 os Estados Unidos produziram 20 vezes mais artigos científicos de alto impacto do que a China. Em 2013, essa proporção se reduziu para quatro vezes o número dos principais artigos e, na versão mais recente dos dados, que examina os artigos de 2022, a China ultrapassou os Estados Unidos e toda a União Europeia. A China lidera o mundo em pesquisas acerca das ciências físicas, químicas e da natureza, assim como em engenharia e ciência de materiais. Químicos chineses desenvolveram uma nova maneira de extrair hidrogênio da água do mar usando uma membrana especializada para separar a água pura, que pode então ser dividida por eletrólise; dominam publicações sobre painéis solares de perovskita, que oferecem a possibilidade de serem muito mais eficientes do que as células de silício convencionais na conversão da luz solar em eletricidade. Existem agora seis universidades ou instituições chinesas entre as dez melhores do mundo, e sete de acordo com a revista Nature.
A orientação econômica do governo Xi Jinping é a da construção de “forças produtivas de alta qualidade”, através da sinergia entre inovação científica e tecnológica (“fonte de vitalidade econômica”) e inovação industrial (“ponte de transformação”). Com efeito, a influência da China como um importante centro global de inovação continuou a crescer, acelerando sua transformação de participante e colaboradora para pioneira e líder em ciência e tecnologia global. O investimento total do país em pesquisa e desenvolvimento (P&D) ocupa agora o segundo lugar no ranking mundial, com suas empresas privadas desempenhando um papel fundamental na promoção da inovação, com seus gastos em P&D e pessoal representando mais de 75% do total nacional. A China se converteu num centro de inovação tecnológica global –e essa é uma diferença categórica com a estrutura técnico-industrial chinesa até a primeira década do século XXI, em que a produção técnica avançada aplicada na indústria passa a ser de origem chinesa–. A título de exemplo, até a crise mundial de 2008, a China dependia majoritariamente de empresas europeias e japonesas para o fornecimento de robôs industriais. A China já possui uma densidade maior de robôs por pessoa em suas fábricas do que países como os Estados Unidos e o Japão. As fábricas chinesas instalaram quase 300.000 novos robôs em 2024, mais do que o resto do mundo combinado: as fábricas americanas instalaram 34.000. No setor de robôs humanóides, com sistemas de machine learning alimentados por inteligência artificial, empresas chinesas como EngineAI e Unitree Robotics devem ultrapassar a Tesla e a Boston Dynamics nos próximos anos, segundo a Bloomberg. Pedra angular da iniciativa Made in China 2025, a robótica é fundamental para o objetivo do país de dominar as indústrias globais de alta tecnologia. Segundo o governo, o país conseguiu cumprir mais de 80% das metas estabelecidas em 2015 para o desenvolvimento de veículos elétricos, robótica, inteligência artificial, semicondutores, novos materiais, etc. As empresas e centros de pesquisa da China se beneficiam da experiência do país em manufatura e do forte apoio governamental, e a abordagem de Pequim pode dar à China uma vantagem no desenvolvimento de setores estrategicamente importantes e “capital-intensivos”, como já fez com veículos elétricos e painéis solares.
Outro tanto podemos ver no ramo estratégico dos semicondutores, em que a China demonstrou capacidade de avanço técnico e inovação dentro de um contexto de grande atraso. Semicondutores são fundamentais para toda a nova indústria produtiva e militar, presente para a inteligência artificial, robótica, a fabricação de veículos elétricos, ou mísseis hipersônicos. Os microchips mais avançados utilizados pela China, até agora, tem o seu design elaborado por multinacionais norte-americanas e são produzidos em Taiwan (TSMC) e na Coreia do Sul. Esse é um problema para Pequim, que investiu bilhões de dólares em pesquisa e desenvolvimento de semicondutores, assegurando o nascimento de centenas de startups do ramo. Os obstáculos para desenvolvimento endógeno são grandes. Com a política de assédio comercial de Trump, já em 2018, víamos a competição tecnológica como pano de fundo real da disputa sino-estadunidense. Na esteira de Trump, Biden foi mais direto na tentativa de bloquear, ou ao menos frear, a possibilidade de desenvolvimento tecnológico por acesso de insumos estadunidenses. Direcionou as restrições a controles claros de exportação de semicondutores e tecnologia avançada de inteligência artificial, proibindo, por exemplo, o acesso chinês a microchips da Nvidia que alimentam sistemas de inteligência artificial e a máquinas de litografia ultravioleta da holandesa ASML, essenciais para a manufatura de semicondutores. Mas o “momento Deepseek” colocou em dúvida a estratégia estadunidense, com uma abordagem focada em desenvolver um modelo de linguagem ampliada sem a utilização de semicondutores mais modernos (combinando antigos modelos da Nvidia com modelos de fabricação nacional). O resultado foi a apresentação de instrumentos de rendimento comparável a empresas estadunidenses como a OpenAI, a Google DeepMind e a Anthropic, com custos menores. Esses avanços se explicam, em parte, pela própria política dos EUA, que durante a última década obrigou a China a depender menos das importações e implementar planos robustos de desenvolvimento acelerado. Com o método “whole nation” [agregando esforço de toda a economia], como afirmam os especialistas, Pequim diminuiu a vantagem dos EUA, que depende de esforços desagregados e individuais de cada empresa. É preciso ver se a China conseguirá superar as próprias debilidades, diante da limitada eficácia das sanções norte-americanas, para desenvolver em outra qualidade sua capacidade de fabricação de semicondutores de ponta (não apenas os de baixa intensidade, “low-end chips”, como hoje).
Em 2022, a China foi responsável por 16% da produção global de chips, ocupando o terceiro lugar, com uma participação de mercado de 7% (um aumento em relação aos 5% em 2020). Os microchips chineses não são os mais avançados –como os de 2nm da TSMC, ou de 3nm da Samsung– mas os processos de engenharia industrial ambicionam chegar neste patamar com os investimentos governamentais. A SMIC conseguiu produzir chips de 7 nm (num país sob restrições de importação tecnológica, esse é um feito, pois antes se exigia acesso a tecnologia e equipamentos estrangeiros); a Shanghai Micro Electronics Equipment (SMEE) está desenvolvendo máquinas de litografia que são cruciais para a fabricação avançada de chips. De acordo com um relatório divulgado pelo Instituto Coreano de Avaliação e Planejamento Científico e Tecnológico, os microchips de memória resistiva de alta densidade da China superaram pela primeira vez os da Coreia do Sul em 2024, o que é particularmente notável, dado que a tecnologia de memória tem sido historicamente o setor de semicondutores mais importante da Coreia do Sul. Ainda que isso não invalide a preocupação da China em adquirir capacidade endógena de produção de semicondutores de ponta –desafios permanecem em outras partes do processo, incluindo metrologia, revestimento/desenvolvimento, litografia e implantação de íons, onde a tecnologia externa, particularmente do Japão, Holanda e Taiwan, ainda é crítica estamos possivelmente diante de uma alteração da hierarquia global de semicondutores com o trabalho próprio em inovação da China, - com muitas contradições por sua dependência nesse setor da tecnologia ocidental.
China aumentou significativamente sua capacidade de pesquisa e desenvolvimento (P&D) nos últimos anos. Segundo a Information Technology and Innovation Foundation (ITIF), de 2019 a 2023, o investimento em P&D da China cresceu 8,9% ao ano, em comparação com apenas 4,7% nos Estados Unidos. E como a P&D é mais barata na China, é provável que o país esteja realizando mais pesquisas em geral. Medido em determinada escala, em 2023 os Estados Unidos continuaram sendo o país que mais gastou em pesquisa e desenvolvimento, com US$ 823 bilhões em gastos internos brutos, enquanto a China ficou logo atrás, com US$ 781 bilhões. Mas, se ajustado pelo custo, os gastos com P&D da China em 2023 foram efetivamente de US$ 1,8 trilhão — mais do que o dobro do total dos EUA. Em termos de intensidade de P&D (gastos com P&D como porcentagem do PIB), os EUA e o Japão lideram com cerca de 3,45%, seguidos pela China com 2,58%.
2.8. Poder militar: As Forças Armadas da China aparecem em vários rankings mundiais, juntamente com as da Rússia, como as mais poderosas, depois dos EUA. Embora a Rússia tenha demonstrado maior atividade militar em larga escala na última década, especialmente na Ucrânia, mas também intervindo na Síria e em outras áreas, a China dispôs de recursos muito maiores para garantir uma força armada moderna. As forças armadas da China estão se beneficiando dos avanços tecnológicos do país, principalmente em áreas como inteligência artificial, tecnologia espacial e armas hipersônicas. Desde a fundação da República Popular, a China só participou de três conflitos armados direitos, todos com armamento e tecnologia emprestados da União Soviética: em 1950-53 na Guerra da Coreia; em 1962 contra a Índia; e em 1979 em sua invasão ao Vietnã. Pequim não tem experiência de combate adequada às modernas condições da guerra, passando por humilhações no affaire do Estreito de Taiwan em 1995, e percebendo a enorme diferença diante dos EUA durante a Guerra do Golfo (1990-91). Essa desvantagem comparativa tem gravitação concreta nas posições da China, que apenas começa a lidar com um terreno de defesa e ataque em que as potências do “Ocidente” possuem larga experiência.
Mas, na administração Xi Jinping, a China acelerou a modernização de suas forças armadas, investindo recursos no desenvolvimento de armamentos sofisticados e tecnologias de ponta. As Forças Armadas da China aparecem em vários rankings mundiais, juntamente com as da Rússia, como as mais poderosas, depois dos EUA. O avanço tecnológico da China tem influência direta, em seu “dual-use”, sobre a modernização do arsenal chinês. A China tem hoje o segundo maior orçamento militar do mundo, segundo o SIPRI, de US$314 bilhões (2024), ainda pouco mais de 35% dos gastos dos EUA, mas proporcionalmente crescendo 7% ao ano nas últimas três décadas. O país, que nunca foi um mercado relevante de exportação de armas, agora vem lentamente ocupando um lugar entre os principais fornecedores. Sua fatia de mercado global é pequena (5,9%, comparado com 43% dos EUA), mas é desde 2019 o quarto maior exportador de armas, atrás dos EUA, da França e da Rússia. Suas armas estão gradualmente ganhando terreno no Sul da Ásia, na África Subsaariana e no Sudeste Asiático, e estão fazendo incursões na Ásia Central e no Oriente Médio.Os aviões militares chineses de quinta geração, J-20 e J-35, são comparáveis em certa medida aos caças F-35 dos EUA; o caça J-15T, o sistema de defesa anti-aérea HQ-19 e o drone SS-UAV projetado tanto para reconhecimento como para ataque, são outros armamentos sofisticados da Força Aérea.
A ascensão da construção naval na China também está ligada ao uso intensivo de tecnologia e à disponibilidade de mão de obra em larga escala, como robôs industriais, softwares de modelagem 3D e sistemas integrados de gestão da produção. Hoje, os navios chineses superam os dos Estados Unidos em 400 a 295. Pequim já possui a maior marinha de guerra do mundo (em números), e em capacidade já supera outras potências imperialistas, como Inglaterra, França e Alemanha. São navios com tecnologia moderna, incluindo três porta-aviões e doze submarinos nucleares
A enorme capacidade de construção naval industrial também oferece vantagens importantes em uma eventual guerra longa — vantagens que a qualidade ou a habilidade superiores só conseguem compensar parcialmente. A China possui a maior indústria de construção naval do mundo por uma larga margem. Os estaleiros chineses registraram aproximadamente 74% do volume total dos pedidos em todo o mundo. Os Estados Unidos possuem apenas 0,1% da capacidade mundial de construção naval - uma queda abrupta desde a década de 1930, com salto na globalização neoliberal quando os estaleiros foram desmantelados e terceirizados ao Japão e à Coreia do Sul. Segundo o CSIS, o maior conglomerado de construção naval do mundo –a China State Shipbuilding Corporation (CSSC)– construiu, sozinho, mais embarcações comerciais por tonelagem em 2024 do que toda a indústria de construção naval dos EUA construiu desde o fim da Segunda Guerra Mundial.
Esses dados são importantes. A questão não é simplesmente o inventário bélico e o coeficiente total acumulado de cada país. Por esse critério, que é importante quando se trata de comparar as figuras de cada potência, os Estados Unidos levam uma margem substantiva de vantagem sobre a China. Não obstante, é importante levar em conta o coeficiente proporcional dinâmico da aquisição de nova tecnologia industrial e militar. Todos os avanços mencionados foram feitos nos últimos 15 anos. Não obstante, ter o aparato técnico militar não implica estar preparado para usá-lo com eficiência. Dificilmente a China é hoje capaz de empregar em cenários complexos de combate toda a tecnologia militar que desenvolveu, de maneira coerente e eficaz. Trata-se de um problema ainda a ser resolvido pela Comissão Militar Central e o Exército Popular da China que, sem experiências recentes de combate, ainda não alcançaram patamares satisfatórios de integração de todas as forças nos mais modernos sistemas de controle e comando que balizam a intervenção militar no Ocidente. Isso explica, em parte, os inúmeros expurgos na alta cúpula das Forças Armadas da China, a manifestação mais evidente do descontentamento de Xi Jinping com a insuficiente concentração na preparação direta para a guerra entre seus oficiais mais confiáveis (trataremos disso abaixo). Ademais, o problema da sobrecapacidade industrial gera contradições importantes para a China, como veremos.
3 China na governança internacional
A China usou seu poder duro para aumentar a participação em instituições de governança internacional, tanto as já tradicionais do segundo pós-guerra. Também formou novas instituições dominadas pela China. A China não rejeitou abertamente as organizações consolidadas sob a liderança de Washington, mas também não se limitou a buscar maior poder dentro delas. Ao mesmo tempo, buscou forjar novos espaços de cooperação interestatal nos quais os EUA e as demais potências imperialistas não fossem protagonistas — ou, em alguns casos, sequer participassem.
3.1. A tentativa de Pequim de traduzir a sua influência económica na participação em organizações multilaterais criadas sob a ordem dos EUA: O governo chinês buscou traduzir seu crescente peso econômico em participação em organizações internacionais. Fez isso sem nunca abrir mão de seu status de país em desenvolvimento, o que lhe permite implementar algumas medidas de proteção econômica mais restritas por regulamentações multilaterais para países desenvolvidos. Pequim mantém essas prerrogativas, mas também busca o reconhecimento internacional de seu papel como potência. Desde o início do milênio, a China se juntou a outros países que vinham reivindicando uma reformulação dos mecanismos de governança global, dando maior destaque a países fora do clube dos mais ricos. Os parceiros do BRICS estavam entre os maiores impulsionadores dessas mudanças. Após a crise global de 2008, Washington e seus parceiros tiveram que acomodar parcialmente essas demandas. Foi assim que a China se tornou o terceiro país em termos de contribuição e participação acionária no Fundo Monetário Internacional e no Banco Mundial (depois dos EUA e do Japão). Pequim também é um protagonista indiscutível no G20. Desde que Trump anunciou, em 2017, a rejeição dos EUA ao Acordo de Paris, Xi Jinping tem buscado demonstrar liderança global em questões ambientais, reforçando os compromissos da China com a redução de emissões e a transição energética, embora o país continue sendo o maior consumidor mundial de carvão. Onde a China obviamente não tem lugar é na OTAN, a principal aliança de segurança criada por Washington (embora criticada por Trump), nem no clube dos países ricos, o G7, do qual a Rússia participou antes da invasão da Crimeia em 2014. Em suma, a China poderia impor reformas que aumentaram sua influência nas instituições multinacionais moldadas por Washington, embora a arquitetura institucional e as cotas de votação ainda reflitam um equilíbrio de poder favorável ao Ocidente, principalmente aos Estados Unidos e à Europa. Isso destaca alguns limites que a pressão reformista de Pequim está lutando para superar, incentivando ainda mais estratégias para recriar do zero uma ordem mundial mais sinocêntrica, no contexto de que muitas dessas instituições estão em crise, devido à política unilateral dos EUA, especialmente com Trump.
3.2. A promoção de novas instituições multilaterais onde a China ocupa uma liderança indiscutível: A China prioriza laços bilaterais em suas relações com outros países. Organismos multilaterais despertam alguma desconfiança em Pequim, pois podem exigir compromissos excessivos em relação aos benefícios esperados. No entanto, como parte da consolidação de sua influência, a China tem considerado necessário promover organizações multilaterais onde seu peso possa ser usado, a fim de consolidar alternativas àquelas já criadas por Washington e seus aliados, nas quais a possibilidade de aumento de participação tem se mostrado limitada para a China até o momento, como observamos na seção anterior. BRICS. É uma associação, grupo e fórum político e econômico internacional de países emergentes, que se tornou um espaço internacional alternativo ao G7, formado por países desenvolvidos. Em agosto de 2023, na 15ª Cúpula do BRICS em Joanesburgo, África do Sul, foi anunciada a entrada de seis novos países como membros plenos para 1º de janeiro de 2024. Destes, quatro países se juntaram ao grupo, agora conhecido como BRICS+: Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia e Irã. Os BRICS criaram o Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), que é apresentado como uma alternativa às instituições financeiras ocidentais tradicionais, como o FMI e o Banco Mundial, focadas em apoiar o desenvolvimento econômico de países emergentes. No entanto, por enquanto, desempenha um papel bastante complementar, visto que os requisitos para acesso a financiamento incluem não ter inadimplência com outras instituições financeiras multilaterais, como as mencionadas acima. Organização de Cooperação de Xangai (OCX): Fundada em 2001 com a Rússia e vários países da Ásia Central, esta organização abrange aproximadamente 80% da Eurásia e 40% da população mundial. É considerada uma alternativa à OTAN e busca fortalecer a cooperação em segurança, economia e política na região. Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura (AIIB): Esta instituição financeira foi criada pela China como uma alternativa ao Banco Mundial, com o objetivo de financiar projetos de infraestrutura na Ásia. O banco conta atualmente com 106 membros. Destes, 42 são da Ásia, 26 da Europa, 21 da África, 8 da Oceania, 8 da América do Sul e 1 da América do Norte. Entre seus membros, estão países como Grã-Bretanha, Alemanha, Bélgica, França e Espanha. O capital inicial do banco era de US$ 100 bilhões, aproximadamente metade do capital do Banco Mundial.
4 As dificuldades que a potência chinesa enfrenta na sua ascensão
4.1. O problema da super capacidade produtiva: Na China, décadas de crescimento desequilibrado resultaram em um enorme excesso de capacidade estrutural. O país vive crises frequentes de deflação, manifestações das crises de superprodução. Esse excesso crônico de capacidade excedente a força a impulsionar a exportação de capital para os países da periferia e a uma guerra comercial com os principais países desenvolvidos. Mas, na prática, criaram um enorme excesso de investimento na produção em setores em que o mercado interno já está saturado, ou os mercados externos não conseguem absorver de forma sustentável. Como resultado, a economia chinesa corre o risco de ficar presa em um círculo vicioso de queda de preços, insolvência, fechamento de fábricas e, em última instância, perda de empregos. Ao mesmo tempo, sua superprodução também se tornou uma força desestabilizadora no comércio internacional, reduzindo os preços abaixo do ponto de equilíbrio para os produtores internacionais. Como já discutimos acima, a necessidade sentida de exportar a capacidade excedente se entrelaça com os novos traços imperialistas da economia chinesa, cuja estabilidade passa a depender mais da sua penetração capitalista em Estados mais frágeis.
4.2. Ainda é limitada a implantação de mecanismos para proteger seus interesses econômicos no exterior: Imperialismo, incorpora por definição a expansão dos interesses econômicos de um Estado para além de suas fronteiras, o que implica a subordinação –formal ou informal– destes espaços extranacionais para garantir a proteção desses interesses e o fluxo de lucros e rendas decorrentes dessa relação. No final do século XIX e início do século XX, cada potência imperialista exercia esse “poder político” em defesa de suas capitais nos territórios coloniais que possuía ou nas semicolônias que, com graus variados de soberania política formal, estavam subordinadas a uma metrópole. Ao final da Segunda Guerra Mundial, as lutas contra o colonialismo acabaram resultando na perda de todos os seus territórios ultramarinos pelas potências coloniais. Ao mesmo tempo, o imperialismo estadunidense, em defesa dos interesses de todo o capital global, assumiu o papel de "policial" para garantir o cumprimento das normas favoráveis à acumulação de capital em todo o mundo. Os Estados Unidos assumiram o direito exclusivo de intervir contra outros Estados soberanos (o que fizeram repetidamente em todo o mundo) e reservaram seu próprio poder discricionário para a interpretação de normas e regulamentos internacionais. Mas desempenha esse papel de “polícia global” em defesa dos interesses dos países que concordaram em permanecer integrados à órbita de segurança e ao sistema de alianças dos EUA, com certa subordinação mesmo no caso de países imperialistas. Países como a China estão fora dessa esfera. A China ainda carece de capacidades militares ou diplomáticas equivalentes às desenvolvidas pelos EUA, o que, por extensão, favorece as potências imperialistas que até hoje ainda operam dentro do arcabouço "atlantista", além da enorme e longa crise que toda essa estrutura do pós-guerra arrasta.
4.3. Quão atraente é o “chinese way of life”? A “hegemonia” dos EUA tem se apoiado na promessa de “exportar” o “american way of life” como um de seus pilares mais duradouros. Mas será que a China pode gerar influência equivalente com seu “estilo de vida”? A China combinou alto crescimento e aumento da riqueza per capita — partindo de níveis muito baixos — com alguns sucessos retumbantes em inovação e competição. Mas isso não parece suficiente para ocupar a posição outrora ocupada pelos EUA, em seu período de ascensão como potência hegemônica e especialmente de triunfalismo pós-dissolução da URSS. Há elementos que jogam a favor de uma maior atratividade da China. O ataque de Trump às universidades e instituições de pesquisa, combinada com o maior favorecimento técnico e financeiro de cientistas na China, resulta em uma tendência crescente de migração intelectual para as instituições universitárias chinesas, com pesquisadores de ponta deixando as universidades mais prestigiadas no Ocidente pelas Universidades de Tsinghua e de Beijing. O desenvolvimento das cidades tecnológicas como Shenzhen, Shanghai e Hangzhou se tornou outro atrativo para jovens. O volume de pessoas que visita a China por estímulo de programas governamentais aumentou muito nos últimos anos. A influência do “multilateralismo capitalista” muda também a percepção de certos setores. Entretanto, ainda que a propaganda governamental seja forte, não parece ainda poder aplacar certa apreensão gerada pelo controle bonapartista do Estado e as políticas invasivas sobre as escolhas de vida da população. Tais características bonapartistas do regime, reforçadas por Xi, atuam como um limite à hegemonia que o “modelo chinês” pode alcançar. O apelo a aspectos da ideologia mais tradicional, que anda de mãos dadas com uma crescente ênfase na “singularidade” da civilização chinesa e na construção de uma estrutura para a noção de uma nação orgulhosa durante a era Xi, busca preencher esse vazio, mas dificilmente possa ser demasiado expansivo para além de suas fronteiras. Não há até agora um “chinese way of life” que se assemelhe ao que os Estados Unidos conseguiram fazer décadas atrás, ainda que as coisas estejam em movimento. Ademais, o arcaísmo da existência de um Partido Comunista como o chinês é um problema a ser considerado. A forma bonapartista de governo e controle de todos os poros sociais, estimulando histerias sociais como vimos durante a COVID-19, está crescentemente em choque com uma sociedade que mudou qualitativamente, e se modernizou. Ainda que esteja em linha com a estrutura dos Estados burocráticos imperiais da China, tal forma de governo é uma fonte de instabilidade social.
4.4. Os limites para continuar a avançar como potência sem desafiar mais completamente o sistema norte-americano: A China não pode avançar além de sua posição atual sem escalar das tensões atuais com os EUA para um embate mais direto. Isso porque, embora a China não seja um país subversivo da ordem imperialista, ela é forçada a questionar os pilares da ordem atual que favorecem os EUA, a própria ordem dentro da qual se desenvolveu até agora. Para aspirar ao pódio global, a China não pode simplesmente buscar substituir os EUA no sistema de poder global, pois suas redes são construídas pelos EUA, colocando-se no centro. O Departamento de Estado, ao articular alianças e subordinar aliados — em uma relação de coordenação e, ocasionalmente, de tensão com o Pentágono — e o Tesouro em questões financeiras, juntamente com o Federal Reserve (Fed) estabelecendo linhas de coordenação com os bancos centrais dos países mais poderosos, são a base da arquitetura de governança global exigida pelo capital transnacional e a sustentam enquanto visam reproduzir o poder americano. Tampouco se pode simplesmente pensar que a China está se "acomodando" como uma potência subordinada entre outras. Ela não pode simplesmente continuar a "ascender" em uma ordem "emprestada", nem a potência dominante cederá seu lugar. Também não podemos esperar que os países imperialistas, que já estão sendo relativamente deslocados pela ascensão da China, se acomodem pacificamente a essa situação, embora, em um contexto de dissolução mais geral da ordem do pós-guerra, possamos esperar novas divisões e realinhamentos de alianças. A China pode incitar rivalidades ou se tornar um polo de atração.
4.5. Tensões internas e a possibilidade de tendências centrífugas no regime: É preciso sempre levar em conta todos os efeitos potencialmente desestabilizadores que o curso capitalista criou na China, que podem ser seu principal calcanhar de Aquiles e que a intensificação das rivalidades internacionais pode exacerbar. Xi Jinping busca eternizar-se no poder, e tem como método a extrema centralização política e a lealdade inquebrantável da hierarquia estatal. Isso gera descontentamentos, receios e processos permanentes de expurgo, que desestabilizam as relações internas na burocracia, em que todos são suspeitos e podem cair em desgraça de uma hora para outra. Há uma razão estrutural para o descontentamento entre os setores que mais se beneficiaram das políticas de integração capitalista. Apesar da consolidação das relações burguesas de produção, a tendência desde que Xi assumiu o poder tem sido de estagnação da agenda de reformas e fortalecimento do estatismo, juntamente com as características mais bonapartistas do regime. Com uma economia se acomodando em níveis de crescimento cada vez mais baixos (embora ainda invejáveis por outras economias capitalistas) e tendo passado pela crise da pandemia, pelo colapso do setor imobiliário e outras crises setoriais associadas à superprodução, o descontentamento que o regime Xi precisa reprimir está crescendo.
4.6. Fricções nas Forças Armadas: Há problemas importantes de coesão entre Xi e membros do alto comando pelo menos desde meados de 2024. Xi incrementou a exigência de “máxima lealdade ao Partido” no Exército, uma medida que renova permanentemente desde que assumiu o poder como chefe da Comissão Militar Central. Em poucos meses, a cúpula da Força de Foguetes (responsável pelas armas nucleares) foi varrida, e dois ministros da Defesa, Wei Fenghe e Li Shangfu, que anteriormente tinham relações próximas com Xi Jinping, foram perseguidos e expulsos do PCCh. Outros dois mais recentemente expulsos de seus cargos foram escolhidos a dedo por Xi no último Congresso de 2022 e ocupavam altos cargos na Comissão Militar Central (responsável pelo Exército e chefiada pelo próprio Xi): He Weidong (segundo na hierarquia, vice-presidente da CMC) e Miao Hua, um almirante que, além de ser responsável pelo departamento de trabalho político na CMC, era íntimo de Xi Jinping há 30 anos, desde seu governo em Fujian na década de 80. É uma mudança muito grande no alto comando, o que se chamou de “eliminação da camarilha de Fujian”. Há especulações de que isso reflita o ressurgimento de facções rivais, que não concordam que Xi permaneça no poder indefinidamente. Outra possibilidade é a recriação de grupos de influência rivais que sempre existiram nas Forças Armadas (grupos ligados a Jiang Zemin, outros a Hu Jintao), mas que acabaram presos e expurgados desde 2013. O mais provável é que Xi Jinping tenha dificuldades em encontrar pessoas confiáveis que concordem com seus planos.
4.7. Os dilemas internos e externos de segurança da China: Diferentemente da situação dos EUA quando se tornaram a principal potência imperialista, a China não enfrenta uma situação despreocupada em relação à segurança em suas fronteiras. Pelo contrário, a China enfrenta diversos dilemas de segurança significativos na Ásia. Países vizinhos permanecem cautelosos devido às disputas marítimas no Mar do Sul da China. A crescente presença militar da China é vista tanto como uma recalibração estratégica quanto como uma fonte de preocupação. A China mantém disputas territoriais de longa data com vários vizinhos, sobre fronteiras terrestres e marítimas. O Mar do Sul da China é uma das áreas mais controversas, onde as reivindicações da China baseadas na "linha dos nove traços" se sobrepõem às reivindicações de países como Vietnã, Filipinas, Indonésia, Malásia e Brunei. Países vizinhos como a Coreia do Sul e alguns Estados do Sudeste Asiático nutrem uma desconfiança significativa em relação a Pequim, que reivindica seu direito de rearmamento e queixas históricas territoriais, assim como a Índia, com quem a China mantém disputas territoriais graves. A atual relação de segurança entre a China e a Índia também é marcada por uma combinação de tentativas de cooperação e desconfiança profunda, moldada em grande parte por conflitos históricos e tensões fronteiriças contínuas. Ambos os países militarizaram fortemente suas áreas de fronteira e vivenciaram múltiplos impasses e escaramuças em diversos setores desde então. Em 2024 e 2025, China e Índia tomaram medidas para a redução das tensões, incluindo um acordo de fronteira em outubro de 2024 para gerenciar patrulhas e reduzir as tensões. Esses esforços sinalizam o desejo de estabilizar as relações sem comprometer as principais preocupações de segurança, mas o ceticismo mútuo persiste. Os recentes exercícios navais da Índia para projetar poder na África e a crescente colaboração da China com o Paquistão (que teve um episódio de conflito militar com a Índia em 2025) mostram uma competição estratégica mais ampla que vai além das questões bilaterais. A integração econômica na região pode atuar como um amortecedor. A Parceria Econômica Regional Abrangente (RCEP), que entrou em vigor há alguns anos, tornou-se o primeiro acordo de livre comércio entre as maiores economias da Ásia, incluindo China, Indonésia, Japão e Coreia do Sul. O RCEP é o primeiro acordo comercial preferencial que liga a China, o Japão e a República da Coreia, as três maiores economias do Leste Asiático, que até então não tinham nenhum acordo comercial entre si. Contudo, a integração econômica, como se viu recentemente, é uma garantia muito relativa contra a eclosão de conflitos, e não remove a suspeita contra a China, o que pode facilitar acordos de contenção com os EUA. Internamente, temos basicamente “duas Chinas”: a porção oriental do país mais desenvolvida, rica e conectada ao mundo, e a porção ocidental ruralizada, menos desenvolvida e tomada pela situação de pobreza dos camponeses e trabalhadores rurais. Esta situação vem se rebalanceando relativamente, com a diversificação geográfica da indústria para o interior; mas é um processo inicial, ainda muito heterogêneo. Este “problema meridional” da China é uma fonte de instabilidade e de possíveis processos de luta, em províncias mais afastadas do centro político, e com maior contato com as fronteiras.
5 Taiwan
Taiwan é um ponto cálido de conflito, que poderia ser o estopim de uma conflagração de proporções entre Estados Unidos e China. Pequim tem um interesse territorial imediato em Taiwan: tendo sido parte da China durante séculos, passou ao Japão depois da guerra sino-japonesa de 1895; o imperialismo japonês abandonou a ilha após a derrota na Segunda Guerra Mundial, e com o triunfo do PCCh em 1949, tornou-se a área de refúgio do Kuomintang e da burguesia japonesa. Desde então a China busca reincorporá-la como parte das tarefas não concluídas de unificação nacional; por outro lado, existe um crescente rechaço popular taiwanês à reunificação, em função do repúdio ao bonapartismo do PCCh. Esse sentimento legítimo contra o autoritarismo de Xi Jinping é instrumentalizado por partidos burgueses pró-imperialistas em Taiwan, como o governante Partido Democrático Progressista, que tem uma linha de subordinação aos Estados Unidos; o Kuomintang, apesar de adotar uma linha de maior aproximação de Pequim, também busca autonomia e teve um longo histórico de proximidade com Washington. Essa dinâmica dá complexidade ao caso. Os Estados Unidos orientam sua política exercendo uma pressão cada vez mais intervencionista sobre Taiwan, com o objetivo de converter a ilha em uma espécie de protetorado militar norte-americano na Ásia, incrementando o programa de armamento e treinamento do exército taiwanês. Efetivamente, Washington aumentou o financiamento do exército taiwanês, e vem participando indiretamente dos treinamentos anuais do Exército taiwanês, chamados Han Kuang. Está, ademais, fazendo campanha junto aos capitalistas da ilha pela modernização de suas Forças Armadas (Taiwan vem recebendo sistemas críticos produzidos nos EUA, incluindo o tanque de guerra M1A2T Abrams, o Sistema de Foguetes de Artilharia de Alta Mobilidade (HIMARS), o sistema de defesa aérea e anti mísseis de longo alcance Patriot, etc.). Por sua parte, o governo chinês responde àquilo que considera como política separatista por parte do Partido Democrático Progressista com exercícios militares na região do Estreito. Os consecutivos chamados de emergência por parte de Xi Jinping ao Exército de Libertação Popular, a fim de que esteja preparado para a guerra, são sinais de que o governo central parece ter se convencido a contemplar a unificação armada. Não é possível saber com precisão a temporalidade de uma operação dessa magnitude, mas as convulsões internacionais podem dar origens a incidentes graves, como os disparos de mísseis sobre a ilha.
Defendemos o direito à autodeterminação de Taiwan, em todas as circunstâncias, diante da pressão diplomática de Pequim e da política de uma só China; da mesma maneira, este direito de autodeterminação não pode ser cumprido subordinando-se ao militarismo dos EUA. A forma específica da defesa da autodeterminação em Taiwan está ligada a um programa operário e popular independente do imperialismo norte-americano e sua militarização da ilha, de um lado, e do bonapartismo chinês e suas provocações militares, de outro. Uma eventual agressão militar protagonizada pela China de Xi Jinping, com o objetivo de promover a unificação forçada contra os desejos da população de Taiwan, deve ser rechaçada contundentemente, uma vez que não representaria qualquer melhoria na situação dos setores mais explorados e oprimidos da ilha, que estariam sob a tutela de um regime bonapartista reacionário encabeçado pelo Partido Comunista Chinês. Por outro lado, e desde já, a crescente militarização de Taiwan, incentivada pelo bipartidarismo imperialista norte-americano, acompanhada pela sutil alteração de postura dos Estados Unidos quanto à possibilidade de intervenção militar, deve ser rechaçada pela classe trabalhadora internacional, como parte de uma posição anti-imperialista inflexível. Contra essas duas perspectivas, a ação dos trabalhadores nos dois lados do Estreito é vital. Essa postura programática é a melhor maneira de combater a burguesia nativa em suas distintas frações, quer pró-chinesas quer pró-estadunidenses. Uma Taiwan operária e socialista, independente das potências em disputa, poderia ser uma alavanca para o desenvolvimento da mobilização anticapitalista e antiimperialista em toda a Ásia, oposta à política imperialista estadunidense, mas também em detrimento da política de Pequim.
6 Uma nova geração de trabalhadores e a luta de classes na China
A luta de classes na China, nas últimas décadas, deu-se por dentro dos ciclos de espantoso crescimento econômico da China. Na década de 2000, as lutas no campo tiveram proeminência durante a grande migração laboral pendular para as cidades exportadoras. Pequenos agricultores e trabalhadores rurais enfrentaram os governos locais contra a expropriação de suas terras, o avanço do setor imobiliário e a expansão do agrobusiness de tipo norte-americano. Nas cidades, de 2004 a 2008, os processos de greve combinavam as características díspares do Rust Belt ao Norte (a antiga grande indústria do sistema danwei, em que os trabalhadores lutavam contra as demissões e a reestruturação/liberalização das empresas estatais) e do Sun Belt ao Sul (trabalhadores migrantes rurais que exigiam o fim dos atrasos salariais, a abolição das punições físicas e da disciplina militar na produção, e melhores condições de trabalho na moderna indústria orientada para a exportação). Como explica Ching Kwan Lee, nestes “cinturões da ferrugem e do sol”, que integram sistemas produtivos distintos, as greves longas, como a paralisação por dois meses de 6.000 trabalhadores da fábrica têxtil Tianwang em Xianyang, Shaanxi, se combinavam com greves curtas, no Delta do Rio Pérola (coração da indústria chinesa, de baixo valor agregado), rapidamente reprimidas pela polícia. Essa onda de greves teve um ápice em 2010, com a paralisação da Honda Foshan, em Guangdong, em que os trabalhadores conquistaram aumentos salariais e derrotaram a multinacional japonesa, influenciando a paralisação de outras automotrizes (Toyota, Mitsubishi) na China, assim como as greves na Foxconn, com o repúdio aos casos de suicídio de trabalhadores pelas péssimas condições fabris. A partir da entrada de Xi Jinping no governo, em 2013, vemos um recrudescimento ainda maior da coerção e repressão estatal contra as greves: como diz Manfred Elfstrom, a onda de 2010 foi seguida de um declínio gradual. O discurso da “unidade nacional pela ascensão da China como potência” se instalou oficialmente, ao mesmo tempo em que o ciclo de crescimento exponencial do PIB chinês terminava com a chegada dos efeitos da crise econômica mundial. A economia chinesa entrava no “novo normal”: a desaceleração do crescimento e de segmentos centrais do PIB, como o setor imobiliário, afetado pela crise demográfica e a estabilização no fluxo migratório urbano. Para evitar solavancos inesperados na economia em meio à nova competição entre potências com os Estados Unidos, Xi Jinping adotou a postura de repressão total à resistência econômica dos trabalhadores, procedeu à desorganização das tentativas de criação de sindicatos independentes (como na greve da Jasic Technologies em 2018, que contou com ativa solidariedade estudantil), enquanto incrementava a taxa média salarial nacional, a partir de patamares muito baixos. A pandemia do coronavírus aprofundou esse movimento de repressão, contenção e disciplinamento das lutas operárias. Isso não significa que as greves deixassem de existir - a grande greve da Foxconn Zhengzhou, a maior fábrica de iPhones do mundo, paralisou a fábrica de 200 mil trabalhadores e foi o estopim para as manifestações nacionais que derrubaram a política da Covid-zero de Xi Jinping. Entretanto, as greves se tornaram mais fragmentadas, esparsas e de duração ainda mais curta. A solidariedade estudantil foi sufocada, e centros de pesquisa laborais, como o China Labour Bulletin, foram fechados. O bonapartismo estatal aumentou junto com a precarização do trabalho e da vida (mesmo as poucas empresas estatais usam trabalho terceirizado e rotativo, reservando a estabilidade laboral a poucos setores), não compensados pelo relativo aumento salarial médio, muito heterogêneo entre as províncias.
Diante desse panorama, há que dizer que embora haja um declínio relativo das greves em comparação com as últimas duas décadas, as circunstâncias objetivas da desaceleração econômica agravam a insatisfação social. O repertório de modalidades de mobilização se diversifica, incluindo movimentos contra a escala de trabalho 996 como o tang ping (“ficar deitado”), um fenômeno social entre os jovens chineses que envolve rejeitar a intensa pressão para trabalhar demais e ter um desempenho acima da média, adotando conscientemente um estilo de vida de esforços reduzidos e desejos limitados; ou o bai lan (“deixar apodrecer”), que significa aceitar ativamente uma situação em deterioração, em vez de tentar revertê-la. Alguns autores isolam essas manifestações de descontentamento, separando-as daquelas manifestações mais clássicas do movimento operário. Em verdade, elas mostram o potencial de articulação hegemônica de uma nova geração de jovens trabalhadores (mulheres, homens, diversidades sexuais, minorias étnicas), muitos deles ligados à gig economy e à indústria de serviços digitais, que tem mais nível cultural que seus antepassados, uma relação mais próxima com os grandes centros urbanos, que é mais crítica da desigualdade social e da precarização do trabalho, que reivindica mais direitos e que vem abandonando as ilusões de ascensão social depois de experimentar negativamente o surgimento da “potência chinesa” sobre a base da superexploração, da desaceleração econômica e da ausência de empregos de qualidade. O The Economist calcula serem 200 milhões de trabalhadores precários e temporários nas cidades (40% da força de trabalho urbana), com 84 milhões de trabalhadores que dependem das plataformas digitais para sobreviver, muitos deles sem acesso aos serviços públicos urbanos em função do velho sistema hukou. O governo chinês está preocupado em evitar problemas endêmicos como cortes salariais unilaterais, demissões sem indenização, transferências forçadas para outras províncias sem compensação, assim como as quebras de empresas em função da relocalização produtiva, acontecimentos que poderiam alimentar uma nova onda de turbulência social, no contexto de uma Ásia com protestos e irrupções sociais do Nepal à Indonésia, de Bangladesh às Filipinas.
Como escreve Andrea Ferrario, o mundo operário chinês já não está disposto a aceitar passivamente sacrifícios unilaterais, e a greve já não é considerada um gesto extremo e isolado, e sim um meio legítimo para resistir à compressão dos direitos. O mais provável é que o retorno da luta de classes na China aconteça com formas novas, “não clássicas”, combinando a moderna estrutura de classes surgida da industrialização tecnológica com os atuais movimentos de juventude e das mulheres na China, em que o tema das opressões, da precariedade e da desigualdade são fundamentais. Teriam de lidar com os obstáculos da ausência de instituições tradicionais de organização independente, mas usufruem das novas maneiras de conectividade e reagrupamento social. Não se pode descartar que a própria necessidade da luta impulsione instituições de auto-organização de alguma natureza, não canalizados pela central sindical oficial, e enfrentados com o controle do Partido Comunista. Sem dúvida, a reflexão sobre os contornos da revolução social no século XXI passam pela China, um desafio no terreno da organização para a FT.
7 A China e a FT-QI
Como FT-QI, além de termos nos aprofundado sobre a China em diversas publicações (Estratégia Internacional, Ideas de Izquierda e a rede de jornais La Izquierda Diario), abordamos essa discussão na conferência de 2015, onde diferentes posições foram expressas. Desde então, houve mudanças importantes, tanto na China quanto em sua projeção global e, sobretudo, em sua relação com os EUA. Nos artigos escritos por Esteban Mercatante e Juan Chingo em 2020, bem como naqueles escritos por André Barbieri e que estão presentes em seu livro China: onde os extremos se tocam, encontramos caracterizações do lugar da China no sistema mundial e suas perspectivas que, embora apresentem nuances, apresentam semelhanças importantes. Além das diferentes ênfases, em todos os casos, destaca-se a consolidação das características imperialistas da China e sua maior projeção como potência. Consequentemente, a rejeição de qualquer posicionamento baseado em campos que leve a apoiar a China em seu confronto com as potências imperialistas é uma estrutura comum para as posições em discussão.
Para organizar a discussão rumo à conferência, apresentamos brevemente as posições expressas nesses artigos.
Imperialismo em processo de construção ou constituição, ainda não consumado. Esta é a formulação adotada por Esteban Mercatante, com base nas elaborações de Au Loong Yu. Trata-se de uma definição que reconhece um caráter ainda incompleto, mas avançado, da China como imperialismo. Adotar essa abordagem não significa pensar que o processo se materializará inevitavelmente. A China está cercada por múltiplas ameaças, tanto pela existência de "muitos chineses" na China, pelas desigualdades produtivas, quanto pelas profundas tensões criadas por seu processo de desenvolvimento capitalista, o que gera descontentamento tanto entre aqueles que continuam a resistir a esse processo quanto entre aqueles que lamentam que ele não esteja avançando em ritmo suficientemente rápido. Para além do seu futuro, o "imperialismo em construção" permite compreender a posição que a China já ocupa. Em inúmeras medidas objetivas, está à frente de algumas das principais potências imperialistas, embora muito atrás dos Estados Unidos. E o faz também revelando inúmeros calcanhares de Aquiles que tornam sua posição vulnerável.
Estado capitalista em rápida ascensão, com traços imperialistas. Essa é a formulação que André Barbieri utiliza em seu livro. O companheiro Juan Chingo, que desde a França escreveu sobre o fenômeno, concorda com esta definição. Tal formulação descritiva busca mostrar o que é a China atualmente, e a direção em que rumam suas tendências estruturais no interior da competição capitalista global. Sobretudo, busca não dar por fechado o curso da evolução futura do fenômeno chinês. A transformação da China em uma potência imperialista implicaria choques e comoções de magnitude histórico-mundiais. A possibilidade de qualquer tipo de “sucessão” da hegemonia dos EUA não será, de todo modo, pacífica ou evolutiva. Isto é, não acontecerá sem guerras e revoluções a escala global.
Estas são classificações aventadas por companheiros que escrevem na FT sobre a China hoje. De todo modo, cremos que na FT tais formas particulares de caracterização estão dentro de uma visão comum sobre os crescentes traços imperialistas da China, sua marca expansiva na espoliação do trabalho e dos recursos naturais de países mais frágeis, os contornos bonapartistas do regime político encabeçado pelo PCCh e o caráter reacionário da política internacional do Estado chinês de melhorar sua posição dentro do sistema imperialista. Essa visão comum sobre a natureza do Estado chinês e o vetor dinâmico de seu crescimento possibilita uma política comum correta na eventualidade de um conflito militar entre Estados Unidos e China: como dissemos na sessão virtual da XII Conferência da FT, se trataria de uma “guerra reacionária em que se colocaria o derrotismo de ambos os bandos como definição básica”.
Dessa posição derivam lutas políticas e estratégicas importantes contra tendências de pensamento estadocêntricas filiadas ao “multilateralismo capitalista”. Dentro da ampla heterogeneidade desse campo político, coincidem em considerar a liderança da China sobre um “novo polo de potências” como um fenômeno benéfico, a o governo chinês como um aliado da luta anti-imperialista dos povos oprimidos, particularmente contra as agressões dos Estados Unidos. Na América Latina esta posição é forte, influenciada pelo populismo progressista, desde Elias Jabbour e as distintas figuras do stalinismo até intelectuais mais críticos, que não consideram a China “socialista”, mas enxergam nela a possibilidade de um mundo mais harmônico (Claudio Katz, Atílio Borón, Rafael Poch-de-Feliu, Gabriel Merino, entre outros). As elaborações que fizemos na FT, entre os distintos camaradas que escrevem sobre o tema, fazem um contraponto marxista a estas posições, dialogando criticamente com alguns dos principais representantes dessa ala do “campismo geopolítico” no progressismo, e com autores mais clássicos que escreveram sobre o fenômeno de ascensão do gigante asiático, como Giovanni Arrighi, Perry Anderson, Alain Badiou, Slavoj Žižek, entre outros. Em tais discussões críticas, debatemos que o único multilateralismo possível dentro do sistema capitalista é o da concorrência militar entre potências, ou do acirramento das rivalidades entre Estados Unidos, China, Rússia, França e Alemanha, entre outros, acentuando também os sentimentos nacionalistas propagados pelos Estados.
É importante sublinhar que o multilateralismo seria supostamente uma maneira de diminuir as arestas militaristas do mundo e “evitar novas guerras” (há aqueles que defendam que a hegemonia econômica mundial da China não estaria balizada em uma correspondente hegemonia militar, na nossa época); na verdade, preparam posturas nacionalistas e socialpatrióticas, de apoio a um bloco de potências contra outro, na eventualidade de novas guerras. A luta contra a opressão nacional e contra o imperialismo não tem a China como aliado: ela requer a iniciativa revolucionária da classe trabalhadora hegemonizando o conjunto do povo pobre e dos trabalhadores de todo o mundo - a começar pela cooperação e solidariedade com os trabalhadores asiáticos – o que leva a unir a luta contra a opressão nacional à batalha pela emancipação social.
Da mesma forma, a posição de independência de classes da FT ajuda na discussão com posições centristas de direita de correntes que, apesar de criticarem a China e considerarem que não se trata de um “novo modelo socialista”, argumentam que o capitalismo ainda não foi totalmente restaurado e, nesse caso, apresentam a política da “defesa condicional da China”. É o caso de Valério Arcary, ligado ao PSOL e à revista Jacobin, cuja lógica política levaria à defesa do Estado capitalista chinês num confronto contra potências imperialistas ocidentais, a fim de “evitar a conclusão da restauração”. No caso da LIT/PSTU, há uma posição aparentemente majoritária de que a China já seja um imperialismo consolidado “como os Estados Unidos” (ainda que haja posições intermediárias e setores de militantes que não tenham essa mesma visão) Já a Fração expulsa da LIT (FDR), de acordo com a nota pública da maioria, considera-se que, junto à Rússia, a China seja um “capitalismo semicolonial” (ou ainda um “capitalismo dependente”, algo que não fica claro, já que não há ainda um material escrito). A batalha por uma posição marxista na questão chinesa é uma grande contribuição da FT que precisamos aprofundar e tomar à escala internacional.