Revista Casa Marx

As centrais sindicais e a ofensiva imperialista

Thiago Flamé

A cúpula das centrais sindicais está desenvolvendo uma intensa atividade para articular uma resposta às tarifas e à ingerência de Trump, mas não se veem grandes assembleias, reuniões, manifestações da classe trabalhadora. É nos gabinetes que eles estão atuando. E isso diz muito da situação que vivemos

É difícil encontrar comparações históricas para o tipo de ofensiva imperialista em curso. Mesmo nos momentos de intervenção mais aguda sobre o Brasil, os EUA agiram através de frações do Estado e da burguesia. Até no golpe de 1964, que foi uma intervenção quente, que não se compara ao momento atual, financiaram, articularam, movimentaram a IV Frota em direção à Baía da Guanabara nos momentos decisivos, mas deixaram o protagonismo aos seus prepostos nacionais.  Agora, parte da perplexidade da burguesia, é que está tendo o tratamento imperial geralmente reservado aos países do Caribe.

Assustada e carente de um planejamento estratégico comum, a burguesia, os grandes bancos, os latifundiários o empresariado, a imprensa, o Congresso, o governo, o STF e… a burocracia das Centrais Sindicais, se juntaram numa unidade nacional reacionária, débil e instável, para colocar um limite no salto de recolonização que está implícito na chantagem trumpista. O programa dessa unidade, feita em nome da soberania, não é soberano. Não se negam a seguir vendendo e entregando as riquezas naturais e a força de trabalho brasileiras – que se comprometem a precarizar cada vez mais – nas bolsas internacionais. Apenas querem querem poder negociar as riquezas nacionais também em Xangai e Londres, não apenas em Nova Iorque. 

Como diz o jurista do trabalho, Jorge Luiz Souto Maior, “Se o modelo de capitalismo vigente no Brasil é ditado pela dependência aos interesses econômicos e políticos dos países centrais e se, neste contexto, as empresas multinacionais em solo brasileiro mantêm suas taxas de lucro a partir de uma superexploração da força de trabalho, reproduzindo, assim, as máximas do colonialismo e se valendo dos resquícios escravistas ainda em voga, é evidente que, primeiro, a soberania nacional é uma ilusão e, segundo, que ela só se tem efetivado para legitimar o rebaixamento da rede de proteção jurídica e das condições de vida da classe trabalhadora que atua em território nacional”.

A primeira vítima da guerra tarifária de Trump foram as ilusões patrióticas e soberanistas, à direita e à esquerda. Fomos lembrados de por que, três décadas atrás, o conjunto do movimento social levantava a bandeira da segunda independência. A independência brasileira, de fato, nunca se completou e só deixa de ser uma quimera, quando ligada a luta da classe trabalhadora contra a exploração capitalista. O mecanismo da dívida e dos tratados militares subordinaram o império escravista à Inglaterra no século XIX e à república – civil ou militar – aos EUA no século XX. Quando se deu conta de que Trump não blefava, a burguesia atacou com as principais forças de barganha que possuiu: a picanha, o café e o suco de laranja… A Embraer, a jóia da coroa do complexo industrial, já tem parte da produção em solo americano. 

Em 1964 toda a burguesia brasileira se unificou atrás do coturno militar e da bandeira dos EUA para enfrentar o movimento camponês, a juventude e a classe trabalhadora brasileiras. Foi um golpe para a ideologia do partidão stalinista e do movimento sindical tradicional – nacionalista e varguista – de aliança com a burguesia nacional, ou com os setores democráticos da burguesia. Eles não existem. Hoje, quando as lições mais elementares de 1964 estão há bastante tempo esquecidas, a retórica soberanista do governo reaviva as velhas ilusões, no caso de alguns, nunca perdidas. Não é o caso do ministro do trabalho, Luiz Marinho, e das direções sindicais, da CUT, Força Sindical, CTB e demais, que não nutrem ilusões. Seus cálculos são pragmáticos. 

Uma das linhas mais férteis do pensamento social brasileiro foram aquelas que tomaram para si (muitas vezes sem nomear e dar os devidos créditos) ao conceito de desenvolvimento desigual e combinado, fundamental para entender a simbiose entre metrópole e periferia. Já na década de 1930 a Liga Comunista Internacional de Mário Pedrosa e Lívio Xavier colocavam que a burguesia brasileira nasceu no campo, vinculada ao capital inglês, herdeira dos escravistas e que todas as demandas democráticas estruturais, como a reforma agrária, e da defesa da independência diante do imperialismo e unidade nacional deveriam ser tomadas em enfrentamento com elas.

Mais tarde, no seu exílio mexicano, Trotski observou as condições dos países da América Latina e as debilidades das burguesias locais. Para fazer frente ao poderio de grupos de capitais monopólios específicos, em todo o mundo os sindicatos ou buscam se apoiar no estado capitalista ou devem tomar inevitavelmente o caminho da luta de classes e da revolução. Na periferia, a força de atrelamento ao estado é ainda maior, posto que a própria burguesia “ou se alia ao capital estrangeiro e impõe uma brutal ditadura contra o proletariado, ou se apoia no proletariado – pela via da burocracia sindical – para negociar em melhor posição as condições da sua dependência”. 

Na unidade nacional ao qual a direção das direções sindicais somam no Brasil, essa fórmula histórica ganha vida com uma feição perversa, imprevista. O governo consegue o necessário apoio das cúpulas sindicais ao plano de socorro à burguesia sem dar nada para a base das centrais e para a classe trabalhadora diretamente atingida, sequer a garantia de que não haverá demissões. Serão trinta bilhões, direcionados para a burguesia, nada diretamente aos trabalhadores. Consegue o apoio da burocracia sindical para um regime fiscal de ataque permanente aos direitos da classe trabalhadora. Conclui Souto Maior que a “tarifa de Trump passa a ser, assim, a oportunidade para aprofundar a exploração do trabalho no Brasil e quem estiver contra isso está contra os interesses maiores da “nação” e tudo isto apoiado nas forças que se somaram contra o “inimigo maior” da vez – para legitimar essa lógica do rebaixamento e do “mal menor” sempre se encontra um perigo iminente”.

Em nome do combate ao bolsonarismo, e agora também em nome do combate à Trump, a cúpula das centrais atua dentro dos gabinetes governamentais, enquanto paralisa qualquer ação efetiva da classe trabalhadora em defesa dos seus interesses. Não estamos falando dos atos convocados pelos movimentos sociais petistas para apoiar o governo, como será o que está sendo convocado para o 7 de Setembro, que sequer contam com colunas de trabalhadores dos grandes sindicatos cutistas. Para defender a sua política de unidade com os patrões fogem – como o diabo foge da cruz – de convocar reuniões e assembleias democráticas. Estamos falando de campanhas de massa contra o imperialismo, paralisações, greves, bloqueios, manifestações que efetivamente coloquem a classe trabalhadora em movimento e afetem os interesses das empresas dos EUA no Brasil. O apoio que o governo encontra na sua retórica soberanista vazia, mostra que seria possível para as centrais sindicais encabeçar mobilizações independentes. 

A força da classe trabalhadora para enfrentar Trump

Numa mesa virtual realizada no dia 13 de agosto a cúpula das centrais sindicais se reuniu para planejar suas ações. O relatório do Dieese é preocupante, a guerra tarifária vai atingir o coração da grande indústria e dos grandes sindicatos. Nessa reunião, o máximo que os dirigentes sindicais conseguiram elaborar são as formas de atuar como linha auxiliar do governo e dos empresários nas negociações entre os blocos comerciais. O ministro abriu a reunião chamando apoio ao pacote do governo e lembrando que os sindicatos não devem aceitar sem análise as exigências da patronal nas datas base do segundo semestre. Preocupa-se com os números totais de reajuste que vão sair em ano eleitoral. 

Nesse papel auxiliar a força da classe trabalhadora aparece apenas nas entrelinhas. Como foi dito, as agências do governo não tem capacidade de fazer uma análise de cada fábrica e empresa afetadas. são muitas, só os sindicatos podem fornecer esses números. Sim, só a classe trabalhadora está em todas as empresas, exportadoras para os EUA e nas próprias indústrias de capital norte-americano no Brasil.

Essa é a grande conclusão que a maioria dos intérpretes do conceito de desenvolvimento desigual e combinado para a realidade social brasileira não tirou. O outro lado da moeda da debilidade da burguesia é a força do proletariado. O Brasil é uma potência industrial de segunda ordem, com um grande e lucrativo mercado consumidor, mas toda a sua capacidade industrial e financeira está nas mãos dos capitais imperialistas, sendo que o quinhão maior está nas mãos do capital dos EUA.

A burguesia não pode responder à altura, pois uma ruptura com o capital dos EUA levaria seus negócios ao colapso. Só a classe trabalhadora, junto à seus aliados, é a força que pode se opor de maneira eficaz. Os grandes batalhões de operários das fábricas das empresas dos EUA, como GM, General Electric e tantas outras, têm a força para efetivar um real controle de remessas de lucros. Fuga de capitais? São os trabalhadores bancários que executam as transferências fundamentais do sistema financeiro e podem bloquear a fuga de dólares, mecanismo financeiro fundamental da subordinação. 

Não queremos repetir aqui a todo um programa de ação já desenvolvido em artigo de André Barbieri. O Plano Brasil Soberano não altera nenhuma dessas conclusões, apenas ilustra e reforça como o mecanismo de exploração da dívida pública opera. Como sempre, tem dinheiro para banqueiro, mas não tem educação. 

Assim, é preciso romper essa unidade nacional reacionária e unificar o movimento operário e popular em uma unidade de ação real, anti-imperialista, e portanto, também anti patronal. Os sindicatos precisam organizar nossa luta nas ruas e nos locais de trabalho, e essa conjuntura mostra a importância de retomarmos essas ferramentas para os trabalhadores.  

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