Matías Maiello
Texto publicado originalmente na edição do dia 17/08/2025 do semanário argentino Ideas de Izquierda. A seguir publicamos um prólogo de Matías Maiello à compilação de Escritos sobre la planificación socialista, de León Trotsky, que será publicada em breve pelo Centro de Estudios, Investigaciones “León Trotsky” em conjunto com as Ediciones IPS como volume número 18 das Obras Escogidas do fundador do Exército Vermelho, quando se completam 85 anos de seu assassinato. Também compõe o especial do Instituto Casa Marx em homenagem ao Leon Trótski, a 85 anos do seu assassinato.
Recriar a perspectiva de um socialismo desde baixo para o século XXI, em contraposição à experiência stalinista, implica partir das realidades atuais do capitalismo, da classe trabalhadora e dos oprimidos, para que possa ser vista como uma alternativa à crise civilizatória que o sistema capitalista nos impõe. Mas, para isso, também é condição fundamental contar com um balanço do século passado e retomar o que houve de mais avançado nas experiências que nele tiveram lugar. A obra de León Trotsky, que esteve à frente dos principais combates contra a degeneração stalinista do comunismo, representa um insumo indispensável para essa tarefa em múltiplos terrenos; o da planificação socialista, ao qual se dedica este tomo de suas Obras Escogidas, é um deles. Tanto nos escritos que compõem a presente compilação quanto no estudo introdutório de Christian Castillo poderão ser encontradas muitas chaves para pensar a temática da planificação socialista, não apenas historicamente em torno da experiência da URSS, mas também sua atualidade frente ao futuro da luta por pôr fim à barbárie capitalista 1 .
Como sabemos, Marx e Engels foram muito prudentes ao delinear os contornos de uma futura sociedade socialista. Críticos do socialismo utópico, seus principais desenvolvimentos basearam-se em conclusões de experiências históricas, em primeiro lugar, da Comuna de Paris. Isso não impede, porém, intuições muito relevantes como as expressas, por exemplo, na Crítica ao Programa de Gotha, onde Marx inclui toda uma série de considerações a respeito das “fases” do comunismo. Ali descreve uma primeira fase em que ainda não há abundância e é necessária alguma norma de repartição dos recursos existentes, em que cada um recebe da sociedade segundo o seu trabalho. Para sustentar essa norma de repartição, ainda é necessário que exista alguma forma de Estado ou semi-Estado, chamado a extinguir-se ao ritmo do avanço em direção aos objetivos comunistas. Diferentemente desta, a “fase superior” do comunismo teria por lema “de cada um segundo sua capacidade, a cada um segundo sua necessidade”. Ou seja, cada indivíduo contribui para a sociedade conforme sua capacidade e recebe conforme o que necessita. Para além desses termos gerais, os fundadores do marxismo não abordaram as formas concretas do que seria uma planificação da produção.
A experiência da URSS no século XX colocou novos termos para esse debate. Expressou a temática da planificação em termos não apenas teóricos, mas históricos. Nenhuma retomada dessa temática no século XXI pode prescindir de extrair as conclusões daquele experimento. Contudo, há aí uma dificuldade adicional. Quando Marx formulou seu esquema das “fases” do comunismo, não tinha em mente que a revolução triunfasse em um país atrasado e permanecesse isolada internacionalmente. A URSS não alcançou nenhuma daquelas duas “fases” descritas por Marx. Não foi uma sociedade socialista. Trotsky a caracterizou como um regime preparatório ou de transição do capitalismo ao socialismo. Como aponta no artigo A degeneração da teoria e a teoria da degeneração, incluído neste tomo:
A URSS não é, evidentemente, uma sociedade socialista, mas apenas um Estado socialista, isto é, uma arma para a construção da sociedade socialista; as classes estão longe de terem sido abolidas, o problema de quem se imporá não está resolvido, a possibilidade de restauração capitalista não está excluída 2 .
Essa definição constitui um necessário ponto de partida para abordar criticamente aquela experiência.
A ampla gama de escritos de Trotsky –que foi nomeado em 1925 membro do Conselho Supremo de Economia Nacional– sobre os problemas da planificação, contidos na presente compilação, representa uma referência obrigatória para o estudo desse tema. Ela ganha hoje renovada atualidade, em contraposição à experiência stalinista, tanto pela crise multidimensional (econômica, social, ecológica, geopolítica etc.) que atravessa o capitalismo, quanto pelas novas possibilidades que os desenvolvimentos tecno-científicos das últimas décadas colocam para a planificação socialista, permitindo pensar alternativas e possibilidades muito mais amplas do que as que existiam há um século. Naturalmente, a tecnologia nunca resolve por si mesma as contradições essenciais de uma sociedade, daí a vigência, apesar dos anos, dessas elaborações de Trotsky. A questão, antes como agora, é política e segue passando pelo controle operário 3 , pela socialização dos meios de produção e pela existência de um Estado dos trabalhadores baseado em uma democracia de conselhos, mas os meios disponíveis mudaram e é necessário levar isso em conta.
O século passado foi atravessado por múltiplos debates em torno das possibilidades da planificação socialista da economia: sobre a viabilidade da substituição do mercado pela planificação; sobre o cálculo dos valores em uma economia planificada; sobre a compatibilidade entre a centralização do plano –para compreender o conjunto das necessidades sociais– e a descentralização requerida em termos de preferências individuais e democratização; sobre a questão da qualidade e da inovação em uma economia não regida pelo lucro capitalista; entre outros. Várias dessas questões são abordadas nos textos de Trotsky desta compilação, com tal profundidade que nos permitem explorar as possibilidades para a planificação socialista nas novas coordenadas da atualidade. No que vai do século XXI, esses debates tiveram um relativo novo impulso a partir dos grandes avanços inter-relacionados da informática, da cibernética e das tecnologias de comunicação. Autores como Evgeny Morozov, Daniel Saros, Paul Cockshott, Maxi Nieto, entre outros, expuseram diferentes ângulos da problemática da planificação ligada às novas tecnologias, não necessariamente vinculados a uma perspectiva socialista revolucionária, mas com formulações sugestivas que mostram a vitalidade do tema.
A planificação socialista também tem um vasto histórico de impugnadores entre os apologistas do capital. Entre os pioneiros estiveram Ludwig von Mises e Friedrich Hayek, que já entre as décadas de 1920 e 1940 buscavam apresentá-lo como inerentemente ineficiente, quando não diretamente impraticável. Em seu ensaio O uso do conhecimento na sociedade, Hayek sustentava que, sendo que os valores dos fatores de produção não dependem apenas da valoração dos bens de consumo, mas também das condições de fornecimento dos diversos fatores de produção, apenas uma mente que conhecesse simultaneamente todos esses fatos, e as respostas que necessariamente decorreriam deles, poderia dirigir uma planificação da economia 4 . Historicamente, os desenvolvimentos na URSS mostraram a planificação como uma realidade, mesmo sob a bota de uma burocracia totalitária que minava constantemente o plano ao mesmo tempo em que o ditava. Um país atrasado com resquícios semifeudais, devastado por uma cruenta guerra civil, por duas guerras mundiais e uma ampla contrarrevolução burocrática conseguiu, a partir da expropriação dos meios de produção da burguesia e de uma planificação (burocrático), converter-se na segunda potência econômica do planeta. Chegou, inclusive, a disputar a liderança tecnológica nos terrenos militar e aeroespacial. Apesar de Hayek e da própria burocracia stalinista, demonstrou-se a viabilidade da planificação.
Agora, a planificação centralizada com métodos burocráticos permite concentrar recursos para objetivos globais definidos como prioritários, por exemplo, a corrida armamentista e aeroespacial na URSS 5 . Contudo, se passarmos ao terreno da diversificação da economia ou dos bens de consumo, os objetivos da produção podem multiplicar-se exponencialmente, tornando muito mais desagregada, detalhada e complexa a planificação. O volume de informação necessário cresce junto com a diversificação da economia. Uma problemática central é aquela que se refere à contradição entre os elementos de centralização da planificação –obrigado a levar em conta o conjunto da economia–, por um lado, e a definição democrática do plano e o caráter descentralizado das preferências individuais, por outro. Em A economia soviética em perigo –que integra a presente compilação–, Trotsky afirmava:
Se existisse uma mente universal, como a que se projetava na fantasia científica de Laplace –uma mente que pudesse registrar simultaneamente todos os processos da natureza e da sociedade, medir a dinâmica de seu movimento, prever os resultados de suas reações recíprocas–, poderia, evidentemente, traçar a priori um plano econômico perfeito e exaustivo, desde o número de acres de trigo até o último botão dos coletes. A burocracia frequentemente imagina ter à sua disposição uma mente como essa; por isso prescinde tão facilmente do controle do mercado e da democracia soviética 6 .
Sob esse prisma, Trotsky abordava, na década de 1930, as perguntas sobre: quais são os organismos que devem elaborar e aplicar o plano? quais são os métodos para controlá-lo e regulá-lo? e quais são as condições para que tenha sucesso? É importante ressaltar que aqui ele não estava se referindo a uma sociedade socialista, mas, como já dissemos, a um regime preparatório ou de transição do capitalismo ao socialismo, que era o que existia efetivamente na URSS. Para responder a essas perguntas, ele analisava três sistemas: 1) o sistema de comissões do plano, centrais e locais; 2) o sistema de regulação do mercado; 3) o sistema de regulação pelas massas através da democracia soviética. O primeiro expressava o elemento de centralização. Os anteprojetos elaborados por essas comissões tinham que demonstrar sua eficácia econômica por meio do cálculo comercial, já que era pelo segundo sistema que os inúmeros protagonistas da economia — estatais e privados, coletivos e individuais — faziam valer suas necessidades e sua força relativa mediante a pressão direta da oferta e da demanda. Enquanto não se superasse a etapa de transição, o controle econômico era inconcebível sem levar em conta as relações de mercado, que de outra forma emergiriam de fato. Por sua vez, a democracia soviética — liquidada pela burocracia — era o único sistema capaz de controlar os dois anteriores.
Ao eliminar todos os mecanismos de controle, a planificação burocrática aumentava exponencialmente um dos problemas básicos de toda planificação, que é a desproporção entre os diferentes ramos da economia. Como assinalava Trotsky, uma coisa é produzir um milhão de pares de sapatos em vez de dois milhões, e outra coisa muito distinta é construir apenas a metade de uma fábrica de sapatos.
As leis que governam a sociedade de transição — afirmava — são muito diferentes daquelas que governam o capitalismo. Mas, em não menor medida, diferenciam-se também das futuras leis do socialismo, isto é, de uma economia harmoniosa que se baseia em um equilíbrio dinâmico comprovado, seguro e garantido. As vantagens produtivas do socialismo, da centralização, da concentração, da administração unificada são incalculáveis. Mas a aplicação equivocada, particularmente o abuso burocrático, pode convertê-las em seus opostos7 .
A chave de toda a questão para Trotsky era que a prioridade absoluta nos objetivos da planificação devia ser melhorar as condições de vida dos trabalhadores e suas famílias. Garantir boa alimentação, vestuário, moradia e tudo o que dizia respeito ao bem-estar do povo trabalhador era a essência do êxito do plano ou, melhor dizendo, a própria condição de qualquer planificação da economia na perspectiva de uma transição ao socialismo.
Pois bem, a vigência dessas reflexões para pensar a planificação socialista no século XXI se expressa em toda sua magnitude quando abordamos aqueles três níveis de que falava Trotsky (elaboração do projeto de plano, controle em termos de mercado, controle democrático pelos conselhos), a partir das condições atuais. Em primeiro lugar, a própria elaboração do plano. Nas décadas posteriores à Segunda Guerra Mundial, na URSS houve diversas tentativas de utilizar as tecnologias avançadas de informação para a planificação, mas nenhuma delas foi levada à prática. Um dos mais conhecidos desdobramentos nesse sentido ocorreu no Chile, sob o governo de Salvador Allende, com o sistema Cybersyn, a cargo do ciberneticista britânico Stafford Beer, cujo objetivo era coordenar centralmente as indústrias do setor estatal da economia. Hoje estamos a anos-luz das tecnologias sobre as quais se baseavam aqueles experimentos. Em tempos de Big Data, a tecnologia para a planificação relativa à produção e ao fluxo de produtos já existe graças ao software de códigos de barras e de gestão de inventários.
Para marcar o contraste, por exemplo, o grande projeto de Viktor Gluschkov na década de 1960, na URSS, consistia em digitalizar as comunicações telefônicas para transmitir maior quantidade de informação a serviço da planificação. Hoje, as tecnologias da informação e a capacidade informática, assim como os desenvolvimentos da Inteligência Artificial, abrem um campo totalmente novo para uma planificação socialista se comparado com o século XX. Trata-se de tecnologias que já estão sendo utilizadas em grande escala pelas grandes corporações capitalistas para a planificação intrafirma, a qual convive com a anarquia capitalista em nível global, produto da concorrência pela maximização dos lucros. Como assinalam Cockshott e Nieto:
Todas essas possibilidades já se percebem no funcionamento de algumas das grandes empresas atuais, de ponta na aplicação das novas tecnologias da informação, como é o caso do Wal-Mart. Esse gigante da distribuição opera como um sistema em rede que conecta em tempo real o “centro” com as lojas, armazéns e fornecedores, tudo isso através da comunicação por satélite utilizando etiquetagem de Identificação por Radiofrequência (RFID), que permite rastrear a localização exata de qualquer produto em toda a cadeia de fornecimento. A Amazon, empresa líder em logística inteligente, é um caso semelhante. Coloca à disposição dos consumidores uma infinidade de produtos e, para isso, altera os estoques e realiza pedidos de fornecimento aos fornecedores em função das vendas em tempo real. Além disso, atribui localizações, rotas e armazéns mediante algoritmos. Essas empresas, e muitas outras igualmente avançadas em outros campos, prefiguram o tipo de funcionamento de uma economia socialista planificada orientada à satisfação das preferências dos consumidores 8 .
O caráter necessariamente global do plano marca uma tensão entre o plano centralizado e sua construção a partir de baixo. No entanto, os recursos informáticos e a capacidade de manejo de informação em tempo real existentes hoje facilitariam amplamente a confecção de vários planos alternativos a partir de conselhos democraticamente eleitos, com participação dos sindicatos, dos movimentos sociais, das universidades, das organizações ambientalistas etc. Os planos gerais macroeconômicos poderiam descrever diferentes estruturas futuras alternativas da economia, assim como escolhas sobre questões como a taxa de acumulação, o tamanho dos diferentes setores (educação, saúde etc.), considerações ambientais, duração da jornada de trabalho, alocação de força de trabalho e de recursos por setor etc. Os diferentes planos poderiam estar à disposição de todos e ser a base para um amplo debate que incluísse a popularização de seus pontos fundamentais. A escolha entre os planos propostos poderia ser debatida publicamente nos conselhos, nos meios de comunicação de massa e submetida a algum tipo de referendo geral.
Por si só, esse tipo de abordagem das decisões no terreno econômico contrastaria com a forma como são tomadas as decisões em qualquer país capitalista, por mais democrático que seja. Não só porque a maioria das decisões fundamentais (investimento, distribuição do trabalho, acumulação etc.) sob o capitalismo é tomada de forma fragmentária, incoerente e anárquica, sem considerar as necessidades sociais e as proporções globais entre os diferentes ramos da economia, e ao mesmo tempo despótica, já que são os proprietários dos meios de produção que as decidem a seu arbítrio. Mesmo sob as democracias burguesas, o setor da economia ligado ao Estado — que inclui, por exemplo, temas globais como o endividamento público —, cuja projeção se expressa geralmente sob a forma de orçamentos anuais, é decidido nos parlamentos — senão diretamente nos poderes executivos — às costas das grandes maiorias. A possibilidade de discussão global do destino dos recursos econômicos através de um plano decidido democraticamente marcaria, em si mesma, um salto sideral do ponto de vista democrático em relação a qualquer regime político capitalista.
Essa abordagem democrática é também fundamental para enfrentar a disrupção que o capitalismo provocou no metabolismo socioambiental e que coloca a urgência de superar esse modo de produção. Como assinala Esteban Mercatante em “Ecología y comunismo” 9 , retomando algumas formulações de Troy Vettese e Drew Pendergrass em Half-Earth Socialism, se o objetivo do socialismo é permitir à humanidade regular conscientemente a si mesma e sua relação com a natureza, a melhor forma de alcançar esse objetivo é escolher entre planos alternativos que representem diferentes visões de como a capacidade produtiva da sociedade pode ser mobilizada. Inclusive, desenvolvimentos mais recentes, como os modelos de avaliação integrada usados pelos cientistas do clima, também podem enriquecer os mecanismos de planificação. A planificação em bases socialistas pode traçar diversos caminhos rumo a um equilíbrio com o metabolismo socioambiental. A elaboração e a discussão democrática de planos econômicos alternativos poderia cumprir aqui também um papel muito importante.
Por sua vez, as novas tecnologias também permitiriam ampliar, de uma forma impossível no século XX, o outro polo da planificação esboçado por Trotsky: a elaboração do plano de baixo para cima. Ou seja, a influência não apenas na escolha entre planos globais alternativos, mas também na elaboração dos insumos (informações) utilizados na própria confecção do plano, ampliando assim o peso das preferências individuais no projeto global. Como observa Daniel Saros, atualmente a tecnologia da informação possibilita a comunicação de escalas de avaliação individuais de maneira muito mais eficaz e reflexiva do que o mecanismo de mercado que, cabe destacar, deixa insatisfeitas todas as necessidades que as grandes maiorias não podem respaldar com dinheiro. Saros propõe um mecanismo de classificação de preferências formulado por meio de “perfis de necessidades”, que permitiria que os próprios consumidores definissem quais são os produtos (genéricos e específicos) mais demandados, atribuindo-lhes uma escala de classificação 10 . Algo semelhante a uma solicitação antecipada de produtos por meio de uma plataforma eletrônica, como as usadas pelas grandes lojas virtuais de e-commerce. Para além dos termos concretos de sua proposta – debatíveis em muitos aspectos e elaborados em um nível de detalhe que não podemos abordar aqui –, esse tipo de aproximação é estimulante para refletir sobre as possibilidades de intervenção direta de trabalhadores e consumidores na própria elaboração de um projeto de plano. Saros, inclusive, pensa esse esquema ajustado quase em tempo real. O conceito é que, ao sinalizar suas preferências e necessidades individuais, cada trabalhador e consumidor faria sua contribuição parcial para a planificação global, fornecendo informações antecipadas a partir de um certo nível de planificação individual, não muito diferente do que muitas famílias já realizam hoje.
Questões como essas permitiriam, com o apoio das novas tecnologias, afastar-se da ideia burocrática da “mente universal” que Trotsky critica. E, ao mesmo tempo, coordenar inúmeros processos macroeconômicos com níveis microeconômicos por meio de um fluxo constante de informações muito superior ao de qualquer mercado. Como destaca Evgeny Morozov, não há mais necessidade de comprimir uma grande quantidade de fatos heterogêneos na camisa de força dos preços, quando os chips de computador podem comunicar esses fatos diretamente 11 . Naturalmente, tudo isso implicaria que os meios para criar modos alternativos de coordenação social – a chamada “infraestrutura de retroalimentação” – precisariam ser socializados, retirando-os das mãos dos gigantes tecnológicos que os monopolizam atualmente. Dessa forma, a planificação em uma economia de transição poderia antecipar-se ao sistema de regulação do mercado, projetando sua eficácia por meio do cálculo comercial a partir da ação antecipada dos protagonistas coletivos e individuais, estatais e privados da economia, prevendo oferta e demanda de maneira plausível. Também, a nível dos diferentes ramos da economia, poderia servir como ferramenta contra desproporções. Poderia agir de forma eficaz sobre problemas de qualidade – sobre os quais Trotsky alerta em “Rumo ao capitalismo ou ao socialismo?” e outros textos desta compilação –, bem como aumentar a durabilidade dos produtos frente à obsolescência programada, irracional e tão custosa em termos ecológicos. Esse tipo de problema constitui um obstáculo insuperável para a burocracia, já que a qualidade pressupõe a democracia dos produtores e dos consumidores, bem como a liberdade de crítica e de iniciativa.
Naturalmente, os exemplos que mencionamos sobre o potencial das novas tecnologias para pensar os problemas colocados por Trotsky atualmente têm apenas um valor aproximativo para estimular a imaginação política. Muitos dos autores citados sustentam visões evolutivas do avanço rumo ao socialismo e superestimam as virtudes da tecnologia em si para resolver problemas que, em última instância, são políticos e dependem de métodos revolucionários. Daí a importância dos enfoques de Trotsky contidos neste volume de suas Obras Escolhidas. Por sua vez, em casos concretos, as determinações históricas específicas apresentarão cenários diversos. Por outro lado, a planificação envolve muitas outras questões centrais ressaltadas por Trotsky nesses textos – tanto no caso de uma economia quanto de um conjunto de economias de transição no contexto do mercado mundial capitalista – como, por exemplo, a existência de uma moeda de valor estável, para evitar que o poder de compra dos salários e os cálculos econômicos do plano naufraguem em uma maré inflacionária, ou o monopólio do comércio exterior, fundamental para controlar a afluência de mercadorias de países capitalistas e regulá-la conforme as necessidades da produção e do consumo interno.
Mas, acima de tudo, o ponto central do enfoque de Trotsky sobre os problemas da planificação socialista está no sistema de regulação das massas por meio da democracia dos conselhos, onde se define se a planificação é ou não controlado democraticamente de forma conjunta e, com isso, a vitalidade de uma economia baseada na propriedade verdadeiramente social dos meios de produção. Daí a inseparável ligação que o fundador do Exército Vermelho estabelece entre a temática da planificação e a dos conselhos ou soviets – segundo a transliteração do russo – e de ambos com a perspectiva socialista. Para Trotsky, “o plano de construção do socialismo não pode ser uma ordem burocrática apriorística. Deve ser elaborado e corrigido da única maneira possível de construir o socialismo, ou seja, por meio da mais ampla democracia soviética” 12 .
Como se pode perceber em “El nuevo curso de la economía soviética”, em “Nuevos zigzags y nuevos peligros” e ao longo dos escritos que compõem este volume, Trotsky defendeu com unhas e dentes essa relação entre o desenvolvimento da planificação socialista e da democracia soviética nas condições extremamente difíceis que se apresentavam para o proletariado e sua vanguarda: o atraso herdado, os efeitos da Guerra Mundial e da guerra civil, bem como o isolamento da URSS imposto pela derrota da onda revolucionária na Europa entre 1918 e 1923. A situação teria sido muito diferente se, como era a perspectiva de Lenin e Trotsky, a revolução alemã tivesse triunfado com sua grande classe trabalhadora, sua poderosa indústria e tecnologia avançada, unindo-se à vasta Rússia soviética para constituir o pivô da revolução mundial. A vitória da revolução em um país central como a Alemanha teria mudado as coordenadas de muitos dos problemas mencionados, abrindo enormemente o caminho rumo ao socialismo.
No entanto, diante das condições de atraso das quais partiu a URSS, para Trotsky, embora o partido revolucionário devesse travar uma luta constante pelos objetivos estratégicos da revolução socialista – o que implicava fortalecer o proletariado e impulsionar a acumulação até tornar materialmente possível a continuação da transição para o socialismo –, não se tratava de fazê-lo de qualquer maneira. As medidas necessárias deveriam ser implementadas por meio da confrontação política, persuasão e negociação perante as massas nos conselhos como organismos democráticos do Estado, sempre vinculadas à perspectiva de desenvolver internacionalmente a revolução. Daí que, desde os primeiros êxitos da NEP na primeira metade da década de 1920, propusesse o aumento do investimento na indústria por meio de impostos progressivos aos camponeses ricos, a fim de prevenir o conflito agudo que se desenhava entre campo e cidade, e quando Stalin, anos depois, atacou os camponeses ricos para impulsionar o desenvolvimento da indústria, Trotsky denunciou sua política como aventureira e burocrática. Sobre isso, afirmava:
“Somente tolos e cegos podem acreditar que o socialismo será implantado de cima para baixo, que será introduzido burocraticamente. E, com ainda mais força que antes, prevenimos os operários avançados da URSS e do mundo inteiro: o novo ziguezague de Stalin, seja qual for a forma como seja aplicado de imediato, conduzirá inevitavelmente a novas contradições, ainda mais agudas, na próxima etapa. Devemos começar com a restauração da democracia proletária. Este é agora o elo decisivo da cadeia. Os problemas da economia devem ser discutidos em toda a sua extensão pelo partido e pelos sindicatos.” 13
Sem a organização do consenso para implementar as medidas necessárias para o avanço rumo ao socialismo, não há caminho possível para a extinção do Estado. Nesse sentido, Trotsky sustentava que: “O avanço da democracia soviética, embora ainda não represente a extinção do Estado, significa, contudo, a preparação desse processo.14”
Em termos de desenvolvimento da cooperação do trabalho e do conhecimento social geral – o que Marx chamou de “intelecto geral” – nossas coordenadas estão a anos-luz das que existiam há um século, especialmente considerando que, no século XX, a revolução não triunfou em países avançados, mas em formações socioeconômicas marcadas pelo atraso. Mas a questão, antes como agora, consiste em libertar esse potencial das correntes impostas pelo capital. O tempo de trabalho como única medida da riqueza não é mais do que uma imposição miserável, sustentada – de forma cada vez mais crítica, provocando crises econômicas e políticas, destruição ecológica e guerras de magnitude crescente – pela persistência da dominação capitalista. Não há nada de “inevitável” ou “natural” nisso. Daí a atualidade da perspectiva internacionalista da revolução socialista, da construção de um poder próprio dos trabalhadores que tome os meios de produção e de troca das mãos dos capitalistas e os coloque, por meio de sua planificação democrática, a serviço das necessidades das grandes maiorias e da redução ao mínimo do trabalho como imposição. Em tempos em que os discursos da direita evocam o fantasma do socialismo ou do comunismo, os escritos de Trotsky apresentados nesta compilação constituem uma grande contribuição para recriar um imaginário socialista e a perspectiva de uma sociedade que supere o horizonte de barbárie que o capitalismo nos impõe, mais uma vez, no século XXI.
1. Vários elementos que foram retomados nesta apresentaãon estão desenvolvidos em: Albamonte, Emilio y Maiello Matías, Debates y fundamentos sobre la lucha por el socialismo hoy, Buenos Aires, Ediciones IPS, 2024.
2. Trotsky, León, “La degeneración de la teoría y la teoría de la degeneración”, p. 399 de esta edición.
3. Ver, por ejemplo, as considerações de Trotsky à respecto em “Control obrero y nacionalización”, p. 51 de la presente edición.
4. Cfr. Hayek, Friedrich, “The Use of Knowledge in Society”, en The American Economic Review Vol. XXXV N° 4, septiembre 1945.
5. A prioridade dada a esses objetivos esteve diretamente vinculada ao tipo de estratégia que a burocracia adotou no contexto da Guerra Fria, de competição em termos geopolíticos com o imperialismo norte-americano (que foi quem impôs esses termos), resignificando a teoria do “socialismo em um só país” por meio da chamada “coexistência pacífica” após a morte de Stalin.
6. Trotsky, León, “La economía soviética en peligro”, p. 353 de esta edición.
7. Ibídem.
8. Cockshott, Paul y Nieto, Maxi, Cibercomunismo, Madrid, Trotta, 2017, p. 36.
9. Mercatante, Esteban, “Ecología y comunismo”, Ideas de Izquierda. https://www.laizquierdadiario.com/Ecologia-y-comunismo
10. Cfr. Saros, Daniel, Information Technology and Socialist Construction, London/New York, Routledge, 2004.
11. Morozov, Evgeny, “Digital socialism?”, New Left Review N°116/117, marzo/junio 2019.
12. Trotsky, León, “El nuevo curso de la economía soviética”, p. 289 de esta edición.
13. Trotsky, León, “Nuevos zigzags y nuevos peligros”, p. 339 de esta edición.
14. Trotsky, León, “La degeneración de la teoría y la teoría de la degeneración”, p. 400 de esta edición.