Propaganda verde para mascarar a devastação ambiental e o entreguismo
Após muita pressão do governo Lula, que inclusive chegou a dizer que o Ibama estava de “lenga lenga” (fala que poderia ser facilmente atribuída ao ex-ministro do meio ambiente, Ricardo Salles), foi aprovado o licenciamento para a pesquisa de exploração de petróleo na Bacia da Foz do Amazonas.
Fortemente criticado pelos principais órgãos de preservação, comunidades locais e ambientalistas, a exploração de petróleo na região coloca em risco um dos principais biomas do mundo: contendo 80% dos manguezais do país, um berçário marinho com grande biodiversidade. Além de conter também o recém-descoberto Sistema de Recifes de Corais do Cone Amazônico[1], um gigante com estimativas de até 56 mil km², se estendendo desde a Guiana Francesa até o Maranhão.
Na mesma semana do anúncio do licenciamento, o relatório “Global Tipping Points Report 2025”[2] apontou para o fato de o mundo poder ter ultrapassado o primeiro ponto de não-retorno associado ao embranquecimento dos corais, com 84% dos recifes de corais do mundo afetados devido ao comprovado aumento de 1,4 ºC nas temperaturas globais. Essa exploração contribuirá diretamente para o aumento do consumo de combustíveis fósseis além de conter um risco gigantesco ambiental imenso.
Enquanto o discurso do governo e demais defensores é de que essa exploração poderá financiar a transição energética, a verdade é que se avança com a privatização da Petrobrás Biocombustíveis como denunciado aqui, e que em 2024 apenas 0,16% da renda nacional do petróleo foi direcionada à agenda ambiental e climática[3], no sentido contrário de qualquer soberania na transição energética como propagandeado.
Confirmando essa falácia, está no centro das disputas imperialistas a exploração de minerais ditos “críticos” ou “estratégicos”. Em 2024, segundo a U.S. Mineral Commodity Summaries[4] o Brasil pode concentrar 23% de toda a reserva global, atrás somente da China (agora fortemente sancionada por Trump) fazendo com que seja um lugar privilegiado de disputa como expresso na própria visita do embaixador interino dos Estados Unidos no Brasil, Gabriel Escobar, no Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram)[5] em agosto de 2025 no contexto do aumento das tarifas e com a “petroquímica” que Lula disse ter acontecido com Trump, um símbolo que pode sinalizar a um acordo que envolva justamente mais empreendimentos extrativistas e concessões da natureza ao negacionismo Trumpista, em um momento que Trump avança com ataques à Venezuela, também de olho no petróleo, em uma reedição da doutrina Monroe sobre a América Latina.
Só em 2023 a Agência Nacional de Mineração (ANM) emitiu quase 2 mil autorizações de concessão de estudo para terras raras, Minas Gerais concentra 20% delas[6]. Com o estudo de apenas 15% da área da principal jazida da região de Poços de Caldas já foram identificados mais de 2 bilhões de toneladas de argila com íons de terras raras, quantidade que pode chegar, segundo estimativas, a 10 bilhões[7]. Colocando a região em posição de competitividade, em especial por facilidades naturais apresentadas, podendo fazer da empreitada um palco de disputa mundial entre diferentes imperialismos interessados em superar a dependência chinesa. Projetos como Caldeira da empresa Meterioc Resources e o projeto Colossus da Viridis Mining, australianas com vínculo direto dos Estados Unidos, já possuem concessão de mais de 69 áreas na região.
Junto ao agronegócio e o petróleo, vai se redesenhando o consenso extrativista em vigor no país. Passando por diferentes governos, com seu ponto alto durante o boom das commodities do governo Lula, os empreendimentos extrativistas, e consequentemente seus impactos negativos sob o capitalismo, se aprofundam com uma operação de marketing gigantesca com o objetivo de disfarçar a dependência brasileira da exportação de bens primários e sua inserção subordinada no comércio mundial, bem como para esconder a devastação ambiental que agora encontra novos flancos.
O consenso extrativista
O conceito de extrativismo tem se popularizado nos últimos anos, com muitos sentidos e definições diferentes, fruto de uma renovada expansão dessas atividades, em especial nos países da América Latina, impulsionada pela alta dos preços de commodities no começo dos anos 2000, bem como pela demanda persistente, em especial da China, em nível mundial.
Para além de toda e qualquer exploração da natureza, entendemos o extrativismo como a apropriação em grande volume ou intensidade de recursos naturais voltados para exportação com quase nenhum processamento local[8]. Entre outras coisas, isso traz como consequência a urgência de entendermos o agronegócio como parte dos extrativismos que assolam o país.
Na tentativa de dar legitimidade às práticas predatórias da natureza, se convencionou associar o termo extrativismo ligado à ideia de “indústria” como indústria petroleira, mineral ou mesmo agroindústria (parte de propagandas como o “agro é pop”). Termo utilizado inclusive por relatórios do Word Bank como estratégias de combate à pobreza, geração de empregos, captação de investimentos globais e crescimento econômico como via de desenvolvimento dos países subdesenvolvidos exportadores de commodities[9].
A verdade é que se olharmos para a evolução dos principais produtos da pauta exportadora do Brasil da década de 90 até os dias atuais, vemos que, longe de ser um país exportador “industrial”, ocorre um processo de reprimarização da economia brasileira com o peso cada vez maior do extrativismo e queda dos manufaturados. Adiciona-se ao fato os processos de privatização e todo o receituário neoliberal introduzido por FHC e muito bem executados durante Lula, Dilma e aprofundados com Temer e Bolsonaro que prepararam o país como uma plataforma privilegiada de exportação de produtos primários com baixo processamento e valor agregado, como demonstrado pela pauta exportadora atual dominada pela soja, milho, minério de ferro e petróleo bruto.
Esse processo de reprimarização que seria justificado à direita no espectro político como parte da especialização produtiva do país e de sua inserção em uma ordem globalizada, foi justificado à esquerda pelos governos do PT como parte da estratégia de um novo “desenvolvimentismo” focado na promoção da pauta exportadora em que o Brasil teria “vantagens comparativas”, ou seja, na pauta exportadora de produtos de bens primários. Contudo, utilizando-se de um suposto “passado glorioso” que representou o desenvolvimentismo e a utopia de uma burguesia nacional que guiaria o país em “mudanças estruturais” (e que não passou de uma ilusão), o neodesenvolvimentismo enquanto ideologia somente serviu para traduzir a política neoliberal em nova língua (envolvendo aí políticas de distribuição de renda como parte das justificativas predatórias), tendo como consequência o aprofundamento tremendo das atividades extrativistas. De fundo, se trata da mesma política e não por um acaso um dos principais formuladores desse neodesenvolvimentismo foi Bresser-Pereira, também reconhecido teórico da implementação das políticas neoliberais no Brasil.
Assim, a política econômica também se adequa em prol de alavancar a exportação de bens primários como forma de superávits primários para o contínuo pagamento dos dividendos da dívida pública, ajudando a manter as altas taxas de juros necessárias para atrair novos rentistas em busca de espaços seguros para valorização do capital. Está pronto o receituário do FMI.
Dessa forma, os governos dito progressistas pouco questionaram sua subordinação econômica ou os projetos extrativistas e os impactos negativos deles oriundos. Ao contrário, se buscou novos argumentos que justificassem sua adoção e expansão, buscando a legitimação popular para a intensificação das atividades extrativistas com a sua vinculação, no caso do petróleo, aos de royalties para setores como saúde e educação. Contudo essa pequena fração de destinação para áreas essenciais está muito aquém do fluxo real de riqueza advinda do petróleo que escoa de fato para os lucros e dividendos dos acionistas privados que totalizou R$75,8 bi em 2024.
A própria lógica do Arcabouço Fiscal, que exige do Estado a garantia de metas de superávit primário (economia para pagar juros da dívida pública), impulsiona o governo a buscar 'soluções' de curto prazo, como a exploração de petróleo e o estímulo ao agronegócio, para garantir a arrecadação para sustentar o rentismo e a estabilidade para o capital financeiro. Assim, o arcabouço é também um mecanismo de gestão da austeridade em prol do consenso extrativista.
Mesmo o discurso das “campeãs nacionais”, muito utilizado durante os anos 2000 como parte desse novo desenvolvimentismo, vai servindo para legitimar práticas extremamente predatórias da natureza, longe de qualquer soberania e voltadas para exportação, sendo funcional aos oligopólios globais de recursos naturais. Para além da Petróbras, temos Vale, Braskem e outras na mineração, a JBS e os beneficiados pelas inversões anuais bilionárias do Plano Safra, entre outros.
Terras raras, o mito da transição energética sob o capitalismo e a COP30
Está mais que claro, que o que se viu nas últimas décadas até os dias atuais não foi a substituição das atividades extrativistas por outras sustentáveis, muito menos o uso de seus lucros para financiar uma suposta transição energética. Menos ainda é possível falar em “transição” enquanto se projeta novos pontos de atividades predatórias e que elas por si só já contribuem com a destruição ambiental.
Mas, para além do óbvio, é necessário questionar qual é a transição energética vendida pelo capitalismo verde. Em primeiro lugar é importante ter claro que se convencionou atribuir o debate de transição a substituição de fontes energéticas e a geração de “fontes limpas”, e que mesmo nesse sentido representa uma inverdade uma vez que o que assistimos foi o aumento contínuo da temperatura global pela queima de combustíveis fósseis e novos desastres ambientais.
Contudo, essa interpretação trouxe à tona a importância dos ditos minerais “estratégicos” e “críticos” e as terras raras para o centro do debate da transição energética. Acontece que, como pontuado por Bruno Milanez em recente artigo[10], o critério para definição do que é crítico e estratégico é primeiramente político, sendo assim também uma ferramenta de legitimação da atividade mineradora predatória.
É muito divulgada a importância desses minerais para a produção de baterias de lítio e outros componentes essenciais para a produção de carros elétricos e outras tecnologias “verdes”. Mas é igualmente escondida a importância desses mesmos minerais para a sustentação e expansão da nova tecnologia militar e seu uso bélico. Milanez pontua como o lítio é utilizado nas baterias de munições autoguiadas, o nióbio necessário para a produção dos mísseis hipersônicos e as terras raras na produção de drones e sistemas de radar. O relatório da empresa SFA (Oxford)[11] atenta para o uso de Berílio em armas nucleares, em que seu uso é sinônimo de alta tecnologia militar e espacial e do Tântalo em projetos antitanque, sendo o Brasil um dos principais fornecedores e uma das maiores reservas globais deste último.
Fica claro então o que de fato define a criticidade desses minerais. A disputa global em torno desses minerais desmente qualquer falácia de “transição energética” ou descarbonização, uma vez que sob o capitalismo e em um contexto do aumento das disputas imperialistas é o uso bélico que de fato define seu uso “estratégico”.
Ainda assim, mesmo considerando sua utilização para fins da mitigação dos efeitos da emergência climática, sob o sistema capitalista não é possível seu uso racional com fins de transição. Uma vez que a demanda global por esses produtos, agora sob uma nova roupagem e justificativa verde, faz com que os países produtores de commodities e as principais economias extrativistas, se tornem “sociedades exportadoras de natureza”[12] como forma de sustentação de um suposto padrão de produção “sustentável” nos países desenvolvidos, enquanto dentro desses mesmos países há padrões de consumo extremamente “insustentáveis” e ecologicamente nocivos. A conta assim é transferida aos países da periferia que têm de empreender e aprofundar as atividades extrativistas, sob o signo do capitalismo verde, formando assim o que alguns autores chamaram de “dívida ecológica”[13] como parte dessa troca ecológica desigual, aprofundando a reprimarização econômica.
Assim fica fácil entender os objetivos da COP30 em Belém que acontece no mês de novembro. Longe de ser um fórum para superação da crise climática, a COP30 é a materialização do capitalismo verde, se tornando um verdadeiro balcão de negócios global de mercantilização da natureza. Trata-se da compra e venda de novos extrativismos funcionais ao uso bélico e a esses padrões de consumo profundamente insustentáveis. A presença massiva de lobistas nas delegações, superando o número de representantes de muitos países, escancara que a Amazônia e a crise climática são vistas não como limites ecológicos, mas como novas fronteiras de acumulação para o capital. A COP30, sob a égide do governo Lula que avança com a exploração de petróleo na Foz do Amazonas e cede aos interesses imperialistas dos minerais críticos, será a grande operação de marketing para tentar dar verniz de sustentabilidade a um sistema que só pode se reproduzir através da espoliação da periferia e da destruição ambiental sistemática.
Ruptura metabólica sob o capitalismo e sua superação
O consenso extrativista, reembalado como "capitalismo verde", é, em essência, a reatualização da acumulação primitiva e da espoliação colonial na época imperialista sob domínio do capital financeiro. A exploração na Foz do Amazonas, a corrida imperialista pelas terras raras e o circo de lobistas na COP30 são manifestações de um sistema que só consegue postergar sua crise ecológica e econômica aprofundando a dominação e a destruição.
O "capitalismo verde" é apenas a ideologia que tenta ocultar a extensão da Ruptura Metabólica imposta pelo capital. Marx definiu essa ruptura como a separação antagônica entre o metabolismo social humano e o metabolismo da natureza, um processo que esgota a Terra e concentra a riqueza. Sob o domínio imperialista, esta lógica se intensifica: trocar carvão pelo lítio e o petróleo por minerais de guerra não é transição, mas a manutenção da mesma lógica predatória, agora adequada aos tempos de rearmamento e competição imperialista. Contra o imperialismo Trumpista, não acreditamos que a saída seria apelar à um imperialismo “benigno” da China, nada mais ingênuo nos dias atuais. A verdade é que em torno dessa disputa se configura uma dupla dependência, sendo o extrativismo e a natureza a principal moeda de troca.
A verdadeira alternativa à destruição dos recifes de corais, à crise climática e à dominação imperialista não está nas COPs ou nas promessas do mercado, mas na construção de uma sociedade que restaure o metabolismo entre a humanidade e a natureza. Esta tarefa só pode ser levada adiante através da superação revolucionária feita pelos trabalhadores contra a ditadura do lucro e do extrativismo capitalista.