Revista Casa Marx

Lições para o futuro: Iugoslávia, a autogestão e o “socialismo de mercado”

Martín Schapiro

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A República Federal Socialista da Iugoslávia foi um experimento de “socialismo de mercado” baseado na autogestão operária. A Iugoslávia adotou um caminho próprio depois de romper com Stalin em 1948. Deu maior autonomia às empresas geridas por seus trabalhadores, introduziu mecanismos de mercado na planificação econômica e tentou se apresentar como uma “terceira via” entre o capitalismo e o Estado Operário burocrático.

Este modelo que despertou esperanças em reformistas anti-estalinistas e socialistas democráticos de todo o mundo, ao parecer mais “humano” e democrático que a burocratização da URSS, no entando, e após décadas de funcionamento, terminou em uma profunda crise econômica e política, com um enorme aumento da dívida externa que em 1982 já era de 20 milhões de dólares 1 e caminhando nos anos 90 à dissolução violenta do país.

Como funcionou esse modelo? Quais foram suas principais falhas? Na continuação trataremos de retomar a experiência iugoslava, desde sua formação até seu colapso, com o objetivo de tirar lições para futuros projetos socialistas.

A formação do “caminho iugoslavo”

Depois da Segunda Guerra Mundial, na Iugoslávia foi expropriada e instaurada uma economia nacionalizada, similar à da URSS, porém com um regime político burocrático desde o início. Por isso, a Iugoslávia foi um “Estado operário deformado”, ou seja, um país onde a burguesia havia sido expropriada, porém o poder político caiu nas mãos de uma burocracia que impedia a democracia dos trabalhadores e a autoorganização das massas.

A diferença de outros países do Leste Europeu, onde o Exército Vermelho impôs governos comunistas, na Iugoslávia os partidários do marechal Josip Broz Tito chegaram ao poder através da luta armada.

Essas discrepâncias levaram à ruptura de 1948. 2 A Iugoslávia foi expulsa do Kominform e denunciada como “camarilha titoísta” por Moscou. Isolada do bloco soviético e sob ameaça, a liderança iugoslava teve que “repensar a revolução” para garantir a defesa e o desenvolvimento do país sem a tutela soviética.

A crítica ao stalinismo foi central nesse novo caminho. Frente a isso, propuseram desburocratizar o socialismo aplicando certas reformas 3 e “devolvendo” certo poder de decisão aos próprios trabalhadores. Assim nasceu a ideia da autogestão operária como elemento definidor do seu sistema. Em 1950, a Iugoslávia promulgou a Lei de Autogestão das Empresas, que transformava formalmente a administração interna das fábricas em conselhos de trabalhadores eleitos por operários.

Ao mesmo tempo, o regime abandonou a coletivização agrícola forçada e devolveu a maior parte da terra a pequenos camponeses privados (80% das terras cultiváveis), para contar com o apoio do campesinato majoritário (recordemos que, em 1950, 70% da população iugoslava era rural). Essa autogestão precoce foi concebida inicialmente como um mecanismo dentro de uma economia ainda centralmente planificada.

Para entender as diferentes fases pelas quais passou o experimento iugoslavo, resumimos a sua cronologia econômica e política principal4 :

1945-1950: Reconstrução e planificação centralizada. Depois da proclamação da República Popular Federativa, em 1945, a Iugoslávia aplicou um modelo econômico centralizado ao estilo soviético: nacionalizou massivamente os meios de produção, os bancos e o comércio exterior, e impulsionou uma coletivização agrária inicial. Integrada ao bloco socialista, rapidamente entrou em conflito com a URSS por conta da política exterior independente de Tito, o que levou à ruptura com o Cominform, em 1948.

1950-1965: Introdução da autogestão descentralizada sob supervisão estatal. Com a Lei de Autogestão (1950) e o primeiro Plano Quinquenal autogestionário (1955), a Iugoslávia introduziu a gestão operária direta nas empresas, enquanto o Estado conservava o controle de 70% do investimento nacional.5 O setor privado ficou limitado à agricultura e aos trabalhos artesanais. As grandes decisões seguiam centralizadas, ainda que os conselhos de fábrica assumiram a gestão diária. Este modelo híbrido, impulsionado pelo partido depois da ruptura com Stalin, coincidiu com uma etapa de rápida industrialização, crescimento econômico e certo controle central dos objetivos macroeconômicos.

1655-1971: Implementação da grande reforma econômica de mercado. Se liberalizar os preços, elimina-se o fundo central de investimentos, fomenta-se a concorrência entre empresas e a busca de lucratividade, incluindo no mercado internacional. É a fase clássica do “socialismo de mercado” iuguslavo, onde o mercado passa a ser visto oficialmente como o regulador principal do desenvolvimento.

1971-1980: Diante de problemas que apareciam, como o aumento da desigualdade, do desemprego e da emigração, aplicaram uma recentralização parcial. Depois de 1971, foram reconhecidos os excessos de liberalização: proibiram contas bancárias anônimas (para frear a corrupção), introduziram mecanismos de “planificação autogestionária” mediante acordos negociados entre empresas e governos locais, e subdividiram as grandes empresas em unidades mais pequenas (para evitar concentrações de poder econômico). A nova Constituição de 1974 aprofunda a autonomia das repúblicas federadas, tornando a coordenação econômica mais complexa.

1980-1990: Depois da morte de Tito (1980), a Iugoslávia entrou numa crise econômica. A dívida externa quadruplicou, entre 1964 e 1971, e seguiu aumentando nos anos 70. Nos anos 80, o país sofreu estagflação (estancamento com alta inflação), desemprego elevado e forte pressão do Fundo Monetário Internacional para realizar ajustes. As tensões étnicas e regionais se agravaram em meio à recessão. Ao fim da década, a Liga dos Comunistas explode e abre caminho a governos nacionalistas nas distintas repúblicas, precipitando a dissolução da Iugoslávia e guerras civis a partir de 1991.

Algumas conquistas da autogestão iugoslava

O modelo iugoslavo obteve resultados econômicos interessantes em suas primeiras décadas, o que ganhou admiração internacional. De fato, a Iugoslávia foi a economia de um estado operário de mais rápido crescimento no pós-guerra, segundo estudos comparativos.6 Durante os anos 1950 e 1960 foi dos país da Europa com maior crescimento do PIB7 , ao ponto que alguns autores chamam de “milagre iugoslavo”.

Esse crescimento industrial robusto permitiu elevar substancialmente o nível de vida num país que depois da guerra estava devastado e era majoritariamente agrário. A primeira etapa autogestionária (1650-65), com suas limitações, conseguiu modernizar a estrutura produtiva sem a rigidez extrema do stalinismo. Melhoraram um pouco os serviços públicos (educação e saúde) e avançaram em cooperativar a agricultura de forma voluntária (revertendo a coletivização inicialmente forçada).

Ou seja, conquistaram melhores as respostas para algumas necessidades básicas da população, algo central em qualquer projeto socialistas. Outro aspecto positivo foi certa abertura cultura e mobilidade que distinguiu a Iugoslávia dos países do bloco soviético. Os iugoslavos desfrutaram de maior liberdade para viajar ao estrangeiro e para consumir bens ocidentais, já que a diferente de outros países do bloco socialista, a Iugoslávia manteve relações comerciais com o Ocidente e vínculos com organismos financeiros internacionais como o FMI e o Banco Mundial, tem que voltaremos mais adiante ao analisar as consequências dessa abertura comercial.

A autogestão operária, ainda assim, teve o mérito de ampliar a tomada de decisões econômicas ao nível das fábricas. Em teoria, os trabalhadores elegiam os conselhos de gestão e podiam influir em questões como a distribuição da renda de sua empresa ou de certos investimentos, ainda que sempre dentro do marco do regime de partido único que mantinha o controle político geral.

Se ainda assim na prática essa democracia de base foi limitada (como veremos adiante), o simples fato da existência de conselhos de fábrica diferenciava a Iugoslávia do resto do bloco soviétivo, mostrando um possível caminho do socialismo gestionado por produtores no lugar da mera administração burocrática vindo de cima.

Problemas e contradições: do “capitalismo de cooperativas” à crise

Pesando aos seus êxitos parciais, o modelo iugoslavo teve graves falhas estruturais. Com o tempo, ficou evidente que a autogestão e o mercado não garantiam sequer uma melhor organização econômica, tampouco uma democracia dos trabalhadores. Abaixo estão alguns dos principais problemas que o modelo teve.

Ao fragmentar as decisões econômicas a nível de cada empresa autogestionada, a Iugoslávia perdeu coesão em seu desenvolvimento. Desde 1965, ao fazer do mercado o vínculo fundamental entre as empresas, renunciou, em grande medida, à planificação central. Cada fábrica atuava quase como uma cooperativa “independente” em busca de seu próprio benefício.

Essa descentralização atomizada conduziu a incoerências grandes de ordem macroeconômica com investimentos duplicados ou mal coordenados, com gargalos em setores básicos (energia e transporte) por falta de planificação global, e incapacidade de ajustar a produção às necessidades sociais de maneira equilibrada. Catherine Samary, que estudou profundamente essa experiência, afirmou:

“A responsabilidade imposta às empresas autogestionadas, orientadas sob critérios de lucratividade microeconômica, produziu, por razões eminentemente sociais, o efeito contrário ao esperado: uma baixa na eficiência do sistema de conjunto, e o desenvolvimento de efeitos sócio-econômicos opostos aos objetivos iniciais.”8 

Em outras palavras, a lógica do mercado terminou aprofundando a desigualdade e gerando irracionalidades na produção.

Ao se orientar ao mercado mundial, a Iugoslávia se integrou financeiramente com o Ocidente, contraindo dúvidas para desenvolver sua economia. A princípio, isso permitiu importar tecnologia e manter um alto crescimento, mas com o tempo resultou em uma pesada dívida externa. Entre 1964 e 1971, a dívida externa se multiplicou por quatro, de $700 milhões para $2.700 milhões.9 Em 1974 isso já equivalia a quase 30% do Produto Interno Bruto anual, e seguiu aumentando durante os anos 70 com os créditos fáceis da bancada ocidental (em 1982 era de 20 bilhões de dólares10 ).

A abertura comercial fez com que a Iugoslávia dependesse cada vez mais de importações do Ocidente. Em 1970, mais de 60% do seu comércio exterior era com países da OCDE (Europa ocidental, EUA, etc.), importando manufaturas e exportando matérias primas e produtos leves. Essa integração desequilibrada agravou o endividamento ao mesmo tempo que os preços internacionais e as taxas de juros subiram nos anos 80.

Tudo isso culminou em uma crise orçamentária no início dos anos 80: o dinar se desvalorizou repetidamente, o FMI impôs medidas de austeridade (congelamento dos salários, desvalorização da moeda, cortes) e a economia entrou em recessão prolongada. O “frenesi por obter moeda estrangeira” substituiu qualquer planificação nacional, em um círculo vicioso de dívida e instabilidade que terminou por deslegitimar o governo central.

Esse endividamento crescente, combinado com a autogestão atomizada, alimentou a persistência inflacionária que atravessou a Iugoslávia a partir dos anos 60. Num sistema onde cada conselho de fábrica poderia fixar os preços de seus produtos e decidir quanto do lucro distribuir nos salários, as pressões do endividamento externo e as desvalorizações periódicas do dinar se transmitem diretamente aos preços internos. A autogestão atomizada contribuiu com a inflação de forma estrutural.

O governo, seguindo as receitas de estabilização convencionais do FMI, tentou frear a inflação restringindo o crédito e o controle do gasto público. Mas essa política fracassou, já que a crise de crédito provocou uma queda brusca do crescimento econômico e o aumento do desemprego (foi um fator do estancamento ao final dos anos 60) sem conseguir estabilizar os preços.

Assim, geraram uma espiral onde as reservas e créditos ocultavam as perdas até que se traduziam em inflação. Ao final dos anos 70, a Iugoslávia caiu em uma hiperinflação que corrompeu gravemente os salários reais dos trabalhadores e a renda da população, alimentando o descontentamento.

A Iugoslávia experimentou o desemprego sustentado a partir das reformas de mercado. Ao não estar obrigada a cumprir as cotas de emprego, as empresas autogestionadas não contratavam novos trabalhadores a menos que fosse lucrativo. Se estima que até 1970 havia cerca de 290 mil desempregados e 600 mil em empregos informais.11 essas cifras são parciais, pois 700 mil iugoslavos migraram como trabalhadores convidados (gastarbeiter) principalmente para a Alemanha, formando parte de aproximadamente 1 milhão de iugoslavos que trabalhavam na Europa Ocidental nesses anos.12 

O resultado foi uma sociedade com um “exército industrial de reserva” reaparecendo. A emigração massiva foi a válvula de escape dessa pressão, mas ao custo de perder força de trabalho jovem e agravar desequilíbrios regionais (já que muitos imigrantes vinham de zonas pobres).

Para analisar a experiência iugoslava é chave recorrer ao conceito de desenvolvimento desigual e combinado, defendido originalmente por Trotsky para entender as contradições do capitalismo a nível mundial. A Iugoslávia, que em si já era um país atrasado, apresentou uma combinação particular de regiões mais desenvolvidas industrialmente, como a Eslovênia e a Croácia, junto a outros historicamente atrasadas, como a Bósnia, Macedônia e Kosovo.

Com a implementação da descentralização econômica e o impulso ao mercado como mecanismo regulador, essas desigualdades regionais se aprofundaram consideravelmente. Embora o Estado tenha tentado aliviar parcialmente esta dinâmica estabelecendo fundos de ajuda para as regiões mais desfavorecidas, o impulso predominante do mercado favoreceu inevitavelmente às repúblicas já avançadas economicamente, ampliando a divisão regional. Esse desequilíbrio não apenas exacerbou diferenças econômicas, mas assentou as bases materiais para conflitos políticos e nacionais posteriores.

Até 1970, a renda per capita das regiões mais pobres caiu a menos da metade das mais ricas. As empresas em zonas industrializadas teriam vantagens naturais (por exemplo, a Croácia aproveitou o turismo na Costa do Adriático), enquanto as repúblicas atrasadas deveriam investir enormes fundos em indústrias básicas pouco rentáveis para decolar. Com menos transferências centralizadas depois de 1965, era impossível reduzir essas disparidades. O resultado foi um ressentimento crescente, onde as regiões ricas criticavam que subsidiaram aos pobres, e os pobres denunciavam o abandono e o colonialismo interno. Tais tensões aprofundaram as tendências nacionalistas, preparando o terreno para conflitos étnicos posteriores. De fato, já em 1971, explodiu a “Primavera Croata”, um movimento nacionalista que Tito reprimiu militarmente. O mercado agravou essas divisões.

Como vimos antes, o “socialismo de mercado” introduziu paulatinamente incentivos ao lucro individual. Ainda que na Iugoslávia não haviam capitalistas privados donos de empresas, emergiu uma elite gerencial e burocrática que desfrutava de privilégios materiais importantes, como altos salários ligados ao êxito de “sua” empresa, carros oficiais luxuosos, acesso a bens escassos, etc. A reforma econômica premiava aos diretores empreendedores que aumentaram os lucros da fábrica, e isso levou a ampliar as diferenças salariais e de status.

Embora a disparidade de rendimentos não tenha atingido os níveis capitalistas, se aceitaram desigualdades que antes eram inimagináveis em um país socialista. Ainda pior, como a acumulação legal de capital privado era muito limitada (não existia um mercado formal de ações ou propriedade), a riqueza pessoal extra era frequentemente obtida por meios fraudulentos ou desonestos com comissões, subornos, tráfico de influências em contratos de importação/exportação, desvio de “fundos sociais”, especulação monetária, entre outras.

A descentralização multiplicou as oportunidades de enriquecimento ilícito e “privatização encoberta da economia”.13 Não por acaso, depois de anos de liberalização, as autoridades lançaram campanhas contra os “novos ricos” e a corrupção (Tito chegou a denunciar publicamente aos “milionários” e seus clubes nos anos 70). Essas purgas teriam um componente demagógico – buscando bodes expiatórios para acalmar o descontentamento popular – mas também refletiam um problema real por conta da aparição de uma casta privilegiada dentro da sociedade iugoslava. Na prática, os trabalhadores de base viam que muitos gerentes e burocratas atuavam como capitalistas (ainda que sem o escritura de propriedade), apropriando-se de recursos coletivos para benefício próprio.

O problema político de fundo foi que, ainda que pese a retórica de “poder para os trabalhadores”, a Iugoslávia nunca estabeleceu uma democracia de sovietes ou conselhos. O partido comunista manteve o monopílio do poder político durante toda a era de Tuto, e qualuqer oposiçaõ independente era ilegal.14 Os trabalhadores não podiam debater abertamente as grandes orientações da produção ou a sociedade, pois tais decisões estratégicas eram tomadas na cúpula do partido.

A autogestão iugoslava se limitava à fábrica individual, enquanto a burocracia concentrava o poder político geral. Isso reduzia a autogestão a uma “mera fachada importante” – os operários somente questionavam migalhas, fragmentados em suas unidades, sem poder sobre a economia de conjunto. Ao carecer de mecanismos democráticos nacionais, muitos conflitos sociais foram ignorados ou reprimidos no lugar de serem canalizados em um debate democrático.

Todos esses fatores combinados levaram a uma crise sistêmica nos anos 80. As contradições próprias do modelo o levaram a um colapso inevitável. Quando se abriu a porta à política (eleições em 1990), explodiram as forças nacionalistas e separatistas que haviam fermentado durante anos. Sem coesão social forte, nem um projeto unificado que entusiasme (o “socialismo” iugoslavo havia perdido atrativo para muitos), a federação colapsou em repúblicas independentes, várias das quais caíram em guerras étnicas.

Conclusões: lições da experiência iugoslava

O que nos ensina o experimento iugoslavo sobre os caminhos do socialismo? A experiência deste país oferece lições fundamentais que vale a pena analisar cuidadosamente.

Muitos reformistas viram na Iugoslávia uma alternativa atrativa: por quê não combinar a propriedade social dos meios de produção com os mecanismos eficientes do mercado? A ideia parecia resolver dois problemas de uma só vez: evitar a burocratização stalinista e manter a eficiência econômica.

Enretanto, a experiência iugoslava demonstrou que o mercado, incluso entre empresas “socializadas”, reproduz muitas das contradições do capitalismo uma vez que cada empresa autogestionada deve competir por sua sobrevivência e lucratividade.

Como vimos, isso levou a Iugoslávia a becos sem saída que são “inevitáveis para todo sistema que tente fazer do mercado o vínculo fundamental entre as empresas administradas pelos trabalhadores” 15. O mercado impõe sua própria lógica, que é incompatível com um planejamento racional orientado a satisfazer necessidades sociais.

Aqui aparece um debate crucial que transcende o caso iugoslavo. Muitos socialistas, justamente críticos do autoritarismo burocrático, caem no erro de crer que a solução é a descentralização total. O raciocínio é: “se a centralização gera burocracia, então descentralizamos tudo e deixamos que cada unidade se autogestione livremente”.

Mas a Iugoslávia mostrou que a autogestão descentralizada não resolve o problema, mas o transforma. No lugar de uma burocracia central, formaram-se múltiplas burocracias locais. No lugar da coordenação autoritária, instalou-se a descoordenação do mercado. Os trabalhadores seguiram sem controlar realmente a economia e agora dependiam das forças cegas da concorrência no lugar dos caprichos de uma planificação centralizada.

Os trabalhadores podiam eleger seus diretores e decidir sobre questões menores, mas as grandes decisões econômicas (o que produzir, como distribuir os recursos entre os setores, como se relacionar com o mercado mundial) escapavam completamente de seu controle.

Como afirmou Ernest Mandel, “e eleição não é, portanto, entre ‘centralização burocrática’ e ‘autogestão descentralizada'”16 como polos opostos, mas de superar ambos mediante uma autogestão democraticamente centralizada sob a planificação socialista.

O que isso significa no concreto? Significa criar instituições onde os trabalhadores participem democraticamente em todos os níveis de decisão: local, regional e nacioanl. Não se trata de que cada fábrica faça o que queira (descentralização anárquica ao estilo Proudhon) nem de que um grupo de tecnocratas decida tudo de cima (centralização burocrática).

Os conselhos operários de base discutem e propõem necessidade e capacidades produtivas. Essas propostas se coordenam democraticamente a nível setorial e regional, mediante um congresso nacional de trabalhadores debatem e decidem sobre as grandes orientações econômicas.

A Iugoslávia também nos mostra que a democracia operária não pode se limitar ao econômico. Tito e a Liga dos Comunistas consolidaram uma ordem de reprodução de privilégios que isolou a população das decisões políticas fundamentais. Sem liberdade de organização, pensamento livre, direito a formar partidos e correntes, a “autogestão” se converteu em uma fachada.

Qualquer projeto socialista deve manter o controle popular sobre os administradores, fomentando a rotação de cargos, a transparência e o controle operário permanente, para que não se forme uma casta dirigente por cima dos trabalhadores.

A experiência iugoslava, com todas suas conquistas parciais, mostra que o socialismo requer transformar realmente as relações de poder, tanto econômicas, quanto políticas. Somente assim é possível construir uma sociedade onde os produtores controlem democraticamente e efetivamente seu destino.

Texto traduzido por Fabricio Gonzalez

Notas

1. Milan M. Cvikl y Mojmir Mrak, Former Yugoslavia’s Debt Apportionment, The World Bank, 1986, p.10. Link de referencia https://documents1.worldbank.org/curated/en/735471538244644355/pdf/Former-Yugoslavias-debt-apportionment.pdf

2. Philippe Alcoy, “El cisma entre Stalin – Tito – Parte I.”, La Izquierda Diario, 2019. Link de referencia consultado 9/8/2025: https://www.laizquierdadiario.com/Yugoslavia-a-71-anos-de-la-ruptura-entre-Stalin-y-Tito-gran-evento-de-la-posguerra

3. Claudia Cinatti, “A atualidade da análise de Trotsky frente às novas (e velhas) controvérsias sobre a transição ao socialismo”, La Izquierda Diario, 2021. Link de referencia consultado 9/8/2025: https://www.laizquierdadiario.com/La-actualidad-del-analisis-de-Trotsky-frente-a-las-nuevas-y-viejas-controversias-sobre-la-transicion-al-socialismo

4. Catherine Samary, Planificación, mercado y democracia, Instituto Internacional de Investigación y Formación, 1989, p. 30

5. Samary, op. cit., p. 30

6. Leonard Kukić, Socialist Growth Revisited: Insights from Yugoslavia, London School of Economics, 2017. Link de referencia: https://www.lse.ac.uk/Economic-History/Assets/Documents/WorkingPapers/Economic-History/2017/WP268.pdf

7. Branko Horvat, Worker self‐management in Yugoslavia: Reply to Abell, Critical Review: A Journal of Politics and Society, 1997

8. Samary, op. cit., p. 34

9. Samary, op. cit., p. 35

10. Milan M. Cvikl y Mojmir Mrak, op. cit., p.10. Link de referencia: https://documents1.worldbank.org/curated/en/735471538244644355/pdf/Former-Yugoslavias-debt-apportionment.pdf

11. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/12307193/

12. Ulf Brunnbauer, Yugoslav Gastarbeiter and the Ambivalence of Socialism, Journal of Migration History, 2019 Link revisado 9/8/2025 https://brill.com/view/journals/jmh/5/3/article-p413_413.xml

13. Samary, op. cit., p.35

14. Samary, op. cit., p. 28

15. Samary, op. cit., p. 8

16. Ernest Mandel, Autogestión, planificación y democracia socialista, Editorial Sylone en coedición con Viento Sur, 2022, p. 158

 

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