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28 de setembro: Como falar de feminismo nas escolas?

27.09.2026

No dia 28 de setembro, muitas vezes propositalmente esquecida por parte da esquerda, as feministas latinas-americanas e caribenhas lutam pela descriminalização e legalização do aborto. Entre os inúmeros ataques que sofremos hoje pela extrema-direita, que obrigam crianças a ser mãe, condenam as mulheres por exercerem o direito sobre o próprio corpo e acham que estupradores devam estar em certidões de nascimento, a pauta da legalização do aborto é rifada pela frente ampla de Lula-Alckmin e pela esquerda reformista que mais uma vez priorizam a governabilidade do que um direito fundamental das mulheres. Como professoras e educadoras, como podemos falar da questão de gênero dentro das escolas? Realizamos uma entrevista com diversas professoras da rede municipal da Zona Oeste de São Paulo, que diariamente trabalham a opressão de gênero com as suas alunas, para pensarmos coletivamente as formas que podemos fortalecer a nossa categoria e as meninas que são as maiores vítimas da violência patriarcal e capitalista.

1. A gente sabe que nem todas as nossas alunas são de esquerda ou vem de famílias progressistas, muitas vezes reproduzindo lógicas machistas e preconceituosas que são nocivas para elas mesmas. Que caminhos você encontra para trabalhar a questão do feminismo e dos direitos das mulheres em sala de aula tendo em vista essa realidade?

JULI: É verdade que no nosso território não temos um vínculo comunitário de luta muito forte. Ainda assim, percebo meninas muito novas já muito corajosas e empoderadas. Algo do intenso trabalho feminista ao longo do tempo chega nessa geração no caldo cultural de uma maneira que a gente nem sempre sabe identificar. Mas vemos, por exemplo, que elas frequentemente se recusam a serem submissas aos meninos, mesmo que por meio da força, que elas exigem igualdade em situações cotidianas, que elas muitas vezes chegam a usar palavras do feminismo ainda que não tenham plena compreensão do significado. Nos adolescentes, vemos uma apropriação muito maior das questões de gênero do que na minha geração. E entre eles, chamar o outro de “machista” tornou-se recorrente, inclusive de forma irônica, em situações que não são de machismo. Ou seja: estão se apropriando, porque pra fazer humor, é preciso uma inteligência e um certo nível de domínio de uma experiência ou conceito, né? 

Dito isso, penso que uma aula dialógica precisa partir desse chão já construído, onde, claro, há também muito lixo misógino. Precisa ter espaço para exemplos simples, reais, cotidianos, palpáveis e às vezes ampliar para exemplos maiores, ainda que o salto pareça grande demais, porque algumas meninas podem já estar lá, mesmo que em silêncio. 

LETÍCIA: Eu procuro trabalhar de alguma forma mais uma ação do dia a dia do que uma questão sobre algum tema específico, claro tem a questão dos conteúdos que a gente trabalha e tudo mais mas eu acho que para além da questão de conteúdo tem uma coisa de ter uma ação mais cotidiana, no posicionamento diante de situações que são recorrentes em sala de aula. Então por exemplo quando tem situações das mais sutis até as mais consecutivas abertamente, dos meninos para com o trabalho das meninas ou para alguma forma como ela se expressam, sempre procuro me posicionar e ter uma fala e um posicionamento do meu ser mesmo, de lá na aula mostrar como muitas situações que talvez para eles sejam normais para eles, não são normais, até situações mais graves, de momentos que elas relatam as coisas que aconteceram, mas onde existe um posicionamento mais agressivo. Eu também busco sempre levar outras referências, que possibilitem ampliar a visão sobre o mundo, a gente sabe como tem essa tendência de a gente ser reduzida, de ser diminuído o potencial que a gente tem. Então eu sempre procuro levar de alguma forma outras referências e ideias de outras possibilidades e estimular muito isso, em coisas bem básicas assim do dia a dia, aquela estrutura mesmo cotidiana que tem muita força né. Acho que também é um lugar de se perceber, perceber outras possibilidades, onde elas se enxergam de ser diminuídas eu procuro levar também essa ideia de força, essa percepção de que existe muita potencialidade nelas.

2. Pensando no dia a dia da escola e na realidade das nossas alunas, que são majoritariamente das periferias da Zona Oeste de São Paulo, quais pontos você acha importante elas refletirem e você gosta de trabalhar sobre a questão de gênero?

LETÍCIA: O que eu mais gosto de trabalhar é a questão de autonomia e autoestima, ocupar o espaço com a sua voz, com a sua presença. Isso é meio uma base pras coisas que a gente percebe no dia a dia, da percepção das mensagens que a gente recebe no mundo, nas redes sociais, enfim, diversos lugares. Muitas vezes tem muitas alunas que não pensam muito sobre como eu irei construir uma autonomia minha, como eu vou construir uma base material que me permita ter uma segurança de alguma forma para eu tomar decisões. Então eu sempre converso com as alunas, em alguns momentos onde esses temas aparecem eu sempre procuro conversar nesse sentido, de como é importante também para a gente ter nosso posicionamento nosso, nossa voz, do nosso corpo, da nossa presença. E também a gente ter essa atenção para não se tornar dependente né, dependente de família, de companheiro, enfim, dependente no sentido onde a gente pode se tornar muito vulnerável. Na minha vivência muitas mulheres conhecem sempre muitas histórias de pessoas conhecidas, de amigas, de família, pessoas próximas, distantes, que acabaram ficando em uma situação de vulnerabilidade, dependência de parceiros companheiros, maridos, e acabaram sofrendo depois muito com isso, seja sofrendo questões psicológicas ou físicas. Para mim é essa autonomia no mundo e perceber de que maneira dá para ter uma vida mais tranquila, uma vida com mais vida com mais diversidade.

JULIANA: Acho importante e trabalho questões de gênero, tanto em sala de aula como em projetos e reuniões formativas com colegas e gestão. Como professora de Artes além de apresentar artistas e obras que tratam do tema, busco refletir essa temática em minhas propostas. Sinto que é fundamental que as e os estudantes possam ter elementos para refletir questões de gênero a partir de suas realidades. No ano passado realizamos uma peça teatral em que questões como abuso, educação sexista e violência doméstica foram trazidas por elas e levadas para a cena.

3. O feminismo trata de reflexões muito importantes sobre a vida das mulheres, desde aspectos subjetivos, de auto estima, de solidariedade, até questões mais objetivas sobre as condições de trabalho, igualdade política e econômica e visões de futuro. Que diferenças, subjetivas ou objetivas, você sentiu nas suas alunas depois de trabalhar algum tópico sobre desigualdade de gênero?

VANESSA: Depois de muitas conversas e reflexões a partir de charges, HQs, trechos de propagandas e filmes, tornou-se cada vez mais evidente a importância de construir, com o grupo de meninas atendido semanalmente, um conceito fundamental: SORORIDADE.

A sororidade pode ser compreendida como uma atitude de solidariedade, respeito, apoio e empatia entre mulheres. Em uma sociedade que, muitas vezes, educa meninas para se compararem, competirem pela aparência, pelo reconhecimento, pelo afeto ou pelos espaços de protagonismo, falar sobre sororidade é criar a possibilidade de construir outras formas de relação.

Ao trabalhar esse conceito com as meninas, buscamos problematizar situações em que uma mulher é colocada contra a outra, como se o sucesso de uma significasse necessariamente o fracasso da outra. A proposta é perceber que podemos celebrar as conquistas umas das outras, reconhecer diferenças, oferecer apoio e construir coletivamente caminhos para que todas possam ocupar espaços de protagonismo.

A sororidade também envolve aprender a não reproduzir entre mulheres os julgamentos e preconceitos que foram socialmente ensinados. Significa questionar a ideia de que devemos competir pela beleza, pela atenção, pelo reconhecimento ou por oportunidades. Significa compreender que nossas diferenças não precisam nos afastar e que a colaboração pode ser uma forma de fortalecimento.

Nesse processo, as discussões sobre as imagens e narrativas presentes nas charges, HQs, propagandas e filmes possibilitaram que as meninas identificassem estereótipos, refletissem sobre comportamentos naturalizados e percebessem como determinadas representações podem influenciar a maneira como as mulheres enxergam a si mesmas e umas às outras.

Construir a ideia de sororidade com esse grupo foi, portanto, mais do que apresentar um novo conceito. Foi criar um espaço para que as meninas pudessem falar, escutar, reconhecer experiências umas nas outras e compreender que uma mulher não precisa diminuir outra para ocupar seu próprio lugar. Ao contrário, quando existe apoio, respeito e reconhecimento mútuo, o protagonismo de uma pode abrir caminhos para muitas outras.

ISABEL: Nas aulas de Sociologia, quando trabalhamos temas relacionados à desigualdade de gênero, é interessante perceber nas estudantes uma desnaturalização do seu olhar sobre o papel social das mulheres na nossa sociedade. Desde que nascemos somos socializadas para performar um certo tipo de feminilidade, preparadas para sermos esposas e mães, para nos enquadrarmos a uma construção social sobre o que é “ser mulher” nessa sociedade. E essa socialização nos faz acreditar que esse papel social da mulher é algo “natural”, “inato”, “biológico” e que, portanto, devemos nos esforçar ao máximo para nos conformarmos a ele, caso contrário, há algo de “errado” com a gente.

Então, quando trabalhamos temas de desigualdade de gênero e conseguimos verificar junto com a nossas alunas que, por exemplo, o fato de termos mais homens do que mulheres em cargos de chefia se deve à construções históricas, sociais e econômicas, e não ao fato dos homens serem mais racionais e, portanto mais aptos a serem lideranças respeitadas, e ao fato das mulheres serem mais emotivas e sensíveis, o que as torna mais aptas a desempenharem funções de cuidado; conseguimos, por exemplo, compreender que essas desigualdades não se devem a causas “naturais”, mas sim a construções sociais e que, sendo assim, podem ser modificadas, superadas e transformadas.

Assim, quando as alunas começam a desenvolver esse tipo de reflexão, elas passam a conseguir ter novos olhares para a sua própria condição de mulher na nossa sociedade, olhares mais críticos e questionadores, que podem levá-las a buscar mudanças nessas condições. Às vezes essa mudança aparece em coisas aparentemente pequenas: uma estudante que passa a questionar por que determinadas tarefas são atribuídas às meninas, que problematiza comentários machistas ou que começa a imaginar para si mesma possibilidades profissionais que antes não considerava.  

4. Muitas professoras podem achar que o feminismo e as questões de gênero são muito complicadas de discutir em sala de aula, especialmente sendo professora do fundamental I e ensinando alunas que muitas vezes não entendem a dimensão das opressões que elas sofrem. Como você faz para aproximar a realidade e a consciência dessas meninas? 

FERNANDA.: No Fundamental I, normalmente busco tratar de questões de gênero de uma forma mais indireta e cotidiana. Por exemplo, neste ano tenho turmas de 1°s e 2°s anos e sempre que planejo brincadeiras, busco uma variedade que contemple diferentes habilidades, e procuro incentivar as meninas a se envolverem e se sentirem valorizadas em atividades de força e agilidade, por exemplo, e os meninos em atividades de colaboração. Evito dividir a turma entre meninos e meninas, principalmente em alguma situação que tenha competição. E em brincadeiras de interpretação de papéis, como a Linda Rosa Juvenil, ressalto que todos podem fazer qualquer papel (rosa, bruxa, tempo e rei). Quando escolho histórias para ler, considero a importância de trazer personagens femininas de diferentes contextos. E se temos situações específicas em alguma turma, como alguma fala ou atitude machista, daí costumo fazer rodas de conversa ou assembleias. 

No Fundamental II acabo tratando de questões de gênero mais diretamente. No 8° ano, por exemplo, vamos fazer a leitura do conto "Venha ver o pôr do sol", de Lygia Fagundes Telles, que trata de um feminicídio. A partir desse texto, vamos discutir, os estudantes vão produzir um pequeno texto e vamos gravar o conto em formato de radioteatro. O tema é complexo, mas os adolescentes têm trazido esse assunto e acho que é bem importante ter esse espaço para discutir. No começo do ano fiz com os 9°s uma proposta em que eles tinham que escolher um assunto que achavam importante para fazer um projeto de graffiti. O feminismo e a violência de gênero aparecem como temas nas duas turmas. Acho que desenvolver projetos artísticos pode ser um caminho interessante.

JULI: No meu caso específico, tenho essa aliança com a literatura e o teatro, que me permitem me aproximar das questões por meio das linguagens artísticas, que nos envolvem a todos nós de uma forma mais sensível e profunda. Há muita bibliografia na literatura para as infâncias e para jovens que trabalham questões de gênero e machismo estrutural, principalmente com foco na valorização das mulheres e, inclusive, com importantes recortes de classe e raça, principalmente raça, como impacto da Lei que prevê ensino de história e culturas africanas.

As meninas se envolvem muito com livros como Mulheres cientistas, Extraordinárias, e similares, que trazem histórias de mulheres reais. 

Recentemente, montamos uma peça inspirada em Carolina Maria de Jesus, que por si só é um grande referência, e no livro A Bolsa Amarela, que tem uma aproximação sútil e sensível do tema e, que, aliás, chegou a ser censurado.

A Malala também tem um apelo imenso com elas.

Também contamos com parcerias importantes. Na FLIN deste ano, por exemplo, por meio da AEL, recebemos a Lu Vieira, escritora feminista criadora do Clube de Leitura Ler Mulheres, que leu com as crianças um cordel sobre mulheres que também inclui um jogo da memória. A experiência foi muito interessante e algumas estudantes produziram poemas muito conscientes e indignados. Também a experiência do Slam Interescolar nos mostra meninas bastante cientes das opressões. Nas duas últimas edições, nossas representantes foram meninas com poemas bem fortes sobre igualdade de gênero e respeito à diversidade e ao amor.

SAMARA: Acredito que em primeiro lugar reconhecer que as meninas, mesmo sendo crianças muito pequenas, já sofrem com as inúmeras violências e questões de gênero. E na escola, isso se aprofunda ainda mais e muitas vezes as meninas sentem isso e não conseguem nomear esse sentimento, acredito que um dos primeiros passos é fazer com que as meninas reflitam sobre isso, entendam as violências e desigualdades provocadas pelo machismo na nossa sociedade, obviamente dentro das suas possibilidades de entendimento de cada faixa etária. Busco sempre trazer essa discussão com as crianças, seja por meio das mediações de conflitos que acontecem diariamente, ouvindo situações que eles presenciaram e querem partilhar, questionando situações e padrões machistas que vão surgindo. A gente também tem muita literatura boa hoje que fala sobre o assunto e que pode ser uma aliada nas discussões com as crianças.

5. Estamos nos aproximando do dia caribenho e latino americano pela descriminalização e legalização do aborto, que é agora no dia 28 de setembro. O aborto pode ser um tópico especialmente espinhoso de se trabalhar em sala de aula, apesar de pesquisas afirmarem que mais de metade das mulheres do Brasil conhecem uma mulher que já fez um aborto. Você acha possível trabalhar essa questão com as suas alunas, direta ou indiretamente? De que formas?

FERNANDA.: Acho que é possível trabalhar essa questão,  mas realmente é um tema espinhoso porque é muito influenciado por questões religiosas, que certamente apareceriam no debate e não é uma mediação simples para o professor fazer. Penso que o primeiro passo seria tratar como uma questão de saúde pública e deixar isso muito claro para a turma. E acho que uma proposta envolvendo arte pode ser promissora para o Fundamental II, como a técnica de Teatro Fórum, do Teatro do Oprimido.

VANESSA: Por conta da faixa etária dos estudantes com os quais trabalho, esse tema é explorado de maneira indireta, principalmente por meio das propostas de brincadeiras, histórias e situações que possibilitam às crianças experimentar diferentes papéis sociais.

Dar às crianças pequenas e também aos pré-adolescentes a oportunidade de vivenciar jogos simbólicos é uma estratégia importante para que possam experimentar diferentes formas de ser e de se relacionar. Nas brincadeiras de casinha, por exemplo, meninos e meninas podem cuidar de bonecos e bonecas, assumindo responsabilidades que muitas vezes são associadas exclusivamente às mulheres. Ao mesmo tempo, as meninas podem ocupar diferentes lugares de protagonismo, brincando de ser médicas, engenheiras, profissionais de escritório ou exercendo outras funções que ampliem suas possibilidades de representação.

O brincar, nesse sentido, possibilita que as crianças experimentem e ressignifiquem papéis que aprendem socialmente. Quando os cuidados com a casa, com os filhos e com a família são compartilhados entre os personagens da brincadeira, abre-se espaço para que elas compreendam que essas responsabilidades não precisam estar determinadas pelo gênero. O jogo simbólico permite, assim, experimentar outras formas de organização das relações e construir novas referências a partir daquilo que vivenciam e imaginam.

A escolha das histórias também contribui para esse processo. Narrativas que apresentam personagens rompendo com expectativas e padrões tradicionalmente estabelecidos ampliam a visão de mundo dos educandos e oferecem outras possibilidades de identificação e representação.

Histórias como Cinderelo e Cinderela Mudou de Ideia, por exemplo, podem favorecer a reflexão sobre os papéis atribuídos a meninos e meninas, questionando padrões e tabus presentes em nossa sociedade. Ao entrar em contato com diferentes personagens e possibilidades de existência, a criança percebe que não precisa estar limitada aos papéis que tradicionalmente lhe são apresentados.

Dessa forma, tanto os jogos simbólicos quanto a literatura podem se constituir como importantes ferramentas pedagógicas para ampliar referências, estimular o protagonismo e possibilitar que crianças e pré-adolescentes experimentem, questionem e ressignifiquem os papéis sociais que aprendem ao longo de sua formação.

ISABEL: Pensando no contexto de aulas de Sociologia no Ensino Médio, é possível trabalhar esse tema e, na verdade, eu diria que é necessário trabalhá-lo. Isso porque o aborto já faz parte da realidade social que atravessa a vida de muitas estudantes, seja diretamente, seja por meio de familiares, amigas ou conhecidas, e elas não têm um espaço seguro para refletir e conversar sobre isso. Nesse sentido, ao trabalharmos essa temática na sala de aula, nossas alunas podem ter acesso a espaços qualificados e seguros para poderem dialogar e pensar a respeito.

No âmbito das aulas de Sociologia, entendo ser importante trabalhar essa temática como um fenômeno social, buscando analisar e compreender os elementos que estruturam esse fenômeno e suas consequências para a vida das mulheres. Assim, uma abordagem que acho interessante de desenvolver nas aulas, é trabalhar com dados estatísticos sobre o aborto no Brasil, em especial, aqueles que trazem informações sobre o perfil das mulheres que recorrem ao aborto. Quando olhamos para esses dados, é possível verificar como as dimensões de classe e raça atravessam esse fenômeno: os dados apontam, por exemplo, que mortes em decorrência de abortos acontecem muito mais com mulheres pobres e pretas que recorrem, muitas vezes, a procedimentos de risco, inseguros e sem o acompanhamento adequado; enquanto entre mulheres brancas de classe média alta, que conseguem pagar para realizar os procedimentos adequados e com acompanhamento, o aborto é realizado de forma segura.

Quando levamos esses dados para a sala de aula, fica mais fácil perceber que o aborto não pode ser analisado apenas como uma escolha individual. Ele também revela desigualdades de classe, raça e acesso à saúde. A análise de dados como esses, nos permitem, por exemplo, compreender que o aborto precisa ser compreendido considerando-se as desigualdades sociais que marcam a nossa sociedade, que ele deveria estar relacionado às políticas de saúde pública e que está fortemente atrelado ao campo político, colocando em discussão as disputas políticas em torno da autonomia reprodutiva, dos direitos das mulheres e da regulação estatal sobre os corpos.      

6. As eleições estão se aproximando e mais uma vez q legalização do aborto é abordada em pouquíssimas candidaturas. A educação é uma categoria majoritariamente feminina, por se tratar de um serviço de cuidado que, historicamente e pela divisão sexual do trabalho, é feito por mulheres: vemos isso desde as salas de aula até às terceirizadas da limpeza e da cozinha, que também são majoritariamente mulheres. A educação vêm sendo sistematicamente atacada e precarizada, tanto a nível municipal quanto estadual, e isso significa que cada vez mais mulheres estão trabalhando mais e recebendo menos. Ao mesmo tempo, as professoras do município são trabalhadoras que todos os anos fazem greve e exigem seus direitos. De que forma você acredita que a luta da sua categoria se vincula à luta das mulheres e à exigência de políticas voltadas para elas, como a legalização do aborto?

SAMARA: Nós professoras e trabalhadoras da educação sentimos na pele diretamente os efeitos dos ataques contra as mulheres e do crescente discurso de ódio contra nós. Seja na violência que cresce dentro das escolas e das salas de aula, com o discurso de ódio contra mulheres que não deixa a professora dar aula ou com as trabalhadoras terceirizadas que não recebem um salário digno. Existe uma romantização a respeito do trabalho docente feminino, como se a mulher fosse destinada a cuidar e educar, que faz isso por amor, que faz um trabalho menos profissional. O que abre espaço para não pagar corretamente as docentes e outras trabalhadoras da área da educação e nem garantir que essas mulheres tenham seus direitos  plenos. E sendo assim, em uma categoria majoritariamente feminina é urgente que façamos uma discussão sobre a legalização do aborto, questão essa que deveria estar nas mãos de mulheres, sendo nosso o direito de decidir e não de homens do Congresso. Por isso, a questão de gênero e a questão dos ataques às mulheres deveriam sempre estar em pauta nas greves e colocadas pelos sindicatos. Falar de legalização do aborto e em direito das mulheres é pensar na vida de nossas alunas, que estão diariamente no chão da escola pública, vivendo a precarização da educação e filhas da classe trabalhadora que vivenciam na pele o que é ser mulher em um sistema capitalista que se preocupa em lucrar com os nossos corpos, é uma discussão sobre elas terem poder sobre o próprio corpo e não que tenha um homem decidindo isso.  

JULIANA: Infelizmente a escola é um espaço onde se perpetuam muitas violências contra as mulheres. E isto não é restrito à relação entre estudantes. As professoras mulheres invariavelmente são menos respeitadas, assim como as ATEs e funcionárias terceirizadas da limpeza e cozinha. Que os alunos e alunas compreendam que existe uma estrutura que impõe às mulheres piores condições de trabalho, dupla jornada e abusos, faz com que olhem para a condição de suas famílias onde maioritariamente as mães, avós e tias é que cuidam da casa, das crianças e estão também submetidas à precarização em seus trabalhos. Compreender as estruturas também é não desvincular a questão de gênero da luta de classes. Entender que a subordinação dos corpos femininos está à serviço da manutenção de privilégios e perpetuação de uma vida de exploração para filhos e filhas da classe trabalhadora (que são as meninas e meninos da escola pública). Esta compreensão é fundamental para que possam perceber que não basta ter uma mulher eleita, mas sim quais as propostas que de fato irão melhorar a condição de vida, que trará real dignidade e respeito para que as mulheres existam e vivam suas vidas plenamente.

Essa entrevista foi realizada com as professoras Letícia Zanon, professora de história; Samara Aparecida e Vanessa, professoras de fundamental I; Isabel Furlan, professora da Sociologia da rede estadual de São Paulo e professora do fundamental I do munícipio de São Paulo; Juliana Liegel, professora de artes e fundadora da companhia de teatro Estudo de Cena; e Juliene Codognotto e Fernanda, professoras de artes.