A rebeldia é de esquerda. Debates estratégicos sobre os novos fenômenos políticos à nível mundial
Em diferentes países surgem fenômenos políticos pela esquerda como resposta à crise capitalista, à guerra, ao ajuste e ao avanço das direitas radicais. De Nova York até Alemanha, Reino Unido, França ou Argentina, expressam-se mudanças subjetivas em setores da juventude, trabalhadores e movimentos sociais. Mas esses processos levantam uma questão decisiva: trata-se de administrar “pela esquerda” o capitalismo ou de construir uma força capaz de enfrentá-lo?
Nos últimos anos tornou-se quase um lugar-comum falar do avanço da extrema direita. Trump nos Estados Unidos, Milei na Argentina, Reform UK no Reino Unido, Alternativa pela Alemanha (AfD), governos e forças reacionárias na Europa e América Latina. O diagnóstico tem bases reais: a crise do capitalismo, o militarismo, as guerras, o endurecimento dos Estados e a ofensiva contra as condições de vida das maiorias alimentaram fenômenos políticos reacionários em boa parte do mundo.
Mas essa não é toda a história. Em paralelo, também vêm se desenvolvendo fenômenos políticos pela esquerda que expressam mudanças subjetivas importantes, sobretudo entre a juventude, setores de trabalhadores, movimentos feministas, antirracistas, estudantis e o movimento internacional pela Palestina. São processos heterogêneos, contraditórios, sobre os quais atuam organizações políticas muito distintas entre si, mas que mostram que o cenário internacional está longe de estar dominado pela direita.
O triunfo de Zohran Mamdani em Nova York, o surgimento do Your Party no Reino Unido, o crescimento do Die Linke entre a juventude na Alemanha, entre outros. Assim, a enorme simpatia que despertam na Argentina referentes do PTS como Myriam Bregman e Nicolás del Caño faz parte de um mapa político internacional mais amplo. A questão é qual estratégia pode estar à altura deste novo momento.
Mamdani em Nova York: as contradições de administrar o Estado capitalista
Recentemente completaram-se 100 dias desde que Zohran Mamdani, jovem muçulmano de 34 anos proveniente do Democratic Socialists of America (DSA), assumiu como prefeito de Nova York. Seu triunfo foi lido, com razão, como expressão de um giro à esquerda em setores importantes da juventude e como uma fratura de parte da base Democrata com o establishment do partido. Sua campanha havia gerado expectativas com medidas como transporte gratuito, impostos sobre os ricos e a dissolução das unidades mais violentas da polícia. No entanto, em seus primeiros meses de governo, a moderação parece ter sido a palavra de ordem.
Em um artigo recente da revista Jacobin (“Zohran Mamdani and the Contradiction of Democratic Socialism”), Peter Frase aborda algumas das que define como “as contradições do socialismo democrático”, entre elas o apoio de Mamdani à reeleição de Kathy Hochul, governadora do Estado de Nova York e figura do establishment Democrata, que havia se oposto a pontos centrais de seu próprio programa. Também o fato de ter mantido à frente da polícia nova-iorquina Jessica Tisch, integrante de uma família multimilionária, em um gesto claro em direção aos 33 mil policiais da cidade e, especialmente, à continuidade de um orçamento policial de 6,4 bilhões de dólares. A lógica é conhecida: fazer concessões aos poderes reais com a expectativa de obter depois seu aval para algumas das reformas propostas. Mas o resultado até agora mostra os limites dessa orientação. Embora Frase não o coloque nesses termos, a realidade é que o projeto de uma “socialdemocracia do século XXI”, como o autor chama, não tem muito a oferecer. O problema não é que Mamdani não seja revolucionário; isso é evidente. O problema é que, mesmo como reformista, vem cedendo sem conseguir reformas significativas que melhorem a vida da classe trabalhadora.
A experiência volta a colocar um debate estratégico. Sem uma força social organizada capaz de enfrentar o Partido Democrata, a polícia, os grandes capitalistas e o aparato institucional, a gestão “pela esquerda” tende a se transformar em administração da ordem existente. É o caminho já percorrido por outras experiências: Syriza na Grécia, que terminou aplicando ajustes, ou Podemos no Estado espanhol, que acabou subordinado ao Partido Socialista. Bhaskar Sunkara, editor da Jacobin e referência do Democratic Socialists of America, junto a Gabriel Hetland, haviam defendido após o triunfo de Mamdani a necessidade de organizar assembleias populares que mobilizassem sua base social como contrapeso frente à pressão do establishment (“Zohran Needs to Create Popular Assemblies”). Mas essa política não prosperou; há uma contradição entre chamar durante anos a apoiar candidatos dentro do Partido Democrata e depois esperar construir, de um dia para o outro, organismos de base capazes de enfrentar o establishment desse mesmo partido.
No entanto, fica colocada outra questão de fundo, referida não simplesmente a “fazer assembleias”, mas a qual estratégia. Assembleias para pressionar o establishment ou instituições de auto-organização capazes de desenvolver um verdadeiro contrapoder? Para responder a essa pergunta, sem dúvida, vale a pena olhar para Minneapolis. A rebelião de Minneapolis deixou colocados elementos avançados: grupos de vigilância frente aos ataques do ICE, organização do abastecimento e do transporte, intervenção de setores sindicais como professoras e professores, e a proposta de uma greve geral no Estado. Também mostrou um problema decisivo: o papel conservador das burocracias sindicais e a necessidade de recuperar as organizações de massas.
As expectativas no Your Party e sua desconstrução como aparato eleitoral
No Reino Unido também se expressa uma polarização política profunda. Os partidos tradicionais atravessam uma crise quase de decomposição, enquanto o Reform UK de Nigel Farage aparece como uma das forças mais dinâmicas pela direita. O trabalhismo de Keir Starmer enfrenta um forte mal-estar social, com um governo cada vez mais desgastado, marcado por crises internas e questionado por sua cumplicidade com o sionismo e a repressão das mobilizações pela Palestina.
Pela esquerda, o surgimento do Your Party, liderado por Jeremy Corbyn e Zarah Sultana, pareceu inicialmente condensar uma expectativa enorme. Quando o projeto foi lançado, 800.000 pessoas manifestaram interesse em participar. Não era casual: vinham de anos de mobilização pela Palestina, rejeição ao giro direitista do trabalhismo e busca por uma alternativa política. Mas essa expectativa se esvaziou rapidamente. Em vez de apostar no desenvolvimento da luta de classes, na coordenação democrática de movimentos, setores dos sindicatos e da juventude, o grupo de Corbyn reproduziu métodos burocráticos semelhantes aos que o próprio trabalhismo havia usado contra o corbynismo. O objetivo central passou a ser garantir o controle do aparato, inclusive mediante expulsões de setores críticos da esquerda.
Atualmente, em seu lugar, quem está crescendo são os Verdes e seu principal referente, Zack Polanski, que tenta emular o fenômeno Mamdani com uma proposta de gestão mais humana do capitalismo. Mas no Reino Unido, do outro lado está a City de Londres, um dos centros do capital financeiro internacional, e uma burguesia imperialista com longa trajetória de saque, à qual não se pode enfrentar verdadeiramente com boas intenções nem com campanhas simpáticas de renovação progressista.
Die Linke, a juventude e a prova do militarismo alemão
Em cada país, a relação entre os fenômenos políticos à esquerda em nível de massas e as organizações políticas através das quais terminam se expressando é diferente. Embora não seja uma relação arbitrária, tampouco é de identidade. Em geral, está marcada por múltiplas contradições.
Na Alemanha, o crescimento do Die Linke entre setores juvenis ocorre em paralelo ao avanço da ultradireita da Alternativa pela Alemanha (AfD). Nas eleições de fevereiro de 2025, o Die Linke obteve cerca de 25% dos votos entre jovens de 18 a 24 anos. Esse dado expressou um fenômeno importante: uma parte significativa da juventude busca uma alternativa frente ao militarismo, ao racismo, ao ajuste e à direita radical. Essa mesma juventude protagonizou mobilizações contra a implementação do serviço militar obrigatório. No entanto, dentro do Die Linke convivem setores que rejeitam frontalmente o militarismo alemão com outros dispostos a se adaptar a ele.
Essa contradição ficou clara diante do plano de rearmamento do chanceler Merz, que estabeleceu o objetivo de construir “o maior exército convencional da Europa”. A base legal para esse rearmamento foi uma reforma constitucional que praticamente eliminou limites ao gasto militar. No Bundestag, os deputados do Die Linke votaram contra. Mas no Bundesrat – a câmara alta –, onde o partido tinha certa força para tentar bloquear a reforma, deixaram passar. É o tipo de prova decisiva em que se revela para que serve — ou não serve — um partido.
É um exemplo que mostra um problema estratégico central: em um partido no qual convivem alas belicistas e antimilitaristas, sionistas e defensores da Palestina, setores reformistas moderados e correntes de esquerda, nos momentos decisivos tendem a se impor, na prática, as alas mais adaptadas ao regime. O debate na Alemanha não é menor, já que se trata de uma força que vem crescendo eleitoralmente e atraindo juventude. Há uma disputa ali para intervir nesse fenômeno e convencer os setores mais avançados da juventude da necessidade de uma estratégia anticapitalista, anti-imperialista e revolucionária.
França e o balanço dos partidos amplos
O caso do NPA (Novo Partido Anticapitalista) na França permite ver outro caminho. Surgiu como um partido mais à esquerda, sob o modelo dos chamados “partidos amplos anticapitalistas”. Em seu interior conviviam estratégias muito distintas: setores que empurravam para a moderação e a adaptação à Frente Popular de Mélenchon, e setores revolucionários que defendiam a independência de classe.
Ao contrário do que sugerem seus termos, a ideia de partido com “liberdade de tendências” permanentes não contribui para desenvolver o debate amplo e democrático dentro das organizações, mas sim para evitá-lo. Ou seja, cada tendência cristalizada pode sustentar o que considera melhor, mas isso não tem nenhuma implicação para o restante das tendências. Dessa forma, reduz-se ao mínimo a atividade comum da organização, em geral apenas às campanhas eleitorais e aos congressos onde se coletam apoios para cada plataforma, enquanto a atividade das referências públicas, parlamentares, sindicais, de movimentos etc. define com sua ação a política de toda a organização sem que esta possa ser discutida democraticamente. Mas o principal é que, diante dos momentos de decisão, a organização como conjunto é incapaz de decidir. Isso não é contraditório com o parlamentarismo ou o sindicalismo nos marcos do regime, mas sim em relação à luta de classes; e quanto mais aguda, mais ainda.
Essas contradições terminaram por fazer explodir o NPA diante da emergência da Novo Frente Popular (NFP), liderado por J. L. Mélenchon, onde todo um setor majoritário do partido abandonou inclusive o projeto de construir uma alternativa independente anticapitalista para seguir Mélenchon em uma frente com o Partido Socialista e o PCF, com a ilusão de convertê-lo em Primeiro-Ministro e administrar o Estado imperialista francês “pela esquerda”. Finalmente, depois de milhões votarem na NFP, Macron vetou essa possibilidade com os mecanismos bonapartistas da V República e o Novo Frente Popular ficou mergulhado na impotência, enquanto, graças às cadeiras obtidas a partir dessa aliança, o Partido Socialista se transformou em um pilar para a governabilidade de Macron.
Do enfrentamento a essas políticas surgiu o Révolution Permanente, uma organização jovem, dinâmica, com intervenção destacada na luta de classes, como no processo de 2023 contra a reforma da previdência de Macron, com o desenvolvimento da Rede pela Greve Geral, que conseguiu articular setores significativos da vanguarda de diferentes ramos do movimento operário do transporte, da indústria, da educação e outros, junto à juventude combativa e intelectuais. O dinamismo do Révolution Permanente também teve uma expressão eleitoral recente nas municipais, onde obteve cerca de 7% em vários lugares e conquistou dois vereadores em Saint-Denis, pulmão operário da periferia de Paris, em sua primeira apresentação eleitoral. Além disso, fez também uma grande eleição de representantes estudantis nas principais universidades da França. É uma experiência que mostra outra relação possível entre eleições, organização militante e luta de classes; um debate que se renova com o relançamento, por parte de Mélenchon, da política de Frente Popular.
Podemos: do “assalto aos céus” à recomposição do PSOE
A experiência do Podemos no Estado espanhol continua sendo uma referência inevitável para qualquer balanço sério sobre o neorreformismo do século XXI. Nasceu ao calor do 15M, como partido-movimento, com um programa reformista e uma retórica de impugnação ao regime. Em seu melhor momento chegou a ter 71 deputados. Pablo Iglesias foi vice-presidente do governo e o Unidas Podemos (coalizão integrada por Podemos e Izquierda Unida do PCE) teve cinco ministérios. O resultado? Nenhuma transformação substancial na vida da classe trabalhadora. Em contrapartida, contribuiu para recompor o PSOE, um dos pilares centrais do regime político espanhol, que havia ficado profundamente questionado após a crise aberta pelo 15M.
Ao deixar a vice-presidência, Pablo Iglesias reconheceu que estar no governo não era o mesmo que ter o poder. A frase era verdadeira. Mas a questão decisiva é qual estratégia se desprende dessa conclusão. No caso do Podemos, a resposta não foi uma ruptura com a orientação anterior, mas sim a busca de novos frentes amplos para voltar a formar parte de uma coalizão progressista com o PSOE incluído. A pergunta se impõe por si só: por que fazer o mesmo levaria desta vez a resultados diferentes?
Agora, o ciclo do Podemos não teria sido possível da forma como ocorreu sem o papel de um setor da esquerda anticapitalista, a organização Anticapitalistas, que colocou seus recursos e militância para que emergisse o partido liderado por Pablo Iglesias. Anticapitalistas fez parte do Podemos durante seis anos – enquanto esse partido governava cidades importantes como Madri e Barcelona, os Anticapitalistas governaram a prefeitura da cidade de Cádiz. No momento de sair do Podemos, comprovou-se que sua hipótese de ser a ala esquerda dos reformistas não apenas fortaleceu aqueles para conseguir sua aliança com o PSOE, como também deixou os Anticapitalistas mais debilitados do que antes.
O fenômeno político em torno de Myriam Bregman e o PTS: uma esquerda de independência de classe
A Argentina é observada pela direita mundial como um laboratório. Trump, Netanyahu e outros referentes reacionários apostam forte em Milei. Do outro lado da barricada, nesse panorama internacional de fenômenos políticos, uma grande novidade é o fenômeno que se expressa na Argentina em torno de referências do PTS.
Em primeiro lugar, Myriam Bregman, que diversas pesquisas vêm mostrando com uma intenção de voto entre 9% e 14% como candidata presidencial, e estudos de opinião a colocam entre as dirigentes com melhor imagem positiva do país. Também Nicolás del Caño, que aparece entre as referências políticas com maior imagem positiva e reconhecimento nacional; ou Alejandro Vilca, que nas eleições anteriores de meio termo havia obtido 25% dos votos na província de Jujuy. Em um dos estudos de opinião mais recentes, da brasileira Atlas Intel – a mesma que antecipou a ascensão de Milei –, Bregman aparece em primeiro lugar em imagem positiva e como a única com diferencial positivo de imagem entre todos os dirigentes políticos da Argentina, incluindo Cristina Kirchner, Axel Kicillof e muito à frente do próprio Milei.
Diferente das referências que surgem a partir dos fenômenos políticos à esquerda em resposta ao avanço da ultradireita em diferentes países, neste caso não se trata de uma referência social-reformista que faz parte de um partido capitalista como Mamdani, nem de uma esquerda reformista como o Die Linke. O que emerge é a esquerda trotskista. O PTS integra a coalizão Frente de Esquerda e dos Trabalhadores - Unidade (FITU), que levanta um programa de independência de classe e propõe a luta por um governo dos trabalhadores. Surgido em 2011, quando o restante da esquerda se alinhava ao kirchnerismo, constituiu-se como polo de independência de classe.
Durante toda a primeira etapa, sua existência coincidiu com o desenvolvimento do sindicalismo de base, gerando uma sinergia entre o sindical e o político. A emergência de Nicolás del Caño como principal referência da Frente de Esquerda em 2015 esteve diretamente associada à intervenção nos principais conflitos do período. Atualmente, com Myriam Bregman, ocorre o mesmo: ela se consolidou como figura emblemática da luta do movimento de mulheres, das lutas dos trabalhadores e do enfrentamento consequente a Milei durante seus dois anos de governo.
O atual fenômeno político não é um raio em céu sereno, mas um processo que leva vários anos e foi produto de intensas disputas políticas dentro da esquerda argentina até adotar essa orientação. Ao mesmo tempo, não pode ser entendido por fora do papel que a esquerda, particularmente o PTS, vem cumprindo durante os dois anos de governo de Milei. Enquanto a direção peronista se dividia entre uma oposição meramente testemunhal e setores que apoiaram diretamente as leis de Milei, a esquerda esteve na linha de frente de todas as lutas contra o ajuste, a repressão, a “motosserra” e a entrega.
Um ponto de inflexão foi a luta contra a reforma trabalhista escravista de Milei, onde todos os atores mostraram suas cartas. O governo deixou claro que queria transformar a classe trabalhadora em escrava e não aplicar leis já votadas pelo parlamento, como a lei da deficiência ou a de financiamento universitário. A burocracia da CGT mostrou que não queria organizar nenhuma luta séria. E parte do peronismo foi chave para que a reforma avançasse no Parlamento.
Frente a isso, o PTS impulsionou uma campanha nacional contra a reforma, inclusive no verão e nos locais de férias, com iniciativas de agitação de alto impacto. Também promoveu instâncias de coordenação no Grande Buenos Aires e em outras regiões para preparar a luta. Em 11 de fevereiro, apesar da CGT se negar a convocar uma greve geral, milhares enfrentaram a repressão policial na Praça Congresso. A indignação ia muito além dos que puderam se mobilizar. A CGT teve que convocar uma greve na semana seguinte, mas cuidando para que fosse sem mobilização. Milei conseguiu aprovar a reforma trabalhista, mas pagou um alto custo político. Também pagaram aqueles que foram cúmplices, incluindo a burocracia sindical.
O fenômeno atual em torno de Myriam Bregman pode ser lido como uma expressão política das conclusões que setores amplos vêm tirando dessa experiência e dos dois anos de luta contra o governo libertário.
Da simpatia à militância, da indignação à organização
Ao percorrer esses processos, fica claro que existem estratégias muito distintas na esquerda internacionalmente. Nos Estados Unidos, o debate em torno de Zohran Mamdani mostra a disjuntiva entre administrar a máquina do Estado ou adotar uma estratégia de ruptura. Apoiar-se em experiências avançadas da luta de classes ou levar os movimentos a morrer aos pés dos democratas. No caso da Alemanha e do Die Linke, vê-se que um partido onde convivem sionistas e pró-palestinos, belicistas e antimilitaristas, acaba desempenhando um papel conservador em momentos-chave. E o exemplo do Podemos mostra o fiasco de projetos que surgem com objetivos puramente eleitorais e que se integram na gestão do Estado capitalista. As forças de esquerda anticapitalistas que se alinharam e promoveram esse tipo de projeto reformista, abandonando a luta por um programa anticapitalista e de independência de classe, declinaram a possibilidade de se transformar em uma alternativa política.
O problema de fundo é que, sem articular uma força material da classe trabalhadora, da juventude, do movimento de mulheres, dos movimentos antirracistas e dos setores populares, não há perspectiva realista para enfrentar o poder dos capitalistas e de seu Estado, que está organizado precisamente para garantir que ninguém saia das regras do jogo. As grandes revoltas dos últimos anos também deixaram essa lição. O Chile em 2019 foi uma mobilização enorme, com meses de luta, mas a combinação de repressão e desvio institucional impediu que se desse resposta a qualquer das demandas que o movimento havia colocado. Depois chegou o governo de Gabriel Boric, que deu as costas às demandas da rebelião de 2019, contribuindo para a desmoralização e preparando o terreno para a chegada à presidência da ultradireita de José Antonio Kast.
Na Argentina, a simpatia crescente por Myriam Bregman, Nicolás del Caño e o PTS abre uma importante oportunidade política. A questão decisiva é se essa simpatia – que se expressa, por exemplo, nas pesquisas que dão até 14% de intenção de voto a Bregman nas presidenciais – pode se transformar em militância, em organização, em novos companheiros e companheiras dispostos a construir uma força material capaz de derrotar Milei e propor uma saída de fundo. Essa luta comum tem pelo menos dois níveis:
- Instituições de coordenação e assembleias: que sejam espaços onde se organizem os que querem enfrentar e derrotar realmente Milei, debatendo programa e ações necessárias, rodeando de solidariedade cada luta e incluindo a disputa por recuperar as organizações de massas existentes como sindicatos e centros estudantis. Uma força organizada desse tipo poderia ser chave para impor a frente única aos grandes sindicatos e tornar mais concreta a luta por uma greve geral para derrotar Milei.
- Um grande partido da nova classe trabalhadora: mais feminizada, atravessada pela precarização, composta por setores formais e informais, ocupados e desempregados, trabalhadores de novos setores estratégicos, junto com estudantes e intelectuais. Um partido com programa de independência de classe – como o que levanta o Frente de Esquerda – que seja uma ferramenta política capaz de superar o peronismo. Porque a pergunta não é apenas como derrotar Milei. Também é: depois de Milei, o quê? Esses foram alguns dos temas abordados no ato do PTS em Ferro, no último 1º de Maio, com um estádio lotado, milhares acompanhando de fora e dezenas de milhares pelas transmissões.
É um fato que as guerras, a ofensiva do imperialismo e os projetos autoritários das direitas radicais estão também gerando processos políticos pela esquerda. E isso abre possibilidades para que uma corrente socialista e revolucionária possa avançar. Uma luta que não é apenas nacional, mas internacional. Por isso, como parte dessa batalha, desde a Corrente Revolução Permanente (Quarta Internacional) – que reúne organizações de 14 países – estamos impulsionando, junto com organizações da Coreia do Sul, Estado Espanhol, Bélgica e Canadá, o chamado a outras organizações e setores da vanguarda operária e juvenil em todo o mundo para construir um movimento por uma internacional da revolução socialista.
Diante de extremas direitas que se coordenam globalmente, diante de Estados imperialistas que se rearmam e capitalistas que descarregam a crise sobre as maiorias, a resposta não pode ser repetir a velha história de uma administração “amável” do capitalismo. É necessária uma estratégia de independência de classe, uma força organizada desde baixo e uma perspectiva revolucionária e internacionalista com o objetivo de enfrentar e derrotar os capitalistas e seus governos. O desafio é organizá-la.