Introdução
Esta análise foi elaborada antes da apresentação da Estratégia de Segurança Nacional de Donald Trump nos Estados Unidos, em 5 de dezembro, onde se reitera o giro continental da política imperialista norte-americana, em particular em direção à América Latina. A estratégia enfatiza: “Após anos de abandono, os Estados Unidos reafirmarão e aplicarão a Doutrina Monroe para restaurar a preeminência norte-americana no hemisfério ocidental e proteger nosso território nacional e nosso acesso a geografias-chave em toda a região”. Com essa projeção, confirmam-se os aspectos centrais colocados no presente artigo, evidenciando o momento histórico que vive a América Latina com o retorno explícito dos EUA a uma política ofensiva de dominação hemisférica, de disputa geopolítica frente a outras potências e de pressão crescente na região como espaço estratégico de recolonização imperialista.
Estamos diante de uma das maiores agressões imperialistas na América Latina com o crescente assédio dos Estados Unidos à Venezuela, respaldado pelo maior deslocamento militar no Caribe desde a Guerra Fria. Caso se materialize uma escalada militar de agressão direta contra a Venezuela, isso aceleraria a ofensiva com a qual os Estados Unidos buscam impor seu domínio hemisférico e retomar seu controle indiscutido sobre a América Latina. Encontramo-nos diante de um cenário potencial que poderia implicar uma mudança profunda na região, caso a escalada militar avance, independentemente das formas que possa assumir.
No entanto, mesmo se se chegasse a uma negociação que pudesse obrigar a saída de Maduro sem uma intervenção militar maior, tratar-se-ia de um fato de enorme transcendência, por ser produto de uma ingerência imperialista que condiciona totalmente o futuro da Venezuela. Em qualquer caso, todos os cenários possíveis são graves — tanto a desestabilização regional resultante de uma escalada militar (mesmo limitada), como uma saída imposta desde Washington e a consequente aprofundação do tutela imperialista na região, ou ainda acordos “pacíficos” condicionados sob os desígnios do imperialismo, significariam a subordinação da Venezuela a uma ordem hemisférica reforçada, com impacto para o conjunto da América Latina.
O cenário de declínio relativo da hegemonia norte-americana, agravado pela competição com a China e a fragmentação da ordem internacional, converte a América Latina em uma região de relevância estratégica para os Estados Unidos: para impedir o avanço dos investimentos e corredores comerciais da China na região — incluindo aqui o maior controle do Canal do Panamá — e para controlar o fluxo migratório e a passagem de migrantes via México. Isso explica, em parte, sua política ofensiva no hemisfério e, em particular, na América Latina. Como colocam Juan Chingo e Claudia Cinatti no texto Documento Internacional para a Conferência da FT-CI:
<quote> “A América Latina voltou a ser uma prioridade da política exterior norte-americana, e um dos frontes de batalha na disputa comercial e geopolítica com a China, que avançou não apenas nas relações comerciais, como também em investimentos estratégicos na região, como o porto no sul do Peru ligado ao Brasil, estabelecendo de fato um corredor terrestre bioceânico, ou a estação espacial na Argentina para observação do espaço profundo. Para os Estados Unidos, a região tem uma importância fundamental para o controle do fluxo migratório, sobretudo na fronteira sul com o México, um dos eixos da política de Trump.” </quote>
Rumo a 2026, o continente entra em um novo momento histórico marcado pelo giro aberto da política exterior norte-americana. Sob o segundo mandato de Donald Trump, Washington impulsiona uma estratégia de reordenamento geopolítico hemisférico, que busca reinstalar seu domínio sobre o hemisfério ocidental e reforçar o controle histórico sobre a América Latina. Trata-se de uma ruptura em relação a décadas anteriores, na qual a região se recoloca como prioridade das operações econômicas, militares e geopolíticas dos Estados Unidos.
Nesse marco, a América Latina e o Caribe atravessam uma crescente polarização política, devido à renovada ofensiva imperialista, com a Venezuela como epicentro. O trumpismo gera um ponto de inflexão aberto pelos mecanismos de pressão imperialista: sanções econômicas, ameaças tarifárias, deslocamentos navais no Caribe e manobras coercitivas contra os governos que não se subordinem plenamente a Washington. Ao mesmo tempo, reforçou o disciplinamento sobre os países alinhados, como Argentina, Equador ou El Salvador, não sem fricções com potências regionais de peso como o Brasil.
Essas tensões geopolíticas interagem com as dinâmicas internas da região. Embora a luta de classes na América Latina pareça atrasada em relação a processos como os da Europa ou alguns movimentos sociais nos Estados Unidos, a região reviveu uma série de irrupções sociais, desde o levante chileno de 2019 até a rebelião peruana de 2025. No entanto, essas rebeliões não conseguiram abrir uma saída estratégica; foram desviadas ou contidas pelos “progressismos” tardios e pelas direções reformistas, como no México, Colômbia e Chile, onde o descontentamento foi canalizado nos marcos do regime. Há uma tendência sustentada ao enfrentamento social sem uma direção revolucionária capaz de convertê-lo em uma alternativa de poder para a classe trabalhadora. Diante dessa contradição e sem essa perspectiva, é possível que as próximas rebeliões enfrentem o risco de saídas reacionárias; daí a chave de uma estratégia política revolucionária.
O giro trumpista na América Latina não se limita a medidas táticas; busca um reordenamento estratégico para fazer retroceder as posições comerciais da China e evitar que esta consolide novas, bem como qualquer investimento que erosione a primazia do capital norte-americano. Por isso, a administração Trump, atravessada por múltiplas crises, privilegia a coerção acima do consenso — quando a hegemonia declina, a força aparece como o meio para recompor-la.
Trata-se de um projeto de “reconquista hemisférica” que busca reconstruir seu controle econômico com penetração cultural e ideológica, apoiado nas direitas locais, nas redes sociais e nos fundamentalismos conservadores. Para isso, foram reativados os velhos reflexos da Doutrina Monroe, agora em uma espécie de “Doutrina Donroe”: um programa geopolítico-militar que concebe o hemisfério ocidental como extensão do território nacional norte-americano, com maior intervenção direta sob as bandeiras da “segurança hemisférica” e da “guerra ao narcoterrorismo”.
Nesse contexto, a região atravessa crise social e econômica, polarização política e regimes fracos para responder ao imperialismo. A América Latina torna-se um terreno central onde Washington tenta restaurar seu comando hemisférico e recompor a primazia do capital norte-americano em seu histórico “quintal”.
A crise de acumulação global, expressa na financeirização e na superexploração dos países da periferia, como adverte David Harvey [1], se traduz na América Latina em uma combinação de estagnação econômica, crise social e polarização política. A região se reconverte em terreno de disputa entre as potências (particularmente Estados Unidos e China) e em laboratório de novas formas de autoritarismos e bonapartismos de diversos signos, como se observa em Bukele, Milei, passando por Noboa, até Maduro.
1. A nova ofensiva imperialista
O retorno de Donald Trump à Casa Branca em janeiro de 2025 marca um ponto de inflexão na política norte-americana para a América Latina: seu governo reativou de maneira aberta e sistemática os mecanismos de pressão, sanções, ameaças comerciais, deslocamentos militares e operações encobertas com o objetivo de restaurar uma relação de subordinação político-militar que limite qualquer autonomia estratégica regional. Assim, uma região atravessada por crise social e econômica, polarização política e regimes debilitados converte-se em um cenário central onde Washington procura reinstalar seu mando hemisférico.
Da “guerra contra o terrorismo” à “guerra ao narcoterrorismo”. Do discurso da “guerra contra o terrorismo” passou-se à “guerra ao narcoterrorismo”. Os documentos de segurança nacional elaborados durante a transição de 2024 redefinem a América Latina como zona de ameaça prioritária e legitimam a expansão militar sob o pretexto do combate ao narcotráfico e ao “terrorismo regional”. Todo o deslocamento militar no Caribe e a instalação do porta-aviões USS Gerald R. Ford nessa área, a ampliação de bases no Panamá e a reativação da IV Frota constituem a infraestrutura dessa estratégia. Essa mudança discursiva opera como uma nova doutrina de segurança hemisférica que atualiza a contrainsurgência de modo preventivo, autorizando a CIA a realizar “ações encobertas” em territórios tratados como hostis, como Venezuela, Cuba ou Nicarágua, e retomando a lógica da diplomacia das canhoneiras, hoje executada por meio de drones norte-americanos.
A chantagem econômica como ferramenta de dominação. A ofensiva imperialista não opera apenas no plano militar: Trump utiliza tarifas e sanções como mecanismo de subordinação. O México é o caso paradigmático: ameaças de impor tarifas de 50%, taxar remessas — equivalentes a 4% do PIB — e condicionar os acordos migratórios a concessões comerciais. Sob pressão, o governo de Sheinbaum reforça a militarização da fronteira sul e limita o ingresso de produtos chineses, revelando o limite estrutural dos “progressismos”, que administram a dependência em vez de enfrentá-la.
De forma semelhante, Washington aplica sanções às exportações colombianas para forçar o governo Petro a alinhar-se com sua agenda regional. Em contraste, a Argentina sob Milei recebe um resgate financeiro sem precedentes de 40 bilhões de dólares, administrado por Scott Bessent, como prêmio por sua fidelidade ideológica. Tal como afirmamos no Documento Internacional, a mensagem é transparente: aliados são recompensados, desobedientes castigados. Essa dinâmica configura uma guerra de posição imperial no terreno econômico, onde o capital financeiro funciona como dispositivo de disciplinamento interestatal.
Recolonização de recursos e nova Doutrina Monroe. Por trás da retórica nacionalista do trumpismo esconde-se uma estratégia de recolonização econômica. O interesse de Washington, como afirmam Juan Chingo e Claudia Cinatti, é transformar a Argentina em um protetorado semioficial, garantindo o acesso a recursos estratégicos (lítio, gás, alimentos) e evitando o avanço da China em setores de infraestrutura e comunicações. O mesmo ocorre no Peru e no Brasil, onde empresas norte-americanas pressionam pelo controle dos corredores bioceânicos e da Amazônia. Se no século XIX a Doutrina Monroe afirmava a exclusão das potências europeias, hoje busca manter China e Rússia fora do hemisfério e restaurar o controle político-econômico direto sobre a região. No entanto, trata-se de uma Doutrina Monroe em tempos de decadência, onde o domínio não se exerce a partir da confiança estratégica, mas desde a compulsão defensiva.
Crise de hegemonia e rivalidade sino-norte-americana. A nova ofensiva imperialista não pode ser compreendida sem situá-la na crise mais ampla da ordem mundial. Sob a perspectiva de Lenin em O imperialismo, fase superior do capitalismo, a disputa entre potências é expressão da competição pela extração de mais-valor em escala global. Atualmente, a China converteu-se no principal parceiro comercial da maioria dos países latino-americanos e em um investidor central em setores estratégicos: mineração de lítio (Bolívia, Argentina, Chile), infraestrutura (corredor bioceânico Peru–Brasil) e telecomunicações (Huawei no México e no Brasil). Os Estados Unidos percebem essa presença como uma ameaça existencial ao seu domínio hemisférico. Mas é fundamental considerar que a rivalidade sino-norte-americana gera uma situação de dupla dependência para as economias latino-americanas: subordinadas ao dólar e ao mercado norte-americano, mas cada vez mais ligadas à demanda e ao financiamento chineses. Estamos diante de um capitalismo periférico disputado. Nenhuma das potências propõe uma saída progressiva; ambas reproduzem a transferência de valor e consolidam a inserção dependente, demonstrando que a competição entre potências não é mais que uma disputa entre diferentes formas de subordinação.
O dispositivo ideológico-militar do imperialismo. O trumpismo combina unilateralismo militar com um discurso ideológico que legitima a violência estatal e o racismo estrutural. No plano interno norte-americano, o lema America First associa-se à criminalização de migrantes latino-americanos e afrodescendentes; no plano externo, traduz-se na desumanização dos povos. Esse dispositivo articula uma pedagogia reacionária de massas, na qual o “narcoterrorismo” cumpre uma função ideológica dupla: por um lado, naturaliza a intervenção militar; por outro, justifica a repressão interna nos países latino-americanos sob governos aliados. Isso se reflete claramente na recente chacina no Rio de Janeiro, onde o governador bolsonarista Claudio Castro realizou uma operação policial espetacular que terminou em massacre de civis — a maioria negros e pobres — antecipando formas de bonapartização reacionária em chave continental.
Um imperialismo em crise. Diferentemente das fases anteriores do imperialismo norte-americano — o expansionismo do pós-guerra ou a “Guerra Fria” —, a ofensiva trumpista desenvolve-se em um contexto de crise orgânica de direção dos EUA. A combinação de fratura social interna, polarização política e deslegitimação internacional limita sua capacidade de projeção. No entanto, exatamente por isso, a política de Trump tende a tornar-se mais errática e violenta: quando o poder declina, a coerção converte-se em seu substituto. Como assinalava Trotski em 1934, em Para onde vai a França?, “a decadência de uma classe dominante não se expressa apenas em sua debilidade, mas também na brutalidade de seus métodos”. Essa contradição abre um cenário em que a possibilidade de resistência e contraofensiva das massas torna-se mais real, já que a tentativa de recompor a hegemonia desde cima pode acelerar a crise dos regimes locais. Nossa tarefa estratégica é transformar essa decomposição em uma guerra a partir de uma perspectiva independente da classe trabalhadora, superando as saídas nacional-populares e as frentes de colaboração de classes.
2. A América Latina sob pressão: neoliberalismo armado, extrativismo e economias dependentes
As economias dependentes latino-americanas estão em um novo ciclo de crise estrutural, agravado pelas sequelas da pandemia, pela estagnação do investimento e pela pressão do capital financeiro internacional. Embora não nos concentremos aqui na dinâmica econômica latino-americana como um todo, é importante destacar que, de acordo com o último informe econômico da CEPAL:
A América Latina e o Caribe atravessam em 2025 uma nova fase de desaceleração econômica. Depois de uma recuperação nos primeiros trimestres de 2024, o crescimento do PIB regional perdeu dinamismo no final daquele ano e espera-se que se modere dos 2,3% registrados em 2024 para 2,2% em 2025. Essa tendência confirma uma década de baixo crescimento, na qual a expansão média do PIB foi de apenas 1,2% no período 2016–2025, ainda inferior à registrada nos anos oitenta.
Inclusive se considera que essas taxas de crescimento não bastam para reverter os efeitos da década de ajuste fiscal e desindustrialização.
Também é importante ressaltar os níveis de desigualdade social que se aprofundam. Segundo esse mesmo organismo, mais de 32% da população latino-americana vive abaixo da linha de pobreza, enquanto os 10% mais ricos concentram 77% da riqueza. O capital financeiro e os conglomerados extrativos, mineradores, agroexportadores e energéticos continuam ditando a orientação das economias nacionais.
A crise da dívida ressurge como mecanismo central de subordinação. Argentina, Equador e Honduras destinam entre 25% e 40% de seus orçamentos ao pagamento de juros, enquanto FMI e Banco Mundial condicionam cada refinanciamento a novas reformas estruturais. A região repete, assim, o cenário clássico: um Estado endividado, um capital estrangeiro dominante e uma burguesia local intermediária incapaz de projetar um desenvolvimento autônomo. O ciclo de Trump não inaugura um novo modelo; ele reativa os mecanismos históricos de subordinação: dívida, privatização e chantagem comercial. A dívida funciona como dispositivo de “direção externa” que integra os Estados latino-americanos sem necessidade de ocupação direta. Esta é a essência da nova etapa: uma recolonização econômica em nome da “reativação” e da “estabilidade macroeconômica”, no marco da ofensiva de controle hemisférico pelo imperialismo com grande coerção de força por parte dos Estados Unidos sobre o nosso continente.
Privatização, flexibilização e disciplinamento. O neoliberalismo não desapareceu com os “progressismos” do ciclo anterior — ele mudou de forma. Após os limites da onda “progressista” (2003–2015), as classes dominantes latino-americanas retomaram a iniciativa, combinando políticas de mercado com novas formas de autoritarismo estatal. O resultado é o que alguns economistas críticos chamam de “neoliberalismo 2.0”: uma versão atualizada do ajuste estrutural, legitimada pela crise e sustentada pela repressão. Esse processo expressa uma ofensiva burguesa que busca recompor a dominação depois do esgotamento do consenso “progressista”, deslocando a condução do terreno do consenso para o da coerção direta.
Na Argentina, Milei leva essa tendência ao extremo, promovendo a liquidação do Estado social sob o discurso da “liberdade econômica”. No Equador, Noboa impulsiona reformas trabalhistas regressivas e reprime as greves docentes e petroleiras. No Peru, o regime herdeiro do golpe contra Pedro Castillo combina neoliberalismo selvagem com repressão militarizada no sul andino. Mesmo em países com governos que se apresentam como progressistas (Brasil, Colômbia, México), as políticas macroeconômicas mantêm a ortodoxia: metas de inflação, superávit fiscal e concessões às multinacionais extrativistas, confirmando que o “progressismo” administra a dependência sem intenção de quebrá-la. Isso se apoia em quatro pilares fundamentais: Precarização do trabalho: auge do emprego informal, plataformas digitais, terceirização e eliminação de acordos coletivos. Privatização de bens comuns: venda de ativos estratégicos (energia, telecomunicações, infraestrutura) para consórcios internacionais. Austeridade permanente: redução do gasto público e reforma previdenciária como requisitos da “confiança investidora”. Criminalização do protesto: leis “antipiquetes”, militarização de territórios e perseguição judicial a trabalhadores ou dirigentes sindicais.
Trata-se de um neoliberalismo armado, que combina a lógica do mercado com a do estado de exceção. Na atualidade, o capital latino-americano já não pode reproduzir-se sem repressão: a coerção converteu-se em componente central de sua rentabilidade.
Como adverte David Harvey, a acumulação contemporânea depende crescentemente da despossessão, e na América Latina essa dinâmica se expressa por meio do extrativismo, da privatização territorial e da militarização. O resultado é uma reconfiguração autoritária do Estado que prepara condições de bonapartização preventiva diante de possíveis irrupções de massas. Embora usemos aqui o termo “despossessão” pelo seu valor ilustrativo, reconhecemos os limites dessa categoria em Harvey, tal como corretamente criticou Esteban Mercatante em La lógica turbulenta del capital.
Extrativismo e saque ambiental: a nova fronteira da acumulação. O extrativismo se consolida como eixo da economia regional: a América Latina é hoje uma das principais fontes de minerais estratégicos — lítio, cobre, níquel, gás natural — e de produtos agrícolas de exportação. Essa orientação não é nova, mas adquire uma dimensão qualitativamente distinta no marco da competição geopolítica e da crise ecológica global.
A chamada transição energética nos países centrais exige volumes crescentes de lítio, cobre e terras raras. Longe de impulsionar um processo de industrialização, essa demanda aprofunda o padrão primário-exportador. Argentina, Chile e Bolívia concentram 60% das reservas de lítio do mundo, mas a extração está controlada por corporações transnacionais — norte-americanas, chinesas e australianas — em associação com as elites locais. Esse triângulo do lítio opera assim como laboratório de uma nova dependência verde. A administração Trump inscreve esse processo em uma estratégia explícita de segurança energética, que redefine os minerais críticos como parte da infraestrutura de defesa, habilitando a intervenção econômica e militar em nome do “interesse nacional”.
No plano ambiental, as consequências são devastadoras: desmatamento recorde na Amazônia brasileira, contaminação de aquíferos no altiplano e deslocamento de comunidades indígenas e camponesas. O capitalismo verde não supera a exploração: ele a reconfigura em nome do clima.
O retorno de Trump — negacionista climático e desmontador de acordos ambientais — concede carta branca às corporações norte-americanas para avançar sem restrições. Sua administração não só reativa projetos fósseis, como também impulsiona uma “Doutrina Monroe ecológica” destinada a assegurar recursos estratégicos sob o pretexto de competir com a China, subordinando os Estados latino-americanos às cadeias globais de apropriação da natureza e devastação.
O extrativismo opera também como mecanismo de controle político e territorial: desarticula comunidades, divide movimentos e militariza regiões inteiras. No Equador e no Peru, a criminalização de dirigentes indígenas e ambientalistas combina-se com a presença de empresas mineradoras transnacionais e forças de segurança privadas. A equação é direta: recursos naturais + repressão = rentabilidade imperialista.
Essa combinação de saque ambiental e coerção tem uma tradução imediata nos regimes emergentes da região: onde a acumulação depende dos recursos, cresce a exceção permanente. O caso de Bukele mostra como a exploração da natureza e a coerção estatal tornam-se inseparáveis. Enquanto exporta uma imagem de modernização tecnológica, seu governo abre o país a capitais mineradores e energéticos sob regimes de exceção permanentes. A proibição da mineração metálica de 2017 está sendo corroída por concessões indiretas, zonas econômicas especiais e militarização de territórios rurais, evidenciando que o bonapartismo neoliberal funciona como garante interno da acumulação extrativa e da entrega de recursos estratégicos.
Polarização social e centralidade da classe trabalhadora. A consequência social desse modelo é uma polarização cada vez mais aguda. Enquanto a classe dominante concentra rendas extraordinárias, o proletariado e as camadas médias urbanas atravessam um empobrecimento generalizado. As condições materiais amadurecem para choques sociais de grande magnitude. Embora sua composição tenha se transformado, o proletariado latino-americano não perdeu centralidade: hoje convivem o trabalhador industrial, o precarizado dos serviços, o migrante, a mulher trabalhadora e uma juventude expulsa do futuro.
A pandemia acelerou a informalização e a atomização do trabalho, mas também deu lugar a novas formas de organização. As greves de entregadores no México e no Brasil durante a pandemia —e mais recentemente em outros países—, as paralisações mineiras no Peru e as mobilizações feministas e socioambientais no Chile e na Argentina expressam um ressurgimento da ação de importantes setores, ainda que de forma fragmentada. Diante do que vem pela frente, precisamos desenvolver uma resistência mais profunda, massiva e que permita, ao mesmo tempo, superar a dispersão, no marco da centralidade operária, colocando de pé organismos de luta que abram caminho para direções revolucionárias e unifiquem todos esses processos contra o capital.
A classe trabalhadora enfrenta obstáculos objetivos (precarização estrutural, burocracias sindicais, cooptação estatal) e subjetivos (burocracias sindicais, direções reformistas, crise de representação e de horizonte estratégico em chave revolucionária). Esse foi um dos grandes limites das revoltas ocorridas recentemente.
A situação do “progressismo” latino-americano. O ciclo progressista —que em seu momento se apresentou como alternativa ao neoliberalismo— Lula no Brasil, Andrés Manuel López Obrador e agora Claudia Sheinbaum no México, Gustavo Petro na Colômbia, Gabriel Boric no Chile — chega a 2025 marcado por grandes contradições e por situações diversas.
O México, com uma clara fortaleza da Quarta Transformação, e o Brasil, com a possibilidade de reeleição de Lula, contrastam com a provável chegada da direita na Colômbia após o governo de Petro, ou com o declínio de Boric, que abriu espaço ao direitista José Kast no Chile — ambos países marcados por um crescente desencanto social.
Esses governos, apesar de suas diferentes situações —seja de fortaleza relativa em uns ou de crise em outros—, encontram-se presos entre as pressões do capital financeiro e as expectativas populares. Seu limite estratégico se revela enquanto tentam conciliar políticas redistributivas com a dependência estrutural, o que, no marco da crise internacional, se traduz em um ajuste cada vez menos encoberto. No Brasil, o terceiro governo Lula enfrenta o poder do agronegócio e do Congresso conservador, respondendo com políticas de conciliação. No México, a administração Sheinbaum busca equilibrar-se entre Washington-Pequim e suas promessas de enfrentar o neoliberalismo em um país com cada vez maior poder nas mãos do Exército, cedendo às imposições tarifárias de Trump e convertendo-se em um país funil, que conseguiu conter a passagem migrante rumo aos EUA, figurando entre os governos regionais mais elogiados pela administração Trump como exemplo de “coordenação”. Na Colômbia, Petro esbarra na sabotagem do capital financeiro e das Forças Armadas, enquanto sua agenda de reformas paralisa e os planos capitalistas seguem intactos.
O caso mexicano: “Bem-estar” militarizado, controle territorial e perda de hegemonia do progressismo 4T. No México, Claudia Sheinbaum consolidou o posicionamento estratégico das Forças Armadas, inclusive como administradoras, operadoras, construtoras e supervisoras de vários megaprojeteos e operações associadas aos programas de bem-estar. Sob o argumento de blindagem e segurança, concede-se poder ao Exército em tarefas logísticas, de supervisão e distribuição de recursos, além da entrega de apoios diretos e da operação do Banco do Bem-Estar em zonas rurais, especialmente indígenas. Medidas que permitem ao Estado converter as políticas sociais em um instrumento militar de reorganização e controle territorial em regiões onde se debilitam formas históricas de auto-organização comunitária. A 4T mantém legitimidade entre amplos setores populares, mas o faz apoiando-se em uma presença militar cotidiana que reconfigura a organização social de forma vertical.
Essa tensão é visível em Chiapas, onde a militarização, os programas assistenciais, a degradação socioeconômica e o avanço do crime organizado produziram um processo incipiente de decomposição social, inclusive em territórios previamente vinculados ao zapatismo. Diante disso, o governo reforça um esquema de contenção militar-assistencial que busca administrar a desordem sem transformá-la. A crescente subordinação à política migratória estadunidense converte o sul do México em um espaço de controle geopolítico, onde forças militares e programas sociais atuam como um dique de contenção.
A hegemonia da 4T combina, assim, legitimidade eleitoral e vínculo direto com setores empobrecidos, com uma dependência crescente de mecanismos coercitivos e assistenciais. Isso revela os limites do “progressismo”, que, diante de suas políticas de administração da crise, militarização e subordinação imperialista, abre elementos de desgaste que marcam o horizonte de seu projeto.
Entretanto, ainda que os “progressismos” abram um vazio político pela esquerda que a extrema direita (de Bukele a Milei) tenta ocupar mediante discursos autoritários e anti-establishment, a conversão desse desgaste em uma saída revolucionária não está dada de antemão: depende da emergência de processos de luta e auto-organização desde baixo — comitês, coordenadoras, sindicatos recuperados, movimentos sociais, juvenis e de mulheres — e da construção de organizações revolucionárias com inserção real na classe trabalhadora. Sem esses elementos, o cenário mais provável é a radicalização reacionária ou novas variantes reformistas de administração da crise, não uma saída pela esquerda. Contudo, começam a se acumular forças sociais que poderiam reativar tendências mais radicais caso a crise econômica se aprofunde.
Emergência de novas direitas autoritárias. A ascensão da direita e da ultradireita na América Latina não é um fenômeno isolado. Responde à necessidade do imperialismo de garantir o disciplinamento social e o ajuste estrutural por meio de governos fortes, tendências à bonapartização e reconfiguração de alianças e marcos de segurança. Essa estratégia se articula em nível internacional: republicanos nos Estados Unidos, correntes conservadoras europeias e referentes latino-americanos se coordenam em espaços como a Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC), que fornece narrativa ideológica, recursos, legitimidade diplomática e coordenação estratégica. Não se trata de simples coincidências políticas, mas de um bloco transnacional que busca restaurar a ordem neoliberal por vias autoritárias.
Na Argentina, o ultradireitista Javier Milei alinha sua política externa e econômica com Washington e com Israel. Isso fortalece regimes autoritários e seu aparato repressivo, combinando choque de ajuste, privatizações e criminalização do protesto social para impor seus planos. Seu discurso contra a “casta” funciona como cobertura ideológica para a recolonização econômica e busca reconfigurar o senso comum em chave anticomunista e negacionista. Milei se posiciona como peça central do campo reacionário no Cone Sul, ordenando a direita regional e polarizando a situação nacional diante da classe trabalhadora, aposentados, mulheres, juventude e setores mobilizados. Em El Salvador, sob um estado de exceção permanente e com um fortalecimento extraordinário das Forças Armadas, Nayib Bukele consolida um bonapartismo neoliberal autoritário com traços abertamente ditatoriais: concentração de poderes, ausência de independência judicial, suspensão do devido processo, reformas constitucionais e reeleição indefinida. Seu regime funciona como um laboratório de controle social e como exportador de modelo, baseado na militarização do território, no encarceramento massivo e na anulação de direitos. O aparato policial-militar se expande não apenas em volume, mas como núcleo ideológico do regime. Os acordos com o capital financeiro internacional, o endividamento acelerado com o FMI e a subordinação geopolítica a Washington aprofundam a dependência do Estado salvadorenho. A “eficácia” do modelo se sustenta no medo como ferramenta de controle social e em práticas sistemáticas de terrorismo estatal.
No Peru, tanto o novo governo ilegítimo de José Jerí quanto a ditadura cívico-militar de Dina Boluarte buscam estabilizar pela força um regime de guerra contra a classe trabalhadora e os povos indígenas. Massacres no sul andino, repressão seletiva e criminalização generalizada, com o aval da OEA e dos Estados Unidos, asseguram o controle de recursos estratégicos e bloqueiam qualquer saída impulsionada desde baixo pelas maiorias indígenas, camponesas e populares. A combinação de militarização, extrativismo e contrainsurgência se apresenta novamente como sinônimo de “governabilidade”.
Mas essas direitas não têm o caminho livre. A recente derrota de Noboa no referendo também se lê como um revés para Trump, pois uma das perguntas se referia à instalação de bases militares estadunidenses. Por trás das propostas de Noboa havia um desenho estratégico para reconfigurar o Estado em favor de uma linha autoritária, neoliberal e subordinada ao capital externo, buscando conceder poderes reforçados e construir um marco jurídico funcional à lógica da “segurança” militarizada e do neoliberalismo. Seu objetivo era fortalecer a governabilidade a serviço do FMI e do imperialismo, mas sofreu um duro revés.
Na Bolívia, após o colapso do evismo e a implosão do MAS, chega ao governo a direita de Rodrigo Paz e Edmand Lara, sob a bandeira de uma restauração reacionária respaldada pelo capital. Sua agenda busca desmontar conquistas sociais, abrir territórios ao saque transnacional e reconfigurar o Estado em chave conservadora e subordinada ao imperialismo. Embora represente um novo pilar para as direitas continentais, a correlação de forças no país ainda não está definida.
No Chile, a direita está prestes a voltar ao governo com Antonio Kast. Mas, como apontam nossos companheiros do Chile sobre o avanço da ultradireita e a reconfiguração do mapa político: “Foi um triunfo eleitoral claro da direita, mas quem vê um triunfo estratégico está equivocado. O resultado, com a emergência da extrema direita, o desgaste do ‘progressismo’ e um novo mapa político com polarização atenuada e inclinada para o campo conservador, se desenvolve em uma crise orgânica ou de hegemonia em que nenhuma força social ou política das classes dominantes possui um projeto que concite respaldo orgânico nem de toda sua classe, muito menos da maioria das classes trabalhadoras e populares.”
Onde essas direitas encontram resistência, não conseguem se estabilizar. Este é o panorama observável no Equador, Peru e Argentina, onde se desenvolvem fortes enfrentamentos e até paralisações nacionais, para além de seus últimos suspiros eleitorais. A dinâmica de governos como o de Bukele em El Salvador —cuja força reside na passividade e no refluxo do movimento de massas, além da militarização extrema— não constitui a norma.
Em conjunto, essas direitas autoritárias funcionam como agentes internos da ofensiva imperialista: garantem ajuste e ordem, possibilitam a abertura ilimitada de territórios aos capitais transnacionais e desmantelam direitos laborais, democráticos e sociais, ao mesmo tempo que perseguem trabalhadores, juventudes e povos originários. Sua função estratégica é evidente: restaurar o projeto neoliberal pela força e bloquear qualquer perspectiva de saída pela esquerda.
América Latina politicamente instável e socialmente explosiva. A América Latina se apresenta como uma região estratégica por seus recursos naturais e sua posição geopolítica, atravessada por uma combinação explosiva de instabilidade política e tensões sociais acumuladas. Para o imperialismo estadunidense, continua sendo um espaço vital para sua sobrevivência econômica e militar; para a China, constitui uma reserva fundamental de matérias-primas e um mercado de expansão. Para as classes trabalhadoras e os povos oprimidos, o continente converte-se cada vez mais em um terreno de disputa entre subordinação e emancipação.
Luta de classes, resistências e novas subjetividades. A etapa aberta com o segundo mandato de Trump e a ofensiva imperialista sobre a região não produziu passividade social. Sob o disciplinamento neoliberal e a fragmentação imposta pelo ajuste, emerge uma reativação da questão social. A inflação, a precarização e o aumento do custo de vida podem gerar protestos e uma nova disposição combativa. Em um continente marcado por desigualdades extremas, as elites financeiras acumulam ganhos extraordinários enquanto o salário real regional caiu 8% entre 2020 e 2024 (OIT). O ajuste fiscal, as privatizações e a repressão, em sintonia com a “receita Trump-FMI”, consolidam-se como políticas estruturais.
A classe trabalhadora latino-americana e sua composição. Longe de desaparecer, o proletariado se transforma em sua composição e em suas formas de luta. A desindustrialização, a terceirização e a expansão da informalidade modificaram sua morfologia, mas não seu lugar estratégico. Embora com realidades heterogêneas segundo os países, na região como um todo convivem o trabalhador industrial automotivo, minerador ou petroleiro, com o operário de plataforma, a trabalhadora de cuidados, o camponês assalariado, o migrante precarizado e a juventude excluída do emprego formal. Essa heterogeneidade, ainda que seja um obstáculo em si, contém um potencial estratégico decisivo: a unidade dos explorados dispersos em torno de demandas comuns. A inserção operária nos nós logísticos e extrativos do capitalismo mundial confere um poder real. O desafio é político: transformar essa força social em sujeito consciente.
Feminismo, juventude e novas subjetividades. A última década foi marcada pela irrupção de movimentos feministas e juvenis que redefiniram a linguagem do protesto. Desde o Ni Una Menos e as marés verdes até as mobilizações chilenas e mexicanas, o feminismo tornou-se um ponto de convergência entre classe, gênero e raça. As mulheres trabalhadoras, migrantes e jovens ocupam as primeiras linhas em contextos de ajuste e violência estatal. Não se trata de um feminismo institucional: a dupla exploração e a violência patriarcal são pilares do capitalismo dependente, o que coloca a necessidade de um feminismo socialista articulado com a luta de classes.
Em paralelo, a juventude precarizada emerge com força. A ausência de futuro, a crise educacional e a repressão policial alimentam uma subjetividade marcada pela raiva e pela ruptura com os partidos tradicionais. Do Chile e Colômbia ao México e Argentina, expressa-se uma radicalidade espontânea, horizontal e aberta à politização anticapitalista: já não apenas por direitos, mas contra o não-futuro imposto pelo capital.
A crise climática e o extrativismo atuam como detonantes de novas resistências, articulando-se com as lutas juvenis e populares. Os povos originários e comunidades rurais protagonizam conflitos por território, água e minerais: a CONAIE frente a Noboa no Equador; as rebeliões aimaras e quéchuas no sul peruano; os povos amazônicos contra o agronegócio e as petroleiras no Brasil. Essas lutas combinam defesa ambiental, autodeterminação e questionamento do modelo de desenvolvimento capitalista. Sua radicalidade não provém apenas do conteúdo ecológico, mas da crítica prática à propriedade privada da natureza.
Lutas ambientais, classe trabalhadora e povos originários. A crise climática e o extrativismo tornaram-se catalisadores de novas resistências. Os povos originários e as comunidades rurais estão no centro dos conflitos por território, água e minerais. No Equador, o movimento indígena liderado pela CONAIE enfrentou as políticas de Noboa; no Peru, as comunidades aimaras e quéchuas lideraram a rebelião do sul andino; no Brasil, os povos amazônicos resistem ao agronegócio e às petroleiras. Ainda que estejamos longe das grandes mobilizações vividas na América Latina — como quando vimos ações de luta de povos originários de outra envergadura, como as grandes mobilizações no início dos anos 2000 no Equador que derrubavam governos, na própria Bolívia no marco da ascensão do MAS ao poder, e até antes disso, ainda que com características específicas, como em Chiapas, no México — diante da tentativa de cooptação do “capitalismo verde” por parte das potências e organismos internacionais — incluindo setores “progressistas” do capital — os movimentos mais avançados levantam a consigna: “não há transição ecológica sem revolução social”, conectando a luta ecológica com a perspectiva anti-imperialista e anticapitalista.
Migração, racismo e internacionalização da luta. A ofensiva imperialista de Trump reativou políticas abertamente xenófobas contra os povos latino-americanos: endurecimento migratório, deportações em massa e externalização de fronteiras. México, Guatemala e Panamá funcionam como zonas de contenção onde o migrante é criminalizado para satisfazer as demandas de Washington. No entanto, a migração também produz uma internacionalização inédita do proletariado latino-americano. Milhões de trabalhadores nos Estados Unidos tornam-se uma fração decisiva do proletariado norte-americano, portadora de tradições de luta e de uma identidade transnacional. As greves agrícolas na Califórnia ou os protestos nos serviços em Nova York mostram como as lutas transcendem fronteiras, reabrindo a vigência prática do internacionalismo proletário.
Burocracias sindicais e de movimentos sociais. Um dos principais obstáculos para que essas resistências se convertam em força revolucionária é o peso das burocracias sindicais e das direções reformistas. Em quase todos os países, esses aparelhos funcionam como mediadores do Estado, amortecendo a luta de classes e bloqueando a independência política da classe trabalhadora. Contudo, começam a surgir coordenadoras combativas, sindicatos alternativos e assembleias intersetoriais que buscam novas representações. Coloca-se a necessidade de impulsionar programas de independência de classe e auto-organização.
A subjetividade da classe trabalhadora. Em meio à crise, pode perfilar-se uma nova subjetividade política; em alguns países, desenvolve-se uma tendência à desconfiança em relação aos partidos tradicionais, ao rechaço ao regime e à busca de alternativas pela esquerda. Não se trata ainda de uma tendência de conjunto, mas sim de elementos de uma mudança no clima ideológico. Isso ocorre no marco em que se desenvolvem lutas nas quais a questão é como superar suas direções, que travam seu avanço com propostas frentepopulistas ou limitadas a reformas, sem questionar de fundo a ordem social que torna possível a dominação do capital. Esses elementos e as lutas que precisamos travar podem tender a confluir com tradições socialistas e anticapitalistas. A recomposição subjetiva pode avançar a partir da experiência direta e pode ser potencializada pela intervenção da esquerda revolucionária, que é o que apostamos desde a FT-CI.
Potencial e limites do novo ciclo de lutas. O balanço da luta de classes em 2025 mostra uma situação desigual e combinada: conflitividade na Argentina, Peru e Equador, e estabilidade tensa no Brasil e México. A ofensiva imperialista de Trump pode atuar como catalisador de uma nova onda anti-imperialista, como ocorreu com Reagan nos anos 80, mas num contexto mais urbanizado, proletarizado e com experiência acumulada de mobilização. As condições objetivas para um novo ciclo revolucionário amadurecem, mas seu desenvolvimento dependerá de que a energia social dispersa se transforme em organização independente, auto-organização e numa direção revolucionária capaz de responder à magnitude do momento.
Perspectivas e tarefas estratégicas, anti-imperialismo e independência de classeA segunda presidência de Trump não inaugura um ciclo estável; ao contrário, marca um momento de ruptura ou giro dentro da crise orgânica do capitalismo global. A ofensiva imperialista sobre a América Latina reflete uma hegemonia em declínio que busca reafirmar-se mediante a coerção e a subordinação dos Estados regionais. Nesse contexto, como afirmamos no início, a região volta a ocupar um lugar central na estratégia mundial do capital: fornecedora de recursos estratégicos, território de investimento e fronteira de contenção social. Mas é importante alertar e denunciar as “alternativas” multilaterais que, como a China, alguns setores levantam como saída ou contrapeso à ofensiva dos Estados Unidos.
De nossa perspectiva, a América Latina encontra-se numa fase em que se acumulam contradições e amadurecem as condições objetivas para processos políticos agudos de luta de classes, embora sua dinâmica em chave progressiva dependa da capacidade da classe trabalhadora e dos setores explorados de se organizarem de maneira independente e construir uma direção política revolucionária, rompendo os ciclos que vimos vivendo nas últimas décadas.
Na atual situação que enfrentamos na América Latina, com uma escalada cada vez maior da agressão imperialista que inclui até o cerco e a ameaça militar que não víamos há décadas, as bandeiras do anti-imperialismo ganham cada vez mais força, sendo uma questão central de nosso programa. O nível de agressividade militar que presenciamos contra a Venezuela, com constantes mudanças bruscas, coloca esse país no foco de nossa luta anti-imperialista. Uma luta entrelaçada — como vimos realizando junto aos nossos camaradas dos Estados Unidos — com a batalha pela unidade da classe trabalhadora do país imperialista e da América Latina. Por isso, desde as organizações que compõem a Fração Trotskista – Quarta Internacional (FT-CI), viemos levantando com força a denúncia da agressão imperialista na Venezuela e chamamos as organizações sindicais, movimentos sociais e partidos de esquerda a uma grande campanha continental para derrotar essa nova investida imperialista.
Mas entendemos nosso anti-imperialismo a partir da teoria da Revolução Permanente, sem ceder às variantes nacionalistas burguesas hoje mais do que degradadas, ou às políticas de conciliação das correntes reformistas e stalinistas recicladas que tomam corpo diante da agressão imperialista. Essa discussão não é abstrata: atualmente, deparamo-nos com correntes que defendem que não se deve criticar o governo de Maduro diante da atual agressão imperialista, nem levantar medidas que afetem os interesses imperialistas em nossos países em chave do programa de transição.
A conjuntura latino-americana está marcada por uma polarização cada vez maior. Os governos de Lula, Petro, Boric ou Sheinbaum, em suas distintas situações políticas, representam tentativas de administrar o capitalismo dependente com um discurso inclusivo por meio de estratégias de negociação das migalhas dentro da ordem imperialista. No outro polo, figuras como Milei, Noboa ou Bukele encarnam a ofensiva do capital financeiro e o autoritarismo pósliberal de uma extrema-direita reacionária. Ambos os polos são complementares: o fracasso do “progressismo” alimenta a reação — como vimos na primeira onda, com Hugo Chávez, Néstor Kirchner e Evo Morales — e a reação legitima o “progressismo” como “mal menor”. O resultado é uma oscilação sem saída que mantém as massas presas entre frustração e medo. A tarefa é romper essa falsa dicotomia: nem restauração neoliberal nem “progressismo” impotente, mas independência política da classe trabalhadora.
Diante desse cenário, a única perspectiva coerentemente anti-imperialista e anticapitalista é a independência de classe. Isso se demonstra mais uma vez no silêncio cúmplice das formações e governos progressistas: do peronismo na Argentina ao próprio Lula no Brasil, que afirma ter tido recentemente uma conversa “muito positiva” com Trump e que vem de declarar que o presidente norte-americano está “plenamente disposto” a cooperar com o Brasil na luta contra o narcotráfico — reforçando a desculpa dos Estados Unidos para avançar em sua agressão contra a Venezuela. A experiência histórica, das frentes populares ao ciclo “progressista” recente, demonstra que toda subordinação da classe trabalhadora à burguesia nacional leva à desmobilização e à derrota. Sem independência política, a resistência se dilui na administração da ordem; com independência de classe, pode transformar-se numa força estratégica capaz de abrir um caminho para a emancipação revolucionária.
Conquistar frações revolucionárias no movimento operário, estudantil, de mulheres e ambientalista, que levantem a unidade das causas dos diversos setores da classe trabalhadora (ocupados, desempregados, precarizados etc.) e a unidade das aspirações e demandas da classe trabalhadora com as de outros setores oprimidos e explorados sob o capitalismo. Uma luta indissociavelmente ligada à construção de partidos revolucionários internacionalistas e à tarefa de colocar de pé organismos de autodeterminação das massas que abram caminho a governos da classe trabalhadora e dos explorados em ruptura com o capitalismo e em transição ao socialismo. Isso na perspectiva dos Estados Unidos Socialistas da América Latina e do Caribe.