Zurda. Assim os grandes empresários, capitalistas e representantes políticos da ditadura argentina bem como Milei se referem aos militantes de esquerda e aos socialistas. Em uma Argentina dominada pelo FMI e pela extrema-direita, o fortalecimento de zurdas e zurdos tem importância continental. É nesse contexto que Myriam Bregman, advogada de direitos humanos conhecida pela condenação de torturadores da ditadura militar, parte do movimento Ni Una Menos e deputada federal, ressignifica esse insulto transformando “zurda” em orgulho, publicando na Argentina relatos sobre a militância neste país e seus contornos internacionais.
Em uma conversa franca com o leitor, Myriam enfrenta a resignação, a submissão e o conformismo criados pela política de conciliação, subvertendo também sentidos comuns para revelar a força da militância de esquerda. Entre memórias, encontros, conversas, reuniões, piquetes e manifestações, vemos se desenvolver uma militância que não apenas resiste, mas propõe novos paradigmas. Sem rodeios, Myriam chama à destruição do capitalismo, enfrentando não só os ataques de uma ultradireita fortalecida em seu país, mas também os caminhos moderados: o caminho daqueles que querem negociar nossos direitos e dar um rosto humano a um sistema de opressão e exploração. Estes foram os mesmos que diante do crescimento e fortalecimento de Myriam Bregman diziam que o caminho era “moderar”. Myriam, ao contrário, junto com o Partido dos Trabalhadores Socialistas (PTS) esteve sempre nas ruas, nas lutas, nas fábricas em um tipo de militância que se destaca a nível internacional. Por isso, em um ato pelo Dia Internacional de Luta dos Trabalhadores, sintetizou: moderada nunca. Essa ideia estampamos na capa da edição brasileira para traduzir o sentido de Zurda.
Quando o mundo se vê diante da decadência da Era Trump, de guerras imperialistas e de saques colonialistas contra os povos oprimidos, resgatar o sentido radical da luta anticapitalista torna-se urgente. E quando no Brasil a destruição do meio ambiente e a entrega das riquezas naturais se aceleram, quando o racismo e a violência policial atingem níveis dramáticos é preciso olhar para nossa história, em vários países, e ver que não começamos do zero. Nestas páginas, encontramos um sentido de coletividade militante que também nos permite pensar as memórias do futuro. Não é um livro para ficar nas prateleiras; é um livro que nos convoca à luta cotidiana. Em um momento em que Myriam e o PTS expressam um forte fenômeno na esquerda argentina, simbolizando uma esquerda militante que levanta as bandeiras anticapitalistas e recusa o caminho da conciliação, conhecer essa trajetória amplia nossas possibilidades.
Por isso, a edição brasileira de Zurda, Moderada nunca, tem um sentido especial. Não apenas como um chamado à militância, mas também por abrir um novo horizonte para todas e todos aqueles que lutam no Brasil: um caminho que não seja o da subordinação e do conformismo. Em suas palavras, um caminho para liberar a capacidade de projetar outra vida, outra sociedade, outras relações. Um caminho para lutar pelo socialismo. Diana assunção São Paulo, agosto de 2026.