E justamente porque esse combate precisa ser levado a sério, seria um erro enorme procurar explicações fáceis para o que aconteceu. Não basta atribuir o resultado às fake news, às redes sociais, ao conservadorismo da população, muitas vezes culpando a população por supostamente não saber votar. É preciso explicar como, quatro anos depois da derrota de Jair Bolsonaro, depois do 8 de janeiro, da inelegibilidade e sua posterior prisão, das investigações, dos escândalos que atingiram o bolsonarismo e de quatro anos de um governo eleito sob a promessa de “reconstruir a democracia” e trazer esperança, a extrema direita chega ao final desse processo não mais fraca, mas capaz de obter mais de 56 milhões de votos e terminar o primeiro turno na frente de Lula. Repetimos, com Jair Bolsonaro preso, ao invés de uma extrema direita derrotada, ela está fortalecida.
É impossível responder a essa pergunta sem fazer um balanço da Frente Ampla. E isso não significa igualar a Frente Ampla com a grotesca política bolsonarista, mas sim demonstrar como sua política contribuiu para o fortalecimento do clã Bolsonaro e de seus aliados. A principal justificativa histórica da Frente Ampla, incluindo inimigos históricos da classe trabalhadora, era precisamente a necessidade de derrotar e conter a extrema direita. E agora está claro que esse objetivo fracassou completamente. A conciliação com a chamada “direita tradicional”, com o grande empresariado, com o agronegócio e com as instituições de um regime profundamente degradado não isolou socialmente o bolsonarismo. Ao contrário, preservou grande parte das condições materiais, políticas e sociais sobre as quais ele pôde continuar crescendo.
O choque que muitos trabalhadores e jovens estão sentindo com este resultado tem a ver também com este balanço da Frente Ampla. Isso porque a ilusão de que “se aliar com tudo e com todos” para barrar a extrema direita está se mostrando com o resultado dessas eleições um fracasso. Este fracasso foi combinado a construção de uma passividade milimetricamente pensada pela Frente Ampla: a ideia de que a derrota da extrema direita viria por essas alianças e pelas instituições do regime e não pela luta organizada dos trabalhadores. Nesses anos ocorreram diversas lutas, mas todas as lutas foram contidas, divididas, esvaziadas, se apoiando no peso histórico do PT nos sindicatos e com o discurso ameaçador de que qualquer luta mais séria vinda das ruas favoreceria a extrema direita.
É nesse sentido que o resultado eleitoral confirma tendências que vínhamos discutindo há bastante tempo quando levantamos a hipótese de um fim de ciclo dos governos petistas e caracterizamos o terceiro governo Lula como expressão do que chamamos lulismo senil em um regime degradado, que agora está mostrando um grau de putrefação. Não utilizávamos essa definição como referência à idade biológica de Lula, mas para caracterizar a tentativa de restaurar uma forma de hegemonia construída em outro momento histórico, quando existiam condições econômicas, sociais e políticas muito diferentes. Assim, o terceiro mandato tentou reconstruir o velho mecanismo lulista de conciliação em uma sociedade transformada pelo golpe institucional de 2016, os governos Temer e Bolsonaro, a pandemia e uma década de deterioração das condições de vida.
O problema fundamental da Frente Ampla apareceu justamente aí. Lula voltou à presidência prometendo reconstruir o país depois de Bolsonaro, mas a tradução disso significava administrar o regime político e colocar em banho-maria a obra econômica e social produzida desde o golpe institucional de 2016, acordando antes mesmo do governo começar, tudo com a FIESP, Febraban e Biden. As grandes contrarreformas permaneceram essencialmente de pé. A reforma trabalhista não foi revogada. A terceirização irrestrita continuou existindo. As privatizações não foram revertidas em seu conjunto. A estrutura regressiva construída nos anos anteriores foi preservada e o próprio governo acrescentou a ela o Arcabouço Fiscal, subordinando novamente as necessidades sociais ao garrote imposto pelos interesses do capital financeiro.
Isso significa que o problema não pode ser reduzido aos erros eleitorais de Lula nem às escolhas de sua campanha. Há uma questão mais profunda. As relações sociais que produziram Bolsonaro não desapareceram com sua derrota eleitoral em 2022. Como apontou Myriam Bregman em entrevista, “derrotar alguém eleitoralmente não significa derrotar o poder da extrema direita”. O trabalho precarizado continuou avançando, milhões permaneceram submetidos a jornadas extenuantes, o endividamento passou a organizar a vida cotidiana de enormes parcelas da população, os serviços públicos continuaram deteriorados e a riqueza permaneceu extraordinariamente concentrada. A misoginia seguiu se alastrando, com o feminicídio batendo recordes. O poder econômico e político do agronegócio, dos bancos, das grandes empresas, das igrejas conservadoras e das forças repressivas não foi desmontado. Em muitos casos foi acomodado dentro da própria coalizão do governo, inclusive compondo ministérios com Republicanos de Tarcísio de Freitas, além de União Brasil, PP.
A aposta estratégica do lulismo foi que seria possível administrar essas contradições, oferecer determinadas concessões sociais e, ao mesmo tempo, reconstruir a estabilidade do regime por meio de um grande acordo que fosse de setores da esquerda a frações da direita. Geraldo Alckmin talvez seja a imagem mais acabada dessa estratégia. O resultado histórico dessa política está agora diante de nós. A extrema direita não só não desapareceu como se fortaleceu e chegou ao primeiro turno de 2026 com mais votos que o próprio governo.
Talvez nenhuma questão expresse de maneira tão concreta esse problema quanto a luta pelo fim da escala 6x1. Essa é uma demanda que conquistou enorme apoio popular e que poderia ter organizado uma polarização social em torno de uma questão elementar da vida de milhões de trabalhadores, o direito de trabalhar menos e ter tempo para viver. Era justamente uma pauta capaz de deslocar o terreno sobre o qual a extrema direita constrói sua força, entrando inclusive em parte significativa do seu eleitorado. De um lado, uma ampla maioria social favorável à redução da jornada. Do outro, grandes empresários e uma extrema direita que defendem que os trabalhadores entreguem ainda mais tempo de suas vidas ao trabalho. Ou seja, nesse embate havia a possibilidade real de colocar a extrema direita na defensiva e demonstrar diante de milhões quais interesses de classe ela representa.
Mas transformar essa simpatia social em uma mudança efetiva na correlação de forças exigia algo completamente diferente da política levada à frente pelo governo. Exigia organizar essa maioria, convocá-la às ruas, levar a luta aos locais de trabalho, às escolas e universidades e fazer do fim da 6x1 uma grande batalha nacional. Mas o governo preferiu institucionalizar a demanda e submetê-la às negociações com a Câmara e o Senado. Para isso, as direções das grandes centrais sindicais e da UNE, por sua vez, não colocaram sua força a serviço da construção de um movimento nacional de massas capaz de impor essa reivindicação. O caminho permaneceu fundamentalmente institucional, justamente quando uma mobilização dessa dimensão poderia alterar a relação de forças e produzir uma experiência concreta de milhões de pessoas enfrentando os empresários e a direita por seus próprios interesses. E agora, com o resultado das urnas, sua aprovação está totalmente questionada. Aquilo que poderia ter sido um golpe político contra a extrema direita foi subordinado, mais uma vez, aos limites da conciliação de classes. E porque não levaram adiante esse enfrentamento? Porque isso significa um questionamento ao próprio sentido de existência da Frente Ampla atrelada a distintos setores do capital e do grande empresariado.
Por isso, dizer que a Frente Ampla fracassou não significa diminuir em um milímetro a necessidade de enfrentar Bolsonaro. Significa exatamente o contrário. Significa tirar as conclusões de quatro anos nos quais se tentou derrotar a extrema direita preservando as relações sociais, econômicas e institucionais que continuamente a reproduzem e por isso a fortalecem. A Frente Ampla, com ajuda de setores da esquerda institucional, conseguiu disseminar a ideia de que é necessário abrir mão das pautas históricas dos trabalhadores para garantir a governabilidade. Disseminou a ideia e o medo de que se não se votasse no “mal menor” se aliando com a direita tradicional então o “mal maior” chegaria ao poder - inclusive, que até mesmo criticar a Frente Ampla e suas alianças era fazer o jogo da direita.
E o que está se expressando agora é justamente que “de mal menor em mal menor” chegamos a um grande fortalecimento do “mal maior” bolsonarista. Se o bolsonarismo conseguiu sobreviver à derrota de 2022, ao 8 de janeiro e à prisão de Jair Bolsonaro e reaparecer quatro anos depois com tamanha força eleitoral, então a explicação não pode estar apenas na capacidade da extrema direita de reorganizar suas próprias forças. Como dissemos, é preciso procurar também nas condições que permitiram que ela voltasse a encontrar uma audiência de massas.
A extrema direita não será derrotada administrando melhor a mesma sociedade que a produziu. Seu crescimento se alimenta das frustrações, do ressentimento e da degradação social produzidos por um capitalismo brasileiro cada vez mais selvagem, financeirizado e precarizado. Enquanto essas relações permanecerem intactas, haverá terreno para que forças reacionárias transformem o desespero social em ódio contra os de baixo e apresentem como rebeldia ou “desejo de mudança” aquilo que não passa da defesa brutal dos interesses dos de cima.
O primeiro turno de 2026 coloca, portanto, uma discussão muito maior e mais profunda. Em 2022 nós buscamos começar essa discussão, enfatizando que a construção de um caminho independente não pode estar colocado no futuro, que cedo ou tarde essas contradições iriam se expressar. E o que está em curso agora é uma transformação do regime, talvez o último respiro do regime de 1988, tendo Lula como um dos seus últimos elos. Quatro anos depois, a promessa de que uma ampla conciliação com setores das classes dominantes seria o caminho para derrotar a extrema direita terminou com a extrema direita alcançando uma força eleitoral ainda maior. Combater Flávio Bolsonaro e a ingerência de Trump é uma tarefa imediata. Mas fazer isso sem compreender por que chegamos até aqui seria preparar as condições para repetir, uma vez mais, o mesmo caminho que nos trouxe até aqui. O caminho da moderação e da conciliação colocou um país em uma das esquinas perigosas da história. Daqui pra frente é preciso retomar um programa que apresente soluções reais para as condições de vida das massas, em um combate sem tréguas a toda a extrema direita e ao capitalismo.
A crise para o PT que significa o resultado eleitoral, o fato do PSOL não superar a cláusula de barreira, e que os setores à esquerda como UP, PSTU e PCB tenham tido votações tão baixas, colocam a necessidade dessa reflexão e debate mais estratégico de como reorganizar a esquerda brasileira em um sentido revolucionário capaz de ganhar setores amplos da vanguarda e impactar na realidade política nacional, como vemos hoje que é possível na esquerda argentina, com o crescimento do PTS e da Myriam Bregman como referência.
Essa luta precisa começar agora, e para essa tarefa é preciso unificar todos aqueles que querem construir um pólo combativo, passando por setores da esquerda do PSOL, passando por organizações que se colocaram como independentes da Frente Ampla, como o PSTU, até setores da oposição da UNE, como a UP. Mas para além das organizações é preciso chegar aos movimentos reais da classe trabalhadora e dos movimentos sociais, como os indígenas que se enfrentaram contra a privatização dos rios do baixo Tapajós, aos milhares de entregadores que seguem lutando contra as plataformas, milhares da educação que levantaram sua cabeça para lutar contra ataques de diferentes governos estaduais, mas também do governo federal, e mesmo em greves recentes como em bancários e nos Correios. A superação pela esquerda do PT é uma tarefa urgente, que diz respeito não apenas aos próximos 20 dias, mas também aos próximos anos.