O que expressa a virada histórica que elegeu Lula?
O segundo turno das eleições presidenciais de 2026 certamente entrou para a história. É a primeira vez que o candidato que perdeu no primeiro turno consegue virar no segundo. E foi uma virada expressiva, com Lula recebendo 10,4 milhões de votos a mais do que no primeiro turno e abrindo uma vantagem de cerca de 4 milhões de votos contra seu adversário, Flávio Bolsonaro. O que expressa esse resultado? Proponho aqui uma primeira reflexão.
Vamos aos números
Destrinchando um pouco mais os números da votação, vemos que no Nordeste, onde Lula já havia ganho no primeiro turno, concentrou 2,96 milhões dos novos votos que o atual presidente recebeu no segundo turno, somando os nove estados da macrorregião. O único estado do país em que Lula virou a votação foi Minas Gerais, com 50,43% dos votos, que mais uma vez se mostrou o estado “espelho” do país, onde quem ganha é eleito presidente. Foram cerca de 600 mil votos a mais que Lula recebeu neste estado.
Mas os números mais chamativos estão justamente nas regiões onde Flávio Bolsonaro teve maioria de votos.
São Paulo foi o estado em que Lula mais teve aumento de votos em números absolutos, mesmo sendo governado por Tarcísio. No primeiro turno, Lula teve 9.505.413 votos (38,20%) no estado e recebeu 12.119.274 (46,15%), um aumento de 2.613.861 votos, no segundo turno, contra 1,2 milhões de votos a mais para Flávio, que lhe asseguraram a vitória. Na capital paulista, assim como em 5 das 7 cidades do ABC paulista, Lula teve uma vitória contundente.
O Rio de Janeiro, reduto eleitoral de Flávio, onde ele também venceu a votação, a sua vantagem contra Lula caiu de 1,2 milhão de votos para cerca de 600 mil, sendo o estado que ele mais perdeu votos. E mais, na capital Lula virou a votação e ganhou no segundo turno, rompendo o ciclo de vitórias do bolsonarismo na capital fluminense.
Também em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, onde foi eleito o asqueroso Coronel Zucco para o governo do estado, foi a capital que Lula teve a maior porcentagem de votos para Lula fora do Nordeste, com 55,84% dos votos. As abstenções, embora ainda elevadas, em 19,2%, foi o número mais baixo desde o primeiro turno das eleições de 2010.
Esses números ilustram como toda a mobilização de massas que tomou as ruas de São Paulo, do Rio de Janeiro, de Porto Alegre, Belo Horizonte, e tantos outros centros urbanos tidos como “redutos do bolsonarismo”, foram uma força social capaz de contaminar o resultado das urnas em favor da derrota de Flávio Bolsonaro.
O que permitiu a virada?
O primeiro turno das eleições presidenciais que deu favoritismo a Flávio Bolsonaro, além de eleger uma ampla corja de bolsonaristas para compor as cadeiras do Congresso, foi o gatilho que despertou o sentido de urgência em setores da juventude e dos trabalhadores. A "psicose política" tomou a juventude, um termo coloquial que expressou o ânimo e a hiperpolitização desse setor que passou a pensar todos os argumentos, todas as ações e caminhos para combater o bolsonarismo.
Até então, os analistas falavam de uma “apatia” nas eleições, em que nenhum dos dois candidatos conseguiam gerar entusiasmo nas suas bases. Imediatamente após o segundo turno, os secundaristas do RJ saíram às ruas contra Flávio Bolsonaro e contaminaram todo o país a fazer o mesmo, antes mesmo de qualquer canal de Whatsapp do “general” Janones.
O engajamento e a disposição militante despertou energias que vinham sendo contidas durante muito tempo pela promessa da Frente Ampla de que ela, através da aliança entre “esquerda e a direita democrática”, incluindo setores golpistas do STF, como Alexandre de Moraes, iriam isolar o bolsonarismo e derrotá-lo prendendo Jair Bolsonaro. E vale lembrar, as primeiras manifestações começaram a ocorrer de maneira espontânea, antes mesmo de Lula e o PT passarem a convocar.
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Ou seja, a Frente Ampla prometeu durante quatro anos que derrotaria a extrema direita pela via institucional, pedindo paciência e compreensão para os ajustes neoliberais, privatizações e precarização do trabalho avançasse no terceiro mandato de Lula.
Todo o aumento do número de votos, ainda que as eleições sejam sempre uma expressão distorcida da correlação de forças de um país, são um sintoma da capacidade dessa mobilização tocar corações e mentes sobre a necessidade de militar contra a extrema direita. A disposição de milhões de jovens e trabalhadores a pararem tudo e reorganizar a vida para atuar nas redes, a fazer campanha e organizar manifestações, passeatas, aulas públicas, entre outras formas de mobilização, recolocaram o papel ativo das massas no combate à extrema direita, na contramão da moderação conciliadora da Frente Ampla, que viu sua estratégia derrotada no 1º turno.
Viu-se que cada um e cada uma, faz a diferença organizando-se coletivamente nos locais de estudo e trabalho. Claro que a disputa das redes foi parte do ímpeto militante a fazer frente à manipulação da imperialista Meta para favorecer a candidatura de Flávio. Mas tudo mudou quando o enfrentamento ao bolsonarismo tomou carne nas ruas, fazendo emergir de fora do governo e da Frente Ampla um programa de enfrentamento aos capitalistas para responder os problemas reais da população.
Além do caráter eleitoral, a mobilização também manifestava um conjunto de reivindicações populares, destacando a reivindicação do fim da escala 6x1, apoiado por 70 - 80% da população que não aguenta mais perder a vida no trabalho e precarização. O tema tomou o centro do debate político nacional e obrigou o conjunto do regime, inclusive o bolsonarismo, a se reorganizar para aprovar a medida.
Passe livre, defesa do SUS, das Universidades Federais, contra o assassinato à juventude negra, a defesa das terras raras e o enfrentamento ao imperialismo de Trump foram algumas das diversas demandas que passaram a ser discutidas no cotidiano. O aumento da votação de idosos foi sintomático do momento, expressando uma rejeição dessa camada social, de aposentados, a Bolsonaro, sendo Jair o autor da odiosa reforma da previdência que diminui o valor das aposentadorias.
O resultado deste domingo foi produto da mobilização das massas para barrar a extrema direita, que no imediato foi canalizada para o objetivo de reeleger Lula. É necessário que ela se transforme para que também consiga superar a moderação e a paciência imposta pela Frente Ampla, junto às burocracias sindicais e estudantis petistas (CUT e UNE). E para isso, não podemos permitir que nossa mobilização seja revertida em apoio a um governo de conciliação, que tem como estratégia gerir o capitalismo e implementar ajustes neoliberais, mas oferecendo modestas concessões sociais para dar uma cara mais “humana” para a exploração e opressão.
Ao contrário de “governar com as ruas”, o governo Lula e a sua Frente Ampla precisarão aprofundar sua conciliação com os capitalistas, atendendo a sua reivindicação por ajustes, se quiserem seguir gerindo esse regime degradado do golpe institucional.
Não podemos cair na armadilha de apoiar um governo que alimenta os nossos inimigos e contribui para garantir que seus lucros estejam acima das nossas vidas, dos nossos direitos, e acabar nos frustrando quando os ataques vierem. É necessário que essa força social esteja preparada para organizar uma forte mobilização independente para combater possíveis ataques da Frente Ampla e avançar para conquistar cada uma das demandas que ecoaram nas ruas, apostando na nossa organização coletiva, não na boa vontade do governo.
E agora, como seguir?
Foi uma das perguntas mais presentes durante a comemoração de ontem. Dificilmente essa camada que se ativou politicamente, e quer conquistar mais direitos, vai perder o ímpeto facilmente. A sensação de que as muitas noites de sono perdidas não podem ser em vão e que é possível ir por mais, não combina com a necessidade da Frente Ampla de atender ao mercado e impor ajustes fiscais pedindo compreensão de suas bases.
Uma nova geração de jovens despertou para a vida política nesse momento e, junto àqueles que reviveram a experiência da luta, viram que a luta social, a organização coletiva, são possíveis apesar de todo individualismo neoliberal, do empreendedorismo, e que é através dessa via que se pode obter conquistas.
Ao impor o fim da escala 6x1, depois de anos de ofensiva capitalista contra os nossos direitos, essa força social mostrou que é possível reverter tudo que impuseram contra nós desde o golpe de 2016. É possível reverter a reforma trabalhista de Michel Temer e garantir que o fim da escala 6x1 valha para todos os trabalhadores, enfrentando toda a precarização do trabalho que foi mantida e aprofundada através da terceirização, pejotização e informalidade no governo Lula 3. É possível reverter a reforma da previdência de Bolsonaro que faz com que as novas gerações trabalhem até morrer, assim como os cortes ao BPC aprovados no governo Lula, inclusive com votos do PSOL. É possível reverter as privatizações e entrega das nossas riquezas ao imperialismo, a começar com os ajustes neoliberais que tiram do SUS e da educação para pagar a bolsa banqueiro que é a dívida pública.
O que coloca a necessidade dessa mobilização superar a conciliação e a moderação da Frente Ampla, pois ela existe sob a condição de manter o conjunto desse legado do regime do golpe de 2016, do bolsonarismo, que agradam os grandes empresários do país e o imperialismo. A presença do reacionário e neoliberal Geraldo Alckmin é expressão dessa condição. Dizer que nossa mobilização deve servir para apoiar o governo a tomar medidas um pouco mais populares vai na contramão de cultivar a desconfiança na Frente Ampla, que não vai abrir mão do seu propósito de preservar o regime do golpe de 2016, seus agentes e ataques ao povo.
Cada demanda mínima que pode vir a ser concedida pelo governo estará sempre em cheque pela agenda neoliberal e de ajustes que a Frente Ampla se comprometeu a manter e aprofundar. Nesse momento, o Ministro da Fazenda, Dário Durigan, já sinaliza que uma possível proposta do governo é alterar as despesas obrigatórias previstas na constituição. Depois de já ter aprovado o Arcabouço Fiscal, um teto de gastos que atinge o conjunto dos serviços públicos, o governo Lula pode avançar com uma medida que nem mesmo Bolsonaro foi capaz de impor, tudo para seguir governando o estado capitalista.
Por isso que a força social que saiu às ruas precisa se converter em mobilização independente do governo Lula e se enfrentar com a Frente Ampla e seus ataques, lutando pela revogação de todo legado do golpe de 2016. Desenvolver os métodos de organização, se inspirando na radicalização da juventude e trabalhadores da França e outros países da Europa, para promover a autoorganização nos locais de trabalho e estudo contra cada ataque que beneficia os empresários e a extrema direita é fundamental para avançar na conquista de cada um dos direitos que ecoou nas ruas nas últimas semanas.