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Como utilizar a localização da esquerda argentina na situação nacional? Entrevista com Emilio Albamonte

Por Matías Maiello |
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Emilio Albamonte é dirigente e fundador da Fração Trotskista–Quarta Internacional, hoje Corrente Revolução Permanente–Quarta Internacional, e do Partido dos Trabalhadores Socialistas (PTS) da Argentina. É coautor dos livros Estratégia socialista e arte militar e Debates e fundamentos sobre a luta pelo socialismo hoje.

Como você caracteriza o fenômeno político que vem se desenvolvendo em torno de Myriam Bregman e da esquerda? Por que ele ocorre, quais fundamentos tem na realidade política nacional?

A primeira coisa que se deve dizer é que o fenômeno não é essencialmente eleitoral – embora haja várias pesquisas que atribuam entre 9 e 14% de intenção de voto a Myriam como candidata presidencial – mas, sobretudo, de simpatia política, ou o que os institutos de pesquisa chamam de “imagem”. Esse fenômeno não pode ser entendido sem partir da luta de classes sob o governo Milei, que incluiu recentemente a batalha contra a reforma trabalhista, no marco da qual fizemos uma enorme campanha de agitação, a maior que eu recorde que uma organização de esquerda tenha feito aqui fora das eleições. A luta contra a reforma foi uma importante experiência. Poderíamos dizer que o fenômeno político que vem se desenvolvendo é uma expressão política das conclusões que setores amplos da classe trabalhadora, da juventude, do movimento feminista, assim como setores da cultura e intelectuais, vêm tirando desses dois anos de luta contra este governo, nos quais se viu Myriam e o PTS na primeira fileira, enquanto boa parte do peronismo e da burocracia sindical sustentavam o equilíbrio que permitiu a Milei avançar.

Um dos dados mais comentados foi o da pesquisa da consultoria brasileira Atlas Intel — a mesma que, em seu momento, antecipou a ascensão de Milei —, na qual Myriam aparece com 47% de imagem positiva e 46% de negativa, sendo a única do arco político argentino com saldo positivo de imagem. Aparece acima de Axel Kicillof, de Cristina Kirchner, de Patricia Bullrich e do próprio Milei. A pesquisa da Universidade de San Andrés também mostra Myriam entre as quatro dirigentes com melhor imagem positiva do país. Mas não são só as pesquisas, não?

Não, o que se reflete nas pesquisas nós já víamos nas ruas com a simpatia que há bastante tempo despertam Myriam e Nicolás del Caño encabeçando as listas da FITU. Vai além da própria Myriam como referência. Ela é a principal figura emergente de um fenômeno mais amplo. Por exemplo, na pesquisa da Universidade de San Andrés que você mencionava, Nicolás del Caño aparece em quinto lugar entre as figuras políticas opositoras com maior imagem positiva.

O novo disso, embora se trate de medições de “imagem”, é que é um fenômeno nacional. Nós já tínhamos visto que em Jujuy Alejandro Vilca havia obtido 25% para deputado federal em 2021; depois, embora não tenha sido reeleito, manteve uma alta votação de cerca de 10%. Também é preciso mencionar Christian Castillo, Luca Bonfante na juventude, e companheiras e companheiros nossos que são referências em seus locais de trabalho, nas universidades, nas lutas operárias, formando parte do mesmo universo político.

Temos direito de pensar que esse fenômeno – que por outro lado é continuidade do que aconteceu em 2025, quando a lista da Província de Buenos Aires encabeçada por Nicolás del Caño obteve dois deputados federais e Myriam alcançou 9% na Cidade de Buenos Aires – é algo que vai se expressar também na luta de classes.

Como inscrever esse fenômeno no quadro internacional e como definir a particularidade da esquerda na Argentina?

Desde a crise de 2008 vemos fenômenos políticos, não só à direita, mas também à esquerda, embora em sua imensa maioria, infelizmente, tenham terminado sendo canalizados pelo neorreformismo.

Há uma constante que podemos ver na história do movimento operário: muitas vezes, quando não encontra uma saída pela ação direta na luta de classes, se expressa politicamente. Por exemplo, no fim do século XIX, depois da derrota da Comuna de Paris, o movimento operário europeu criou os grandes partidos operários e sindicatos social-democratas. O caso paradigmático foi a social-democracia alemã, que primeiro se desenvolveu como uma enorme organização semiclandestina sob as leis “antisocialistas” de Bismarck. Dick Geary, em um interessante livro sobre os movimentos operários e socialistas na Europa antes de 1914, conta muito bem como a luta contra os patrões por local era duríssima, lockouts, fechamentos de fábricas. Nesse contexto, a organização política também era uma resposta à impossibilidade de avançar com a luta por empresa, à necessidade de lutar de conjunto. É o que Rosa Luxemburgo resumiu dizendo que a luta sindical era uma espécie de trabalho de Sísifo.

A resposta do regime burguês a esse processo de organização – e que teve uma extensão internacional – foi modificar a estrutura política de dominação estatal. Estudamos Gramsci, entre outras coisas, porque foi quem melhor analisou esse processo. A burguesia criou um “Estado ampliado” – o que Gramsci chama de Estado em sua significação integral, de ditadura mais hegemonia – para ir além da espera passiva do consenso e desenvolveu toda uma série de mecanismos para organizá-lo, sendo a estatização das organizações de massas e a expansão de burocracias em seu interior um dos elementos fundamentais, com sua dupla função de “integração” ao Estado e de fragmentação da classe trabalhadora. Esse processo na Argentina teve lugar sob o primeiro peronismo.

Isso não é só histórico. Na última década e meia vimos dezenas de processos de luta de classes generalizados em diversos países do mundo que em sua maioria adotaram a forma de revoltas, assim como processos de mobilização política, essencialmente na juventude (Occupy Wall Street, Indignados no Estado Espanhol, o movimento da Praça Tahrir no Egito, etc.). Há uma relação entre esses movimentos e o desenvolvimento dos fenômenos políticos neorreformistas porque, como dizia antes, quando o movimento operário e popular não encontra saída na ação direta da luta de classes, isso se expressa como ação política. Os neorreformismos tratam justamente de separar a política da luta de classes. Estão os exemplos do Podemos no Estado espanhol, de Jean-Luc Mélenchon na França, de Syriza na Grécia. Algo nesse sentido aconteceu aqui depois das jornadas de dezembro de 2001, onde houve um desvio que partiu da megadesvalorização de Duhalde e terminou capitalizando o kirchnerismo, que estatizou boa parte dos movimentos sociais e de direitos humanos; foi parte de um ciclo pós-neoliberal que se desenvolveu na região desde a Venezuela até a Argentina.

Se tomarmos o período que vai de 2008 até a atualidade, vemos, ao calor dos processos de mobilizações e revoltas, a emergência desses neorreformismos ou “populismos de esquerda” que terminam traindo as expectativas do movimento de massas. Configuram-se processos cíclicos de mobilização e institucionalização, onde a energia despendida pelas revoltas é dissipada ou assimilada pelos poderes instituídos sem dar lugar a novas revoluções.

A particularidade do fenômeno que está se dando na Argentina é que tem como referência a esquerda trotskista. E isso não surge do nada. Há 15 anos a esquerda partidária criou a Frente de Esquerda e dos Trabalhadores - Unidade (FITU) na Argentina para superar uma etapa grupuscular que se deu depois da queda do Muro de Berlim. A FITU é uma conquista na medida em que colocou de pé um polo de independência de classe na situação nacional depois de anos do que foi a explosão do MAS nos anos 90.

O que acontece hoje é, em certo sentido, a culminação de um longo processo. Em 2011 o PTS, o PO e a IS formamos a Frente de Esquerda com um programa que culmina na luta por um governo da classe trabalhadora (antes de o PO aceitar, tínhamos feito uma frente com a IS e o Novo MAS). Nunca antes a esquerda trotskista teve na Argentina uma presença tão continuada na cena nacional. Mas esse exemplo da Frente de Esquerda não pode ser entendido sem o correlato que tem com a luta de classes: por exemplo, os grandes enfrentamentos que houve na Rodovia Panamericana, com lutas como Kraft em 2009, Donnelley e Lear em 2014 sob os governos kirchneristas….

Como se construiu a presença política que o PTS e suas referências políticas têm hoje, que elementos você destacaria?

Há três terrenos que para nós estão articulados: o da luta econômica, o da luta política e o da luta teórica; os três níveis que Engels colocava. Para começar por algum lado, tomemos o momento em que o PTS passa a encabeçar o FITU. Em 2015, depois de o PO se negar a que Nicolás del Caño fosse candidato a vice de Altamira, fomos às eleições internas e del Caño se impôs nas PASO [Primárias Abertas, Simultâneas e Obrigatórias, são as eleições prévias na Argentina]. Esse fato não pode ser entendido sem partir da enorme participação que o PTS teve nas lutas duríssimas que se deram naquela época e em torno das quais emergiu Nicolás del Caño como figura destacada da esquerda. Tampouco sem o lançamento e o desenvolvimento de La Izquierda Diario como o primeiro jornal digital da esquerda utilizando todos os recursos que nos davam naquele momento as novas tecnologias.

Concretamente, em 2014 se deu uma onda de conflitos que mencionava antes, cujo emblema foi a luta na fábrica Lear que golpeava no coração da aliança da burocracia com o governo. O conflito incluiu 21 bloqueios da Rodovia Panamericana, 16 jornadas nacionais de luta com piquetes em todo o país, 5 repressões, duas semanas de lockout patronal e o governo organizando a importação de cabos para quebrar a greve. Também teve lugar em 2014 a ocupação e colocação em produção pelos seus trabalhadores da gráfica Donnelley, a atual Madygraf, seguindo o exemplo de Zanon. Por isso nos causa graça alguns esquerdistas “levianos” que dizem que somos eleitoralistas…

Ao mesmo tempo, em 2014 lançamos La Izquierda Diario, colocamos de pé o primeiro jornal digital da esquerda para ter uma voz própria na cena nacional competindo com os meios da burguesia. Mas não foi apenas uma iniciativa nacional, impulsionamos de conjunto com nossa corrente internacional, a atual Corrente Revolução Permanente – Quarta Internacional. Colocamos de pé uma rede de 14 jornais em 7 idiomas. Uma iniciativa que, infelizmente, até hoje, segue sendo única na esquerda revolucionária a nível internacional. Trago alguns dados que me passaram os companheiros de La Izquierda Diario: hoje LID, só na Argentina, vem tendo cerca de 1 milhão de páginas vistas e mais de 500 mil usuários únicos por mês. No Instagram, LID em fevereiro, por exemplo, chegou a mais de 3 milhões de contas e alcançou 27 milhões de visualizações; no TikTok tem quase 200 mil seguidores e mais de 5 milhões de likes; no X, quase 100 mil seguidores. Além disso temos um programa de rádio, El Círculo Rojo, conduzido por Fernando Rosso em uma rádio comercial (Radio con Vos) que milhares de pessoas escutam todas as semanas; e desde há dois anos criamos LID+ com vários programas semanais de política e cultura, nacionais e internacionais. O canal de YouTube LID+, só no mês de fevereiro deste ano, teve 327 mil reproduções.

Mas não é só isso. Também estão as revistas teóricas como Ideas de Izquierda, onde se abordam e debatem todo tipo de questões teóricas, onde escrevem muitos intelectuais além do PTS, ou a revista mensal ideológica da juventude, Armas da Crítica. Está o CEIP León Trotsky, que é uma referência sobre a obra de Trotsky em toda a América Latina. Colocamos de pé Ediciones IPS, uma editora que conta com mais de 100 títulos, onde publicamos não só os clássicos do marxismo, mas também debates atuais nos mais diversos temas: história do movimento operário, teoria política, ecologia, feminismo, economia, filosofia. Uma das últimas obras publicadas é o livro de Paula Bach, onde aborda todos os principais debates atuais sobre as novas tecnologias.

Não quero seguir para não me alongar demais, mas o conceito que quero ressaltar é que para nós não se trata apenas de referentes políticos, nem só de luta, nem só de agitação política, nem só de luta ideológica, mas de tudo junto. Fugimos do eleitoralismo, do sindicalismo ou do estudantilismo ramplão; o objetivo de tudo isso é muito mais ambicioso: é educar a vanguarda operária e juvenil, é moldar a vanguarda a partir do marxismo revolucionário. Essa é a grande tarefa que temos, com todas as dificuldades que implica desde a queda do Muro de Berlim até aqui. Para nós é justamente isso que começa a ter algum êxito e a mostrar seus frutos agora. É curioso que alguns companheiros intelectuais ou jornalistas, impactados pelo fenômeno de Myriam, deem como novidade que na Argentina a esquerda seja trotskista. Isso não caiu do céu, mas demonstra a enorme vontade revolucionária dos trotskistas de não ceder a todos os que denegriram e denigrem a tradição leninista de construir partido. A frase que costuma ser atribuída ao grande marxista norte-americano Fredric Jameson, de que é mais fácil pensar o fim do mundo do que o fim do capitalismo, penetrou tanto nos cérebros e nas atitudes da esquerda que liquidou a vontade de revolucionar a sociedade e inclusive de construir um partido revolucionário…

Na discussão sobre como aproveitar a nova situação da esquerda vêm participando vários intelectuais e recebemos a carta dos companheiros onde propunham “comitês de luta por um governo dos trabalhadores: Myriam Bregman presidenta”. Em seu discurso no 1º de maio em Ferro, Myriam apresentou a proposta de colocar de pé comitês em todo o país para organizar o apoio que estamos recebendo. Partindo do que Myriam assinalou ali, como você imagina concretamente esses comitês? Que tipo de atividade você acha que deveriam desenvolver?

Eu te digo como imagino, mas como serão efetivamente esses comitês vai depender dos companheiros que venham, das propostas que tragam, de se tivermos êxito em atrair muita gente, das ideias que aportem e da síntese que consigamos. O que vou te dar é, por suposto, uma versão parcial, a que tenho eu e a que temos desde o PTS. É uma primeira resposta, mas depois é preciso ver as discussões que surjam. A síntese do que terminarmos fazendo vai surgir desse intercâmbio com quem se somar aos comitês.

Me parece muito importante que vários intelectuais de esquerda tenham se proposto, diante dessa nova posição, colaborar ativamente com a construção para que a esquerda avance. Com muitos deles estamos discutindo impulsionar os comitês em comum. É um processo que apenas se inicia, são os primeiros passos. Abre-se um período de discussão apaixonante para ver que síntese conseguimos.

Voltando à pergunta. A situação de passividade impulsionada pelo peronismo, pela burocracia sindical, pela burocracia estudantil dos Centros Acadêmicos, etc. é muito grave. Milei se descompõe mas sai todos os dias à ofensiva. Existe o caso da universidade, onde o governo não só se dá ao luxo de não cumprir a lei, mas, pior ainda, anuncia novos cortes. Frente a isso, as diferentes burocracias não fazem assembleias, não impulsionam a organização, mas fazem desfiles pacíficos e ordenados de vez em quando, enquanto os docentes vêm perdendo quase 40% do salário. Essa é a herança da passividade que fortaleceu o kirchnerismo e, sobretudo, a experiência do governo de Alberto Fernández.

Por isso, nossa discussão com cada companheiro ou companheira que venha a um comitê tem que partir daí: explicar o papel dos partidos e das organizações que vêm traindo, e colocar que temos que construir organizações capazes de mudar o ceticismo e a desmoralização que as burocracias criam por instituições próprias que impulsionem a ação direta para barrar Milei. Os comitês que propomos não têm nada a ver com reuniões para esperar as eleições de 2027. Se as pessoas confiam em Myriam Bregman, em Nicolás del Caño, na esquerda e se aproximam dos comitês, nossa tarefa é convencê-las de criar organizações de luta que enlouqueçam o governo e que impeçam as burocracias operárias ou estudantis de trair como estão fazendo, que tornem a vida impossível aos traidores que sustentam os planos de ataque da direita. Ou somos um fermento para criar confiança e desenvolver a mobilização frente aos ataques permanentes do governo, ou não vamos estar nem sequer à altura da posição atual da esquerda. Se se impõe o pacifismo sem ações ou com ações que não mudam a situação de ninguém, é possível que inclusive no eleitoral termine avançando o “mal menor” de qualquer um que prometa tirar Milei.

Isso não quer dizer cair no sectarismo, muito pelo contrário. É preciso aproveitar a nova posição, integrar muitíssimos companheiros e companheiras que estão entusiasmados com a nova posição da esquerda, ainda que a princípio esse apoio o pensem apenas em forma eleitoral. Temos que ser pacientes com eles, mas sem ceder em nossa linha. Os comitês têm que ser tudo menos reuniões de mera propaganda, têm que tomar resoluções concretas de ação. E onde não há lutas abertas, é preciso quebrar a cabeça em cada lugar para pensar que atividade consegue entusiasmar mais companheiros e companheiras; pensar que atividade é capaz de politizar, avançar na organização e mobilizar. Não necessariamente têm que ser atividades de luta em sentido estrito, podem ser de discussão ideológica, podem ser atividades sociais.

Como se articula a perspectiva dos comitês com a proposta de um partido da nova classe trabalhadora?

Uma parte importante da atividade dos comitês acreditamos que deveria ser a discussão de programa e estratégia. Vamos publicar um manifesto onde desenvolvemos alguns eixos que consideramos fundamentais para a discussão de um programa e uma estratégia para fazer avançar a causa da classe trabalhadora. Os comitês, além da ação, têm que dedicar tempo a debater um programa que dê resposta às necessidades da classe trabalhadora, contra a ditadura das grandes empresas e da direita.

Além dos comitês, no PTS começamos a discutir propostas concretas de instâncias de elaboração programática e estratégica nas quais queremos convocar companheiros e companheiras que se proponham a colaborar com isso, começando pelos intelectuais que já vêm sendo parte da discussão sobre como aproveitar a posição da esquerda na situação nacional.

Entre toda essa discussão programática e estratégica e a experiência comum que formos fazendo nos comitês, iremos vendo em que medida confluímos em um partido comum. Essa, para nós, seria a relação da proposta dos comitês com a de um partido da nova classe trabalhadora. O desenvolvimento dos comitês, sua extensão e a prática compartilhada na luta de classes, além da elaboração programática, irá colocando os próximos passos.

No discurso de Myriam foi colocado também outro nível de como aproveitar o fenômeno, ligado ao impulso de distintos níveis de frente único. Você pode comentar um pouco sobre isso e como se articula também com a proposta de comitês?

Claro, a chave, se fazemos tudo o que dizia antes com os comitês, é conduzi-los a frentes únicas que rompam a passividade das organizações burocráticas. Essa é a prova de fogo de um comitê: se serve para impulsionar uma luta concreta e para impulsionar o frente único. Nisso, efetivamente, há diversos níveis.

Um ponto de partida tem a ver com que a vanguarda da classe trabalhadora precisa ter seus centros de gravidade, seus bastiões. Ou seja, lugares com acumulação militante e organização da vanguarda que permitam incidir realmente na relação de forças dentro dos processos políticos e de luta. O exemplo histórico clássico é a fábrica Putilov na revolução russa, a maior concentração de metalúrgicos em Petrogrado, que se transformou em uma fortaleza do Partido Bolchevique e foram decisivos para o triunfo da Revolução de Outubro em 1917. Guardadas as distâncias, sem esse tipo de centros de gravidade — em docentes, no setor da saúde, em setores industriais, na universidade — não há forma de incidir na luta de classes além da propaganda. Por isso damos tanta importância a construir bastiões, e por isso dizemos que os comitês deveriam prestar especial atenção a fortalecer esses lugares.

Um segundo nível são as instituições de frente único: comitês de luta, coordenadoras zonais, assembleias de autoconvocados, mesas de coordenação com agrupamentos sindicais, estudantis, feministas, ambientais, em defesa da deficiência, comunitários, etc. Ou seja, organismos que articulem permanentemente os setores em luta e as organizações políticas da classe trabalhadora. Aqui nos inspiramos na formulação de Trotsky sobre os “comitês de ação”: instituições de unificação e coordenação que evitem que a energia despendida pelo movimento se dilua em combates isolados sem continuidade, e que sirvam de alavanca para explodir a estrutura burocrática que pisa na cabeça do movimento operário e de massas. Ou seja, não se trata apenas de “lutar juntos”, mas de colocar de pé organismos permanentes que passem por cima da burocracia.

Nesse nível estão também os frentes antiburocráticos como a Multicolor, que permitiu ganhar o SUTEBA Matanza e manter Tigre e Bahía; ainda que inclua acordos com correntes mais conciliadoras como a Azul e Branca em Matanza. Há uma grande luta colocada para recuperar os sindicatos, seja por dentro como vimos fazendo em docentes, ou golpeando por fora onde isso não seja possível. Temos que revolucionar os sindicatos para que deixem de ser cascas vazias para a administração das obras sociais; também é preciso recuperar os centros estudantis para que deixem de ser estruturas de serviços de apoio aos decanos.

Um terceiro nível é utilizar tudo isso para lutar efetivamente por impor o frente único operário aos grandes sindicatos ou fazê-los pagar com todo o custo político de sua cumplicidade com o governo. É propriamente a tática que a III Internacional sintetizava na fórmula de “golpear juntos mas marchar separados”. Mas para impor o frente único são necessárias forças. Por isso os três níveis que dizia antes estão totalmente articulados. Os bastiões são o ponto de partida de concentração de forças, as coordenadoras e comitês de ação servem para articular a força da vanguarda e dos setores de massas mais ativos, e essa força é a alavanca para lutar por impor o frente único em cada grande luta, como foi, por exemplo, a luta contra a reforma trabalhista, onde apesar de tudo o que fizemos faltaram forças para impor um frente único capaz de derrotá-la. Sem essa articulação, o fenômeno atual de simpatia que nos chega fica no eleitoralismo, mas com essa articulação podemos transformá-lo em uma alavanca para que a esquerda passe a jogar outro papel na luta de classes.

Em uma entrevista que você fez há alguns meses com Fernando Rosso, você colocava o problema de “criar comunidade”. O que isso implica e por que considera que é uma questão importante hoje?

Na época de Trotsky os revolucionários tinham que disputar os espaços de socialização da própria classe — sindicais, culturais, etc. — que, na maioria dos casos, estavam ocupados pela burocracia sindical e pelos aparelhos social-democratas e stalinistas, que são expressão da ideologia burguesa nas fileiras do proletariado. Agora poderíamos dizer que estamos um passo atrás: as organizações operárias e estudantis estão esvaziadas como instituições de socialização, esses espaços foram substituídos pelas redes sociais, pelas plataformas de streaming, etc., diante das quais a classe trabalhadora está atomizada e colocada, como conjunto de indivíduos isolados, sob a influência constante da ideologia das classes dominantes. Ao mesmo tempo, o capitalismo enraizou a ideia da realização individual através do consumo. Agora bem, hoje o ideal consumista — diferentemente do que poderia acontecer na época do fordismo — se tornou praticamente inalcançável para as maiorias.

Diante deste panorama, colocamos a necessidade de “criar comunidade” sobre a base da enorme potência da cooperação, como força distintiva da classe trabalhadora que move o mundo mas que se encontra expropriada pelo capital. “Criar comunidade” vai desde desenvolver os espaços de sociabilidade até a solidariedade de todo tipo contra a atomização do proletariado que impulsiona toda a ideologia burguesa e a própria burocracia sindical. Quando digo “comunidades” refiro-me também a forjar centros de gravidade para a luta de classes; unindo bastiões que aglutinem docentes, operários industriais, estudantes, etc. Se não damos essa batalha desde os lugares de base, a esquerda vai ter pouco enraizamento. É parte de desenvolver uma cultura crítica da ordem burguesa. Quando colocamos a necessidade de impulsionar coordenações, assembleias de base, instituições de auto-organização, estamos pensando também nisso: lugares onde diferentes setores da classe trabalhadora, da juventude, do movimento estudantil, do movimento feminista, intelectuais, etc. se articulem desde baixo.

O peronismo nunca vai te dizer que é preciso auto-organizar-se e que essa auto-organização vem da cooperação que já existe nos locais de trabalho mas está expropriada pelo capital, e que tem que se transformar em cooperação consciente para que a classe trabalhadora tome em suas mãos os grandes problemas do país. Este é o conteúdo do que dizia Marx de que a libertação dos trabalhadores será obra dos próprios trabalhadores. Se não o fazemos assim, a esquerda vai ser um fenômeno não orgânico, mas puramente conjuntural.

Que lugar ocupa o FIT-U em todo este plano?

Em primeiro lugar, nós sempre fomos promotores do FIT-U e o consideramos, como dizia mais acima, uma conquista política decisiva na medida em que permitiu superar a etapa grupuscular em que a esquerda tinha ficado encerrada produto de uma série de derrotas acumuladas, e terminou constituindo um espaço da esquerda classista na Argentina. Hoje, o quadro político está conformado pela direita – com extrema direita de Milei e o macrismo –, pelo peronismo — uma centro-esquerda tipo Frepaso já não existe — e, contra todo prognóstico, surgiu o que ninguém esperava: um claro setor de esquerda classista. Nesse sentido, valorizamos como muito positivo o desenvolvimento do FIT-U.

Do ponto de vista eleitoral, temos que pensar como integrar companheiros e companheiras que coincidam com o programa para que não seja um reduto fechado dos quatro partidos que hoje o integram, sempre que haja acordos programáticos. No entanto, nossa posição é que o FIT-U, como coalizão de organizações que faz agitação e propaganda de um programa classista e socialista, foi e segue sendo muito positivo, mas não basta. Não podemos nos conformar com uma coalizão de quatro grupos relativamente pequenos, na qual muitas vezes não temos acordo na luta de classes, e que uma vez a cada dois anos fazem agitação política eleitoral. Toda nossa discussão é que a nova posição da esquerda coloca a necessidade tanto de avançar para um partido revolucionário de vanguarda, dando saltos qualitativos nesse terreno, assim como no impulso da luta de classes. E essa é nossa proposta também para o FIT-U.

Há companheiros do FIT-U que nos colocam fazer um congresso da frente como horizonte. Para nós, isso seria marcar passo no mesmo lugar. Ou transformamos a simpatia com nossos referentes em organização — como vimos colocando ao longo desta entrevista —, ou não estaremos à altura de que a esquerda classista possa influir decisivamente sobre a realidade.

Por outro lado, não nos ocorreria pensar a construção de um partido revolucionário na Argentina separado da construção de um partido internacional. Este é um debate muito importante que temos no interior do FIT-U, que inclui ainda diferenças significativas, como por exemplo em torno da guerra na Ucrânia, onde polemizamos publicamente em repetidas oportunidades.

Dentro das discussões sobre como aproveitar a posição atual da esquerda se colocou o debate sobre a hipótese de que a revolução seja conduzida por vários partidos revolucionários simultaneamente. O que você diria sobre esse plano?

Salvador Dalí dizia que era monárquico porque a monarquia era o único regime que resolvia o problema da sucessão. Bem, parafraseando um pouco em tom de brincadeira o que dizia Dalí, podemos dizer que também não houve até hoje nenhuma organização que pudesse cumprir o papel de um partido de vanguarda para dirigir processos revolucionários; um partido que organize os setores mais perspicazes e inteligentes da classe trabalhadora e que se proponha a dirigir milhões. Como assinalava Nahuel Moreno, no século XX, além da experiência russa de um partido leninista regido pelo centralismo democrático, vimos outras organizações do tipo “partido-exército”, burocráticas, que dirigiram processos revolucionários, como na China ou no Vietnã. Mas o que não se viu em nenhum lugar é que se possam resolver sem algum tipo de centralização — burocrática ou democrática — as infinitas tarefas que implicam tomar o poder e organizar um poder revolucionário. Nós, por suposto, defendemos a centralização democrática. Não há revoluções triunfantes que tenham expropriado a burguesia sem partido, simplesmente porque esse problema não se resolve de outro modo. O aparato burguês é um aparato centralizado, e se você não tem uma organização centralizada em frente, ele te destrói. Essa é a questão material que está em jogo.

A Revolução Russa foi dirigida pelo partido bolchevique, que foi justamente o que conseguiu atrair organizações como a Interdistrital de Trotsky e outras frações revolucionárias. E aqui é preciso distinguir dois planos para evitar confusões. Defendemos o pluripartidarismo dentro dos organismos de democracia operária como os sovietes ou conselhos no marco de uma transição revolucionária. Estamos pelo pluripartidarismo porque reconhecemos que há frações de classe que o partido da vanguarda operária não reflete — pensemos, por exemplo, nos social-revolucionários de esquerda, com quem os bolcheviques fizeram uma aliança que se rompeu depois quando estes assassinaram o embaixador alemão. Agora bem, o que não acreditamos é que haja nada que justifique que a vanguarda operária se divida e não forje um grande partido. Aqui me remeto à conclusão que tirava Trotsky na teoria da revolução permanente segundo a qual, a realização da aliança revolucionária só é concebível sob a direção política da vanguarda proletária organizada em partido revolucionário.

Nós estamos propondo um movimento por um partido da nova classe trabalhadora. Quando falamos de partido da classe trabalhadora nos referimos a um partido que reflita seus interesses históricos, não que pretenda representar a classe inteira sociologicamente, isso seria uma ficção absoluta. Isso é assim porque, como dizia Trotsky, as classes são heterogêneas, estão formadas por diversas camadas, umas olham para frente e outras para trás. Por isso, para nós é chave a discussão sobre o programa que esse partido vai ter. Estamos propondo tomar como ponto de partida para o debate o programa do FIT-U, que é um programa de independência de classe que coloca a luta por um governo operário. Então, dentro daquele movimento por um partido da nova classe trabalhadora, nós lutamos para que o partido que surja seja efetivamente o partido da vanguarda da classe trabalhadora em diálogo, buscando influenciar o conjunto da classe tal como ela é hoje, em diálogo com os distintos setores através de organismos de auto-organização, na disputa por recuperar os sindicatos, impulsionando o frente único, lutando em perspectiva por instituições de democracia operária tipo sovietes ou conselhos; um partido que dialogue, organize, influencie e busque dirigir o conjunto.

Queria acrescentar algo mais?

Vamos ver se nas próximas semanas e meses conseguimos que sejam muitos os simpatizantes de Myriam que venham aos comitês, que, como dizia, estamos discutindo impulsionar em comum, já desde o início, com vários companheiros e companheiras, intelectuais, referentes da cultura, etc. O ponto é se podemos abrir uma situação nova para a esquerda, não só de frente ao terreno eleitoral, mas para que a esquerda seja decisiva na luta de classes. Como dizia antes, estas são algumas opiniões minhas e produto de um primeiro intercâmbio que fizemos no PTS; a forma final que tudo isso adquira vai depender muito dos debates que tivermos, das ideias que tragam os companheiros e companheiras que venham aos comitês e das sínteses às quais possamos chegar. Nós apontamos a dar a esses comitês, mais além do eleitoral — que, por suposto, vai ser uma grande tarefa —, um conteúdo revolucionário integral. Creio que se abre uma discussão apaixonante sobre como aproveitar a posição atual para conquistar um peso decisivo, superar o peronismo e sua política de conciliação de classes e abrir uma perspectiva revolucionária.