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Dialética e materialismo emergentista: ontologia, epistemologia e metodologia do metabolismo socionatural

Artigo publicado originalmente em espanhol no Ideaz de Izquierda Argentina, no dia 05/05/2026

Em um artigo recente abordei a questão da dialética na crítica da economia política realizada por Karl Marx, a propósito do lançamento do livro Marxismo y dialéctica. Apuntes y reflexiones, de Juan Dal Maso. Nesta oportunidade, interessa-me discutir como a dialética aparece na abordagem materialista emergentista que propus em meu livro Rojo fuego. Reflexiones comunistas frente a la crisis ecológica. Aqui vou além, colocando a importância que a dialética possui nos planos ontológico (a ideia de como é a realidade), epistemológico (como ela pode ser conhecida) e metodológico (as ferramentas procedimentais para a produção de conhecimento sobre a realidade).

A articulação entre dialética e materialismo emergentista permite integrar, em um mesmo marco, uma ontologia estratificada da realidade, uma epistemologia com pontos de contato com aquilo que hoje se identifica como realismo crítico e uma metodologia para a análise do metabolismo sociedade-natureza sob o capitalismo contemporâneo. Essa articulação, apoiada em contribuições da tradição marxista enriquecidas pela produção teórica ecossocialista mais recente, oferece categorias para pensar a atual crise ecológica sem recair nem em dualismos natureza/sociedade nem em monismos planos que dissolvem a especificidade do social.

1. Ontologia: totalidade material estratificada e emergência

O materialismo emergentista parte da ideia de que o mundo material se constitui como uma totalidade, isto é, não admite a divisão rígida entre sociedade e natureza que caracteriza o pensamento dualista. Mas esse monismo não implica conceber a realidade como uma substância homogênea; não há uma fusão indistinta ou indiferenciada. A unidade natureza-sociedade é pensada como uma totalidade estruturada na qual diferentes formas de organização da matéria — física, biológica, social — exibem propriedades diferenciais. Como sustentava o marxista italiano Antonio Labriola, a sociedade “não deixa de viver na natureza”, mas o faz sobre um “terreno artificial” que se interpôs entre o ser humano e seu entorno imediato [1]. Esse terreno artificial — técnica, artefatos, produção, urbanização — não anula os condicionamentos naturais, mas os modifica e reconfigura. A relação é de continuidade na substância, mas de diferença nas formas de movimento.

O conceito de totalidade estratificada resume essa concepção. O mundo material é descrito como uma estrutura multinível na qual podem ser distinguidos estratos reciprocamente conectados: o físico condiciona o biológico, o biológico condiciona o social, e as configurações sociais retornam sobre suas bases naturais. Nenhum nível é autossuficiente; todos se inscrevem em uma trama de condicionamentos ascendentes e descendentes.

Os níveis ou estratos de emergência são centrais para compreender essa estrutura. Fala-se de emergência quando, a partir de determinadas configurações de processos, aparecem propriedades qualitativamente novas que diferenciam uma parte dentro do todo. A vida emerge de arranjos físico-químicos específicos; a subjetividade, de configurações biológicas dotadas de sistemas nervosos complexos; o social, do desenvolvimento de capacidades biológicas (mão, linguagem, cérebro) por meio de práticas como o trabalho cooperativo. Essas propriedades emergentes dependem dos níveis inferiores, mas não se reduzem às suas leis: instauram regularidades e mecanismos próprios.

Dessa perspectiva, a matéria não é um bloco imutável, mas um processo histórico de auto-organização. A historicidade não se restringe ao social: a própria natureza exibe uma história de formação de níveis, de evolução, coevolução e emergência de novas formas de movimento. Friedrich Engels já havia insistido na necessidade de abandonar visões estáticas da natureza; o emergentismo contemporâneo sistematiza essa intuição: a realidade material é constitutivamente evolutiva, organiza-se em estratos ao longo do tempo, e cada novo estrato introduz uma novidade irredutível.

O social é um estrato diferenciado dentro da unidade material, com propriedades próprias (intencionalidade, normatividade, instituições, economia) que não se encontram em nenhuma outra parte da natureza. A sociedade é composta de natureza — corpos humanos, energia, matéria —, mas a disposição específica desses elementos gera um sistema com leis de movimento que não se deixam reduzir nem à mecânica nem à biologia.

Sobre essa base, a ontologia pode ser caracterizada, como propõe o ecossocialista Andreas Malm em The Progress of This Storm, como um “monismo da substância com dualismo de propriedades” [2]. Existe apenas uma matéria, mas as propriedades que descrevem um elétron, uma célula, um cérebro ou um Estado não pertencem à mesma ordem; distinguem-se por apresentar atributos diferenciados. A densidade, a temperatura ou a carga elétrica caracterizam certos níveis físicos; a homeostase, a reprodução e a seleção natural correspondem ao biológico; o valor, a mais-valia, o Estado ou a classe social designam propriedades emergentes do estrato social.

Essa distinção permite criticar dois desvios simétricos. Por um lado, o dualismo de substâncias, que separa radicalmente natureza e sociedade como ordens incomensuráveis, tornando incompreensível sua interação efetiva. Por outro, o monismo plano de certas correntes ator-rede ou “novos materialistas”, que apagam as diferenças entre o humano e o não humano sob a categoria de “actantes” ou “agências distribuídas”, dissolvendo a especificidade da subjetividade humana e das estruturas sociais. Diante da problemática ecológica, torna-se mais urgente do que nunca esclarecer em que medida a ação humana afeta a possibilidade de funcionamento dos sistemas planetários. Frente a ambas as perspectivas, o materialismo emergentista sustenta que o social é um estrato diferenciado dentro da unidade material, com propriedades próprias (intencionalidade, normatividade, instituições, economia) irredutíveis à mecânica ou à biologia.

Nesse contexto, a noção de agência adquire um lugar central. As perspectivas que distribuem a agência de maneira uniforme em toda a matéria — de vermes a nuvens — sob o critério de “fazer uma diferença” tendem a perder de vista a especificidade da agência humana. Muitas espécies não humanas transformam profundamente seus ecossistemas.

Encontrar alguns elementos que nos permitam falar de uma agência humana que não se encontra no restante da natureza, sem que isso signifique desde já reduzir esta última a um cenário puramente estático, é de fundamental importância para fundamentar uma ecologia social. Como adverte Facundo Nahuel Martín, “a difusão da subjetividade ou da agência a toda a matéria nos expõe ao risco de negar a especificidade da subjetividade humana e da agência intencional na natureza” [3]. Esse tipo de abordagem “pode ser subjetivista demais quando trata da matéria em geral e, ao mesmo tempo, furiosamente antissubjetivista quando se refere à agência e à experiência humanas naquilo que têm de particular” [4]. O que distingue a agência humana é sua intencionalidade e reflexividade, por sua vez mediadas pela linguagem e estruturadas por relações sociais complexas.

Essa agência intencional é uma propriedade emergente natural de ordem superior: não corresponde às partículas básicas nem está presente em toda a matéria, mas surge em estratos muito determinados (sistemas nervosos complexos, trabalho cooperativo, desenvolvimento da linguagem).

Difundir sem mediações subjetividade ou agência a toda a matéria implica o risco de invisibilizar a especificidade da subjetividade humana e de sua agência intencional. Do ponto de vista de uma ecologia social, preservar a distinção entre atos sociais reflexivos e intencionais, por um lado, e eventos fisicamente determinados, por outro, é condição para identificar agentes históricos concretos — classes, frações de capital, Estados — responsáveis pela destruição ecológica.

Com esse pano de fundo ontológico, a dialética aparece como uma abordagem adequada para dar conta de — e operar sobre — uma realidade que é, ao mesmo tempo, uma totalidade, estratificada e em movimento. Totalidade, porque natureza e sociedade formam uma única trama material; estratificada, porque essa trama está organizada em níveis com propriedades emergentes; em movimento, porque atravessa processos históricos de formação, consolidação e dissolução de estratos impulsionados por contradições internas.

A dialética materialista não é um método externo imposto ao objeto, mas uma abordagem necessária para poder expressar conceitualmente a estrutura de uma realidade constituída como totalidade complexa e estratificada. A noção de emergência de níveis — com seus saltos, limiares e fraturas — converge com a concepção dialética da mudança qualitativa, desde que inscrita na totalidade histórico-material concreta.

Em síntese, a realidade que queremos descrever está estruturada em unidades contraditórias, níveis emergentes, coevoluções e processos de transformação qualitativa que nos obrigam a recorrer, para representá-la fielmente, àquilo que, remetendo a Karel Kosík, podemos definir como uma dialética do concreto.

2. Epistemologia: realismo estratificado e crítica dialética

No plano epistemológico, o materialismo emergentista implica supor que: a) o mundo material existe independentemente de nossas teorias e discursos; b) esse mundo material está estruturado em níveis dotados de mecanismos causais específicos; c) a tarefa do conhecimento consiste em identificar esses mecanismos, distinguindo entre fenômenos observáveis e estruturas subjacentes.

Diferentes tipos de mecanismos e causalidades correspondem a diferentes estratos. As leis da termodinâmica, a seleção natural e a dinâmica do valor no capitalismo não são expressões de uma “mesma” causalidade em sentido plano, ainda que se articulem. Isso exige uma epistemologia que reconheça níveis de análise, irredutibilidade parcial de conceitos e métodos e, ao mesmo tempo, a necessidade de articulação transdisciplinar.

A estratificação ontológica traduz-se em uma exigência epistemológica: distinguir e articular níveis de análise. A crise ecológica não pode ser abordada a partir de uma única disciplina; requer a cooperação entre ciências naturais e sociais (física, biologia, economia, sociologia, história, ciência política etc.). Mas essa cooperação não deve derivar em um ecletismo sem estrutura, e sim em uma reconstrução dialética das mediações entre níveis. Isso implica reconhecer que:

• cada disciplina apreende aspectos específicos de um mesmo processo estratificado;

• os conceitos de cada nível não são comensuráveis nem redutíveis entre si;

• a articulação entre níveis deve ser realizada reconstruindo as mediações reais: como a dinâmica da acumulação se traduz em padrões de consumo de energia, como estes afetam ciclos biogeoquímicos e como as alterações ecológicas retroagem sobre a economia e a política.

A análise de fenômenos como o desmatamento em massa deve considerar simultaneamente: mecanismos ecológicos (ciclos de nutrientes, biodiversidade, resiliência dos ecossistemas); dinâmicas econômicas (renda da terra, competição intercapitalista, cadeias globais de valor, inserção de países dependentes); e determinações políticas (políticas estatais, legislação ambiental, correlação de forças de classe e movimentos sociais). O entrelaçamento entre esses planos deve ser realizado evitando tanto o reducionismo naturalista quanto o culturalista.

No plano epistemológico, portanto, a dialética opera na articulação de níveis. Frente ao ecletismo, busca princípios de conexão; frente ao reducionismo, defende a irredutibilidade relativa de cada estrato. Essa operação exige reconstruir o processo real em sua unidade, algo que só pode ser feito se se assume que a realidade é, ela própria, não linear, atravessada por contradições e produtora de emergências.

3. Metodologia: metabolismo, crítica do capital e horizonte ecocomunista

Metodologicamente, o cruzamento entre dialética e emergentismo condensa-se na categoria de metabolismo sociedade-natureza, mediado pelo trabalho. O trabalho humano é o processo mediante o qual o ser humano, utilizando suas forças corporais e cognitivas, apropria-se e transforma materiais naturais para produzir valores de uso. Essa atividade realiza-se sempre no marco de relações sociais historicamente determinadas que configuram as formas de apropriação da natureza, a distribuição do produto e a reprodução das classes.

O materialismo emergentista reforça a centralidade do trabalho enquanto mediação central para a emergência do social como um estrato diferenciado: o trabalho cooperativo é simultaneamente resultado de capacidades biológicas emergentes e condição de sua expansão ulterior (linguagem, pensamento abstrato, organização social). Ao mesmo tempo, constitui o eixo do metabolismo socionatural: é através do trabalho que se organizam os fluxos de energia e materiais entre sociedade e natureza.

A partir do materialismo emergentista, isso pode ser lido da seguinte forma:

• o trabalho é a mediação central pela qual a espécie humana se constitui como estrato emergente diferenciado dentro da totalidade material;

• essa mediação é histórica: diferentes formações sociais organizam o trabalho de maneiras distintas, o que gera configurações diferentes do metabolismo socionatural;

• por isso, a relação sociedade-natureza não pode ser compreendida sem uma teoria das relações de produção e de classe.

Tomar o metabolismo como ponto de partida metodológico significa que a análise empírica deve reconstruir como, em cada modo de produção, organiza-se concretamente a apropriação, transformação e devolução de matéria e energia à natureza.

Daí derivam duas exigências para uma análise consistente do metabolismo sob o capitalismo. Em primeiro lugar, evitar as versões “cruas” de materialismo que concebem a história social como mero resultado de condições naturais ou tecnológicas. A relação com a natureza é sempre socialmente mediada e assume formas específicas em cada modo de produção (propriedade dos meios de produção, organização do trabalho, mecanismos de extração do mais-produto).

Em segundo lugar, evitar o construtivismo que subestima os condicionamentos derivados das propriedades e dinâmicas da natureza extra-humana. As formas sociais não podem configurar arbitrariamente o conteúdo material da produção e da reprodução: estão constrangidas por capacidades de carga, resiliência, tempos de regeneração e limiares de irreversibilidade ecológica. A noção de “limite planetário” expressa a ideia de que existem limiares biofísicos para além dos quais as dinâmicas do Sistema Terra podem entrar em estados qualitativamente distintos.

Metodologicamente, isso implica que qualquer análise deve:

• situar a forma social de organização da produção (por exemplo, o capitalismo) como eixo explicativo;

• reconhecer os limites biofísicos e as funções ecossistêmicas como condicionamentos objetivo-materiais dessa forma social;

• estudar a forma concreta pela qual essa relação gera desajustes, crises e fraturas metabólicas.

A relação natureza-sociedade constitui uma unidade contraditória, atravessada por interesses e posições de classe: capital versus trabalho, centro imperialista versus periferia dependente. Ao mesmo tempo, encerra lógicas temporais e espaciais distintas: a acumulação capitalista exige expansão e aceleração; os ecossistemas possuem ritmos lentos, limiares e irreversibilidades. Por um lado, a sociedade emerge da natureza e depende dela; por outro, especialmente sob o capitalismo, desenvolve capacidades de intervenção que reconfiguram processos naturais em múltiplas escalas. Essa dupla relação manifesta-se em formas de causalidade ascendente (do natural ao social) e descendente (do social ao natural). A análise dessa totalidade requer, no plano metodológico, a articulação de níveis e causalidades. Exige uma análise concreta de:

• como decisões de agentes posicionados em níveis superiores (corporações transnacionais, Estados, organismos financeiros) reorganizam padrões de extração de recursos, uso do solo e consumo energético;

• como essas reorganizações produzem mudanças na estrutura e no funcionamento dos ecossistemas, que por sua vez geram eventos (secas, inundações, pandemias) que retroagem sobre a economia e a política.

Aplicada à crise climática, essa perspectiva implica reconhecer o papel dos gases de efeito estufa e dos mecanismos de forçamento radiativo; analisar como estruturas sociais específicas — matriz energética fóssil, padrões de consumo, urbanização, transporte — obedecem à lógica do lucro e da competição intercapitalista; e estudar como os efeitos das mudanças climáticas (eventos extremos, deslocamentos populacionais, danos infraestruturais) retroalimentam crises econômicas, tensões geopolíticas e dinâmicas políticas autoritárias. Uma metodologia consistente com um materialismo emergentista exige reconstruir essa trama multiescalar, situando no centro a lógica da acumulação de capital como mecanismo estruturante do metabolismo. Essa é a forma de compreender o complexo de causalidades em jogo em cada fenômeno. Por exemplo, a mudança climática não pode ser explicada apenas pelo aumento das concentrações de gases de efeito estufa: é necessário conectar esses dados com a matriz energética, com a forma capitalista de desenvolvimento tecnológico, com a estrutura do comércio mundial, com as políticas estatais e com a correlação de forças entre classes e países.

Em suma, a articulação entre dialética e materialismo emergentista permite conceber a realidade como uma totalidade material estratificada, desenvolver uma epistemologia atenta aos níveis e mecanismos e desenvolver uma metodologia crítica centrada no metabolismo sociedade-natureza configurado pelo capitalismo. Esse marco ilumina a gênese da crise ecológica contemporânea e oferece critérios para orientar uma práxis voltada à sua superação.

[1] Antonio Labriola, La concepción materialista de la historia, Ciudad de México, El Caballito, 1973, pp. 191.

[2] Andreas Malm, The Progress of This Storm. Nature and Society in a Warming World, Londres, Verso, 2018, p. 53.

[3] Facundo Nahuel Martín, La ilustración sensible. Hacia un giro materialista en la teoría crítica, Buenos Aires, Ediciones IPS, 2023, p. 47.

[4] Ídem.