O esperado encontro entre Donald Trump e Lula aconteceu na Casa Branca. Trump fez uma recepção respeitosa a Lula, a quem elogiou de “muito dinâmico”, estendendo um tapete vermelho ao mandatário brasileiro. Qualificou a reunião de “muito boa”. Todo um símbolo do que queria com Lula, que celebra desde 2025 a "boa química" com Trump, agora declarando amor à primeira vista” e que agiu de modo circunspecto diante da ofensiva neocolonial dos Estados Unidos na Venezuela e do aprofundamento do bloqueio criminoso contra Cuba.
É estarrecedor que, após a conversa com Trump, um dos chefes do imperialismo que mais intervém na política de outros países, seja pela via militar, econômica ou política, Lula diga que “tem razões para acreditar” que os EUA não irão interferir nas eleições brasileiras. Trata-se de uma declaração que alimenta ilusão no papel do imperialismo norte-americano, justamente de um governo que historicamente patrocinou golpes, sanções, chantagens econômicas e operações de desestabilização em toda a América Latina. A ideia de um “amor à primeira vista” entre Lula e Trump não expressa uma política de soberania nacional, mas sim uma adaptação à pressão dos EUA e uma tentativa de garantir relações estáveis com um setor da extrema direita internacional que segue sendo uma ameaça concreta aos trabalhadores e aos povos oprimidos.
O que se discutiu?
Ainda não há detalhes sobre as negociações comerciais realizadas. Segundo Trump, discutiram-se especialmente as tarifas, ainda que o interesse estratégico dos EUA sejam as terras raras e minérios estratégicos do Brasil. O presente de Lula havia sido entregue na fase preparatória do encontro: não criou qualquer empecilho para a venda a mineradora Serra Verde para a US Rare Earths, empresa ligada ao governo estadunidense. A Serra Verde é uma das maiores exploradoras de terras raras do mundo, única empresa em escala fora da Ásia capaz de fornecer os quatro principais elementos magnéticos de terras raras: neodímio, praseodímio, disprósio e térbio.
Em coletiva de imprensa, Lula buscou retratar essa entrega como “defesa da soberania”. Hoje, a política central desse entreguismo é o PL 2780/2024, de terras raras, que cria a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos (PNMCE), aprovado pela Câmara dos Deputados em 6 de maio de 2026. Lula agradeceu ao direitista Hugo Motta, afirmando que o PL seria o veículo de um novo aspecto da “industrialização” do país. Abrindo os recursos naturais brasileiros para todos, EUA e China, o discurso de Lula é que a atividade não será só extrativa, mas inclui refino e empregos nacionais. Em verdade, este PL vai favorecer as grandes mineradoras, flexibilizar controles ambientais e acelerar a exploração subordinada dos bens naturais comuns brasileiros em nome da “transição energética” e da “segurança nacional” norte-americana. Sob a máscara daquele que “traz investimentos ao Brasil”, Lula coloca o país dentro da competição estratégica entre Washington e Pequim na condição de território a ser expropriado.
Lula trata de aparecer como estadista que sabe negociar com políticos da extrema direita como Trump. Mas a natureza da negociação se transforma em entrega. Afinal, o que existe de “moderno” em colocar os recursos estratégicos à disposição dos interesses dos EUA? O que existe de “estadismo progressista” em liberar mais destruição ambiental e fortalecer mineradoras privadas enquanto a população trabalhadora segue sem acesso a direitos básicos?
Esta posição subordinada fortalece aspectos do entreguismo ecoado em primeiro lugar pela extrema direita, e está longe de atender às necessidades da população trabalhadora e pobre, cujos interesses estão vinculados ao usufruto desses bens naturais comuns, que não devem ser tratados como mercadorias submetidos ao mercado mundial.
Momento de dificuldade
A reunião entre Trump e Lula ocorre em um momento de dificuldades políticas para cada um dos mandatários. Com as particularidades de cada caso, ambos enfrentam o desgaste de derrotas domésticas.
Sem dúvida, o que marca a paisagem internacional é o enfraquecimento de Trump e do imperialismo estadunidense, diante do revés militar dos EUA e de Israel na guerra imperialista contra o Irã. Com grande oposição interna à guerra, e com uma economia fragilizada pela inflação e a alta do desemprego, Trump se prepara para resultados negativos nas eleições de meio mandato. As dificuldades de Trump também se expressam no terreno da luta de classes e das mobilizações sociais que desafiam a agenda interna do republicano. O recuo parcial que foi obrigado a realizar diante da resistência em Minneapolis, assim como a dimensão história das recentes manifestações do “No Kings”, revelam que existe um terreno de polarização e contestação de massas que limita sua margem de manobra e aprofunda a instabilidade política nos Estados Unidos. Por sua parte, Lula obteve derrotas com a rejeição do nome de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal (STF) e a derrubada de vetos presidenciais à redução de penas aos condenados pelo 8 de janeiro de 2023. Ao mesmo tempo, pesquisas recentes já apontam um cenário eleitoral difícil para Lula, incluindo levantamentos em que Flávio Bolsonaro à frente de Lula em determinados cenários de segundo turno, refletindo o desgaste político do governo, graças a política de conciliação e que termina fortalecendo a extrema direita.
Mais importante, esta reunião se dá em meio à continuidade da política agressiva norte-americana para a América Latina, marcada pela tentativa de reafirmar a hegemonia dos EUA no chamado “Hemisfério Ocidental” diante do avanço chinês sobre infraestrutura, energia e minerais estratégicos.
Sobre a “química” Lula-Trump
O episódio da aplicação de tarifas de 50% sobre produtos exportados brasileiros, em meados de 2025, alterou as condições da relação bilateral. Lula, que tinha sofrido derrotas importantes no Congresso, viu um repentino aumento da aprovação do governo por não ceder às exigências do “Liberation Day” de Trump. Posteriormente, o próprio Trump sofreu um revés judicial nos Estados Unidos, quando tribunais federais consideraram ilegais partes do pacote tarifário de Trumop o que beneficia indiretamente o governo brasileiro. Em seguida, o encontro na ONU selou o que Trump classificou como “ótima química” com Lula, que celebra a relação desde então. À época, Trump postou imagem com Lula dizendo “é uma grande honra estar com o presidente do Brasil [...] Sempre tivemos uma boa relação - e seguiremos tendo”.
Trump seguiu o mesmo script. O tapete vermelho da recepção foi seguido de elogios ao dinamismo de Lula, afirmando que novas reuniões virão. Ao que tudo indica, Trump segue buscando acomodar o governo brasileiro aos novos tempos da ofensiva sobre a América Latina, preferindo por ora a diplomacia à agressividade que já demonstrou na Venezuela, e que demonstra agora em Cuba - sobre cujo país Trump disse que simplesmente se apoderaria assim que os porta-aviões destacados contra o Irã retornassem ao Atlântico. É nessa condição conciliadora que Lula busca evitar a interferência negativa de Trump nas eleições nacionais. A química entre os dois está longe de implicar uma resolução efetiva das pressões de Washington sobre o Brasil. É mais uma tentativa de administrá-las politicamente. Afinal, mesmo após os recuos judiciais sofridos por Trump em torno das tarifas, o Brasil segue alvo da investigação comercial da “Section 301”, conduzida pelo USTR conduzida pelo USTR (United States Trade Representative), instrumento que mantém aberta a possibilidade de novas tarifas e medidas de pressão econômica sobre o país.
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Silêncio sobre a Venezuela
Lula não falou da Venezuela na coletiva. Sobre Cuba, disse que "Trump não invadirá", tratando de adormecer a indignação contra a pressão política e militar dos EUA, e não verbalizou oposição ao bloqueio à ilha. Isso é sintomático. Acompanhada por um endurecimento político-militar da atuação norte-americana na região, Trump busca pressionar os governos latino-americanos e reconfigurar os empreendimentos imperialistas. Através da articulação com governos lacaios de direita e extrema direita latino-americanos, Trump vem fortalecendo mecanismos de cooperação em segurança, inteligência e repressão migratória, ao mesmo tempo em que enquadra organizações criminosas e cartéis como “ameaças terroristas”. Esse movimento amplia o espaço jurídico, político para intervenções, bloqueios, operações militares e presença ampliada das forças estadunidenses no Caribe e na América do Sul.
A Venezuela tornou-se um caso emblemático da orientação regional imperialista. A captura de Nicolás Maduro em janeiro de 2026, apresentada pela Casa Branca como operação contra o “narco-terrorismo”, foi um marco de reescalada intervencionista dos EUA. A classificação de grupos ligados ao narcotráfico e mesmo de setores do Estado venezuelano como organizações terroristas reforçou uma lógica de securitização hemisférica que aproxima disputa econômica, intervenção militar e controle de recursos naturais.
Lula tomou todos os cuidados para não irritar Trump, o que implicou não tomar qualquer medida em relação à Venezuela. Com efeito, já disse que o “retorno de Maduro e de Cilia não é a preocupação principal”, e sim “melhorar a vida do povo” venezuelano - um desaforo diante de um país assediado por uma intervenção colonialista por meio de bombardeios e sequestros.
Isso diz respeito à questão das terras raras e minerais estratégicos, já que a avançada dos EUA sobre Caracas implica o roubo não apenas do petróleo, mas também dos minerais da Bacia e do Arco Mineral do Orinoco, região rica em coltan, cobre, níquel e minerais utilizados na indústria militar, tecnológica e de inteligência artificial. Uma política de pressão geopolítica e reorganização da influência norte-americana sobre a América Latina que se fará sentir mais forte no Brasil com a política conciliadora de Lula.
Tentativa de restrição da China
A reunião também foi usada, por parte de Trump, para exercer pressão contra o avanço das relações entre Brasil e China. A dependência estrutural da economia brasileira diante da China, em especial o agronegócio, representa um problema para a retomada de influência por Washington. As exportações brasileiras para a China em 2025 bateram recorde, somando US$ 100 bilhões, um crescimento de 6% em relação a 2024, consolidando o país asiático como o maior parceiro comercial do Brasil. Com os EUA, a parceria totalizou em 2025 apenas US$ 37,7 bilhões, representando uma queda de 6,6% em relação a 2024, a maior retração em cinco anos.
Os investimentos chineses no Brasil saltaram 45% no ano passado ante 2024, para US$ 6,1 bilhões, o maior montante desde 2017, segundo levantamento anual do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC). Da mesma maneira, o Brasil foi o principal destino dos investimentos da China no exterior em 2025, o que mostra não apenas a crescente presença da China na economia brasileira, mas a intenção de estabelecer o país como uma “linha vermelha” diante das intenções dos Estados Unidos. A tal ponto que se inaugurou em 2026 o ano cultural Brasil-China, um acordo que busca consolidar a cooperação internacional para além do comércio e da política.
O capitalismo em ascensão da China, com toda a voracidade de uma potência que quer deter os recursos do mundo, também é um fator que incrementa a dependência brasileira ao capital estrangeiro. A submissão à “dupla dependência” entre EUA e China vem sendo a sina do “estadista” Lula.
Contra a conciliação, uma política antiimperialista é fundamental
A política de Trump que atualiza elementos históricos da Doutrina Monroe sob novas condições geopolíticas marcadas pela disputa com a China, busca acesso privilegiado e controle das cadeias produtivas e de recursos estratégicos, especialmente terras raras e minerais críticos fundamentais para a indústria militar, inteligência artificial, semicondutores e tecnologias da transição energética. Nesse processo, as burguesias latino-americanas aparecem profundamente subordinadas ao imperialismo, ainda que por vias distintas. Em um polo, setores da extrema direita atuam abertamente como capachos dos interesses estadunidenses, defendendo alinhamento automático, privatizações e abertura irrestrita dos recursos estratégicos da região. Em outro, governos e frações burguesas buscam preservar margens, extremamente limitadas, de negociação entre Estados Unidos e China, tentando utilizar a rivalidade entre potências para ampliar investimentos e capacidade de barganha sem romper a condição dependente e exportadora das economias latino-americanas.
A disputa em torno das terras raras não envolve apenas comércio, mas o controle das cadeias tecnológicas, da indústria militar e dos recursos estratégicos necessários à reorganização produtiva das grandes potências.
Lula tenta negociar as condições comerciais e preservar alguma margem de autonomia diplomática, mas sem romper com a lógica exportadora e dependente da economia brasileira. Frente ao evidente desgaste político, derrotas e avanço das iniciativas da extrema direita nacional, expressão dos próprios limites da política de conciliação de classes, Lula busca se apresentar a Washington como um interlocutor mais estável e eficaz para aos interesses do capital estrangeiro no Brasil, seja dos EUA, seja da China.
É necessário quebrar esse ciclo recorrente da dupla dependência. Não existe independência ou soberania nacional na política de acordos de entrega a Trump ou Xi Jinping.
É necessário derrubar o PL das terras raras, que beneficia os EUA, as grandes mineradoras e a destruição ambiental, com a imediata estatização da mineradora Serra Verde e de todo o setor estratégico das terras raras, sem indenização aos grandes grupos privados. É preciso que os trabalhadores, em aliança com cientistas, povos indígenas, comunidades atingidas e ambientalistas, exerçam o controle sobre a exploração e o planejamento desses bens naturais comuns. É necessário revisar todos os acordos comerciais do país, para que os recursos nacionais deixem de favorecer as grandes potências e passem a beneficiar a população pobre e trabalhadora.
Ademais, o “estadismo” de Lula se baseia nas boas relações com um imperialista responsável direto junto à Netanyahu pelo genocídio na Palestina, a destruição do Líbano e pela guerra imperialista contra o povo iraniano. É necessário romper com o sionismo em todas as esferas, exigir a libertação imediata de Thiago Ávila e Saif, assim como cessar imediatamente a entrega de petróleo aos genocidas de Israel e entregá-lo ao povo cubano, que vem sendo asfixiado pelas garras de Trump. A unificação da América Latina contra o imperialismo e as grandes potências capitalistas só pode vir com um programa de independência de classe, anticapitalista, algo impossível dentro da política de Lula.