Capa: Lula se solidariza com assassino Rodrigo Paz: uma ofensa à rebelião popular na Bolívia

Lula se solidariza com assassino Rodrigo Paz: uma ofensa à rebelião popular na Bolívia

Por Chris Amelio Castañeda |
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Com uma rebelião popular na Bolívia que leva 4 semanas de protestos exigindo a renúncia do presidente Rodrigo Paz, incluindo mais de 50 bloqueios de estrada e o assassinato de 6 manifestantes pelas forças repressivas, Lula declara solidariedade ao governo e respeito às instituições democráticas rechaçadas massivamente, responsabilizando os protestos pela crise humanitária.

Enquanto os trabalhadores, camponeses e indígenas da Bolívia enfrentam a repressão sanguinária do governo Paz, uma aliado de Donald Trump e do Estado colonialista de Israel, Lula não encontrou melhor forma de se “comunicar” com o presidente boliviano do que dizer que “se solidariza com o governo e o povo boliviano” - como se fosse possível agraciar o povo boliviano apertando a mão de um presidente assassino.

“O presidente Lula reiterou sua solidariedade ao governo e ao povo bolivianos e ressaltou a importância do pleno respeito às instituições democráticas e ao Estado de Direito. Nesse contexto, [Lula] defendeu que governo e movimentos sociais evitem o recurso à violência e privilegiem o diálogo como caminho para a superação das divergências e para a preservação da paz social", diz o comunicado do Palácio do Planalto.

Como se pode ver, Lula defendeu que “o governo e os movimentos sociais evitem o recurso à violência”. Culpar os manifestantes por violência, e identificá-los com a repressão governamental, quando o governo Paz matou 6 pessoas para defender um ajuste econômico ultraliberal nos moldes do que desejam Trump e Javier Milei, significa agraciar os crimes do trumpismo boliviano.

Não é “neutralidade”, como lamentam alguns petistas. É fazer o jogo da direita desprezando os manifestantes.

Trata-se de uma medida de conciliação vergonhosa com a extrema direita latino-americana, e um dos subprodutos da “petroquímica” e do “amor à primeira vista” de Lula com Trump. Os Estados Unidos tem todo o interesse em manter Paz na presidência da Bolívia, e já acusou os manifestantes de querem “gerar instabilidade e levar adiante um golpe de estado”.

Lembremos que no caso da Venezuela, Lula também conteve qualquer crítica mais séria à agressão neocolonial de Trump, reconhecendo a fantoche Delcy Rodríguez e naturalizando o próprio sequestro de Maduro e Cilia em declarações. No começo de seu terceiro mandato Lula recebeu calorosamente a golpista peruana Dina Boluarte, que reprimiu a sangue a fogo os protestos populares contra o golpe que havia derrubado Pedro Castillo.

Como dizem os manifestantes bolivianos, “não se negocia com sangue derramado”. Lula quer apaziguar a situação, e buscar uma saída ordenada para uma rebelião popular que busca derrubar o governo por meio de seus próprios métodos de luta, com assembleias autoconvocadas, “cabildos” e reuniões abertas de deliberação, e que busca seu caminho para organizar uma greve geral. Gustavo Petro, da Colômbia, havia feito anteriormente uma proposta similar, de mediador para “uma saída pacífica na Bolívia”, ainda que tenha se reposicionado depois que Paz expulsou a embaixadora colombiana Elizabeth García.

É necessário uma política oposta à de Lula em toda a América Latina: a maior solidariedade dos trabalhadores e jovens brasileiros à rebelião popular boliviana, Fora Paz!

Trata-se de um combate não apenas contra a extrema direita - que se fortalece com a conciliação lulista - mas contra o imperialismo norte-americano que está ameaçando uma intervenção militar em Cuba e já controla um protetorado na Venezuela.

A realidade é que, com a operação “bandeiras brancas”, o presidente da Bolívia, Rodrigo Paz, tem comandado uma feroz repressão contra os protestos em todo o país. Utilizando a desculpa de um “objetivo humanitário”, seus reais objetivos são calar em sangue a revolta instaurada no país. Dia após dia, suas medidas de aumento da repressão e cooptação das burocracias sindical e camponesa se mostram pouco efetivas, com a manutenção de mais de 50 bloqueios de estradas e manifestações que cercaram a Casa Grande do Povo na capital, La Paz.

É uma verdadeira ofensa o que disse Lula, digna de um portador de petroquímica com Trump, quando insinua que a responsabilidade pela crise humanitária de desabastecimento está na também nos protestos e bloqueios de estradas. Como se fosse a resposta da classe trabalhadora, dos povos originários e dos camponeses a causadora da situação calamitosa da população, e não o encarecimento da vida, a aprovação de leis e decretos que só beneficiam os setores empresariais (como foi o D.S. 5503 e a Lei 1720), a gasolina de má qualidade vendida de forma corrupta pelo governo, a eliminação de impostos sobre grandes fortunas, as ameaças de privatização de empresas estatais, o desfinanciamento em saúde e educação, promovidos pelo próprio governo Paz.

As supostas instituições democráticas e o Estado de Direito se sustentam na destruição dos direitos e das condições de vida da população, nos 6 assassinados pela repressão nesta revolta, nas dezenas de feridos e nos massacres que em 2019 ocorreram em Senkata, em Huayllani e em Pedregal, durante o golpe de estado de Jeanine Áñez. O próprio Tribunal Superior Eleitoral se apoia no mesmo autoritarismo, já que “não permitiu a participação de nenhuma sigla que representasse o povo trabalhador, setores camponeses e indígenas nas últimas eleições; e é a mesma instituição que posicionou o governador Revilla em La Paz sem que se cumprisse o segundo turno eleitoral.”

A contradição de Lula se torna ainda mais evidente se lembrarmos que há apenas um mês o presidente brasileiro participou em Barcelona da primeira edição da Mobilização Progressista Global. Ali fez uma crítica demolidora à sua própria conduta e à dos progressistas latinoamericanos. “O projeto neoliberal prometeu prosperidade e só trouxe fome, desigualdade e insegurança [...] Os governos de esquerda ganham eleições com retórica de esquerda e praticam a austeridade. Abandonam as políticas públicas em nome da governabilidade. Tornamo-nos o sistema’.” A definição é lapidar e o auto-diagnóstico é preciso: há já muito o PT é parte do sistema capitalista e do pensamento dominante. Enquanto a direita neoliberal cavou o abismo da dependência e do atraso latinoamericanos, a centro-esquerda dita “pós-neoliberal” administrou as mazelas do neoliberalismo com um suposto “rosto humano”.

A política vergonhosa de Lula, de fato, é “sucumbir à ortodoxia neoliberal” nas relações geopolíticas. É a administração do neoliberalismo com suposto “rosto humano” - administração que serve aos propósitos dos inimigos mais odiosos da classe trabalhadora e do povo pobre na América Latina.

Como diz a Liga Obrera Revolucionária - Cuarta Internacional (organização irmã do MRT que está atuando na rebelião), “Somente a massificação da luta e a greve geral efetiva poderão impor a renúncia de Paz e de todos os golpistas. E o que pode seguir se essa demanda for obtida é outra das grandes perguntas abertas. Embora a saída institucional chame a convocar eleições em 90 dias sob a sucessão correspondente ao vice-presidente, não podemos confiar nem um pouco em Lara e muito menos no Tribunal Supremo Eleitoral”. Isto é parte da exigência à COB pela efetivação da greve geral por tempo indeterminado, até a renúncia do governo Paz e o atendimento de todas as reivindicações, apontando a necessidade de avançar para a constituição de um governo provisório das organizações operárias, camponesas, indígenas e populares.

Estes, sem dúvida, merecem e precisam de toda nossa solidariedade ativa. A Bolívia mostra o caminho, na luta de classes, sobre como enfrentar a extrema direita, resgatando algumas das melhores tradições das gestas operárias insurrecionais no continente (como a Revolução Boliviana de 1952, a Assembleia Popular de 1971) como inspiração para este combate.