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Myriam Bregman: fenômeno da esquerda revolucionária na Argentina e exemplo estratégico para a esquerda no Brasil

A imprensa brasileira já começa a expressar o surgimento de um importante fenômeno da esquerda revolucionária na Argentina que se concentra na figura de Myriam Bregman, do PTS, organização irmã do MRT. Conheça este exemplo que é estratégico para a esquerda no Brasil.

Myriam Bregman e o fenômeno político da esquerda revolucionária na Argentina

Em meio à crise política, econômica e social que atravessa a Argentina, um fenômeno começa a chamar atenção em toda a América Latina: o crescimento da influência da esquerda revolucionária expressa na figura de Myriam Bregman. Advogada de direitos humanos, dirigente e deputada federal do Partido de los Trabajadores Socialistas, principal referência pública da Frente de Izquierda y de los Trabajadores - Unidad (FIT-U), Myriam se consolidou como uma das figuras políticas mais reconhecidas do país justamente em um cenário marcado pela ascensão da extrema direita de Javier Milei e pela profunda decomposição do peronismo.

Ao contrário de todas as referências que surgem a partir dos fenômenos políticos à esquerda, que aparecem em resposta ao avanço da ultradireita em diferentes países, Myriam Bregman ecoa um programa de independência de classe e anticapitalista fundado na luta de classes contra Javier Milei. Não se trata de uma referência social-reformista que faz parte de um partido capitalista como Zohran Mamdani; tampouco de uma esquerda reformista como Die Linke, ou de um partido de conciliação dentro de um governo burguês de Frente Ampla, como o PSOL: estamos falando da emergência histórica da esquerda trotskista.

Assim, não se trata de um fenômeno midiático superficial nem somente eleitoral. Uma pesquisa recente da Atlas Intel apontou Myriam Bregman como a dirigente política com melhor imagem positiva da Argentina, a única representante política argentina com maior aprovação do que rejeição. O dado é profundamente revelador: em um país historicamente marcado pelo peso do peronismo, pela polarização política e pela força das variantes patronais, amplos setores da população passaram a enxergar na esquerda revolucionária uma referência política coerente e combativa. Myriam chega a marcar entre 10% e 14% das intenções de voto presidencial na Argentina. É a segunda figura política mais seguida nas redes sociais do país, atrás apenas de Milei.

Essa autoridade política não surgiu através de acordos parlamentares ou adaptações ao regime. Myriam construiu sua trajetória como advogada defendendo trabalhadores perseguidos, vítimas da ditadura militar, mulheres e setores oprimidos. Tornou-se conhecida nacionalmente por enfrentar empresários, militares, governos e instituições do regime sem jamais abandonar uma posição de independência de classe.

Sua figura sintetiza uma experiência singular da esquerda argentina: a construção de uma força política revolucionária com inserção real na vida política nacional e na luta de classes. O crescimento do PTS e da FIT-U está profundamente ligado à sua presença nas fábricas, nas universidades, nos movimentos de mulheres, entre trabalhadores precarizados, nas lutas ambientais e nas grandes mobilizações que sacudiram o país nos últimos anos.

Enquanto o peronismo governou durante décadas administrando os interesses capitalistas e abrindo caminho para o crescimento da extrema direita, a esquerda revolucionária conseguiu aparecer para milhões de jovens e trabalhadores como a única força que não participou dos pactos de ajuste, não governou para os empresários e não se integrou às instituições responsáveis pela crise social argentina. Isso explica porque Myriam Bregman se transformou em uma referência que ultrapassa amplamente os limites tradicionais da esquerda. 

A estratégia da esquerda revolucionária diante da crise argentina

O crescimento político de Myriam Bregman e da FIT-U não pode ser compreendido separado da estratégia defendida pelo PTS, principal partido da esquerda revolucionária argentina diante da crise nacional e internacional.

Em entrevista ao La Izquierda Diario, Emilio Albamonte explica que a posição conquistada pela esquerda argentina é resultado direto da manutenção de uma política de independência de classe frente a todas as variantes patronais. Em um contexto no qual o peronismo se degradou administrando ajustes e pactos com o FMI, enquanto a direita tradicional entrou em crise, a FIT-U apareceu como uma alternativa que recusou integrar governos capitalistas ou participar da gestão dos ataques contra o povo trabalhador.

Essa definição estratégica é decisiva. Diferentemente de amplos setores da esquerda latino-americana que passaram anos subordinados a governos progressistas e frentes amplas, a esquerda revolucionária argentina manteve uma delimitação clara tanto com a direita tradicional quanto com o peronismo.

Isso permitiu que a FIT-U se apresentasse diante da crise como uma força política coerente, capaz de denunciar os ataques de Milei sem esconder a responsabilidade histórica dos governos peronistas na preparação do terreno para a extrema direita. Afinal, o próprio Milei é filho da decomposição social produzida por décadas de ajuste, precarização e submissão ao FMI aplicadas pelos diferentes governos, incluindo os de Cristina Kirchner e Alberto Fernandez.

Ao mesmo tempo, como fator decisivo, o crescimento do PTS esteve profundamente ligado à sua inserção concreta na luta de classes. Enquanto as burocracias sindicais ligadas ao peronismo (reunida na CGT) atuavam para desmobilizar os trabalhadores diante dos ataques ultraliberais de Milei, militantes do PTS estiveram presentes nas greves, nas ocupações e nos processos de resistência operária, batalhando por arrancar os sindicatos destas burocracias e recuperá-los como instrumentos de luta aos trabalhadores. Esse processo ganhou particular expressão na batalha contra a reforma trabalhista impulsionada pelo governo Milei. Enquanto a CGT oscilava entre jornadas isoladas de protesto e negociações parlamentares que permitiram o avanço do governo, o PTS e seus referentes políticos impulsionaram uma intensa campanha de agitação política contra a reforma, participando ativamente das mobilizações de rua, das paralisações e das denúncias públicas contra a precarização do trabalho e as restrições ao direito de greve. A reforma previa ampliação da jornada de trabalho, flexibilização de direitos históricos, restrições à ação sindical e facilitação das demissões, provocando grandes manifestações e forte repressão policial em Buenos Aires. 

Não por acaso, figuras como Myriam Bregman, Nicolás del Caño, Alejandro Vilca e Christian Castillo ganharam enorme autoridade política entre setores da juventude e da classe trabalhadora. Diferentemente dos políticos tradicionais, aparecem como dirigentes que participam efetivamente das lutas sociais, colocando-se também nos combates contra a repressão policial, e utilizam seus mandatos parlamentares como tribunas de denúncia e apoio às mobilizações populares.

Como destaca Emilio Albamonte, a tarefa estratégica da esquerda não é administrar melhor o capitalismo argentino, mas construir uma força capaz de intervir na crise do regime apostando na mobilização independente da classe trabalhadora. Isso implica combater não apenas a extrema direita, mas também todas as variantes patronais e de conciliação de classes que buscam canalizar o descontentamento popular novamente para dentro dos limites do próprio sistema capitalista. Por isso, o PTS está propondo construir comitês de base que dialoguem com todo este fenômeno e possam debater, também, a proposta de construir um partido da nova classe trabalhadora. 

Nesse sentido, a esquerda revolucionária argentina aparece hoje como a experiência internacional que conseguiu combinar influência eleitoral, inserção real na luta de classes e manutenção de um programa anticapitalista com independência de classes - e fazer disso a base de seu crescimento político nacional.

O fracasso da frente ampla no suposto “enfrentamento” à extrema direita

Nos últimos meses surgiu na Argentina a proposta de organizar uma “frente anti-Milei” inspirada diretamente na experiência brasileira da frente ampla liderada por Lula e pelo PT. A ideia seria repetir na Argentina a política de alianças com setores da direita tradicional sob o argumento de defender a democracia contra a extrema direita.

Mas a experiência brasileira demonstra justamente o contrário: a política de conciliação de classes não derrota a extrema direita. Ao contrário, acaba preservando suas condições de crescimento e a fortalecendo politicamente.

O governo Lula foi construído incorporando figuras históricas da direita brasileira, como Geraldo Alckmin, representante tradicional do PSDB de Fernando Henrique Cardoso, responsável por ataques aos trabalhadores, repressão policial e privatizações. Para viabilizar essa aliança, o programa dos trabalhadores foi sacrificado desde o início.

As reformas antioperárias aprovadas após o golpe institucional de 2016 permaneceram intactas: reforma trabalhista, terceirização irrestrita, reforma da previdência e teto de gastos seguem preservados para garantir os interesses dos empresários e do capital financeiro. O chamado “arcabouço fiscal” aprofundou inclusive o ajuste permanente contra saúde, educação e serviços públicos.

Ao mesmo tempo, setores ligados diretamente à extrema direita passaram a integrar a própria base do governo. O partido Republicanos, do governador bolsonarista Tarcísio de Freitas — responsável por algumas das maiores chacinas policiais recentes em São Paulo — possui ministério dentro da coalizão governista. Em diversas cidades brasileiras, o PT realizou alianças eleitorais inclusive com o PL, partido de Jair Bolsonaro. E para apontar um exemplo drástico podemos citar o caso do governo da Bahia, com Rui Costa do PT, onde hoje no Brasil está a polícia que mais mata. 

Ou seja: a chamada frente ampla não combate estruturalmente a extrema direita porque preserva justamente os mecanismos sociais, econômicos e políticos que alimentam seu crescimento.

A lógica é simples. Quando governos progressistas administram os ataques capitalistas com uma retórica mais “humanizada”, mas sem alterar profundamente as condições de vida da população, produzem enorme frustração social. Essa frustração acaba sendo canalizada pela extrema direita, que se apresenta falsamente como alternativa “anti-sistema”.

Foi exatamente isso que ocorreu após os governos do PT. Dilma Rousseff aplicou ajustes junto aos banqueiros, e abriu caminho para o golpe institucional de 2016. Bolsonaro surgiu como expressão reacionária da crise do regime e da falência política da conciliação de classes.

Hoje, mesmo após a prisão de Bolsonaro e a queda nas pesquisas de Flávio Bolsonaro, o bolsonarismo mantém enorme força eleitoral e profundas raízes sociais. Isso demonstra os limites de uma estratégia baseada na institucionalidade do regime, no STF e nos acordos parlamentares, opera como mecanismo de contenção da luta de classes e preservam as condições políticas e sociais que alimentam o próprio bolsonarismo.

O próprio Supremo Tribunal Federal, apresentado como aliado central na defesa da democracia, foi peça-chave tanto no golpe contra Dilma quanto na prisão arbitrária de Lula. Agora, envolvido em novos escândalos e profundamente desgastado diante da população, volta a alimentar o discurso “anti-sistema” da extrema direita.

Além disso, a política internacional do governo Lula demonstra os limites profundos da Frente Ampla. Apesar da retórica progressista, o governo mantém negociações estratégicas com Donald Trump, grandes corporações tecnológicas e interesses imperialistas ligados à exploração de bens naturais comuns, inteligência artificial e militarização regional. A entrega das terras raras (venda da mineradora Serra Verde) é o maior exemplo neste momento. A tentativa de privatização dos rios por parte do governo tomou um grande revés pela luta índigena dos Tapajós que derrotaram essa política, mostrando na prática que a conciliação serve para entregar nossos bens naturais. 

Da mesma forma, os direitos históricos das mulheres continuam subordinados aos acordos conservadores que sustentam a coalizão governista. O aborto nunca foi legalizado durante os governos petistas, e setores da própria campanha de Lula fizeram discursos contra esse direito para dialogar com parcelas conservadoras do eleitorado, enquanto se fortalecem o fenômeno redpill e os índices de feminicídios.

Tudo isso revela uma verdade central: as frentes amplas existem para buscar estabilizar o regime político e administrar os interesses capitalistas com um rosto mais progressista e no caso brasileiro para aumentar uma subordinação estratégica ao imperialismo. Não são instrumentos para derrotar a extrema direita pela raiz.

A diferença de uma esquerda revolucionária e a adaptação da esquerda brasileira

Por tudo isso a experiência de Myriam Bregman, do PTS e da FIT-U possui enorme importância estratégica para a esquerda brasileira. A esquerda revolucionária argentina demonstra que é possível construir uma alternativa independente, socialista e anticapitalista, com peso de massas, sem se dissolver em alianças com setores da burguesia ou da direita tradicional, mesmo diante da extrema direita.

Diferentemente da experiência da FIT-U, que mantém independência política frente a todas as variantes patronais e se recusa a integrar governos capitalistas, o Partido Socialismo e Liberdade - PSOL escolheu um caminho oposto no Brasil ao ingressar no governo Lula e adaptar-se à lógica da frente ampla. Fez isso sob uma lógica de que a tarefa da esquerda que se coloca como socialista, frente ao bolsonarismo e aos novos fenômenos de extrema direita, seria ajudar a reconstituir os regimes burgueses em crise contra esses fenômenos para supostamente assentar bases para que no futuro pudessem se fortalecer alternativas à esquerda do PT. Ou seja, seria um momento de “defensiva” para a esquerda socialista, diante do peso do conservadorismo e do reacionarismo como expressão da frustração social, sendo necessário compor as Frentes Amplas com um programa capitalista como única alternativa contra o bolsonarismo. 

A realidade é que, ao aceitar ministérios e participar diretamente da administração do Estado ao lado de partidos burgueses e até setores ligados à direita tradicional, o PSOL passa a ter questionado o seu sentido de existência e passou a compartilhar a responsabilidade política pelos ajustes fiscais, pelas privatizações, pela manutenção das reformas antioperárias e pelos acordos que sustentam a governabilidade do regime. Essa adaptação institucional enfraquece a possibilidade de construir uma alternativa independente para os trabalhadores e a juventude, transformando um partido que surgiu criticando a conciliação de classes em parte integrante dela. Mesmo as correntes internas do PSOL que se colocam como críticas ao governo, como o MES ou figuras como Glauber Braga, terminam carregando a contradição de serem parte de um partido que é governista, e mesmo Jones Manoel adota a política de assumir para si a contradição de apoiar Lula inclusive desde o primeiro turno. 

Em contraste, a FIT-U conseguiu ampliar sua influência justamente porque preservou uma delimitação clara com todas as forças responsáveis pela crise social argentina, utilizando seus mandatos parlamentares como instrumentos de apoio às lutas e não como espaços de integração ao aparelho de Estado capitalista. O PTS fez isso combatendo o ajuste dos governos peronistas, mas sem ceder um milímetro às ofensivas do regime político com o autoritarismo judiciário contra figuras como Cristina Kirchner, com uma posição de princípios contra sua prisão e proscrição. Por isso, a emergência do fenômeno Myriam Bregman, por sua vez, que vai além de um fenômeno meramente eleitoral, está ancorada numa aposta contrária à de grande parte da esquerda brasileira: diante da extrema direita e do mal menorismo, é possível à esquerda se postular como a verdadeira alternativa para enfrentar todo o reacionarismo e o ajuste. Isto é, quando surgem figuras aberrantes como Milei, produto da crise do regime, o papel da esquerda não é dar um passo atrás e fortalecer os reformistas. Inclusive é bastante claro que o PSOL não se fortaleceu como força militante em 4 anos no governo. Durante os anos de bolsonarismo, não se viu no Brasil nada parecido à grande campanha levada adiante pelo PTS contra a reforma trabalhista de Milei nos últimos meses, mesmo o PSOL sendo um aparato multimilionário, mas parece que serve essencialmente para sua auto-reprodução. Nada parecido ao impulso às lutas operárias em grandes combates como na Secco e na Lustramax. Pelo contrário, o petismo aprovava junto ao bolsonarismo a Reforma da Previdência nos estados que governava, e a esquerda brasileira majoritariamente se calava diante do imobilismo das centrais sindicais e das grandes entidades estudantis. Essa política pavimentou a localização do PSOL no interior da Frente Ampla, com Boulos à frente.

Mais importante ainda: a localização de Myriam e da FIT-U demonstra que a extrema direita só pode ser derrotada através da mobilização independente da classe trabalhadora, da juventude, das mulheres, dos negros e dos movimentos sociais. Não através de acordos parlamentares com os mesmos setores responsáveis pela crise social. Enquanto amplos setores da esquerda latino-americana seguem presos à lógica da conciliação de classes e da administração do capitalismo, a experiência construída pela esquerda revolucionária argentina, com o PTS à frente, aponta outro caminho: o da independência de classe, da luta organizada e da construção de uma alternativa socialista revolucionária.

É isso que transforma Myriam Bregman em um fenômeno político internacional — e em uma referência estratégica para os debates da esquerda no Brasil e em toda a América Latina. Todos os setores que se apresentam como alternativas à esquerda da Frente Ampla, sobretudo a esquerda trotskista (mas também de outras tradições), deveriam olhar com atenção para o que se passa na esquerda argentina, como fizeram em outros momentos o farol pelo qual se guiaram foram justamente experiências neorreformistas, como o Syriza e o Podemos, que rapidamente demonstraram seu fracasso. As tarefas e as possibilidades dos trotskistas na Argentina estão a serviço da construção de um partido da nova classe trabalhadora para atuar na luta de classes, e devem abrir novos horizontes e desafios para a esquerda mundial.