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Nordeste, um campo magnético

02.07.2026

O lulismo senil no Nordeste pode ser analisado a partir da dialética entre oposição e complementariedade entre hegemonias regionais e locais, por trás dela se escondem contradições que este artigo tem o objetivo de investigar.

Introdução

A hegemonia, para Gramsci, consiste na capacidade de uma classe dirigir as classes aliadas e dominar as classes inimigas com um programa político e econômico que corresponda a tal empreitada. Segundo ele, a fórmula ditadura + consentimento, isto é, coerção e consentimento seria a definição exata de uma hegemonia que necessita da repressão do aparato estatal, bem como a aprovação das massas em sentido político e ideológico de seu programa para conseguir exercer hegemonia.

Quando Danilo Paris desenvolveu o conceito de lulismo senil tentava compreender a nova fase da hegemonia do lulismo, ou seja, uma fase distinta do momento aureo onde o governo Lula pôde fazer uma série de conessões baseadas no boom de venda de commodities para a China que foi marcado por uma ampliação das bases sociais onde houve um afastamento da classe média de seu governo e aproximação de setores mais pobres, especialmente no Nordeste.

O exercício de hegemonia do lulismo consistiu, portanto, nessa capacidade de fazer grandes concessões a partir de programas sociais, sem abrir mão da conciliação de classes. O que está em jogo agora é que a capacidade de Lula fazer com que as massas consintam com seu programa é mais difícil, não só porque ele está repleto de ataques econômicos, mas também por conta de sua incapacidade de fazer concessões como era antes. Essa seria, portanto, sua fase senil, a fase débil da hegemonia do lulismo.

Deste paradoxo da hegemonia do lulismo senil se desenvolveram contradições. Essa incapacidade de fazer concessões como se fazia antigamente abriram espaço para o surgimento de novas hegemonias. Foram nas brechas da hegemonia lulista em sua fase senil que em alguns estados da região Nordeste se solidificaram hegemonias regionais baseadas num programa de investimentos em obras públicas, como também hegemonias locais, restritas a capitais como Recife, São Luís, Maceió e Salvador.

As hegemonias locais e regionais em relação ao lulismo senil são fenômenos políticos e sociais que correspondem a projetos hegemônicos alternativos, mas podem estabelecer socialmente interação entre seus respectivos programas e acomodar-se de tal maneira que num momento de estabilidade da frente ampla, podem aparentemente apresentar-se como políticas não tão distintas assim. 

O desenvolvimento dessas hegemonias se inserem num cenário internacional onde a região Nordeste por sua localização estratégica com novas rotas de comércio marítimo, minerais críticos, energia renovável, portos, etc, aumentam os interesses de potências como Estados Unidos e China na região. Isso vem impactando diretamente nos investimentos em infraestrutura e portos nos Estado nordestinos que pela necessidade de atender as demandas do mercado internacional se vêem obrigados a superar os problemas estruturais relativos à exportação e se abrir ainda mais aos investimentos chineses, à presença de empresas de logística, à exploração de minerais e energia renovável que atingem diretamente a Caatinga, etc.

Por fim, as reflexões e análises das debildiades e fortalezas do lulismo senil podem nos ajudar a vislumbrar alguns cenários hipotéticos do Brasil pós-Lula, sobretudo como politicos da direita e da frente ampla no Nordeste, tem sua “corrida” própria para capitalizar tanto os desgastes de Lula quanto possiveis rupturas da base do lulismo enquanto não primam elementos fortes da luta de classes. 

1. Lulismo senil no Nordeste 

Humberto Costa, atualmente pré-candidato ao senado por Pernambuco, relatou à Folha o balanço das eleições de 2024. Na época da entrevista, logo após o resultado eleitoral, ele tinha sido dirigente da campanha eleitoral do PT, seu depoimento é a ilustração desta etapa da hegemonia lulista em sua fase débil. Segundo ele, houve uma recuperação relativa das posições do partido em relação à última eleição municipal em 2020, porque cresceu o número de municípios sob comando do partido, no entanto, o resultado mostrou debilidades. Para ele, isso tinha a ver com que as “ações sociais hoje implementadas já foram incorporadas pela população como conquista”, e por isso, o PT e o governo federal deveriam pensar em “transformações, talvez mais profundas”. Suas palavras demonstram uma realidade sem retoques da hegemonia lulista em sua fase senil. 

A incapacidade de fazer concessões sociais justamente para uma base social que aderiu ao seu projeto de país a partir de programas sociais e acesso ao crédito, combinado com o fato de que essas antigas concessões já foram assimiladas como direito, cria um paradoxo social e político à manutenção da base social do lulismo senil no Nordeste. Há um limite explícito à capacidade de fazer “transformações profundas”. O fato do Programa Reforma Casa Brasil ter utilizado apenas 3% do total investido e da isenção do imposto de renda não ter tido o impacto esperado são expressões dessa contradição. Ainda que o governo tenha criado o Pé de Meia, de subsídios para financiamento de automóveis destinados a motoristas de aplicativos, entre outras medidas.

Entretanto, o lulismo senil no Nordeste assumiu uma forma própria. Há uma espécie de combinação geracional: de um lado pessoas que viveram transformações tidas como importantes no Nordeste como os programas Luz Para Todos, Fome Zero e a Transposição do Rio São Francisco. De outro, um setor jovem que compartilha essas memórias e anseia por “transformações mais profundas” e que são assistidos por políticas sociais. Segundo Caged e Sagicad (2023-2024), o Nordeste possui sete dos doze Estados onde a população beneficiada pelo Bolsa Família excede a população empregada. 

Essa amálgama de gerações e desejos de mudança se transmitem também nos números. Nas eleições que se aproximam, o Nordeste segue sendo o local onde Lula possui larga vantagem sobre Flávio Bolsonaro nas intenções de voto e o único lugar no país com a aprovação alta em 61%, segundo a pesquisa de abril da Genial/Quaest. No entanto, analistas apontam que no comparativo com a última eleição presidencial, Lula já não tem a mesma margem de diferença de votos que já teve em relação a Jair Bolsonaro. 

Está muito cedo para fazer previsões se este quadro se manterá desta maneira, mas de toda forma, sobretudo depois da repercussão positiva da reunião entre Lula e Trump e os áudios entre Vorcaro e Flávio Bolsonaro, devemos estar atentos se essa diferença em relação à eleição anterior vai se manter ou não. De toda forma, o cenário está em aberto, uma vez que estamos há meses da eleição e quanto mais ela se aproxima, uma série de fatores passam a exercer influência na intenção de voto de cada eleitor.

O pano de fundo onde se desenvolvem essas relações é um Nordeste que ainda persistem problemas estruturais, os piores índices de desenvolvimento humano, desigualdades sociais, índice de pobreza, desemprego, trabalho precário, informalidade, etc, isto é, onde o tema do “desenvolvimento” ainda consiste numa questão fundamental. Esses elementos colocam limites à hegemonia do lulismo senil, além do mais, as expectativas do 3º mandato estão bem longe de serem alcançadas e nem de longe superadas. Não houve uma mudança qualitativa na qualidade de vida dos trabalhadores que seguem endividados e a alta dos alimentos cria ainda mais esse sentimento de insatisfação. 

Mas apesar de tudo isso, Lula segue sendo uma figura com bastante capital político na região, o que reflete nas disputas eleitorais, especialmente para o governo estadual. Este peso não é apenas resultado de como o próprio lulismo senil se desenvolveu na região, mas também expressão da debilidade do bolsonarismo no Nordeste. Com a prisão de Bolsonaro, a rejeição dos atos golpistas de 8 de janeiro (91% dos nordestinos reprovaram a ação um ano depois, segundo a Genial Quaest) e seus discursos abertamente misóginos e xenófobos, trazem certo nível de dificuldade para Flávio Bolsonaro emplacar (a não ser em Maceió, um reduto político importante do bolsonarismo no Nordeste).

Mas a debilidade do bolsonarismo não seria em si uma explicação que pudesse dar conta de explicar sua capacidade de hegemonizar setores de massas. Para compreender a adesão que amplos setores de trabalhadores e jovens ainda têm pelo projeto do lulismo, precisamos analisar mais a fundo a relação entre Lula e os governos regionais. 

2. O campo magnético 

A alta aprovação de Lula no Nordeste é um fato político relevante. Como iremos desenvolver a seguir, esse elemento, por hora, vem dando o tom de como se desenvolvem as relações políticas recíprocas entre os governos estaduais no marco das eleições que se avizinham, sejam eles do PT ou da frente ampla e até mesmo os de oposição. O que está em jogo é uma dinâmica de aproximação e distanciamento da figura do Lula na medida em que este ainda goza de prestígio e força social na base lulista, isto é, enquanto o Nordeste segue sendo seu principal reduto eleitoral. 

Num quadro mais geral podemos dizer que os governos no Nordeste fizeram altos investimentos, alguns históricos, em infraestrutura e “segurança pública”, como forma de fortalecer suas hegemonias nos Estados, no sentido de estabelecer um programa de reformas urbanas parciais combinada com elementos preventivos de fortalecimento das forças repressivas. 

Nos Estados dirigidos pelo PT, saltam os investimentos em “segurança pública”, especialmente no Rio Grande do Norte onde Fátima Bezerra criou o programa Território Seguro, quase como uma “vitrine” para o governo Lula apresentar uma forma “alternativa” de combate ao “crime organizado” frente à política de chacinas da extrema direita. No Ceará de Elmano de Freitas, foi onde mais se utilizou recursos do fundo de “segurança pública” e na Bahia é o Estado onde a polícia mais assassina negros no país.

As alianças regionais para conformar chapas e até mesmo o apoio a candidaturas estaduais têm na figura de Lula um campo de atração importante, tanto para candidatos de sua base quanto para os de oposição. Na Bahia, a reeleição de Jerônimo segue acirrada contra ACM Neto. No Ceará Ciro Gomes (PSDB), tem larga vantagem sobre Elmano de Freitas (PT), mas empata com Camilo Santana (PT) nas intenções de votos. No Piauí a chance de reeleição no primeiro turno de Rafael Fonteles (PT) é alta. No Rio Grande do Norte, apesar da alta taxa de desaprovação da atual governadora, o que dificulta emplacar seu sucessor, Cadu Xavier (PT), já aparece em empate técnico com outros dois concorrentes.

Nos bastidores a conformação de chapas majoritárias segue a todo vapor e ainda há regiões em que elas não estão totalmente definidas. Há a possibilidade de apoio de Lula a dois candidatos à disputa estadual, o palanque duplo, uma forma encontrada por Lula para não perder votos em sua principal base eleitoral com possíveis polarizações regionais. 

Na Paraíba, o presidente do PT, Edinho Silva, confirmou a possibilidade de palanque duplo na disputa entre Lucas Ribeiro (PP) e o  ex-prefeito de João Pessoa Cícero Lucena (MDB). Em Pernambuco, Edinho afirmou que por mais que o apoio de Lula seja para João Campos (PSB), está aberto a negociar Raquel Lyra (PSD) caso ela queira apoiar o presidente. No Maranhão ainda que as disputas tenham se intensificado entre Eduardo Braide (PSD) e o sobrinho do atual governador Carlos Brandão (PSB), após ruptura do governador com o grupo de Flávio Dino, ainda está incerto como será o desfecho dessa disputa, não se descarta a possibilidade de um palanque duplo já que o PT lançou a pré-candidatura de Felipe Camarão. 

Não podemos descartar que a possibilidade de apoio a mais de dois candidatos a governador aumente, na medida em que se avance no calendário eleitoral e a popularidade de Lula se mantenha alta junto com as intenções de voto. Mas o fato é que o peso da figura de Lula segue sendo importante até mesmo naqueles estados que tem opositores como João Henrique Caldas (PL) prefeito de Maceió e pré-candidato a governador que disse recentemente que “o povo reconhecerá os esforços de Lula” na região. Até mesmo ACM, que se coloca como o candidato “anti-Lula” no Nordeste e acabou de fechar uma chapa com PL, encontra bastante dificuldade para declarar apoio abertamente a Flávio Bolsonaro, resultado da alta aprovação de Lula no Estado.

Esse panorama eleitoral pode nos ajudar numa visão mais geral sobre as disputas em cada Estado, indicando esses movimentos entre as chapas e o atual presidente. Uma análise minuciosa delas poderia fornecer uma visão mais completa do fortalecimento das frações burguesas, oligarquias e de seus respectivos interesses em jogo. No entanto, os cenários da disputa do governo apontam a uma relativa força do PT para reeleição e para emplacar sucessores, a possibilidade de Lula realizar novamente palanques duplos e certa dificuldade de Flávio Bolsonaro emergir como uma figura forte de oposição. 

Esses elementos correspondem a uma tendência geral da figura de Lula se manter como fator político importante da disputa eleitoral na região. A partir desse quadro mais geral, algumas hipóteses sobre a hegemonia do lulismo senil no Nordeste podem ser traçadas. A dinâmica social do lulismo senil no Nordeste que guarda aspectos de fortaleza e desgaste, pode ser compreendida através de uma metáfora da relação de repulsa e atração entre campos magnéticos, isto é, ora governadores podem se aproximar da figura de Lula ora se afastar.

Não se trata apenas de uma adesão, mais ou menos fiel à figura de Lula, ao contrário, esse movimento está totalmente vinculado à capacidade de programas que a princípio poderiam parecer distintos se combinarem mutuamente. Dito de outra forma, o que está em jogo, é que os governos estaduais possuem programas próprios que podem se aproximar ou divergir de Lula na medida em que seu projeto de país ganhe ou perca força entre os eleitores do Nordeste, ou seja, enquanto o lulismo senil ainda possua adesão orgânica de massas.

Esse movimento de repulsa e atração tem paralelos na dialética do eletromagnetismo, não só porque o mesmo tipo de entidade física pode possuir comportamentos distintos, mas também, porque o movimento depende de sua direção vetorial, em nossa analogia, no sentido político e estratégico que as hegemonias em disputa podem adquir.

O lulismo senil carrega uma promessa de transfomação que atravessa gerações no Nordeste e limites bem definidos que precisa dialogar com a demanda da população por tranformações profundas. Essa combinação de fatores sociais leva a que o programa de assistência social petista encontre no programa de investimentos em infraestrutura estaduais encabeçados pelos governadores, uma certa continuidade, porque conjugam-se com a ideia de transformação (ou desenvolvimento) e melhora de vida (relativa) regional. Ou seja, se atraem na medida em que os investimentos em infraestrutura são assimilados pela população com parte ou a tentativa de governadores e Lula darem vazão àquelas transformações necessárias. O Novo PAC, a transnordestina e a nova transposição do Rio São Francisco caminham nesse sentido.

Como no eletromagnetismo, os pólos opostos se aproximam e tendem a cancelar mutuamente, pois seus vetores apontam para a mesma direção, combinando-se assim em um único campo contínuo.  O lulismo senil encontra em outras hegemonais uma combinação quase “perfeita” para responder as debilidades do próprio lulismo senil, ou em outras palavras, desde o programa consegue achar conecxões, porque caminham junto no sentido de responder aos anseios da população onde concessões mínimas possam ser inicialmente sentidas como maiores conquistas.

Ao mesmo tempo, na medida em que os elementos estruturais do capitalismo nordestino “falam mais alto”, o endividamento das famílias, desemprego, informalidade, aumento do preço dos produtos e a escala 6x1 começam a se chocar com as expectativas que o governo Lula 3 havia criado de melhorar a vida, a adesão social ao programa passa a se desgastar, o sentido político da hegemonia dos governos estaduais adota uma “nova” rota, própria e contrária ao projeto de país do lulismo. 

Novamente como no eletromagnetismo, quando  os vetores de energia estão em direção oposta, eles não se cruzam e se afastam para evitar o choque, porque no campo magnético só pode existir uma única direção no espaço. Quanto mais os limites do lulismo senil dão o tom das esperanças no desenvolvimento social no Nordeste, a ponto de não ser mais o projeto que a população deposita toda sua confiança de transformação, as hegemonias estaduais e o lulismo senil passam a caminhar em sentido oposto e tendem a se repelir.

O Nordeste vai se transformando assim, em um campo magnético a. A contradição do lulismo senil é justamente aparecer como uma continuidade de outras hegemonias, ganhando uma dinâmica de relação política complementar. Esse processo se alimenta de um paradoxo, quanto mais governadores e Lula respondem aos anseios por mudanças, tendem a se fortalecer mutuamente, mas na medida em que se fortalecem também se debilitam, porque os governos estaduais passam a se erguerem enquanto projetos políticos distintos do lulismo e aproveitam cada brecha, resultado de seu desgaste, para se postular como um “novo” projeto hegemônico. 

Evidentemente, que num momento de estabilidade da frente ampla e com questionamento por esquerda em setores de massas ainda “adormecidos”, sobretudo quando se aproxima a conjuntura eleitoral, o processo de atração das hegemonias é a tendência que prima conjunturalmente. Talvez o caso mais emblemático dessa situação política seja o palanque duplo em Pernambuco, por mais que o apoio de Lula a João Campos tenha sido anunciado, Raquel Lyra não quer se distanciar de sua imagem, referindo-se sempre que pode a boa relação com o executivo nacional. Para compreender melhor esse processo, é necessário entender a constituição dessas hegemonias regionais. 

3. As hegemonias regionais

As hegemonias regionais dispõe de um programa que consegue consentir com amplos setores ideologicamente com a ideia de que a realização de obras estruturais no estado é um sinônimo de desenvolvimento, combinado ao recrudescimento da violência policial e altos investimentos nas forças de “segurança pública”. Nesse sentido, as frações burguesas acabam conseguindo com certo nível de estabilidade dirigir amplos setores da sociedade com um programa que aponta para um suposto desenvolvimento regional - ainda que débil, já que não conseguem dar conta dos inúmeros problemas sentidos pela população. Ao mesmo tempo, conseguem influenciar e, nesse sentido, dominar o conjunto das classes para seu projeto regional. Para compreender todo esse processo, é necessário um olhar atento à dinâmica econômica nordestina nos últimos anos.

Nos últimos quatro anos houve uma tendência geral no aumento das exportações da região Nordeste, ainda que em 2023 tenha apresentado recuo. Em 2025, as exportações representaram US$ 25 bilhões, o melhor resultado dos últimos três anos, mas que não alterou a participação das vendas internacionais no quadro nacional, equivalente a 7%. Bahia lidera as vendas, seguida de Maranhão e Pernambuco - entre os produtos mais vendidos estão aqueles do reino vegetal, minerais e alimentos industrializados.

Outras economias “menores” na região, apesar de não estarem no topo do ranking de exportações, também cresceram. As exportações do agronegócio em Sergipe cresceu 300%, o Rio Grande do Norte é o maior produtor de petróleo em terra do Brasil, cerca de 60% do PIB industrial potiguar (45% a 48% vai pra China; e 10% pros EUA). O Piauí projeta uma safra de soja recorde em 2026, superando a produção de 6,5 milhões de toneladas de 2024/2025. Alagoas segue sendo o maior produtor de cana do Nordeste e a Paraíba aumentou a produção de grãos (abastecimento interno) e teve o 2º maior crescimento industrial do país.

Os governos estaduais têm tentado dar conta dessa nova dinâmica comercial frente ao aumento da demanda por soja, minerais, petróleo e derivados, com investimento em infraestrutura, especialmente em estradas e rodovias, porque precisam amenizar os problemas dos gargalos operacionais, dinamizando a produção e aumentando a produtividade. 

Bahia, Pernambuco e Piauí têm investimentos bilionários em estradas, pavimentação de rodovias e expansão da malha rodoviária com os programas Bahia em Movimento, PE na Estrada e o Programa de recuperação e expansão da malha rodoviária, respectivamente. Ceará, Sergipe e Rio Grande do Norte aumentaram seus investimentos em rodovias em 103%, 65% e 255% em relação a anos anteriores. 

No ano passado, o governo federal fez investimento bilionário em infraestrutura com a Sudene através do FNE, o Novo PAC e o BNB em rodovias, mobilidade urbana, infraestrutura hídrica e produtiva no campo, portos, aeroportos, etc. Segundo a Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (ABDIB), nacionalmente, 85% dos investimentos em infraestrutura vieram do setor privado.

Os portos de Ilhéus, Aratu-Candeias, Enseada, Piauí, Pecém, Suape e Itaqui receberam investimentos privados e estaduais e do Novo PAC no último período para obras de expansão e melhoria na infraestrutura. Pernambuco foi o que mais recebeu investimento para dragagem e expansão, seguidos de Ceará com investimentos para alteração de infraestrutura voltada para o hub de hidrogênio verde e do Maranhão com obras para expansão do terminal de grãos.

Na medida em que se aumenta a capacidade de escoamento da produção do interior para os principais portos da região, os governos estaduais com recursos privados e federais, também enxergam a necessidade de garantir a expansão de setores da agroindústria e indústria. Alguns Estados dão isenção de ICMS para indústrias, há programas como o PRODEPE em Pernambuco, o Mais Empresas no Maranhão, o FDI no Ceará, o Desenvolve na Bahia. O  Conselho Deliberativo e do Comitê Regional de Instituições Financeiras Federais (Coriff) anunciou, neste ano, a maior operação de crédito para indústria na história do Nordeste. Para atender a agroindústria, as indústrias e datas centers há investimentos em estrutura hídrica, além de construção de barragens, adutora e expansão de canais que atendem ao interesse da população do interior e pequenos agricultores. 

Há também altos investimentos em “segurança pública” como parte de dialogar com outro sentimento na sociedade relativos à miséria capitalista e à violência social, exemplos disso a criação de programas específicos como por exemplo Juntos pela Segurança em Pernambuco e Território Seguro no Rio Grande do Norte. 

Há, portanto, a nível estadual a criação de um programa burguês e popular, através de investimento em obras de infraestrutura que possibilita dinamizar a produção de indústria e agricultura, fortalecendo as classes proprietárias e oligarquias do interior (além é claro do capital estrangeiro que investe na região). Ao mesmo tempo, essas mesmas obras de infraestrutura atingem a população de conjunto, porque dinamizam a mobilidade entre município e cidades polo, além de criar a sensação de que as obras hídricas estão a serviço de combater o problema das secas. 

Conjunturalmente isso conflui com o aumento da geração de empregos formais na região (a menor taxa de desocupação de sua série histórica), ainda que siga sendo uma das taxas de desocupação mais altas do país. O programa de obras de infraestrutura, rodovias e expansão de portos, combinado à geração de empregos formais, ajuda a criar uma falsa sensação de melhora de vida  e de que há um certo “desenvolvimento” no estado. 

Por trás dessa ideia de “desenvolvimento”, por mais que as coisas não pareçam estar estagnadas, há limites para que esse sentimento cresça sem contradições, porque estão intactas a estrutura do capitalismo nordestino. O limite deste programa consiste justamente nisso: a informalidade segue acima dos 50%, houve aumento do número de MEIs, muitos dos trabalhos gerados são em escala de trabalho precárias, como a escala 6 por 1, salários baixos e alto índice de letalidade policial contra a população negra e o aumento dos indíces de violência de gênero. 

4. As hegemonias locais

As hegemonias locais ou pequenas hegemonias estão circunscritas às cidades, ou melhor, às capitais nordestinas onde surgiram “fenômenos eleitorais”. Muito antes da formação de hegemonias regionais fortes, elas já antecipavam as formas como “projeto alternativos” ao lulismo senil que poderiam emergir dialogando com o desejo de tranformação das massas. Eles permanecem mais ou menos com boa aprovação em suas respectivas capitais o que os credencia para alçar vôos maiores, como a disputa ao governo do estado. Nesse cenário, há em certo sentido o acirramento de rivalidades regionais e locais, como projetos hegemônicos em disputa que por mais antagônicos que se pretendam, acabam se articulando e combinando-se mutuamente.

Ao longo dos últimos anos surgiram alguns “fenômenos eleitorais” nas eleições municipais de 2024 em seis capitais do país, alguns prefeitos que se reelegeram no 1º turno com mais de 70% dos votos válidos. Dentre eles, quatro estão na região Nordeste. A despeito das dinâmicas regionais de cada capital, podemos traçar um paralelo entre os prefeitos João Campos (PSB) com 78,11% em Recife, João Henrique Caldas (PL) com 83,25% em Maceió, Eduardo Braide (PSD) com 70,12% em São Luís e Bruno Reis (União) com 78,67% em Salvador. 

Eles têm um programa próprio que atende a uma espécie de “fórmula eleitoral” que podemos ver a partir de um elemento em comum entre João Campos, JHC, Bruno Reis e Eduardo Braide. Ela consiste na alta contração de dívida com bancos nacionais e estrangeiros, somados a um plano de obras de infraestrutura que atentem minimamente a demandas bastante sentidas pela população, combinado a isso, um alto investimento na comunicação e marketing digital. 

As obras longe de resolverem problemas estruturais das cidades, como o problema das enchentes, deslizamentos ou a mineração de sal gema, tem um efeito significativo, porque diz respeito a mudanças perceptíveis na vida dos trabalhadores como asfaltamento de calçadas, ruas, manutenção de área de lazer, construção de pontes e obras de drenagem. 

Promovendo obras que perpassam o clientelismo local, ou seja, que diz respeito apenas a um bairro ou comunidade específica, fortalecendo as relações políticas locais, essas prefeituras  alcançam, ainda que de forma circunscrita a sua cidade, influência política nas capitais (e às vezes para além como em outras cidades da região metropolitana e nos interiores).

Os prefeitos passam a transformar cada obra parcial, combinando suas plataformas digitais pessoais a das prefeituras com o apoio da opinião pública, em uma “grande” transformação da cidade, fazendo propaganda de si mesmo enquanto “gestores” da cidade, isto é, como “prefeitos técnicos”, que sabem o que é o melhor para sua cidade, porque conjugam num plano mais amplo inúmeras obras de infraestrutura.

A cultura popular e o turismo também fazem parte desse plano mais geral. Embora elas não estejam vinculadas aos gastos de infraestrutura, entra no cálculo político desses prefeitos a realização de megaeventos ou de se apoiarem no turismo local para impulsionarem suas figuras. João Campos gastou aproximadamente 600 milhões com eventos - valor superior ao que foi investido em obras para contenção de barreiras e drenagem. Eduardo Braide inaugurou a Avenida do Reggae em São Luís, com obras voltadas ao lazer e um novo paisagismo para ser um novo cartão postal da “Jamaica Brasileira”. Além disso, impulsionar o turismo significa dinamizar o 3º setor, principal setor econômico e aquecer a economia informal que é bastante forte nas capitais. 

Entretanto, o “carro chefe” dessas prefeituras são as obras de infraestrutura. Em São Luís, Eduardo Braide, para além de obras já realizadas, anunciou recentemente o maior pacote de obras e serviços da história da capital com 1,6 bilhão de reais de investimento público. João Campos consolidou o maior ciclo de investimentos em obras de infraestrutura da história da cidade com o empréstimo de 2 bilhões de reais com o Banco Internacional de Desenvolvimento. Bruno Reis e JHC também realizaram investimentos históricos nesse setor - outras prefeituras também adotaram o mesmo programa,  Emília Correia (Republicanos), prefeita de Aracaju, tem na pasta de infraestrutura o 2º maior destino de investimentos em seu governo.

Na medida em que faziam propaganda de si mesmos e de suas obras, foram ganhando projeção e estabelecendo consenso desde a opinião pública, sindicatos, igreja de suas cidades, bairros e associação de moradores, etc. Decerto, os anos que antecederam esta última eleição também foram decisivos, o impacto da pandemia no Nordeste desde os altos índices de fome e desemprego, mas também as inúmeras obras paralisadas resultado dos grandes eventos internacionais que o país sediou, deixaram marcas nas cidades que esses prefeitos souberam contornar e utilizar a seu favor. Esses prefeitos deram ao sentimento que pairava no geral de desespero e a estagnação, uma forma concreta que dialogou com o desejo de mudança social imediata a partir de obras na cidade.

No mesmo sentido em que as hegemonias regionais, o programa daquelas prefeituras nas capitais ajudaram a conformar pequenas hegemonias ou hegemonias locais, baseadas também num programa burguês e popular. As obras de infraestrutura além de atender demandas da população a partir da mobilidade urbana e questões básicas como asfaltamento e drenagem, acabam favorecendo também as empreiteiras e a especulação imobiliária. Soma-se a isso, as formas que as prefeituras encontraram para impulsionar o 3º setor desde a via do turismo, mas também deixando intacta a estrutura do capitalismo na cidade.

O porto digital de Recife, por exemplo, lucrou mais de 6 bilhões em 2024 com produção de software e tecnologia que estão a serviço em sua maioria de empresas internacionais e não são usadas para resolver os problemas de alagamento, enchentes e deslizamentos. O crescimento de empresas de turismo, teleatendimento, saúde privada, supermercados, etc, naquelas capitais, em sua maioria em base a trabalho na escala 6x1, também são exemplos disso. Só para termos um ideia, entre os 10 burgueses mais ricos do Nordeste, figuram na lista em 2º lugar, Ilson Mateus Rodrigues do Maranhão (Grupo Mateus) e em 3º Cândido Pinheiro do Ceará (Hapvida).  

As hegemonias locais  apresentam um programa “alternativo” àqueles governadores e governadoras, colocando à população a possibilidade de ver frente a frente dois modelos de  gestão de governo que existem, aparentemente, um em detrimento ao outro. Mas elas também carregam algum elemento de complementaridade em relação às outras hegemonias dos governos estaduais, isso porque, a sorte das hegemonias locais está totalmente vinculada ao conjunto de obras infraestruturais. Como numa cadeia de engrenagens na indústria, a cidade cumpre um papel central, porque concentra contingentes volumosos de força de trabalho que atendem aos projetos de expansão de portos e rodovias dos governos estaduais. 

A contradição deste processo reside na essência de seus programas: um não existe sem o outro. Para que os estados possam atender às demandas dos mercados internacionais e superar os problemas dos gargalos logísticos, a cidade é seu ponto de apoio. Ao mesmo passo, quanto mais conseguem atingir aquele objetivo, seus projetos políticos se valorizam de forma proporcional, mas como existem no terreno da política em formas hegemônicas distintas tendem a se chocar como oposição. 

Ao se complementar, não apenas fortalecem a ideia de um suposto desenvolvimento qualitativo. Há também a concentração das contradições do capitalismo como a superexploração do trabalho, violência social, racismo, feminicídio e trabalho precário etc. Essa é a essência de todo programa burguês, se desenvolvem as contradições em que as classes dominantes podem seguir lucrando.

Conclusão

Mas apesar de toda essa contradição, resultado das relações de oposição e complementariedade do lulismo senil, as hegemonias regionais e locais encontraram nos últimos anos também um limite a sua expansão. No Nordeste e Norte do país se expressaram exemplos importantes para compreender os limites desses processos de combinação entre hegemonias e suas relações com o capital estrangeiro e de respostas a ataques do governo Lula como o Arcabouço Fiscal.

A luta dos povos do Tapajós contra a Cargill e a privatização dos rios é um grande exemplo disso. Essas hegemonias burguesas em menor ou maior grau, na medida em que alimentam o aprofundamento das contradições do capitalismo, fazem emergir por baixo forças sociais que lutaram de forma independente e com métodos de ocupação e cortes de rua, por direitos elementares como o direito à sua própria terra e à vida. A luta dos trabalhadores, camponeses e povos indígenas contra os ajustes de Rodrigo Paz a mando do imperialismo também é um grande força para nossa luta, apesar da traição da COB, a continuidade de embates na luta de classes segue em aberto. 

Por outro lado, as recentes greves por reajuste salarial há dois anos protagonizados pelos técnicos das universidade e institutos federais no Brasil, mas em particular em Pernambuco, mostraram e segue mostrando a força da categoria em se enfrentar com o Arcabouço Fiscal que é um elemento importante do lulismo em sua fase senil. Os professores no Ceará, por exemplo, para garantir seu direito de greve pelo reajuste, tiveram que passar por cima da burocracia, literalmente, um grande exemplo dessa força.

Esses elementos colocam os desafios da superação dessas hegemonias pela força da classe trabalhadora como um sujeito político independente, mobilizando com ela todos os setores oprimidos, com o objetivo de responder cada demanda mais sentida da população pobre e trabalhadora, mas também colocando na ordem do dia o questionamento à propriedade privada e as instituições burguesas.