O mito da direita “democrática” no Brasil e lições do fim da 6x1, os caminhos para derrotar a extrema direita
A menos de uma semana do segundo turno e diante de uma enorme força social que se mostra nas ruas, é uma tarefa necessária e urgente derrotar Flávio Bolsonaro e a extrema direita, capacho do imperialismo de Donald Trump. Para isso, coloca-se também um debate de estratégias. Há uma uma ideia que está sendo disseminada que considera que a chave neste momento é disputar a direita, contra o bolsonarismo, para isso normalizando inimigos históricos da classe trabalhadora brasileira e seu programa. Com esta nota, queremos debater com essa concepção, uma vez que ela resulta justamente no objetivo contrário: fortalecer o bolsonarismo, incorporando posições reacionárias à consciência dos trabalhadores e jovens e preservando atores que nos trouxeram até aqui, com a extrema direita fortalecida no regime. A histórica derrota da escala 6x1 nesta semana e as manifestações massivas nas ruas apontam para outro caminho, e é preciso tirar lições. São elas que podem impactar verdadeiramente nas eleições, e mais ainda, nos anos futuros em que vamos ter que enfrentar essa extrema direita com unhas e dentes.
“Agora virou cool ser de direita”, escreveu um colunista ao Estadão nesta semana. A matéria ironiza, a partir da linha editorial de direita do jornal, a operação política em curso na campanha petista. Como retrata a Gazeta do Povo, nas redes, influenciadores desenterram declarações de FHC em apoio a Lula, afagos de Aécio Neves em 2010, chegam a veicular cortes do ex-ministro de Bolsonaro Paulo Guedes elogiando a política fiscal dos governos petistas e buscam disputar até mesmo o ultra reacionário Renan Santos, que, entre inúmeras propostas, ficou conhecido por defender o “prendeu, matou” para a juventude negra e atacar o voto feminino. O lema da campanha é pregar que “esquerda e direita estão juntas” com Lula contra Flávio Bolsonaro, como se a direita no Brasil pudesse ser uma aliada “democrática, patriota e defensora dos direitos humanos” em prol de sua própria sobrevivência. Ainda assim, como era de se supor, Augusto Cury (Avante), Romeu Zema (Novo) e Ronaldo Caiado (PSD) já declararam apoio a Flávio Bolsonaro no segundo turno. Com este artigo, vamos debater como a direita não pode ser aliada contra a extrema direita.
O mito da direita “democrática” no Brasil
Nas palavras da deputada Ana Elisa do PT mineiro, “a direita foi engolida pelo bolsonarismo”. Assim, os apelos da cúpula da campanha petista têm um único objetivo: sinalizar à direita de que sua sobrevivência, nas ruínas do regime de 1988, depende de uma aliança com o PT para isolar o bolsonarismo. Em última instância, essa tese é a continuidade do projeto da Frente Ampla e de sua teorização, que em 2022 teve como principal símbolo a incorporação de Geraldo Alckmin, histórico antagonista do PT e por décadas um dos principais nomes do PSDB de São Paulo, à chapa de Lula. Nessas eleições, vimos até opiniões da grande imprensa de que Lula deveria se comprometer a renunciar e Alckmin assumir, como questão decisiva para essas eleições. O mesmo candidato que praticamente derreteu em 2018 agora é apresentado como a “salvação”.
A questão, entretanto, é que a tese de que existiu outrora no regime brasileiro uma "direita democrática, civilizada e patriótica", corrompida pelo bolsonarismo, não resiste à realidade. A Nova República nasceu da transição tutelada de 1988, na qual os torturadores dos porões da ditadura foram anistiados e a estrutura partidária do velho ARENA passou a compor o nascente "Centrão". Assim, a tensão entre uma suposta “direita democrática” no Brasil e as heranças da ditadura sempre se fizeram presentes. O próprio jornal Estadão, apoiador histórico do golpe de 1964, afirma na coluna de Fábio Lana que a direita brasileira teve que sempre lidar com a associação, ora aberta, ora tímida, à ditadura. Assim, só é possível compreender como o regime político de 1988 gestou o bolsonarismo, saudoso da ditadura e de seus torturadores, se olharmos para a genealogia dessas figuras de direita que a campanha petista agora tenta reabilitar. O autoritarismo sempre esteve no DNA da classe dominante brasileira.
O PSDB, associado a uma ala do MDB da ditadura, de Fernando Henrique Cardoso, Aécio Neves e Geraldo Alckmin, frequentemente pintado como o verniz intelectual e democrático do conservadorismo, governou o país em aliança orgânica com o PFL (atual União Brasil). O PFL não era um partido conservador qualquer, preciso lembrar que a antiga Arena se dividiu em dois, e o PFL foi o setor que rompeu com o PDS para apoiar a candidatura de Tancredo Neves. Quando o PT faz esse apelo à direita democrática, reproduz a mesma lógica de abraçar todos, exceto o PDS naquela época, o que hoje se traduz em tentar aliar-se a todos, exceto ao bolsonarismo. Ainda assim, figuras centrais dessa aliança, como Antônio Carlos Magalhães (ACM), Marco Maciel e Jorge Bornhausen, foram prefeitos biônicos, governadores nomeados e ministros dos generais durante a ditadura. Embora nomes como FHC tenham sido exilados pelo regime, durante os oito anos do seu governo, o vice-presidente da República foi Marco Maciel, e o fiador da governabilidade no Congresso foi o autoritário ACM.
Mais do que alianças, essa dita "direita democrática" aplicou a cartilha autoritária diretamente contra a classe trabalhadora e a população. Aos que tentam emplacar hoje o discurso nostálgico de que "ah, mas a direita democrática era diferente...", basta lembrar alguns símbolos: foi sob a gestão dessa mesma direita que ocorreram episódios brutais. No Massacre do Carandiru (1992), a Polícia Militar executou 111 detentos sob o governo de Luiz Antônio Fleury Filho (PMDB). No Massacre da Candelária (1993), jovens em situação de rua foram assassinados por policiais no Rio de Janeiro, evidenciando a barbárie impune dos esquadrões da morte na Nova República, à época sob o governo de direita de Itamar Franco. E no Massacre de Eldorado dos Carajás (1996), em pleno governo federal de Fernando Henrique Cardoso (PSDB), a PM do Pará assassinou 19 trabalhadores rurais do MST sob as ordens do governador tucano Almir Gabriel.
FHC também não hesitou em acionar o Exército contra a histórica greve dos petroleiros em 1995, enquanto Alckmin consolidou no governo de São Paulo a prática de usar a Tropa de Choque como resposta às reivindicações de professores e estudantes, aprofundando também a repressão policial e o encarceramento em massa da juventude negra. Além disso, longe de encarnarem qualquer soberania, foram fiéis executores do Consenso de Washington na América Latina. Foram responsáveis pela entrega a preço de banana de setores estratégicos, como com a Vale do Rio Doce, o sistema Telebrás e subsidiárias da Petrobras, ajoelharam-se ao FMI e, não à toa, ficaram conhecidos pelo próprio Lula como “herança maldita”. Queimar a bandeira dos Estados Unidos e reivindicar o PSDB é um contrassenso em si mesmo.
Indo além, quando o marketing petista resgata cortes nas redes de Paulo Guedes (!) para chancelar a responsabilidade fiscal de Lula, essa problemática ganha novos contornos. Aqui não se trata nem do mito da direita democrática, e sim da incorporação do programa econômico do bolsonarismo. Guedes representa o ultraliberalismo, tendo forjado sua visão econômica no Chile sob a ditadura de Augusto Pinochet, como não é segredo para ninguém. Como ministro, ele não foi acidental, mas quem buscou as versões mais agressivas da Reforma da Previdência, aprovada no governo de Jair Bolsonaro, e queria aprofundar a Reforma Trabalhista já escravista. Além disso, foi parte do governo que significou 700 mil mortes na pandemia. Não há sombra de “direita democrática” em Paulo Guedes, muito menos soberana. Nesse caso, que Guedes seja acionado elogiando a política fiscal dos governos petistas é o mesmo que reivindicar o caminho das reformas e do ajuste contra os trabalhadores, na versão mais dura do bolsonarismo.
Já a tentativa da campanha de Lula de flertar com figuras como Renan Santos e o MBL (agora partido Missão) demonstra o nível a que se chegou, um candidato que não escondeu sua retórica fascista em muitos momentos. O próprio ex-presidenciável diz que está achando engraçado, entre interações com a cantora Anitta nas redes sociais cobrando seu posicionamento e elogiando suas “críticas” aos Estados Unidos, enquanto se mantém “firme” sem prestar qualquer apoio a Flávio Bolsonaro e a Lula. Nesse caso, não se trata de uma direita do regime de 1988 engolida pelo bolsonarismo, e sim da tropa de choque ideológica do golpe institucional de 2016. O MBL popularizou o assédio a professores (com o Escola sem Partido), o ultra punitivismo racista ("prendeu, matou") e a defesa das privatizações e dos ataques mais duros. Longe de qualquer “soberania”, o MBL defende uma nova Reforma da Previdência para atacar ainda mais a aposentadoria da população e cortes orçamentários de mais de 1 trilhão, em prol da dívida pública para os grandes bancos internacionais. Entreguismo é pouco.
Assim, se a direita brasileira nasce de um regime tutelado pela ditadura, seu signo autoritário mais recente é justamente o golpe institucional de 2016 que abriu caminho ao governo de Jair Bolsonaro, com a prisão arbitrária de Lula em 2018 e a aprovação de duros ataques, como as reformas. Onde estava a dita “direita democrática” no golpe de 2016? Justamente sendo parte do crescente autoritarismo do regime político que fortaleceu a extrema direita. A direita dita liberal, o tucanato e o MBL não foram vítimas "engolidas" pela emergência da extrema direita, mas quem ajudou a parir esse fenômeno. E não é preciso lembrar que foi Aécio Neves e o PSDB que iniciaram o movimento de questionamento das urnas em 2014, que iria culminar no golpe institucional de 2016. Associar a defesa da democracia, da soberania e de direitos a esses setores é apagar as últimas décadas da história do Brasil, criando um mito que sempre se volta contra os trabalhadores e a juventude, ainda mais quando estes se colocam em luta.
A conciliação de classes e os acenos a um programa reacionário
A lógica que está por trás dessa argumentação, contra um suposto “dogmatismo” da esquerda que seria incapaz de dialogar com a direita, é justamente a disputa do chamado eleitor conservador contra Flávio Bolsonaro. Acenando a figuras que defendem reformas, entreguismo, privatizações, repressão e mesmo as ideias mais misóginas, pressupõe-se que assim a campanha ataca o “problema da comunicação” do governo, tornando-se capaz de sensibilizar o eleitor conservador para o voto petista.
A realidade, entretanto, é que nunca faltaram acenos à direita por parte das campanhas e governos petistas, nem propaganda deles. Figuras como André Janones, atuando como importante linha auxiliar da campanha, desferem ataques chamando a esquerda mobilizada de "nojenta e elitista", enquanto tecem elogios a políticos reacionários como Cleitinho de Azevedo (Republicanos), que seria a chamada “esquerda popular”. O resultado dessa operação? Assim como Cury e companhia, o mesmo Cleitinho que recebeu afagos logo se apressou em declarar apoio irrestrito a Flávio Bolsonaro. Os acenos à direita não convertem o conservadorismo; apenas normalizam e fortalecem suas posições. A última entrevista de Lula no Jornal Nacional expressou isso: não somente orgulhou-se de cada ministério dado diretamente à extrema direita, como também assumiu para si a defesa da redução da maioridade penal, um programa que é orgulhosamente levantado pela direita e pela extrema direita e significa um enorme salto no racismo e na repressão no país com a polícia mais letal do mundo.
Uma vez mais, não foi a falta de acenos à direita que nos trouxe até aqui. Pelo exato oposto, foi dos compromissos com a direita promovidos pela conciliação de classes que se mantiveram intactas cada uma das reformas aprovadas nos últimos anos, o Arcabouço Fiscal que ataca a saúde e a educação, o endividamento do trabalhador, sua precarização, etc. Esse é o programa que essas figuras da direita defendem e que vão sendo cada vez mais incorporados quando se tornam diretamente campanha daqueles que se identificam como esquerda. A verdade é que, quando se defende o ajuste, a repressão, os valores conservadores, não se trata da esquerda disputando a direita, e sim da esquerda assumindo para si as bandeiras da direita. E assim a extrema direita se fortalece. O problema do fortalecimento da extrema direita não é um problema de comunicação ou de redes em si mesmo, apesar do papel grotesco das Big Techs. Trata-se de um problema de decisões políticas e de fazer emergir o sujeito capaz de arrancar as nossas pautas.
Lições da luta pelo fim da escala 6x1 e das massivas mobilizações nas ruas
Está claro para milhões que a enorme vitória do fim da escala 6x1, arrancada nesta semana, não se deu por uma “união entre esquerda e direita” em prol da dignidade humana ou da preocupação com o trabalhador brasileiro. A mesma direita que defende as reformas escravistas, a terceirização e a uberização não tem a menor preocupação com as condições de vida da classe trabalhadora. Renan Santos, por exemplo, há menos de dois meses chamou o fim da escala 6x1 de “maluquice”. É óbvio que o que garantiu os votos quase unânimes no Senado, mesmo por parte do bolsonarismo, foi o medo da esmagadora força social que impôs essa pauta no cenário nacional nos últimos anos. Com 70% de popularidade, ali estavam eleitores de esquerda, progressistas e conservadores, a serviço de um programa comum forjado pela classe trabalhadora. Assim, não se trata de fechar os olhos aos trabalhadores que são tomados por valores conservadores e ideias de direita, mas sim de batalhar, a partir de uma força social que imponha transformações, para disputá-los pela raiz material, e não cedendo.
É também essa força social que move milhões e milhões de pessoas, que move muitos mais que dezenas de Alckmins, Renans, Aécios e todas os setores de direita, e que se mostra nas ruas neste momento, e na qual podemos nos apoiar. Longe de buscar cada vez mais figuras de direita, o que se vê de jovens e trabalhadores queimando as bandeiras dos EUA, defendendo a educação e seus direitos, é a aliança que precisamos forjar, junto às organizações de esquerda e aos sindicatos. Mas é fundamental compreender que o compromisso do governo com a direita exige, obrigatoriamente, atacar e desarmar essa força social mobilizada e o seu programa independente, para manter a "governabilidade" com o Centrão e acalmar a Faria Lima.
A direita brasileira teme, sobretudo, a luta de classes, a classe trabalhadora organizada e a juventude que se levanta. Se sobram acordos da direita com o bolsonarismo, sobram também pactos de repressão para impedir que essa força social entre em cena para questionar todo o projeto capitalista de ataques. Bolsonarismo e a direita "institucional", quando se trata do ajuste, das privatizações e da submissão aos Estados Unidos, compartilham do mesmo projeto. A Frente Ampla, amarrada por acordos com esses setores, atua para neutralizar a única força social capaz de derrotar estruturalmente esse programa. Na luta de classes, precisam ser derrotadas a extrema direita, a direita tradicional e todos os que sustentam a precarização do povo trabalhador.
É por isso que estamos na linha de frente para derrotar Flávio Bolsonaro e a extrema direita, sem ceder um milímetro ao seu programa. Isso se dá sem moderação e sem conciliação. Para isso, confiamos na força das ruas, das greves e das paralisações. É na luta de classes, na luta da classe trabalhadora e da juventude, que podemos fazer tremer o programa das classes dominantes e do imperialismo que quer nos explorar e oprimir ainda mais. Combater efetivamente Flávio Bolsonaro, seu projeto e suas intenções eleitorais é nos conectar com milhões que celebram o fim da 6x1, e não com aqueles que sempre se beneficiaram da superexploração.