Capa: O Sonho de Dostoiévski e a Trincheira da Amizade: As Contradições da Juventude Diante da Crise Orgânica

O Sonho de Dostoiévski e a Trincheira da Amizade: As Contradições da Juventude Diante da Crise Orgânica

Por Pedro Pequini , André Higa | | Atualizado em 31.07.2026
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“Fevereiro” (Февраль), de Boris Kustodiev (c. 1918), representando os confrontos da Revolução de Fevereiro em Petrogrado.

Nas dobras profundas da crise orgânica que atravessa o capitalismo global, a juventude contemporânea encontra-se disputada por distintos projetos de sua subjetividade: a paralisia idílica e individual ou o impulso coletivo e superador. Não há linearidade na subjetividade dessa geração: ela se move em um campo de forças tensionado, onde convivem um conservadorismo defensivo, a mercantilização da rebeldia e a emergência de uma vanguarda política altamente disruptiva.

Por um lado, o peso do adoecimento psíquico, exacerbado pelos traumas do isolamento pandêmico e pela mediação digital da vida, produziu uma retração defensiva nas relações íntimas. Estudos demográficos globais apontam, por exemplo — como os conduzidos pelo National Survey of Family Growth e pelo Institute for Family Studies —, que a Geração Z registra as menores taxas de atividade sexual e de namoro das últimas décadas. 

Por outro, a recente viralização de trechos de Noites Brancas, de Fiódor Dostoiévski, em plataformas de vídeos curtos como o TikTok, oferece um retrato de particular interesse da subjetividade contemporânea. Frases como "Um minuto inteiro de felicidade! Seria isso pouco para toda a vida de um homem?" (a famosa frase final do romance) ou as passagens em que o protagonista descreve a fantasia como refúgio contra a realidade "Na minha imaginação eu crio romances inteiros..." / "Eu sou um tipo. O tipo do sonhador. O sonhador é um ser neutro..."  são frequentemente recortadas, estetizadas e embaladas por trilhas melancólicas. A imagem do "Sonhador" petersburguês renasce, assim, como fetiche e distintivo de "pureza afetiva" em um mundo marcado pela frieza das interações virtuais e pela precarização da vida. 

Longe de ser um caso isolado, esse resgate revela como a crise atual não produz apenas precarização material, mas modifica profundamente o próprio horizonte do desejo. Em períodos de estabilidade histórica, a imaginação social costuma dirigir-se ao futuro; em momentos de crise prolongada, contudo, ela tende a retroceder em busca de formas idealizadas do passado. É exatamente a partir do choque entre a dureza do presente e a incapacidade de projetar o amanhã que floresce um conservadorismo estético, do qual são expressões o interesse por comunidades religiosas tradicionais, os discursos sobre masculinidade “clássica”, as estéticas vintage e as narrativas românticas de uma autenticidade perdida.

O paradoxo dessa recepção reside no fato de que o Sonhador dostoievskiano não foi concebido como um ideal a ser emulado, mas como o retrato patológico da solidão e do isolamento que o autor, em sua transição do romantismo utópico para o realismo crítico, justamente denunciava. Contudo, talvez pouco importe se os jovens compreenderam corretamente ou não o romance de Dostoiévski. O fato interessante é que, num contexto marcado pelo isolamento, pela mediação algorítmica das relações e pelo enfraquecimento dos horizontes coletivos, justamente uma obra escrita para criticar o sonhador romântico tenha passado a circular como celebração da sensibilidade romântica. O equívoco interpretativo torna-se ele próprio um documento histórico.

No curso do movimento histórico, o romantismo apareceu como uma reação infantil, em que a nascente sociedade burguesa buscava se firmar ainda em seus próprios pés, em que as decadentes ideologias aristocráticas ainda se faziam presentes, mas encontrava-se diante de uma sociedade que arrancou os laços enfeitados feudais para a crueza capitalista. Representava também, em sua origem, um momento em que a burguesia ainda fantasiava de heróico seus traços toscos e medíocres, em que apoiavam-se nos fantasmas heróicos das ideologias passadas, para injetar suas próprias necessidades de classe exploradora e opressora. São as últimas tentativas de salvação idílica em meio ao pragmatismo burguês insurgente. 

Enquanto para a Europa, o romantismo buscava representar com alguma fidelidade às ideias vivas da sociedade burguesa liberal, no Brasil, o romantismo sempre se tratou dos choques, perfeitamente acomodados, entre os ideais da revolução francesa em uma sociedade escravista e colonial. Aqui, porém, não coube a Dostoiévski a revanche contra a ideologia, mas sim a Machado de Assis, que demonstrou com clareza os traços apodrecidos por detrás do palavreado supostamente nobre desses “gentleman” sonhadores à la Brás Cubas. 

A volta desse ideário se comporta, então, como a farsa dessa tragédia. A juventude a quem foram vendidos os sonhos e a liberdade individual, exige novamente seu próprio sonho diante de um mundo que se aprofunda cada dia mais em crise, onde a sexualidade, o erótico e o desejo são inúteis para o lucro patronal e, portanto, devem ser negados. Mas longe dos restos feudais e aristocráticos, onde, como diria Jameson, deixamos de pensar o histórico, deve-se recompor através dos restos e fragmentos das obras deixadas da burguesia, para tentar recompor algo que não mais possui fundamento material. 

O sonho neoliberal, construído sob as ruínas dos antigos Estados Operários, consolidou o imaginário ascético da maximização do lucro. Porém, desde a crise de 2008, mostrou-se na realidade como um pesadelo, incapaz de se manter firme sobre os próprios pés, com o perigo do despertar das crises e guerras. Disso já vieram surgindo os fenômenos profundos da juventude: a explosão no Estado Espanhol e na Grécia, na Primavera Árabe, nos coletes amarelos ou como foi sua expressão no Brasil, em junho de 2013. Enquanto isso, o Estado, em seu sentido integral, buscou cooptar para seus interiores toda a subjetividade subversiva e combativa. Os partidos neorreformistas, administradores políticos de crises do imperialismo e de Estados podres, têm sua contrapartida estética, como parte do Estado Ampliado, a cooptação e mercantilização da vanguarda da contestação social: as LGBTs, as mulheres e negros, tornam-se nichos de mercados lucrativos. 

Obras de grande impacto global, como a série Heartstopper, ilustram muito bem essa dinâmica de captura ideológica. Ao embalar a diversidade sexual em uma estética dócil, otimista e perfeitamente integrada ao consumo, a indústria cultural vende à juventude oprimida a promessa de que é possível encontrar pertencimento e felicidade plena dentro dos marcos do sistema. O "empoderamento" individual é privatizado e oferecido como mercadoria, escondendo o fato de que a engrenagem do capital continua a moer as bases materiais de existência dessa mesma juventude, mantendo e aprofundando suas estruturas opressivas.

Essa domesticação do presente opera em perfeita sintonia com uma ofensiva mais ampla sobre a subjetividade e a imaginação política dos jovens, estruturada por duas vias complementares. Por um lado, a proliferação incessante de narrativas distópicas — expressa em fenômenos como Jogos Vorazes — molda uma percepção de futuro profundamente fatalista, na qual qualquer tentativa de superação sistêmica culmina no colapso da humanidade, fixando a democracia burguesa atual como o auge insuperável do horizonte social. Por outro lado, a patente crise de novas ideias — evidenciada pela reciclagem exaustiva da memória afetiva por meio de sequências intermináveis (como Toy Story 5) e remakes em live-action — escancara a crise hegemônica dos Estados Unidos e sua incapacidade de projetar novos e reais horizontes. As guerras, as crises subjetivas e sociais e as falhas sistêmicas do capitalismo não podem escapar às preocupações da juventude, que almeja maneiras de lidar com a catástrofe capitalista. Porém, o mercado trabalha para desviar o surgimento de uma arte e de uma consciência crítica que concebam o mundo atual de maneira profunda. Assim, entre a paralisia diante de um amanhã catastrófico e o refúgio na repetição nostálgica do passado, a indústria cultural empareda a juventude na impossibilidade de conceber alternativas fora da ordem estabelecida.

O choque entre a promessa idílica (Heartstopper) e a realidade objetiva de exclusão gera uma série de sintomas subjetivos de adoecimento. Essa operação ideológica do neoliberalismo logrou êxito ao apartar o indivíduo de sua luta coletiva, desarmando-o. Ao fazer isso, o sistema produz o pior de seus efeitos: a sensação de que o fracasso individual, a solidão e a angústia são responsabilidades e ônus exclusivo do sujeito, despolitizando o sofrimento. Como aponta a tradição do feminismo revolucionário, a conquista de direitos parciais ou de representatividade midiática torna-se uma armadilha vazia se apartada da luta estratégica pela abolição da sociedade de classes.

Foi sobre esse terreno já minado por crises e cooptações que a pandemia de 2020 sobreveio. Toda uma juventude em formação é jogada para as quarentenas, para as perdas dos parentes e amigos próximos, enquanto governos de extrema-direita assumiam o poder. Esse passo histórico serviu de prevenção e contenção da eclosão mais imediata da luta de classes de maneira mais aguda. As irrupções que vinham uma atrás da outra, tiveram os intervalos entre si dilatados (o que não impediu que ocorressem, como marcou o Black Lives Matter), o processo social e político da juventude sofre um desvio profundo. Mas também as condições materiais se deterioraram, a crise econômica avança, o desemprego, as privatizações, o que também agudiza os efeitos de adoecimento subjetivo em uma sociedade em que os meios de cooperação, comunidade, educação e saúde pública estão piores a cada dia.

No entanto, reduzir a juventude a essa passividade seria um erro de diagnóstico. A mesma juventude que é oferecida à ideologia burguesa de adoecimento e recolhimento, é também aquela que busca saídas radicais. Paralelamente ao avanço da extrema-direita redpill e neoconservadora — que disputa corações e mentes canalizando a frustração de homens jovens em misoginia e ressentimento —, vemos uma radicalização à esquerda sem precedentes recentes. Pesquisas de opinião, como as do YouGov e do Cato Institute, revelam que a simpatia pelo socialismo e pelo comunismo atinge níveis recordes históricos entre as novas gerações.

A expressão mais viva dessa potência histórica são os protestos em defesa do povo palestino que varreram as universidades ao redor do globo.

A juventude organizada contra o genocídio na Palestina age como a vanguarda geopolítica do nosso tempo, rompendo o véu do ceticismo liberal. Ao se mobilizarem contra o imperialismo e a cumplicidade de seus próprios governos, esses jovens mostram que o maior horror humanitário já televisionado não pode ser aceito como insuperável ou naturalizado pela apatia.

Inclusive, o fortalecimento da extrema-direita em escala internacional não surge em um vácuo, mas expressa a reação preventiva da própria burguesia global diante do acelerado declínio hegemônico dos Estados Unidos. Como as escaladas militares e as agressões imperialistas envolvendo o Irã escancararam os limites do poderio norte-americano e minaram o consenso liberal no Oriente Médio, a debilidade estrutural da ordem unipolar tornou-se evidente. Diante do risco de desestabilização geopolítica, da perda de controle sobre rotas e recursos estratégicos e da eclosão da luta de classes, a ascensão de saídas autoritárias, reacionárias e chauvinistas opera como um mecanismo contrainsurgente de contenção: uma tentativa de canalizar o desespero da precarização material para o ressentimento, blindando as estruturas do capital precisamente no momento em que seu centro imperialista demonstra maior fragilidade. Para a burguesia, o perigo é claro: até onde pode ir uma força que toma como seus os desafios dos outros, que faz de sua própria voz o eco do grito dos oprimidos? Aonde pode chegar uma classe trabalhadora de um país imperialista tomando como greve geral a defesa de um povo sem terra? 

É nesse cenário de disputa acirrada que se impõe o resgate do potencial subversivo da amizade.

Diferente da família nuclear burguesa, do casamento civil ou dos contratos de trabalho, a amizade é uma das poucas relações humanas que o Estado capitalista e suas instituições ampliadas jamais conseguiram codificar e burocratizar. Ela escapa, em grande medida, à lógica direta da reprodução da força de trabalho e da propriedade privada. Há nesse princípio, que constitui uma amizade genuína, um potencial de relações não-mediadas e não-alienadas, que nas relações individuais consiste em resistências cotidianas, mas que, se constituídas como verdadeiras comunidades ancoradas na cooperação, podem constituir um antídoto tanto ao “individualismo romântico” quanto ao isolamento pelas telas. Bastaria lembrar das cartas entre Marx e Engels, Rosa e Clara, Trótski e Lênin, que se demonstra como esses laços sólidos podem se constituir como pontos de apoio diante dos mais terríveis regimes, isso se estiverem firmados na batalha constante da generalização da emancipação de todas as relações. Talvez nisso consista também a profundidade do que Kollontai chamou de “amor-camarada”, o objetivo liberto do amor. Estes também são os laços intrínsecos da classe trabalhadora e uma de suas mais potentes ferramentas, pois sua potência de classe também está na cooperação.

A classe trabalhadora moderna já se encontra objetivamente unificada e conectada em escala global pelas cadeias de produção. Praticamente nada do que é necessário para a produção e a reprodução da vida material é hoje realizado em um único país, muito menos por um indivíduo isolado. Nosso desafio histórico consiste, por um lado, em fazer com que a juventude se reconheça subjetivamente nessa interconexão cooperativa objetiva e, por outro, em construir uma política hegemônica da classe trabalhadora que seja capaz de unificar seus diversos setores fragmentados — terceirizados, efetivos, trabalhadores temporários, MEIs, entregadores por aplicativos e tantos outros — para que ela possa dirigir-se aos demais setores oprimidos da sociedade como o sujeito histórico capaz de conduzir uma transformação verdadeiramente emancipatória.

Desde a Restauração Burguesa que se seguiu ao fim da União Soviética, a burguesia confirmou como nunca o prognóstico de Marx de que produz seus próprios coveiros: expandiu a classe trabalhadora em escala histórica e integrou a produção em cadeias globais cada vez mais complexas. Ao mesmo tempo, porém, logrou fragmentá-la por meio da terceirização, da precarização e da multiplicação das formas de contratação, dificultando sua constituição como sujeito político consciente e sua organização nos sindicatos e ferramentas de auto-organização. 

As greves gerais na Itália pela Palestina, dos trabalhadores nos EUA pelos imigrantes e contra o ICE, são os sonhos reais de uma nova forma de se relacionar. Não pela força do indivíduo e seus delírios solitários, mas dos laços produtivos e positivos da única classe capaz de produzir o novo. Na China, ao mesmo tempo em que emerge o "Dreamcore" (estética vintage passadista para lembrar dos "bons anos 2000" numa situação de alto desemprego e precariedade), surgem os clubes feministas em certas cidades, algo muito progressista. O que dizer da Geração Z na Índia, que derrubou o ministro da educação em atos massivos, ou das heroicas jornadas de luta dos estudantes e jovens em Bangladesh, que enfrentaram uma repressão estatal brutal e o toque de recolher para derrotar o reacionário sistema de cotas de empregos públicos, fazendo até mesmo o Judiciário e o governo cederem? 

Politizar nossas relações e transformar os laços cotidianos em trincheiras de solidariedade ativa de classe significa, portanto, dar um passo além da resistência: significa construir formas de organização capazes de traduzir essa experiência coletiva em força política, erguendo um partido independente e internacional da classe trabalhadora que possa mover volumes de força capazes de apontar uma saída socialista e revolucionária para a crise do nosso tempo.

Talvez a questão colocada à juventude de hoje não seja escolher entre o sonho e o realismo. O verdadeiro desafio consiste em recuperar a capacidade de sonhar coletivamente e, como diria Lênin: 

«É preciso sonhar!» Escrevi estas palavras e assustei-me. Imaginei-me sentado no «congresso de unificação», tendo à minha frente os redactores e colaboradores da Rabótcheie Dielo. E eis que se levanta o camarada Martínov e, em tom ameaçador, dirige-se-me: «Permita-me que lhe faça uma pergunta: tem ainda a redacção autónoma o direito de sonhar sem prévio referendo dos comités do partido?» [...]

Só de pensar nestas perguntas ameaçadoras sinto calafrios, e não penso senão numa coisa: onde me esconder. Tentarei esconder-me atrás de Píssarev.

«Há desacordos e desacordos» — escrevia Píssarev sobre o desacordo entre os sonhos e a realidade. — «Os meus sonhos podem ultrapassar o curso natural dos acontecimentos ou podem desviar-se para um lado onde o curso natural dos acontecimentos não pode nunca chegar. No primeiro caso, os sonhos não produzem nenhum dano, e podem até apoiar e reforçar as energias do trabalhador... [...] Se o homem estivesse completamente privado da capacidade de sonhar assim, se não pudesse de vez em quando adiantar-se e contemplar em imaginação o quadro inteiramente acabado da obra que se esboça entre as suas mãos, eu não poderia, de maneira alguma, compreender que móbil levaria o homem a iniciar e levar a seu termo vastos e penosos empreendimentos nas artes, nas ciências e na vida prática... O desacordo entre os sonhos e a realidade nada tem de nocivo, sempre que a pessoa que sonhe acredite seriamente no seu sonho, observe atentamente a vida, compare as suas observações com os seus castelos no ar e, de uma maneira geral, trabalhe escrupulosamente para a realização das suas fantasias. Quando existe um contacto entre o sonho e a vida, tudo vai bem.»

O Sonhador de Noites Brancas refugia-se na fantasia porque perdeu o horizonte de transformar o mundo. A amizade pode ser o primeiro gesto por meio do qual indivíduos isolados descobrem que seus destinos nunca foram apenas individuais; quando se desenvolve e ganha expressão política, transforma-se em organização coletiva da nossa classe. É por isso que a militância revolucionária possui um potencial profundamente subversivo: ela antecipa, na vida cotidiana, relações incompatíveis com a lógica da concorrência universalizada e procura organizar a força social capaz de interromper o curso catastrófico do presente — de “puxar o freio de emergência” do trem da História, na célebre imagem de Walter Benjamin.