Capa: A juventude brasileira é de direita? Entre deputados asquerosos e bandeiras queimadas

A juventude brasileira é de direita? Entre deputados asquerosos e bandeiras queimadas

Por Vitória Camargo |
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"Ele acabou de eleger a maior bancada jovem conservadora do Brasil, agradeço ao Nikolas e ao Jair Bolsonaro", disse Lucas Pavanato. Com mais de 3 milhões de votos cada um, Nikolas Ferreira (PL-MG) e Lucas Pavanato (PL-SP) não apenas foram os deputados federais mais votados do país, como emplacaram recordes históricos na Câmara dos Deputados. O desempenho eleitoral dessas figuras odiosas puxou para o Congresso Nacional e Assembleias Legislativas o que vem sendo chamada de "a bancada do Nikolas": um bloco de parlamentares jovens (em geral, abaixo dos 30 anos), com milhões de seguidores nas redes sociais e alinhados a um discurso arqui reacionário. A partir disso, uma pergunta reaparece no debate público: afinal, a juventude brasileira tornou-se, de fato, conservadora? Os dias que se seguiram ao primeiro turno, marcados por manifestações de dezenas de milhares de estudantes e assembleias de centenas nas universidades para enfrentar e derrotar a extrema direita, dão pistas sobre essa questão. “Ser jovem e não ser revolucionário é contradição genética”, diz um cartaz parafraseando Che Guevara nas mãos de uma secundarista nas ruas do Rio de Janeiro.

Mais do que nunca, se as votações históricas de Nikolas Ferreira, Lucas Pavanato e Eduarda Campopiano surpreenderam pela incidência do reacionarismo na juventude, com milhões de votos e alto engajamento nas redes sociais em discursos odiosos, está claro que a juventude e o movimento estudantil já estão assumindo para si a alcunha de principal setor opositor a Flávio Bolsonaro e a seu reacionarismo. Nas escolas, estudantes de 12, 13, 14 anos erguem seus leques, como símbolos LGBTs contra toda a transfobia, e se propõem a tomar as ruas para impedir a eleição da extrema direita. São os mesmos que agradecem nas redes sociais “marcando” seus professores pelas aulas de História, Geografia, Sociologia, Filosofia, que debateram temas como ditadura, desigualdade social, escravidão. Se Pavanato e companhia chamam os professores de vagabundos e acusam de “doutrinação”, com milhões de eleitores, vimos se manifestar um significativo fenômeno de jovens prestando reconhecimento, agradecendo seus professores, valorizando essa categoria que vem sendo tão atacada, assim como o conteúdo crítico ensinado.

Nas universidades, assembleias de centenas, como não se via nas federais desde o Tsunami da Educação contra Jair Bolsonaro, pautam o enfrentamento à extrema direita uma vez mais. Nos últimos anos, o movimento estudantil veio enfrentando ataques de bolsonaristas radicalizados que fazem campanha contra a universidade pública, as cotas étnico-raciais e trans e o marxismo. Esse encontro de jovens de diferentes idades e origens sociais, das escolas e universidades, se vê nas ruas. No Rio de Janeiro, em Minas Gerais, no Pernambuco e até mesmo naquele que ficou conhecido como o reduto da “Caça aos comunistas” em São Paulo, o Mackenzie. Centenas, milhares e até dezenas de milhares rechaçam todos os capachos de Donald Trump. O vídeo de estudantes do Mackenzie queimando a bandeira dos Estados Unidos às portas da instituição que colaborou com o golpe de 1964 e a perseguição aos militantes de esquerda é um símbolo do momento, marcado por um anseio anti-imperialista. Da apatia apontada em grande parte do primeiro turno, agora se evidencia que algo mais profundo fervilha e pode abrir novos caminhos - à direita, mas também à esquerda.

Com este artigo, queremos abrir algumas primeiras reflexões.

O que disseram as pesquisas?

Uma geração marcada pelo trabalho precário, endividamento, que demora mais a sair da casa dos pais, que, segundo algumas pesquisas, transa menos e que sofre muito mais de ansiedade, até mesmo de “ansiedade climática”. São algumas das características da chamada Geração Z, que se levanta em diversos países do mundo. É, sobretudo, para essa geração que o atual sistema político, as instituições, o regime falhou. Já em dezembro de 2025, uma pesquisa Atlas Intel, em parceria com a Bloomberg, afirmava: quanto mais jovem o eleitor, maior a tendência de se identificar com a direita. Na Geração Z (sobretudo de 16 a 24 anos), 52% dos entrevistados pela pesquisa declaravam-se de Direita ou Centro-direita, em contraste com 31% que se posicionaram na Esquerda ou Centro-esquerda. Ao mesmo tempo, segundo o mesmo levantamento, 45% desses jovens afirmavam que o sistema político precisava de uma “mudança completa”, enquanto 34% defendiam uma “reforma gradual” e apenas 2% acreditavam que as estruturas vigentes funcionavam bem. Além disso, quando questionados sobre quem tem capacidade real para transformar o país, 61% disseram confiar prioritariamente nos próprios jovens. Ao descrever sua situação econômica, 34% dos entrevistados classificaram-na como “muito ruim”. Essa percepção moldaria diretamente as prioridades eleitorais dessa faixa etária: a economia, o custo de vida e o emprego lideravam com folga as preocupações que definem o voto (66%) da Geração Z, seguidos de perto pelo combate ao crime e segurança pública (56%) e pela educação (55%).

Entre a Geração Z, 65% dos jovens declararam-se pessimistas quanto ao futuro do Brasil, sendo 42% “muito pessimistas”. No plano cotidiano, os maiores entraves enfrentados por esses jovens apareceram como sendo a saúde mental e o stress (38%), o alto custo de vida (37%), a baixa remuneração (36%) e a dificuldade de encontrar um emprego estável (27%), somados ao desafio constante de conciliar estudo e trabalho (24%). Questionados sobre a sua visão de sucesso, 57% priorizaram a realização da carreira profissional, enquanto somente 15% colocaram o casamento ou a criação de filhos em primeiro lugar. A relutância em ter filhos aparecia associada a restrições materiais evidentes: para 64% da Geração Z, as condições financeiras influenciam diretamente o adiamento da parentalidade.

Nas preocupações, um retrato do país: a extrema direita aparece mais anti-sistema?

Sem a necessidade de ir tão longe, os dados recentes do IBGE e estudos sobre o mercado de trabalho no Brasil confirmam que a juventude (especialmente entre 18 e 24 anos) concentra as maiores taxas de desemprego e subocupação. Cerca de 70% dos jovens que estão no mercado de trabalho atuam na informalidade ou em regimes precários, em vagas temporárias sem direitos garantidos. A geração atual é a primeira em décadas que tem a expectativa estatística de ser mais pobre e ter menos direitos trabalhistas do que a geração de seus pais.

O que defende a extrema direita frente a isso? A demonização dos direitos trabalhistas a partir do ultra individualismo, de um tipo de ideologia da prosperidade e do empreendedorismo. Cada um, se se esforçar, se trabalhar duro e se não tiver os entraves dos impostos, das leis, dos governos, pode enriquecer. Propõe cada vez mais escravidão, mascarada de liberdade exacerbada (“você faz o seu horário e recebe por ele”, como defende Flávio Bolsonaro). Combinado a isso, desenha um certo discurso anti-regime, que ataca sobretudo o STF e a lama da corrupção, encobrindo todos os vínculos do bolsonarismo e da extrema direita com essa mesma lama de banqueiros como Daniel Vorcaro e regada a privilégios. O bolsonarismo jovem busca tomar para si a localização de vítima e de inimigo do regime, quando está cada vez mais integrado a ele. Mas, afinal, sempre é preciso achar culpados. Nos fóruns da extrema direita, permeados pela ideologia red pill, influenciadores, “a bancada do Nikolas” dizem que a culpa do sofrimento da juventude não é do capitalismo ou da precarização, mas sim das mulheres, do feminismo, dos movimentos LGBTs e da esquerda. Importam, como capachos, o pior do trumpismo. É preciso proteger o núcleo familiar tradicional, tão ameaçado, dizem. Ameaçado pelo direito ao aborto legal em casos de estupro, ameaçado pelas mulheres insubmissas, ameaçado pelos questionamentos às identidades de gênero, por uma geração cada vez mais LGBT. Assim, bases materiais concretas, a reação aos fenômenos mais progressistas e a “oposição a tudo o que está aí” que significa frustração e precarização abrem espaço a fenômenos aberrantes da extrema direita na juventude, que acima de tudo reforçam a ordem capitalista de opressão e exploração.

Mas o que fez a Frente Ampla de Lula-Alckmin nos últimos quatro anos, com aval de grande parte da esquerda brasileira? O que fizeram aqueles que justamente tomaram para si a defesa e a gestão de “tudo o que está aí”? Encamparam a proteção do sistema político, das instituições, do regime, atribuindo ao STF a defesa da ordem e da democracia. Lula preservou cada uma das reformas aprovadas desde Temer e Bolsonaro que empurraram à precarização e à informalidade. Foi a Reforma Trabalhista quem primeiro vendeu que “quanto menos direitos, mais empregos”, que se deve remunerar por hora trabalhada, com o trabalho intermitente. Reforma que ficou intacta nos últimos quatro anos. Em suma, a promessa de ascensão social mostrou ser letra morta, diante de cada vez mais instabilidade no emprego, no salário, na vida. Cada vez mais jovens com bags nas costas rodando as cidades de motos e bikes. Em linhas gerais, administrar esse sistema em crise, preservando a obra que veio antes, do golpe de 2016 e da extrema direita, foi assumir para si a defesa da ordem que empurra gerações a perspectivas cada vez mais frustradas.

Poderíamos culpar as redes sociais, a má comunicação do governo, o poder das Igrejas, o jovem conservador. É inegável que as Big Techs, impulsionando publicações misóginas e o lixo bolsonarista, cumprem seu papel. Em um mundo marcado pela “solidão conectada”, pelos dramas coletivos da saúde mental, as Igrejas apontam a algum tipo de sociabilidade para a juventude, influenciando valores, de fato, e tiveram seu poder econômico e político mantidos intactos pela Frente Ampla. É evidente que quando as escolas são tomadas pelo Novo Ensino Médio, que ensina a cartilha neoliberal do empreendedorismo e busca esvaziar qualquer ensino crítico, que cada vez mais significa repressão e punição diante de um conteúdo que se esvazia, à revelia da resistência dos professores, outras formas de sociabilidade ganham peso. Mas também se trata da juventude das batalhas de rap, dos slams, da solidariedade nas redes que ajuda estudantes muito jovens a erguerem seus blacks e reafirmarem sua identidade de gênero e sua sexualidade “dissidentes”. Por isso, precisamos explicar o conservadorismo na juventude sobretudo pela falência da conciliação de classes, que abriu caminho à sedução de uma parte expressiva da juventude pela ideologia da extrema direita ao assumir para si a defesa e manutenção das bases dessa realidade precária.

Nem tudo é terra arrasada

Como ponto de partida, a votação em outras figuras, como Érika Hilton, Jones Manoel, Ana Elisa apontam para uma seta oposta, mesmo que tenhamos debates fundamentais com esse setor, em diferentes ordens. Mas, mais do que isso, os votos na extrema direita não expressam, entretanto, uma adesão completa a seu programa. Mesmo José Dirceu precisa admitir que não é verdade que essa geração assimilou todo o programa bolsonarista. Pesquisas já divulgaram que mesmo entre trabalhadores autônomos existe uma maioria que defende os direitos da carteira assinada. E é óbvio que o fenômeno mais profundo é a defesa do fim da escala 6x1, que tem maioria social em nosso país e até hoje deixa a extrema direita na defensiva. Aliás, um dos momentos de maior crise para Nikolas Ferreira foi quando atacou a demanda, sendo criticado e amplamente questionado por seus seguidores. "Votei em você. Trabalho na escala 6x1 e fiquei muito decepcionado com sua posição nesse tema"; "Deixando de seguir!! Vai trabalhar 6x1 também?!!"… Foram algumas respostas entre milhares que uma pesquisa rápida nos permitiu encontrar.

Mas as mesmas centrais sindicais e entidades estudantis que neste momento mostram que são capazes de mobilizar e querem canalizar tudo para as urnas, sem mover o imenso proletariado e juventude brasileira para enfrentar os capitalistas optou por esvaziar as ruas nos últimos quatro anos. Cumpriram a receita: apostar nos acordos por cima, sempre se mostrando como a oposição “palatável” para os grandes capitalistas. Então, a juventude está em disputa, mas quem a esteve disputando? Mais do que nunca, é preciso tirar lições para que a força e a resiliência que se demonstra neste momento em cada assembleia, em cada ato, em cada medida não se transforme em mais ceticismo e desmoralização. Estamos desde já preparando o combate contra Flávio Bolsonaro, mas também Nikolas, Pavanato, Campopiano e companhia.

Lições da juventude brasileira

Neste momento, na França, no Estado Espanhol, na Itália, na Alemanha e agora na Bélgica, a juventude é linha de frente de processos potentes contra seus governos imperialistas, ocupando escolas, tomando as ruas e exigindo greve geral. Ares do Maio francês de 1968 quando a aliança operário-estudantil encontrou a bandeira da contra-cultura, da libertação sexual e ameaçou parir uma nova sociedade. É inegável que se trata de uma geração internacional que vibra junto à classe que move o mundo. Uma geração marcada pelo horror das guerras e dos genocídios, pela solidariedade com o povo palestino e com os imigrantes. Se existe extrema direita, existe uma geração que rechaça esse sistema e os efeitos da crise. Nunca por dentro da ordem. Nunca em defesa do que está aí.

No Brasil, contra o bolsonarismo, é uma boa notícia que dezenas de milhares de jovens se coloquem na dianteira para enfrentá-lo. Mas tampouco se trata de um ineditismo na história brasileira o entrelaçamento entre os ares internacionais e os fenômenos pela esquerda por aqui, mais ainda que seja a juventude a se colocar como vanguarda contra inimigos asquerosos. Em 2019, o Tsunami da Educação foi o principal contraponto nas ruas ao governo de Jair Bolsonaro e mostrou o apelo popular dos que lutam por educação contra a extrema direita, com o potencial de unir a luta contra os cortes nas universidades à luta contra a Reforma da Previdência. A política das direções impediu essa confluência com os interesses da maioria do povo trabalhador no Brasil, apostando na divisão e, mais uma vez, em esvaziar as ruas.

Mas, ainda de antes, diante do golpe de 1964, vimos um primeiro ciclo de luta de classes de 1964-68, em que novamente o movimento estudantil foi o primeiro setor a se colocar contra a ditadura, com o potencial de confluir com demonstrações operárias importantes, como em Osasco e Contagem. O ano de 1968 foi fundamental, não só na França. Após grandes demonstrações nas ruas e nas greves, a combinação da repressão aprofundada pelo AI-5 combinada à deriva estratégica dos movimentos de resistência, em um contexto de enorme dificuldade, fizeram com que esse movimento refluísse. Mas ele renasce com força e sobre novas bases a partir de 1977, com o movimento estudantil sendo a antessala do despertar operário, sendo o primeiro a erguer a bandeira “Abaixo a ditadura”, mesmo que diversas alas do movimento achassem uma consigna “radicalizada demais”, que despertaria uma resposta violenta da ditadura, no contexto da promessa da “abertura, lenta, gradual e segura”. O movimento estudantil que ousou “ser radicalizado demais” e se propor à derrubada do regime abriu caminho para o maior levante de greves operárias da nossa história, depois desviado pela conciliação com o regime.

Neste momento, está claro que está se encerrando o ciclo político nascido naquele momento e inaugura um novo momento histórico. As lições do movimento estudantil brasileiro permitem concluir que a combinação entre um profundo ódio anti-imperialista, à bandeira dos Estados Unidos, e a aliança com a classe trabalhadora e os seus interesses podem tornar a juventude brasileira uma força imparável contra a extrema direita, confluindo com o melhor do que faz a juventude internacionalmente. Isso se mostrou em todos esses momentos. Mas também se mostrou que é preciso superar todas as formas de conciliação com as classes dominantes, seja a linha de conciliação com a burguesia nacional que o stalinismo encampou com diversas roupagens nas décadas de 60 e 70, seja o petismo no regime de 88. Mesmo contra Jair Bolsonaro, a conciliação na oposição já demonstrou que é incapaz de transformar a vontade de luta em derrota da extrema direita. Assim, superar a moderação e a conciliação precisa assumir um conteúdo, um programa, uma estratégia e, portanto, uma organização que possam significar, na prática, uma síntese das lições de todos esses momentos históricos. Esse é o chamado que está colocado para essa geração: não se desmoralizar, preparar os combates futuros com as ferramentas necessárias.