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O surgimento dos bailes black e o hip hop no Nordeste

11.08.2026

Artista: Elfa (@elfa_dastattoos)/ arte da música Caatinga de RobSom MC

Hoje completam 53 anos do surgimento do movimento hip hop. Publicamos esse artigo do livro Nordeste e Revolução que será lançado no final deste ano.

Introdução

Os bailes black e o hip hop surgiram quase ao mesmo tempo no Brasil. Eles datam de um momento importante no país, no final dos anos 1970 e se arrasta ao longo dos anos 1980, quando os trabalhadores acabavam de protagonizar um ascenso de greves e quando a reivindicação da identidade negra através do movimento soul e de outras dimensões da arte e cultura negra, passaram a desafiar dois pilares importantes da ditadura militar: o arrocho salarial e a democracia racial. O surgimento dos bailes black e do hip hop no Brasil está inserido neste contexto onde a identidade negra se transformava de forma permanente, se conectando ao black power, à capoeira, ao movimento negro, aos afoxès, aos maracatus, ao punk, ao reggae, etc, ao mesmo tempo que ganhava novos contornos, especialmente políticos, como arma de combate ao racismo e ao regime militar, transformando-se sem cessar, como um trocar de pele contumaz, se tornando um ponto de apoio revolucionário à luta do movimento operário.

Nosso objetivo é apresentar o surgimento deste fenômeno histórico e social para além do eixo sul-sudeste, deixando em evidência que os bailes não se restringiram ao Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre e Belo Horizonte. Haviam bailes black que iam de Norte a Sul do país, passando pelo Amazonas, Pará, Maranhão, Pernambuco, Alagoas, Brasília,  Bahia, Ceará, Sergipe, Paraíba e Piauí, ou seja, o surgimento dos bailes black foi um fenômeno nacional e de massas. Nesse sentido queremos mostrar como os bailes black surgiram no Nordeste[1]. um fenômeno social que permeou a juventude negra e a classe trabalhadora que teve uma dinâmica própria onde a influência cultural e estética internacional norte-americana não apenas do hip hop e do soul, mas também do disco e  se combinou com fatores nacionais e regionais. Nesse processo, houve uma transformação da dinâmica da juventude em relação à cidade através das rodas de break e os bailes black, mas, sobretudo em relação a identidade negra que frente à repressão aos bailes no Brasil inteiro, tornou-se uma arma política antirracista através do orgulho racial. 

Bahia

Os bailes black e o hip hop surgiram no Subúrbio Ferroviário de Salvador. Os primeiros bailes black datam de 1979 no Esporte Clube Periperi, haviam também os bailes Musuá e Messa no bairro Lobato[2]. O baile do Periperi ficou conhecido como o primeiro baile black de Salvador, acontecia todos os domingos, a não ser nos domingos de carnaval. As primeiras festas tinham sido parte de iniciativas de jovens cariocas que possuíam um sound system. Na medida em que os bailes se tornavam parte da cultura da juventude, iam surgindo DJs baianos. A conexão Salvador-Rio de Janeiro não deixou de ser um polo importante para obtenção de novos discos[3]. 

Foi nesses bailes que os primeiros dançarinos de break começaram a surgir. Como retrata Fafal, morador do Subúrbio Ferroviário pioneiro no breackdance, através de filmes norte-americanos à época como “Os embalos de sábado à noite” (1977), “Nos tempos da Brilhantina” (1978), mas também “Breakin’”, “Breakin’2” e “Beat Street” todos de 1984, que ele se inspirava. Na medida em que confluíram as imagens daqueles filmes com os bailes e a vontade de jovens do Subúrbio Ferroviário em criar e recriar sua própria experiência do hip hop, a cena foi crescendo.

De acordo com a historiadora Joseli, em Ilhéus, no sul da Bahia, a coisa não foi diferente, havia também uma geração que organizava bailes e equipes de som[4]. Pio e Geco, organizadores da equipe de Som Gepy, recordam que organizaram seu primeiro baile no dia 11 de maio de 1982, ainda com equipamentos simples, mas depois compraram um profissional e foram realizando bailes em outros espaços. Nesses bailes tocavam Afrika Bambaataa, Stevie Wonder, Michael Jackson, Jackson Five, Prince, Rick James, Parliament e Earth, Wind & Fire, além de Tim Maia, Tony Tornado, Wilson Simonal e Gerson King Combo.

Pio assim como Fafal, também tinha como referência os filmes estrelados por John Travolta e acabou montando um grupo de break com outros jovens de Ilhéus que se inspiraram em programas de TV onde grupos de break do Rio de Janeiro e São Paulo dançavam em competições. Bem parecido como fizeram os jovens de Salvador. 

A cultura black, mais precisamente a soul music na Bahia além de ter tomado os bairros operários e as periferias de Salvador e Ilhèus invadiu e influenciou outros setores da cultura baiana, como os grupos de afoxé. O historiador e militiante do movimento negro, Antônio Godi que dirigia o “Grupo Palmares Iñaron - Teatro, Raça e Posição” nos anos 1970, contou sobre essa relação entre o soul e o afoxé, especialmente para o grupo Ilê Ayê:

“Será que seria possível o surgimento de um Ilê Aiyê, não fosse o fenômeno maravilhoso dos Estados Unidos, com o funk, com o soul, explodindo para todos os lados? Isso influenciou profundamente a cultura baiana, isso influenciou profundamente os jovens baianos que viam James Brown, que viam Michael Jackson e os irmãos, e que tentavam reconstruir formas de se vestir e de se sentir não muito distante deles. O que a gente começa a perceber é que um novo fenômeno, no que diz respeito à nossa existência, começa a se manifestar, começa a se revelar”[5]. 

A Bahia viu o movimento soul surgir concomitante aos elementos do movimento hip hop como o break, mas também ligado à soul music internacional, bem como ao r&b. A presença de bailes black na Bahia estava intimamente conectada com a juventude e trabalhadores através de bairros de periferia, mas também no litoral sul baiano, ou seja, o movimento soul conseguiu se expandir para além da região metropolitana o que denota a capacidade orgânica do movimento em se conectar com outras regiões, para além da região central de Salvador, algo incomum nos grandes centros urbanos de capitais pelo país onde os bailes black se desenvolveram.

Pernambuco

Em Pernambuco também podemos perceber algumas semelhanças com o que aconteceu na Bahia. A cultura black influenciava outros setores da cultura pernambucana. Nesses bailes, lá pelos anos 1980 Jorge e Chico Vulgo, hoje conhecidos como Jorge Du Peixe e Chico Science se encontravam para dançar break com seu grupo Legião Hip Hop. Haviam outros grupos de dança que se encontravam nos bailes black no início dos anos 1980 na região metropolitana de Recife.

Segundo o historiador Cristiano Alves, os bailes blacks pernambucanos que podia-se ouvir o soul e funk de “James Brown e KC and The Sunshine”[6] surgiram no final dos anos 1970. Os bailes aconteciam em Rio Doce, periferia de Olinda, Camaragibe, em Recife na Associação de moradores da Caxangá, na Associação de Moradores do Pina, no Clube Líbano, também localizado no Pina, no Clube Ferroviário no bairro da Mustardinha, no Clube Rodoviário na Imbiribeira e no Clube do Sargento Wolff em Afogados[7]. 

Renato L, um dos fundadores do movimento manguebeat, havia destaca a relação entre o manguebeat e a black music, particularmente com o hip hop.

“Aquele núcleo duro do manguebeat tinha uma composição variada. O que era comum a todo esse pessoal era a paixão pela música afro-americana, a música da diáspora negra. Colocando nesses termos, o reggae, ska, soul, funk, etc. No caso de Chico e Du Peixe veio muito, obviamente, por conta do hip hop, o hip hop é um dos grandes elementos formadores de Chico e de Du Peixe, eles foram b-boys quando eram mais jovens, fizeram parte crews de b-boys aqui de Recife”[8]. 

A história do movimento manguebeat, portanto, se confunde com a história dos bailes black e o surgimento do hip hop. As conexões sociais entre esses movimentos contraculturais se confundem também com outras tradições de luta da região metropolitana. Em certo sentido, podemos dizer que a história dos bailes em Pernambuco se confunde com a história das lutas por moradia. 

Haviam processos de luta por moradia que criaram fortes associações de moradores, como no Pina que desde os anos 1950 líderes comunitários foram perseguidos e fichados pelo Delegacia de Ordem Política e Social de Pernambuco (DOPS-PE) sob alegação de prática “subversiva” e ligação com “elementos comunistas”[9]. Não é uma coincidência que justamente nos bairros operários atravessados pela luta por moradia, os trabalhadores tenham organizado seus bailes soul. Foram nesses bairros que confluíram gerações dispostas a defender suas casas e outras dispostas a defender a cultura e identidade negra. 

Essa amálgama de tradições e interesses compartilhados é parte fundamental da história do movimento soul e do hip hop em Pernambuco. Foram nesses espaços repletos de uma tradição de luta e resistência que deu lugar não apenas ao soul e hip hop, mas onde figuras importantes que viriam a compor o movimento manguebeat também estiveram como parte de celebrar e vivenciar a cultura black.

Alagoas

Ari de Oliveira, também conhecido artisticamente como Mc Ary Consciência,  a partir de suas memórias dos anos 1980, conseguiu esboçar um quadro geral com os elementos sociais e históricos que ajudam a gente a entender como se desenvolveu a cena hip hop em Alagoas. Segundo ele, o movimento hip hop esteve intimamente ligado aos bailes (ou danceterias) que tocavam música black. Na realidade, tudo começou na rua do Comércio, no centro da cidade, onde algumas pessoas dançavam em frente a loja Eletro Disco. Em seguida esses grupos de jovens que dançavam pelo centro da cidade foram migrando para outras festas para ouvir “música de preto”:

“Depois surgiu uma danceteria por nome de Discol, o nome foi por conta da Disco dos anos 70, sucesso no mundo inteiro. Nessa discoteca só rolava música de preto. Era na rua Soledade,  Ponta Grossa, e coisa de 800 metros, abriu na Praça Moleque Namorador uma discoteca por nome de Holly Dance que só rolava rock, metal; tinha o pessoal dos cabelos grandes, do heavy metal, e nisso já estava se falando no Rock’n Rio. Quem era da turma do black music ia para a Discol e quem era da turma do new wave (era um gel que deixava o cabelo arrepiado) ia para a Holly Dance. Aprendi a dançar dentro da Discol, através de um camarada por nome de Dinho, Dinho Cabeção; tinha um estilo muito legal como o Tony Tornado, o deslizar dos pés e eu dizia ‘Rapaz  esse cara só dança bem porque passam cera no piso’. Não era. Eu tive que me adaptar para ser um bom dançarino, para arrebentar na noite. Daí comecei a ver o Beto dançar junto com o Verruga em frente ao Cine São Luiz”.[10]

Ainda que com poucas opções de bailes para dançar naquele momento, bem diferente dos dançarinos pernambucanos e baianos, chama atenção que havia uma diferença entre as festas que tocavam música negra e aquelas mais voltadas para o rock. A turma de MC Ary vivia para cima e para baixo com o rádio no ombro e usavam cabelo black power. Não era comum ver nas ruas pessoas treinando os passos de danças em espaços públicos, talvez pela baixa difusão comercial de aparelhos como estes até então ou por conta da repressão. Uma imagem incomum no movimento soul onde os frequentadores restringiam o consumo da música negra aos bailes.

De todo modo, o que chama atenção no surgimento da cena hip hop em Alagoas é que ela combinava a identidade visual de um black do movimento soul e um breakdancer do hip hop. Ary andava com camisa larga e  chapéu, o que remeteria mais a identidade visual de um black do movimento soul do que um breakdancer do hip hop. Ao mesmo tempo que não largava o rádio aparado nos ombros. Poderíamos dizer que havia elementos culturais, estéticos e políticos transitórios que mesclavam características do movimento soul e características do movimento hip hop em Maceió. Talvez o que desse a “liga” entre estilos visuais e estéticos aparentemente tão distintos, fossem as referências à artistas da cena soul brasileira, como Tony Tornado, mas não também referências internacionais como James Brown e Afrika Bambaataa[11]. 

Maranhão

Alguns quilômetros dali surgiu também uma geração bastante interessada em organizar seus bailes, suas festas, etc, mas acabaram erguendo uma outra capital, a capital do reggae no Brasil, São Luís do Maranhão, a Jamaica brasileira. Nei Lopes chegou a afirmar que quando conheceu as radiolas[12] no Maranhão, não teve como não fazer uma associação direta entre o Movimento Black Rio nos anos 1970 e aquele “fenômeno de massa”. Eu arriscaria dizer que as radiolas em São Luís e os bailes soul surgidos na metade dos anos 1970, carregam elementos comuns, ainda que possam ter muitas diferenças, sobretudo, porque há elementos distintos da cultura reggae como o rastafarianismo e a cultura soul que contém a vertente religiosa do gospel, para ficarmos apenas com um exemplo.

Há algumas versões sobre a forma como o reggae veio parar no Maranhão. Certamente não podemos descartar nenhuma delas e o que de fato pode ter ocorrido é que com o fluxo de trabalhadores portuários na cidade de São Luís, eles trouxeram consigo os LPs de reggae que acabaram circulando entre a população. As rádios jamaicanas e do caribe, na realidade há muito tempo já sintonizavam ritmos musicais como a salsa e o merengue, o reggae foi mais um ritmo que os maranhenses puderam captar através de frequências de rádios clandestinas. As semelhanças existentes entre ritmos tradicionais/nativos maranhenses e os ritmos caribenhos, ajudaram a criar desde o ponto de vista da cultura e da tradição já compartilhados no Maranhão, um cenário perfeito para que o reggae se popularizasse e difundisse. Todos esses fatores são chave para entender o processo de massificação do reggae no Maranhão nos anos 1970.

A partir da metade dos anos 1970 as radiolas passaram a se popularizar em São Luís e pôde-se verificar um boom em sua organização e disseminação na cidade[14], como havia mostrado, esse também foi o momento de retomada tanto no campo cultural quanto no sindical de questionamento do regime militar brasileiro. No Maranhão esse momento de contestação foi sentido também na cultura e ganhou a forma das radiolas que muito se assemelhavam aos sound system jamaicanos, forma pela qual os trabalhadores e a juventude daquele país utilizavam para poder ouvir as músicas que queriam e que não tocavam na rádio[15]. 

Seria um erro apenas contar a história do Maranhão desde as perspectivas das radiolas como única forma de expressão da cultura negra internacional, no começo dos anos 1980 surgiram em São Luís bailes black onde dançarinos de break se encontravam para confraternizar e celebrar a cultura hip hop. Decerto, esse processo do surgimento do hip hop através do break e dos bailes se confundia também com a cultura regional e com enfrentamento com o próprio Estado e a polícia, como apontaram os pesquisadores Cristiano Alves e Milena dos Santos:

“Tal processo, delineando a aurora do hip hop ludovicense em torno do circuito de bailes com break, não ocorreu sem contradições: se por um lado a dança da cultura hip hop logrou visibilidade, tanto dialogando com a capoeira ou com o reggae, quanto movimentando concursos e propagandas veiculados nas emissoras de rádio e televisão locais, por outro lado, foi alvo de um amplo processo de criminalização, resultando, no ano de 1986, na proibição da prática das rodas de break na cidade” [16].

Assim como em outros Estados no Nordeste, o hip hop maranhense surgiu atrelado aos bailes, as nuances de continuidade entre os bailes com a capoeira, o break e o reggae, denota a intenção de afirmação da identidade negra de uma juventude aberta às possibilidades que a música negra oferecia nas rádios e bailes. A repressão e criminalização do Estado sobre a juventude reforça os elementos racistas que proibiram as rodas de break, mas ao mesmo tempo indicava o potencial daqueles encontros, isto é,  uma juventude que se reunia para celebrar a cultura e a identidade negra.

Em São Luís, essa mesma juventude tinha acesso à cultura negra estadunidense a partir de videoclipes, filmes, discos e revistas. Em 1983, na capital maranhense começaram a surgir os primeiros jovens dançarinos que iriam colocar de pé os bailes black. Eles passaram a se encontrar no Centro Histórico de São Luís, em um local chamado Cine Monte Castelo e acabaram tomando as periferias da cidade, fazendo surgir desta maneira alguns grupos de break em bairros como o Dente de Sabre no bairro da Cohab, o Spectro Break na Liberdade, o Electro Dance no Monte Castelo e o Break Funk Street no Maiobão[17]. 

Os encontros dos breakers não ficaram restritos apenas ao Centro Histórico, os bailes aconteciam em várias partes da cidade e eram inúmeras as festas que eles podiam se encontrar para dançar e treinar para participar de concursos entre os grupos de dança, como

“...a Raio Laser (Cassino Maranhense), Safari (João Paulo), Rolly day (Cohab), Clube da Cohab, Cash Box (Centro), Foot Loose (Avenida Kenedy), Mustage Som (Cidade Operária), Terraço (Maiobão), Associação dos Moradores do Cohatrac, Clube do Bento (São Francisco), Danceteria Tropical (João de Deus) e Clube do Bial (São Cristóvão), além de inúmeras festas de Dance Music existentes em São Luís”[18]. 

Esses exemplos expressam como a cultura hip hop, o break e os bailes se tornaram um fenômeno urbano importante na capital maranhense e também como rapidamente o movimento black se espalhou pela cidade e foi criando polos de encontro. Essa amálgama de movimentos distintos, o hip hop, reggae e capoeira, iam deixando suas marcas na cidade ao mesmo tempo que davam força para reivindicação da identidade negra em suas variadas formas de expressão artísticas e culturais.

Ceará

Em Fortaleza esse tipo de experiência que conjugou outros tipos de movimentos teve um capítulo particular no final dos anos 1980. A juventude da cidade, talvez por não dispor de muitas opções para o lazer, acabavam frequentando os mesmos pequenos clubes ou “bailes mistos”. Os jovens que ouviam forró, rock, hip hop e punk iam criando seu universo compartilhado com as diferenças culturais, ao mesmo tempo que conjugam elementos comuns, como grupos críticos à sociedade e ao Estado que explorava, marginalizava e oprimia a juventude e os trabalhadores[19].

Havia em Fortaleza um movimento interesssante de construção dos aspectos juvenis da cidade que assim como no Maranhão, ajudaram a reconfigurar a cidade. Os “bailes mistos” surgiram na medida em que os clubes de elite como o Náutico, Líbano e ou Maguary  passam a concorrer os pequenos clubes de periferia, tais como o Apache Clube, o Mênfis Clube do Antônio Bezerra, o Keops Clube, o Detroit, ou ainda o Grêmio recreativo do Conjunto José Walter, entre tantos outros”[20]. 

Segundo, Francisco Damasceno, o hip hop surgiu em certa comunhão com punk, conjugando não apenas movimento culturais que dispunham do mesmo espaço de lazer, mais do que isso, eram jovens e trabalhadores que  compartilhavam experiências, desejos, interesses musicais que podiam ver se materializar através dos bailes. Numa entrevista o rapper Turbo Free, pouco tempo depois do surgimento da cena hip hop em Fortaleza, indicou uma forma para compreender o hip hop que nos ajuda a refletir a relação entre o punk e o hip hop.

“…se você é pobre e mora num bairro pobre, se as letras que você escuta é um rap, traz aquilo que você almeja, então você se identifica! Então o hip hop é tudo isso, ele, ele prá quem, pro pessoal da periferia é fácil você se identificar porque nas letras tá o dia-a-dia, tá tudo que acontece é polícia. É fome, é desemprego, é... é maconha, é cocaína, é tráfico de droga, tudo isso que a sociedade tenta botar debaixo do tapete, esconder... o rap põe prá fora e a pessoa escuta, e taí... todo dia, então os jovens se identificam porque é muito bom você poder falar duma coisa que está lhe acontecendo e você pode botar numa letra e sair cantando prá todo mundo, e de forma que quem tá perto vai ter que ouvir, porque, porquê, ou então vai ter que tapar os ouvidos das duas uma, então é isso, o hip hop motiva por isso, é uma forma que você tem de por prá fora isso, isso que você sente, que muita gente sente e não pode. Então além da alegria que tem da questão cultural que você, você dança, você pode crescer como artista, também tem esse lado”[21]

A crítica social ligada aos problemas vivenciados por trabalhadores e jovens na cidade como motivação não só da existência, mas especialmente de poder expressar essas mesmas críticas de forma sublime através da arte, era algo que também tocava o movimento punk naquela época. A banda Estado Indigente que se formou em Fortaleza no final do anos 1980, desenvolveu críticas sociais e politicas próximas àquelas apresentadas por Turbo Free, em seu repertório musical.

“Ossos quebrados / Mente vazia / Olhos arrancados / Intestino apodrecido / Retrato operário / Pobre indigente / Largado jogado / Vítimas inocentes / Largado jogado / Estado esquecido / De putrefação / De imperialismo / Diferença social / Grito de dor / Invasão militar / Só carnificina / Não há sobrevivência / Minha vida esquecida / Não há sobrevivência / Sua vida apodrecida”.[22]

Surgiram inúmeros “bailes mistos” na cidade que eram expressão da necessidade daquela juventude expressar seu desejo de transformação social de uma sociedade em que o “retrato operário” era o da injustiça, ao passo que denunciavam o regime militar e o imperialismo. Em Fortaleza a experiência compartilhada entre punk e o hip hop nos mesmo bailes ajudaram a dar os primeiros passos do que viria a ser já nos anos 1990 a cena underground da cidade.[23]

Paraíba

Na Paraíba a história do hip hop também teve uma íntima ligação com os bailes black e o break. Segundo Vant Vaz, um dos precursores do movimento no Estado, nos anos 1980 havia muitos bailes em João Pessoa[24]. Haviam bailes no Castelo Branco, Bancário, no centro da cidade, no teatro arena no espaço cultural José Lins do Rego no bairro de Tambauzinho, no Centro Comunitário do José Américo e no antigo clube Astréa no bairro de Tambiá e no centro Comunitário no bairro do Geisel. Esses espaços eram onde comumente dançarinos de break e frequentadores dos bailes se reuniam. Para Mc Kazzuza, outro precursor do movimento hip hop paraibano, identificou os efeitos do breakdance em sua geração, algo para ele inesquecível, nesse sentido o hip hop passou a ser referência de negritude e de auto-estima e de luta social[25].

Em 1987, Valmir Vaz, Dinarte da Nobrega, Fabio Palmeira, Paulinho e Roberto influenciados pelo funk, soul e do break norte-americano resolveram fundar o grupo “Elétrico” que participou de vários concursos de danças no Estado. Aquilo era só o começo de uma longa caminhada do grupo que teria um novo capítulo com novos participantes. Em 1988, com outra composição, o grupo muda o nome para Elétrico e cia, incorporando em seus repertório a mistura da dança de hip hop e jazz[26].

Em 1989, naquele mesmo espaço Cultural José Lins Rego, Vant e Fábio Palmeira se reuniram junto a outros dançarinos e artistas do break e do rap, não só para dançar mais para criar músicas de rap e se lançarem nas primeiras discotecagens[27]. O desenvolvimento da cena do hip hop colocava novos desafios e perspectivas. Vant partindo da necessidade de se organizar naquele período, criou junto a outros amigos o projeto Tribo Éthnos, com Fábio Palmeira e Alex. Tendo como intuito misturar as artes desenvolvendo um trabalho integrado da música, dança, artes plásticas, literatura, teatro e demais possibilidades que surgirem para agregar. Desta forma, o coletivo Tribo Éthnos era fundado em 06 de março de 1990. 

“Tem como princípio ideológico defender uma arte e uma ciência que se fundamentem na riqueza da criação humana, na prática de uma inclusão estética de vários gêneros artísticos, sem distinção de “baixa” ou “alta” cultura, se utilizando tanto de elementos populares como eruditos, assim como elementos da cultura de outros países e elementos de várias regiões do Brasil, por isso a Tribo defende como ideal filosófico o encontro entre culturas e raças dentro de um contexto humanista e sobretudo na busca por uma arte transformadora, provocativa e que dê margens a reflexão”[28]. 

Talvez os fundamentos da Tribo Éthos tenham deixado não só os fundamentos que ajudaram a conformar um grupo específico da cena hip hop na Paraíba, mas fundamentos que criaram elementos que podemos ver em vários movimento culturais dentro e fora da cena hip hop, como o “cosmopolitismo” estético e cultural, a preocupação da integração social dos setores oprimidos e, principalmente, uma arte coletiva de capacidade transformadora de sentimentos e mentes.

Conclusão

A história dos bailes black e do surgimento do hip hop do Nordeste expressam uma miríade de relações e sentimentos que extrapolam as fronteiras nacionais e regionais. A influência da soul music, mas também de novelas, filmes e artistas ganhava um tom todo especial através das interpretações daquele geração. A auto atividade criativa dessa juventude e trabalhadores tornavam possível repensar a identidade negra enfrentada contra o regime militar. Esse espírito de defesa de uma cultura em seus primeiro anos de nascimento como o hip hop, além de espaços de socialização cultural e politica como os bailes, podem ser apreendidas não apenas como mais uma bonita história do negro no Nordeste, mas também como uma tradição da classe trabalhadora que surgiu durante o ascenso grevistico do final dos anos 1970 e início dos anos 1980.