História do Trotskismo na África Negra
Esse texto é uma tradução do pesquisador e ativista Robert J. Alexander, em sua obra "International Trotskysm: 1929-1985 A Documented Analysis of the Movement". A tradução é parte do esforço do Instituto Casa Marx e do Quilombo Vermelho para retomar a tradição marxista e revolucionária no continente africano e no mundo, para fortalecer a luta anti-imperialista, anti-racista e pela revolução socialista hoje.
O trotskismo apareceu pela primeira vez na África Negra logo após a Segunda Guerra Mundial. Aparentemente, foi primeiro estabelecido no Senegal e, posteriormente, desenvolveu alguma organização em outros países da região.
Senegal
Logo depois da Segunda Guerra Mundial, as autoridades francesas levaram a Paris um número considerável de estudantes para serem treinados na administração das colônias africanas francesas de então. Entre eles estavam quatro senegaleses: Abdoulaye Ly, Assome Seek, Proctor M’Bow e outro, que se associaram na França ao Parti Communiste Internationaliste (Partido Comunista Internacionalista). Quando retornaram ao Senegal, fundaram o primeiro grupo trotskista do país. Precisaram atuar dentro do partido que então praticamente monopolizava a atividade política em Senegal, o Parti du Rassemblement Africain. Com o tempo, foram abandonando suas ideias e lealdades trotskistas e acabaram por se unir ao partido do presidente Léopold Senghor, tornando-se ministros de seu governo — e, assim, se perderam para o trotskismo.
Somente em 1970 um novo movimento trotskista ressurgiu no Senegal, talvez refletindo os acontecimentos da França em 1968. Naquele ano, grupos haviam se separado do Partido Comunista Senegalês, o Partido da Independência Africana, que dominava o movimento sindical do país. Alguns dissidentes eram maoístas, outros inclinados ao trotskismo; estes últimos fundaram a Avant-Garde Ouvrière (AGO) em 1970. No entanto, em poucos meses a AGO se dividiu em duas correntes, em meio a uma controvérsia sobre como adaptar as ideias trotskistas à realidade local. Os expulsos da AGO formaram o Groupe Ouvrière Révolutionnaire (GOR), que logo se tornou a única organização trotskista do país.
Em 1976, o GOR se dividiu novamente sobre a interpretação da situação econômica e social do Senegal e sobre como os trotskistas deveriam agir. Uma das correntes argumentava que, embora existisse um setor moderno dominado por empresas francesas e outro chamado de “feudal”, ambos faziam parte do mesmo sistema socioeconômico capitalista mundial. Assim, diziam, o foco deveria ser a luta de classes dos trabalhadores contra os capitalistas, franceses e senegaleses.
A outra corrente argumentava que tanto os trabalhadores quanto os capitalistas senegaleses eram explorados pelas grandes empresas estrangeiras e, portanto, deveria haver uma aliança entre trabalhadores e capitalistas senegaleses contra o imperialismo francês.
A primeira dessas correntes se separou do GOR em 1976 e formou a Ligue Communiste des Travailleurs (LCT). Tentou-se uma reunificação em 1977, mas o esforço fracassou devido a divergências quanto à postura frente aos comunistas e à União Soviética. A LCT considerava que os comunistas não eram progressistas e que a URSS, dominada por uma burocracia, não deveria ser um modelo. Defendiam a oposição tanto ao imperialismo capitalista quanto ao comunismo soviético. Já o GOR (que se tornou a Organisation Socialiste des Travailleurs – OST) acreditava que, por causa da Revolução de 1917, a URSS e os comunistas ainda eram progressistas, e que os trotskistas deveriam continuar a se inspirar nesse modelo.
A OST foi reconhecida como a seção senegalesa da Secretariado Unificado e, em 1982, obteve reconhecimento legal como partido político. Participou ativamente de movimentos de protesto — alguns organizados por ela, outros em colaboração com partidos de oposição — contra as políticas de austeridade do governo de Abdou Diouf e contra a colaboração senegalesa na guerra civil no Chade. Em 1983, a OST apoiou Majhemout Diop, candidato do Partido da Independência Africana (principal grupo comunista pró-Moscou) nas eleições presidenciais. Seu periódico chamava-se Combat Ouvrier e era publicado “várias vezes por ano”, com uma tiragem de 3 a 4 mil exemplares por edição.
Em uma entrevista de 1985, um dos líderes da OST, identificado apenas como Belo, comentou:
“Em 1979, a maioria das forças da organização estava no movimento estudantil. Desde então, estabelecemos presença em todos os sindicatos, inclusive em cargos de liderança. Tivemos o posto de secretário-geral na federação sindical UTIS. Na semana passada, um membro de nosso Bureau Político foi eleito vice-secretário-geral do Sindicato dos Professores Universitários. Temos posições intermediárias de liderança entre os funcionários do aeroporto, na União Democrática dos Técnicos do Senegal (SDTS). Além disso, alguns membros são delegados sindicais.”
O mesmo dirigente indicou modificações na estratégia do partido:
“A discussão que estamos conduzindo sobre o papel do partido envolve uma reavaliação e rejeição de uma compreensão escolástica do marxismo, ou de um trotskismo centrado apenas no proletariado...”
Ele explicou ainda:
“A classe fundamental no Senegal é o proletariado. Mas a classe dominante, nos níveis físico e social, continua sendo a pequena burguesia, rural e urbana. Nessas condições, é impossível construir um partido com raízes populares sem enfrentar a questão da participação burguesa... O partido que queremos construir, em certos estratos sociais, será amplamente de origem pequeno-burguesa e camponesa, mas será proletário em seu programa e em seus objetivos estratégicos.”
A Ligue Communiste des Travailleurs tornou-se a seção senegalesa do Comitê de Organização para a Reconstrução da Quarta Internacional (CORQI), os lambertistas. Em 1982, afirmava ser o maior dos dois grupos trotskistas do país, com presença em sindicatos nacionais, entre ferroviários e trabalhadores da alimentação, e controle sobre a organização dos estudantes secundaristas.
Maurício
Além do partido senegalês, a tendência lambertista afirmava ter filiados na Costa do Marfim, Mauritânia, Alto Volta (Burkina Faso), Benim e Burundi. A principal publicação francófona do Secretariado Unificado indicou, em 1984, a formação de um partido de sua orientação em Maurício — a Organisation Militante des Travailleurs (OMT).
Fundada em janeiro de 1984 por dissidentes do Mouvement Militant Mauricien (MMM), então principal partido de esquerda do país, e liderada por Serge Rayapoule (ex-membro do Comitê Central do MMM), a OMT declarou em seu primeiro congresso que buscava formar “um verdadeiro partido revolucionário”, e que “nossa luta é uma luta pelo socialismo, isto é, para fazer da ilha Maurício uma república democrática dos trabalhadores”. O congresso propôs a nacionalização da indústria açucareira (responsável por 75% das exportações e 25% dos empregos da ilha), bem como dos bancos e companhias de seguros, todos “sob controle dos trabalhadores”. A OMT também organizou uma frente chamada Frente Nacional Anti-Desemprego (FNAS), descrita como “uma escola de socialismo para todos os seus membros”, e um espaço para o “aprendizado da luta política e da verdadeira democracia operária”.
Nigéria
Houve aparentemente algum esforço para estabelecer um movimento trotskista na Nigéria na década de 1960. A resolução sobre a África adotada pelo Segundo Congresso do Secretariado Unificado, em dezembro de 1965, mencionava “a criação do primeiro núcleo trotskista integrado no movimento de massas e tentando influenciá-lo numa direção revolucionária” na Nigéria.
Na mesma época, houve sinais de atividade trotskista ligada ao então Comitê Internacional da Quarta Internacional, que unia os healyitas e os lambertistas. Um relatório da Socialist Labour League da Grã-Bretanha (maio de 1967) afirmou que “um camarada nigeriano visitou a Grã-Bretanha após a Conferência Internacional de 1966, relatou o trabalho do grupo nigeriano e o comitê britânico comprometeu-se a fornecer apoio financeiro regular de £50 por mês”.
Não há mais informações disponíveis sobre esses grupos nigerianos.
Grupos Diversos
Por fim, deve-se mencionar a União Africana de Trabalhadores Comunistas Internacionais, associada à tendência Lutte Ouvrière na França. A organização era composta por trabalhadores africanos residentes na França, e não há evidências de que, até meados da década de 1980, tenha conseguido estabelecer filiais na África Negra.
Em um “Manifesto da União Africana de Trabalhadores Comunistas Internacionais aos Trabalhadores, aos Camponeses Pobres, aos Desempregados, a todos os Explorados e Oprimidos da África”, provavelmente publicado em 1982, o grupo declarava sua linha política:
“Os trabalhadores revolucionários dizem a todos aqueles que desejam lutar contra o ditador, os latifundiários e o imperialismo — mesmo que apenas por um momento ou parcialmente — que estão prontos para lutar lado a lado com qualquer um, por quaisquer meios necessários. Mas os trabalhadores revolucionários, em nenhum caso, abrirão mão da liderança da luta. Somente os trabalhadores têm, ao mesmo tempo, o interesse e a possibilidade de levar a luta contra o velho mundo de exploração e opressão até o fim.”