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O Vale do Silício vai à guerra: as Big-techs e o imperialismo a serviço da escalada guerreirista e do genocídio em Gaza

05.10.2025

Parte da edição: 05.10.2025

Neste artigo, analisamos os interesses da big-techs por trás da sua crescente aproximação com o mercado de tecnologia militar e os projetos do imperialismo estadunidense sob controle de Donald Trump.

Nestes últimos meses, junto ao boicote de artistas que estão retirando suas músicas dos streamings em Israel, alguns artistas alternativos vem anunciando sua retirada total do Spotify. No dia 30 de junho deste ano, a banda indie Deerhoof anunciou a retirada de suas músicas do Spotify, o que foi acompanhado em seguida pelo mesmo anúncio de grupos como o conjunto de rock experimental e música pós-industrial Xiu-Xiu e o grupo de rock australiano King Gizzard and The Lizard Wizard.

Os anúncios surgiram após diversos veículos de mídia terem noticiado a recente ascensão do CEO do Spotify, o sueco Daniel Ek, ao cargo de presidente da empresa de tecnologia militar Helsing graças aos seus mais de 700 milhões de dólares investidos na startup europeia. A empresa é especializada no desenvolvimento de IA para aeronaves de caça, como o seu drone HX-2 AI Strike, o mesmo que própria empresa anunciou ter produzido 6 mil unidades para serem utilizadas pelo exército Ucraniano na guerra contra a Rússia, junto a mais 4 mil de outro modelo que já foram entregues para o mesmo propósito. Muito menos do que inesperado, esse fato é a expressão de uma tendência.

O arco de apoio ao trumpismo e a disputa por terras raras

A guinada do Spotify ao investimento no mercado militar não está dissociada dos realinhamentos recentes das big-techs no cenário internacional. Com a reeleição de Trump, analisamos aqui o realinhamento das grandes corporações de tecnologia em um arco de apoio ao trumpismo como uma solução cesarista à crise de hegemonia dos EUA. Declarações públicas de apoio de figuras como Mark Zuckerberg, Jeff Bezos e Elon Musk (alguns inclusive historicamente mais próximos do Partido Democrata até então) em apoio a Trump, somadas a acenos como o fim das “políticas de diversidade” de suas empresas e doações de centenas de milhares de dólares para sua posse como presidente do principal imperialismo do planeta foram movimentos que vieram marcando este novo momento. A ideia de um “neoliberalismo progressista” entrou em crise como nunca desde o início da Restauração Burguesa. O Spotify não ficou de fora, com a doação de uma bagatela de 150 mil dólares para a posse de Trump para impulsionar “os objetivos de nossa plataforma”, de acordo com a própria empresa em declaração.

Esse arco de apoio, como o próprio Spotify coloca, não é desinteressado. Há dois focos de tensão centrais nesse rearranjo. O primeiro que liga os interesses das big-techs à sanha expansionista de Trump e suas intervenções imperialistas mais “clássicas” é a disputa por terras raras. Os recentes atritos entre as big-techs e o governo Lula junto ao bonapartismo judiciário brasileiro são um exemplo expressivo disso, como é notório pelo lobby das Big Techs para fomentar a recente ingerência imperialista no Brasil. Como analisado por Gabriel Fardin:

“Hoje, a China domina mais de 85% do mercado de refinamento global de terras raras. Este monopólio é um problema estratégico para os EUA em relação ao desenvolvimento tecnológico independente da economia chinesa. As chamadas “terras raras” não são raras somente por sua abundância, mas também por sua concentração e dificuldade de processamento. O Brasil, com a segunda maior reserva mundial desses minerais, sem a tecnologia e estrutura para sua extração e refinamento, tornou-se peça-chave nos planos de Washington de reduzir sua dependência da China e disputar sua hegemonia no mercado de alta tecnologia.”

Parte da ingerência imperialista de Trump no Brasil é também a disputa por terras raras recheadas de minérios indispensáveis para a produção de tecnologia de ponta. Ou seja, é essencial para o governo dos EUA como parte de uma estratégia imperialista de relocalização da cadeia de suprimentos tecnológicos — e tentativa de conter a influência chinesa na América Latina — e essencial também às big-techs como importante oportunidade de garantia da exploração das matérias-primas essenciais para produção de alta tecnologia, bem como oportunidade de expansão de mercado e, consequentemente, de seus lucros. Isso se vincula com um segundo ponto.

As big-techs e a economia da guerra

Somadas a anúncios como o recente de aumento de investimento militar para 5% do PIB dos países membros da OTAN, as promessas de Trump de investir trilhões de dólares na “modernização das forças armadas” prometem um mercado extremamente lucrativo para as big-techs surfarem na onda guerreirista de rearmamento das grandes potências mundiais. A modo de exemplo, OpenAI, Google, Anthropic e a companhia de IA de Elon Musk, a xAI, assinaram contratos de até 200 milhões de dólares cada para avançar o desenvolvimento de IA para o Departamento de Defesa dos EUA.

E isto não é uma novidade em si. Duas semanas após o início da guerra na Ucrânia, o CEO da corporação de tecnologia Palantir, Alexander Karp, publicou uma carta muito significativa. Destacando que “a faísca para a fundação do Vale do Silício foi a adoção dos objetivos tecnológicos e de defesa do governo que tornou sua existência possível”, Karp afirmou que “para a Europa e seus aliados permanecerem fortes o suficiente para derrotar a ameaça de ocupação estrangeira”, é necessário abraçar "a relação entre tecnologia e Estado, entre empresas disruptivas que buscam se livrar do domínio de empreiteiras entrincheiradas e os ministérios do governo federal com financiamento". Ou seja, a carta de Karp era um chamado às potências europeias para modernizarem seus armamentos com auxílio do Vale do Silício.

Poucos meses depois, a OTAN anunciou um fundo de US$1 bilhão para investir em startups em estágio inicial e fundos de capital de risco que desenvolvem tecnologias tidas como “prioritárias”, como processamento de Big Data, Inteligência Artificial (IA) e automação. No mesmo período, o Reino Unido lançou um projeto e IA voltado para a defesa e o governo da Alemanha injetou um investimento de quase meio bilhão para pesquisa em IA como parte de um investimento de US$100 bilhões nas suas forças militares.[1] Ainda em maio de 2022 a Comissão Europeia também anunciou quase 1 bilhão de euros em investimento para desenvolvimento de novas tecnologias militares.

E não parou aí. As interseções de pessoal entre as big-techs e os serviços de defesa e de inteligência estadunidenses também se intensificaram. No caso dos EUA, isto se dá seja no cortejo da Meta a oficiais do Pentágono (que teve seu nome recentemente alterado por Trump para “departamento de Guerra”) para buscar ajuda em “vender seus serviços de IA e realidade virtual para o governo federal”, seja no sentido complementar, com o anúncio do exército estadunidense em junho deste ano de nomeação de quatro tenentes-coronéis da reserva para o seu Corpo de Inovação Executiva, sendo estes: Bob McGrew, ex-executivo da Palantir e da OpenAI; Adam Bosworth, diretor de tecnologia da Meta e confidente próximo de Mark Zuckerberg; Shyam Sankar, diretor de tecnologia da Palantir; e Kevin Weil, gerente de produtos da OpenAI.

É cada vez mais aparente a expressão sanguinária desse entrecruzamento entre as grandes corporações de tecnologia e o projeto da principal potência imperialista hoje para uma modernização em chave reacionária, ou seja, do desenvolvimento de novas tecnologias voltado para os projetos militares imperialistas dos EUA.

As big-techs e a economia do genocídio

Outro exemplo cabal disto é o envolvimento direto de múltiplas empresas do vale do silício no principal projeto do imperialismo estadunidense no Oriente Médio: a manutenção e fortalecimento do Estado ilegítivo de Israel e o aprofundamento do genocídio em Gaza. Como informou a relatora da ONU Francesca Albanese em seu documento “Da economia da ocupação à economia do genocídio”, há mais de 60 empresas — incluindo gigantes da tecnologia como IBM, Microsoft, Alphabet Inc. e Amazon — que auxiliam a instalação de assentamentos israelenses e operações militares em Gaza.

A IBM, por exemplo, atua em Israel desde 1972 e desde 2019 opera e desenvolve os bancos de dados do Estado genocida de Israel, permitindo a coleta, armazenamento e a instrumentalização de dados biométricos de palestinos, aprimorando as ferramentas desse reacionário regime de apartheid. Enquanto isso, empresas como Microsoft, Google e Amazon garantem o acesso de Israel a serviços de armazenamento de dados em nuvem e suas inteligências artificiais para processamento de dados — com um marco no famoso “projeto Nimbus” a partir de 2021. A Google inclusive segue aprofundando sua colaboração com o genocídio, com contratos milionários para esconder a fome em gaza e impulsionar a propaganda sionista.

Outros usos militares para as inteligências artificiais também são vistos nesse genocídio que vê no extermínio dos palestinos um laboratório para testar e aprimorar armas e táticas de massacre e limpeza étnica — um dos mais absurdos é o sistema Lavender.

Desenvolvido pelo próprio exército israelense, o Lavender é uma inteligência artificial produzida para analisar quantidades massivas de dados e determinar alvos palestinos para bombardeios, tendo sido utilizado reiteradamente desde a escalada do genocídio em outubro de 2023. Ao Lavender se somam outros sistemas de rastreio e definição de alvos como o “Gospel” e o “Where's Daddy?”, também desenvolvidos por Israel para garantir o bombardeio de alvos quando estes estivessem próximos às suas famílias.

A barbárie de sistemas como esses, seguidos à risca pelo exército israelense, é reforçada ainda com determinações internas das forças armadas do Estado sionista de que para cada alvo tido supostamente como parte do “operativo júnior do Hamas”, estariam autorizadas as mortes de até 20 civis, podendo chegar a 100 civis se o alvo fosse considerado pela IA como um “alto funcionário/comandante”. O resultado dessa tecnologia genocida, racista e asquerosa é uma série de inteligências artificiais impulsionando o maior genocídio do século XXI, que pode já ter matado até 680 mil pessoas, em sua maioria civis mulheres e crianças.

Os fundamentos disto, junto ao expansionismo militar e à eugenia sionista financiada pelo imperialismo norteamericano e europeu, também se encontram diretamente no fato de que o capitalismo torna o genocídio algo profundamente lucrativo para setores da burguesia internacional. Se isto é realidade para empresas militares israelenses como a Elbit Systems, que aumentou seus lucros em mais de 10% entre os anos de 2023 e 2024, também o é para outras diversas empresas como a Booking e Airbnb — que lucram com turismo em territórios ocupados por Israel que legitima a colonização e anexação.

O arco de investimento e financiamento das big-techs ao rearmamento europeu e ao projeto genocida de Israel financiado pelos EUA e pelos imperialismos europeus é também expressão da reatualização das tendências mais gerais da era imperialista. Lênin, em debate com as tendências liberais e com o reformismo de Kautsky, acertadamente definiu o imperialismo da seguinte forma:

“[...] é o capitalismo no estágio de desenvolvimento em que se formou a dominação dos monopólios e do capital financeiro, adquiriu marcada importância a exportação de capital, deu-se início à partilha do mundo pelos trustes internacionais e terminou a partilha de toda a Terra entre os grandes países capitalistas”.[2]

Ou seja, o amplo rearmamento das potências europeias e atrocidades como o genocídio em Gaza contarem com o financiamento generalizado das maiores empresas de tecnologia do mundo como forma de garantir a expansão dos seus lucros e um verdadeiro laboratório de atrocidades a céu aberto na Palestina é uma expressão direta das tendências mais marcantes dessa época à partilha do mundo entre as associações capitalistas, à dominação dos monopólios e às guerras e massacres como único caminho que os capitalistas encontram nesta época para solucionar as contradições mais agudas (e inerentes) desse sistema. Repetimos a pergunta retórica de Lênin:

“[...] no terreno do capitalismo, que outro meio poderia haver, além da guerra, para eliminar a desproporção existente entre o desenvolvimento das forças produtivas e a acumulação de capital, por um lado, e, por outro, a partilha das colônias e das ‘esferas de influência’ do capital financeiro?”[3]

No terreno do capitalismo, a barbárie das guerras é o caminho encontrado pela burguesia para reestruturar um crescimento relativo das forças produtivas e disputar territórios. Isso se aplica também ao caso do imperialismo estadunidense — que presencia um enfraquecimento de sua hegemonia global — o qual segue como maior financiador do Estado genocida de Israel pois tem neste um posto avançado dos seus interesses no Oriente Médio. A importância do destaque de Lênin para este caminho ser o único “no terreno do capitalismo” é apontar que há outro “terreno” estratégico-programático: a resposta operária e socialista.

A resposta operária e socialista

Em sua mais recente análise da situação em Gaza, Claudia Cinatti destaca que, ”desde o holocausto nazista, houve muitos genocídios, mas o que o Estado de Israel está perpetrando em Gaza tem a particularidade de ser um crime no qual estão diretamente envolvidas o conjunto das potências imperialistas e seus aliados” e que por isso a luta contra o genocídio tem necessariamente um caráter anti-imperialista e se soma com as lutas ao redor do mundo contra os governos ajustadores e cúmpices do genocídio.

Esta definição é chave frente ao interregno convulsivo que vive a situação internacional. Se somando às diversas manifestações amplas contra a precarização da vida encabeçadas pela juventude ao redor do mundo em países como Indonésia, Nepal, Filipinas, Peru, Marrocos e outros, estão atos massivos em apoio ao povo palestino tem tomado com centenas de milhares as ruas da Inglaterra, Bélgica, Alemanha, Tunísia e diversos países, com um destaque especial para a paralisação nacional da Itália, onde os portuários de gênova prometeram que “se tocarem na Flotilha, bloquearemos tudo” — e cumpriram sua promessa.

Resgatando os métodos da classe trabalhadora como caminho de enfrentamento ao Estado sionista de Israel e os imperialismos cúmplices, os sindicatos de base organizaram paralisações conjuntas no dia 22 deste mês contra o genocídio em Gaza e em apoio à Global Sumud Flotilha. 90% dos transportes públicos ficaram paralisados, 50% das ferrorias também. Portuários impediram o envio de armamentos para Israel e estudantes e professores paralisaram locais de estudo. A tudo isso se somaram mais de meio milhão de pessoas nas ruas de mais de 80 cidades e outras categorias, como os trabalhadores aeroviários, que conectando suas demandas imediatas à luta do povo palestino, fizeram uma greve no dia 26 por melhores salários e pelo fim do genocídio. São potentes demonstrações da força da nossa classe que devem servir de inspiração ao redor do mundo.

No Brasil, as principais centrais sindicais como a CUT e a CTB seguem atuando para conter o movimento operário para que este não enfrente os ataques do governo Lula-Alckmin com seu Arcabouço Fiscal e o legado das contrarreformas neoliberais que mantém, como também para que os trabalhadores brasileiros não vinculem sua luta à luta anti-imperialista do povo palestino, cujo genocídio é financiado pelo mesmo imperialismo norteamericano dirigido por Trump que aplica seu tarifaço aqui. Na contramão disso, enquanto o governo Lula-Alckmin segue enviando o petróleo brasileiro, bem como o aço, para fomentar a máquina de guerra israelense, demonstrações importantes de solidariedade internacional dos trabalhadores brasileiros aparecem. Seja no caso dos petroleiros do Rio de Janeiro e a aprovação de posições contra o genocídio na Palestina e exigências da FNP — com Leandro Lanfredi, militante do MRT à frente — ao governo para que garanta a segurança dos brasileiros na Global Sumud Flotilha, seja no caso dos trabalhadores da construção civil de Belém que, explorados nas obras para a COP30 sob a farsa do “capitalismo verde”, declararam seu apoio à flotilha — ilegalmente interceptada e cujos ativistas foram criminosamente sequestrados por Israel. Exigimos a imediata liberdade de todos os ativistas da GSF e dos mais de 10 mil presos palestinos!

Todos esses exemplos devem servir de inspiração também para enfrentar o poderio reacionário das big-techs como parte central da luta anti-imperialista. Importante nesse sentido é também que a essa onda de solidariedade internacional começam a se somar protestos de trabalhadores das gigantes da tecnologia, como os dos trabalhadores da Google em 2024 que atingiram suas sedes em Nova York, Sunnyvale (California), San Francisco e Seattle levantando faixas contra o “Projeto Nimbus” dizendo “No cloud for genocide” [não à “nuvem” para o genocídio] e “No AI for the military” [não à IA para os militares]. Outro exemplo recente foi o acampamento dos trabalhadores da Microsoft em sua sede em Redmond (EUA) no mês passado em protesto contra o uso da plataforma Azure para coletar dados de palestinos e espioná-los, que culminou com a empresa anunciando o interrompimento de parte dos serviços prestados ao ministério de defesa do Estado genocida de Israel.

Mas a luta operária e socialista não é estranha à tecnologia, muito pelo contrário. Toda tecnologia é descoberta, projetada, desenvolvida e operada pelos trabalhadores e é fruto portanto da cooperação social material e intelectual de toda a nossa classe. Poderia então ser utilizada para reduzir as jornadas de trabalho, para garantir uma planificação socialista da economia que possibilitasse uma produção e distribuição racional de alimentos, empregos, habitação e solucionar todas as questões mais sentidas das vidas dos trabalhadores e dos setores oprimidos. Mas, sob o capitalismo, essa tecnologia é apropriada e utilizada privadamente pelas burguesias internacionalmente para intensificar a exploração e, como pudemos ver, como ferramentas para guerras e genocídios. Essa contradição entre a produção social do conhecimento e da tecnologia e sua apropriação privada e uso reacionário pela burguesia reflete as tensões das contrações inerentes do sistema capitalista.[4]

Por isso, a luta por um desenvolvimento tecnológico a serviço dos trabalhadores e setores oprimidos precisa ser uma luta anticapitalista que conecte as demandas da classe trabalhadora por melhores condições de vida à luta intransigente pelo fim de todas as agressões imperialistas, o que passa pela batalha pela expropriação sob controle operário de todas as big-techs e pela luta por uma Palestina livre, operária e socialista, erguida no terreno de uma federação de repúblicas socialistas do Oriente Médio.