Pela enésima vez, o Estado sionista recorre ao deslocamento forçado da população palestina para campos de concentração no sul da Faixa de Gaza. Uma coluna interminável de carroças puxadas por burrros, caminhões com cargas muito acima de sua capacidade, famílias inteiras a pé com seus escassos pertences. Centenas de milhares são obrigados a abandonar a cidade, já em ruínas, ameaçados pela fome, pelos bombardeios e pelo fogo incessante do exército israelense, que dispara sem distinção contra crianças, médicos, jornalistas ou pessoal humanitário.
A ofensiva abriu caminho com bombardeios massivos para demolir de vez o que ainda restava em pé — incluindo prédios residenciais em ruínas e até tendas. A isso somou-se um apagão comunicacional que deixou, literalmente, cerca de 800.000 gazenses em completo isolamento.
O Estado de Israel exerce brutal pressão por todos os meios para forçar o deslocamento, um crime de guerra sem atenuantes que alguns cínicos tentam vender como “migração voluntária”. Portanto, é de se esperar que as calamidades para os palestinos se agravem à medida que o exército israelense avance rumo ao coração da cidade.
No entanto, uma semana após o início da invasão, entre 200.000 e 400.000 palestinos, segundo estimativas de agências humanitárias, ainda permanecem na cidade, seja porque muitos se recusam a abandonar suas casas (mesmo reduzidas a ruínas) num gesto heroico de resistência, ou simplesmente porque não têm meios, nem dinheiro para pagar transporte, nem forças para se deslocar, nem a expectativa de encontrar abrigo. Depois de décadas de “genocídio incremental” (I. Pappé) e de dois anos de genocídio a céu aberto perpetrado pelo Estado de Israel, sabem que onde quer que vão encontrarão fome, morte e destruição.
O objetivo de Netanyahu é esvaziar Gaza o máximo possível para facilitar a invasão e, de quebra, acalmar a ansiedade de seus parceiros de extrema-direita, que não se contentam com os objetivos de “derrotar o Hamas” e “resgatar os reféns”, mas exigem avanços rumo à “solução final”, isto é, a expulsão definitiva dos 2 milhões de palestinos de Gaza, da população da Cisjordânia e a colonização por parte de Israel de todo o território histórico da Palestina.
Não é segredo que o plano de Netanyahu, de seus parceiros da extrema-direita religiosa, dos colonos e, neste ponto, do establishment sionista em conjunto, é a limpeza étnica. E que esse plano recebeu luz verde dos Estados Unidos quando Donald Trump propôs transformar Gaza em um resort de luxo no Mediterrâneo.
O porta-voz mais eloquente do projeto colonial sionista é o ministro da Fazenda de Netanyahu, o fascista B. Smotrich, que diante de uma plateia de empresários disse que Gaza é uma “bonança imobiliária” e que, para aproveitá-la, só restaria terminar a tarefa de demolição e a expulsão dos palestinos, acrescentando que já estava negociando com Trump o reparto do território.
Apenas uma semana antes de lançar a invasão de Gaza, Israel tentou assassinar altos comandantes do Hamas que se encontravam em Doha negociando um suposto cessar-fogo. O Qatar soma-se assim à lista de países “bombardeáveis” por Israel, integrada por Líbano, Irã, Síria e Iêmen. Embora a operação aparentemente não tenha sido bem-sucedida e a direção do Hamas tenha sobrevivido, o ataque contra o Qatar é um salto — não se trata de um inimigo comum do Estado sionista e do imperialismo norte-americano, como o Irã, mas de um aliado fundamental dos Estados Unidos no Oriente Médio, que abriga a maior base militar norte-americana na região.
Trump decidiu minimizar a crise, e os regimes reacionários árabes e muçulmanos, que permitem o genocídio do povo palestino e estão em vias de “normalizar” suas relações com o Estado sionista, mal emitiram um comunicado inofensivo, sem qualquer medida para frear o genocídio em Gaza e os ataques na Cisjordânia. Nenhum deles sequer ameaçou retirar-se dos Acordos de Abraão. O ataque impune de Israel a um aliado protegido pelos Estados Unidos é uma mensagem ominosa para as monarquias do Golfo, para o Egito e para a Jordânia, já em estado de alerta pelos planos de expulsão massiva da população palestina em direção às suas fronteiras.
O início da ofensiva terrestre em Gaza, batizada como fase dois da operação “Carros de Gideão”, coincidiu com a visita a Israel do secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, que competiu em declarações fascistas com o próprio Netanyahu. O representante de Trump, flanqueado por seu amigo Bibi, referiu-se aos palestinos como “animais” que deveriam ser exterminados — termos usados pelo ex-ministro da Defesa Y. Gallant, que, entre outras coisas, lhe renderam uma ordem de prisão do Tribunal Penal Internacional por crimes contra a humanidade.
Simultaneamente, uma comissão de especialistas penais mandatada pelo Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas publicou um relatório no qual acusa Israel de estar cometendo um genocídio em Gaza. Ainda que com atraso, dado que dezenas de organismos de Direitos Humanos já há mais de um ano chegaram a essa conclusão (incluindo o contundente Our Genocide da organização israelense B’Tselem), o relatório é, de todo modo, mais um golpe contra a legitimidade do Estado de Israel e de seus cúmplices no genocídio, em particular os Estados Unidos e as potências europeias.
Em um artigo de opinião publicado no New York Times, Navi Pillay, um dos juristas que integraram esse painel e que, na década de 1990, investigou o genocídio em Ruanda, explica que o crime de genocídio tem duas dimensões: o ato concreto e as intenções (mens rea), sendo esta última mais difícil de provar porque os genocidas tendem a ocultar e encobrir seus crimes. No caso de Gaza, os membros do governo israelense expuseram publicamente seus planos de extermínio por meios militares ou mediante outros mecanismos, como a planificação metódica de fomes. E isso constitui, sem dúvida, evidências da intenção genocida. Bem-vindos ao holocausto versão século XXI.
O Estado de Israel sofreu um acelerado processo de deslegitimação internacional e, a esta altura, está reduzido quase à condição de pária, ainda que siga contando com o apoio incondicional dos Estados Unidos – que é seu principal ativo – e de um punhado de subservientes como o governo de Milei, cuja única política externa é obedecer a Washington e a Israel. Os países do chamado “sul global” há muito votam condenações e denúncias em fóruns internacionais. O Tribunal Penal Internacional deu prosseguimento à denúncia por genocídio contra Israel apresentada pela África do Sul. Netanyahu e seu ex-ministro da Defesa, Y. Gallant, têm ordem de captura internacional por crimes de guerra. A última mostra desse isolamento diplomático é a votação absolutamente majoritária na Assembleia das Nações Unidas a favor do estabelecimento do Estado palestino, embora isso não passe de um gesto meramente simbólico e que, se levado adiante, significaria uma legitimação do regime de apartheid contra o povo palestino.
Netanyahu se referiu a esse isolamento diplomático em um discurso infeliz do qual depois teve que recuar. Disse, diante de uma conferência de empresários estupefatos, que as potências europeias haviam se transformado em inimigos devido à pressão exercida pelos imigrantes muçulmanos (uma versão sui generis da teoria da “grande substituição” da extrema direita) e comparou Israel a Esparta (sic), sugerindo que o que restava pela frente era um caminho de autarquia – inclusive econômica – e de militarismo para manter-se como “hegemon” regional. Além de omitir que a história de Esparta terminou mal, deixou de mencionar que Israel tem uma dependência absoluta em relação aos Estados Unidos, o que ficou evidente na “guerra de 12 dias” contra o Irã. Essa dependência estrutural enfraquece estrategicamente sua posição regional, apesar de seus êxitos táticos militares, como o ataque às lideranças do Hezbollah e do Hamas.
A bem da verdade, em certo sentido o Estado de Israel vive seu momento de maior isolamento internacional, mas, em outro, é o polo de atração do imperialismo e das forças da reação, que em conjunto continuam permitindo o genocídio.
A tentativa dos aliados históricos de Israel de se dissociarem dos crimes mais abjetos de Netanyahu e de seu governo de fascistas por meio de medidas simbólicas é diretamente proporcional à sua cumplicidade contínua com o genocídio. Apenas depois de dois anos de genocídio e sob pressão da mobilização, o governo trabalhista britânico decidiu suspender a venda de algumas armas a Israel, embora continue fornecendo armamento crucial. E, junto com a França, declarou-se a favor do Estado palestino. Quase nenhum país – inclusive os do “sul global” – rompeu relações diplomáticas ou comerciais com o Estado sionista, ainda que a União Europeia esteja estudando reduzir alguns benefícios comerciais, uma medida mínima que provavelmente nem será implementada.
Cometer um genocídio diante dos olhos do mundo não sai de graça. Nem para Israel, nem para seus cúmplices – Estados Unidos, Grã-Bretanha, Alemanha, França, União Europeia, Austrália – onde o apoio dos governos ao Estado de Israel contrasta com a rejeição majoritária da população aos crimes do Estado sionista, o que produziu uma mudança muito significativa na opinião pública dos países ocidentais. Nos Estados Unidos, a contestação chega até o setor MAGA da base trumpista, que enxerga uma contradição crescente entre a aliança incondicional com Israel e o slogan “America First”. Embora essa posição seja minoritária no partido republicano institucional, algumas de suas figuras, como Steve Bannon, têm peso nos setores mais militantes da direita republicana.
A consequência mais significativa é, sem dúvida, o surgimento de um forte movimento internacional de solidariedade com o povo palestino e o aparecimento de uma juventude antissionista, que avança na compreensão de que o genocídio e a limpeza étnica são a conclusão lógica do projeto sionista de colonialismo de colonos (isto é, de substituição da população local). E que a única forma de detê-lo é a mobilização internacional e o apoio à resistência palestina. Esse movimento é duramente reprimido e perseguido pelos governos imperialistas e pelos aliados de Israel, mas não foi derrotado, como demonstram as mobilizações de massas na Grã-Bretanha, na Austrália ou nos Países Baixos, as ações na Volta Ciclística do Estado Espanhol, o retorno dos bloqueios dos trabalhadores portuários, como na Itália, ou as denúncias dos parlamentares da Frente de Esquerda na Argentina contra o governo prissionista de Milei, para citar apenas alguns exemplos. Nestes dias, a Flotilha Global Sumud (da qual participa nossa corrente internacional e também referentes da FITU), que reúne representantes de 45 países, tentará chegar a Gaza apesar da ameaça militar de Israel.
Desde o holocausto nazista, houve muitos genocídios, mas o que o Estado de Israel está perpetrando em Gaza tem a particularidade de ser um crime no qual estão diretamente envolvidas o conjunto das potências imperialistas e seus aliados. Por isso, a luta contra o genocídio tem necessariamente um componente anti-imperialista, e está objetivamente unida às lutas em curso que, como na França ou na Argentina, enfrentam os ataques dos governos capitalistas ajustadores, cúmplices do colonialismo israelense.