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One Piece como símbolo em disputa frente a barbárie capitalista

Parte da edição: 30.11.2025

Os últimos anos foram marcados por uma crescente cada vez maior de crises, guerras e revoltas populares. Só neste ano de 2025 temos exemplos desde a Indonésia, Filipinas, Nepal, Peru e França, com recentes processos de luta e revoltas onde a “geração Z” vem protagonizando a luta contra a miséria capitalista na reatualização da sua etapa imperialista. Em um mundo marcado pelo genocídio do povo palestino pelo estado sionista de israel, a classe trabalhadora em vários lugares do mundo, com gravidade nas greves operárias na Europa e a maior ação humanitária como a Flotilha que rumava a Gaza até serem interceptadas no dia 01/10, por que a bandeira de One Piece é hasteada junto aos protestos pela Palestina e contra a exploração capitalista?
One Piece é um dos mais famosos mangás e animes do Japão. Teve seu início em 1997, Criado e roteirizado por Eiichiro Oda. A história (que ainda segue em produção atualmente, depois de quase 30 anos) narra sobre um mundo fictício marcado pela pirataria em busca do tesouro supremo (One Piece) deixado pelo antigo Rei dos Piratas antes de ser executado pela marinha comandada diretamente pelo Governo Mundial. Neste mundo, a marinha cumpre diretamente o papel de braço armado de um Governo Mundial que explora e condiciona diversos reinos/ilhas a uma política de submissão à esta instituição que possui não só o monopólio armamentista mas também da História.  (O texto a seguir possui spoilers do arco atual do mangá de One Piece) Escovar a História a contra pelo! One piece e a contestação à narrativa dominante Com o decorrer do desenvolvimento da história, fomos apresentados ao “século perdido”, um momento histórico de uma grande guerra que consolidou a hegemonia do Governo Mundial e as dinâmicas do atual mundo do anime. Muito pouco sabemos sobre esse momento e os 400 anos anteriores do mundo, poucos personagens tem acesso a essa informação pela perseguição do governo mundial, que chegou a destruir uma ilha inteira (Ohara) de historiadores e arqueólogos que buscavam descobrir a verdade e divulgar ao mundo, além de tornar Nico Robin, uma futura chapéu de palha, em uma das maiores inimigas do governo mundial, ainda criança, por sobreviver ao extermínio de Ohara e saber ler os vestígios escritos sobre o século perdido. Muito se especula que na verdade o One Piece seja a o conhecimento dessa história perdida e a possibilidade de uma grande revolução que possa trazer a libertação do mundo. Essa vontade é materializada no Deus Nika (deus do sol/ libertação) que recentemente descobrimos ter sua reencarnação no protagonista da história, O chapéu de palha Monkey D. Luffy. Aqui, a representação desta entidade toma um sentido central para toda a obra de One Piece. Nika é o nome de um guerreiro lendário reverenciado como o Deus do Sol pelos escravizados desde os tempos antigos, reivindicado e esperado por vários povos na luta pela libertação. Essa lenda foi passada oralmente pelos povos oprimidos devido a ação do GM de apagamento de qualquer coisa que retomasse essa figura, inclusive hoje tendo Luffy como uma das pessoas mais ameaçadoras para o poder dominante. Seus novos poderes buscam simbolizar a conexão do personagem à liberdade ao remeterem a quebra da 4 parede com algo cômico e surreal, também envolvem características bastante inspiradas na capoeira, uma manifestação cultural e de resistência que emerge da população negra escravizada em busca de liberdade. Em diversas ocasiões, o autor já expressou que se o Luffy fosse real, ele seria brasileiro (coincidência ? rs) pela sua personalidade e espírito de luta. Alguns até apontam um paralelo entre Luffy/Nika e Exu, pela descrição como brincalhão, travesso e gargalhante, de fome insaciável que se opõe às injustiças do mundo. Toda essa história vem sendo lentamente construída ao longo desses últimos 28 anos de mangá, onde a tripulação de Luffy, os chapéus de palha, que tem como símbolo a icônica bandeira apropriada pela geração Z que vem protagonizando diversas revoltas pelo mundo. A maior vontade de Luffy é encontrar o One Piece e ser o Rei dos piratas, não pelo tesouro reservado ou fama envolvida, mas, nas palavras do protagonista, porque essa pessoa seria a mais livre do mundo. Por mais que Luffy não seja uma representação de um líder político da forma mais escancarada do termo, ao contrário de seu pai, Dragon, que é o líder do exército revolucionário, fortemente inspirado pela imagem de Che Guevara e a revolução cubana; Luffy encarna o desejo coletivo da liberdade na obra, algo interessante a se observar é que querendo ser a pessoa mais livre do mundo, seu caminho até esse objetivo é atravessado a todo instante por lutas de diversos povos e nações por sua própria libertação, da qual ele sempre toma dianteira. Algo que é diretamente contestado pela Marinha, e pelos nobres (dragões celestiais) que estão à frente do Governo Mundial. Na representação dessas ordens hegemônicas, Oda é muito perspicaz em mostrar a corrupção, exploração e desigualdade dos nobres, que escravizam diversas raças para manter seus privilégios e poderes, protegidos e viabilizados pelo GM! One piece é profundamente marcado por paralelos com a história e política do nosso mundo, como o próprio exército revolucionário, mas também de povos originários como de skypia, da opressão racial e escravização vivida pelos homens peixes e Bucaneiros e de grupos dissidentes como a ilha das travestis lideradas por Ivankov (inspiração russa), uma comandante do exército revolucionário - Ainda que existam problemas nessa representação. Assistimos a alegorias de momentos históricos como a queda da Bastilha na revolução francesa, as dinâmicas do colonialismo nas américas e em África e até em relação às guerras imperialistas do século XX.  Apesar desses elementos mega sensíveis e políticos, a obra também carrega contradições. A principal evidência é como o bando de Luffy após derrotar os tiranos, muitas das vezes corroboram para a substituição do poder para “bons reis/líderes”, apoiados em um dinâmica hereditária, mas que são contraditoriamente reivindicados pela população do local.  Essa dinâmica narrativa normalmente é construída no decorrer da trama, onde luffy se alia aos antigos líderes, construídos como bondosos e justos na narrativa, o que somente em uma ficção poderia-se existir, para lutar contra a ingerência de um inimigo explorador/autoritário normalmente apoiado, ou com conivência do Governo Mundial. Temos exemplos como a retomada do xogunato aos Kozuki em Wano, o combate contra a tentativa de golpe de Crocodille em Alabasta em defesa dos Nefertari ou até em Dressrosa após derrota de Doflamingo. Neste sentido, os limites da obra se mostram quando o combate ao autoritarismo, opressão e tirania não passa também por questionar essa lógica personalista de “bons líderes” que assumiriam a liderança dessas várias nações recém libertadas. Aqui, apesar dos povos oprimidos serem representados de uma forma bastante sensível, diferente de outros shounens, e sujeitos também dos processos de luta, seu poder de decisão e controle da sua realidade é sempre passada à um representante heroico e destinado à liderança, por fora de uma lógica de autoorganização de forma independente. Esses são elementos contraditórios da narrativa de Oda que de forma alguma coloca um papel contrarrevolucionário aos chapéus de palha ou nega toda a trama da representação da luta contra a opressão e a exploração levada a frente por um governo centralizador e controlado pelos interesses dos nobres mundiais. O caráter da nossa época, a Geração Z e One Piece como um símbolo Em um cenário internacional de disputa pela ordem hegemônica entre duas grandes potências como EUA e China, do maior genocídio do nosso século como ocorre na faixa de Gaza, aumento das ingerências imperialista sob o governo Trump na américa latina; a bandeira dos chapeus de palha se converte no símbolo de luta dos povos oprimidos em diversas revoltas populares na ásia e Africa e em lutas operárias e estudantis na Europa. No Nepal, que passou por um importante processo de revolta que derrubou o antigo primeiro-ministro, colocou em cheque o privilégio das castas políticas nepalesas em contraposição com a miséria da população, as fotos com as bandeiras do anime chamando a mobilização se popularizaram. Assim como em países também do continente asiático como a Indonésia e as Filipinas. Pode interessar: O pirata que estica e a geração Z [Fonte: Divulgação BBC] Porém, essas ações não se limitam ao continente asiático. A geração Z vem protagonizando uma série de revoltas neste ano de 2025, dando exemplo de uma luta internacionalmente, da ásia à África, américa latina e Europa.  Na França, das maiores às menores cidades, centenas de milhares de manifestantes desfilaram para expressar o descontentamento generalizado em relação a Macron e às políticas de austeridade enfrentadas pela classe trabalhadora. Marcado por greves, bloqueios, mobilizações estudantis e manifestações, além da conquista do reconhecimento da Palestina, a bandeira de One piece hoje representa um dos símbolos da luta contra a miséria e a barbárie. No Peru, a juventude se mobilizou contra o regime golpista e ultradireitista de Dina Boluarte (agora afastada), denunciando a exploração do estado burguês, a repressão policial e a cumplicidade do Congresso. “A juventude o aprendeu de maneira direta: cada marcha, cada concentração e cada praça tomada evidenciam a natureza repressiva de um aparato estatal que protege interesses privados enquanto reprime aqueles que produzem a riqueza”. [Fonte:  Divulgação BBC] Essa obra caminha para sua reta final, o exército revolucionário começa a fazer suas movimentações, pequenos fragmentos do século perdido vêm sendo expostos e a hegemonia de IMU (rei/rainha do mundo) começa a ser contestada pela frota dos chapéus de palha! Muitas revelações ainda nos aguardam, como a exposição das armas ancestrais (alegoria ao monopólio bélico das nações vinculadas ao GM) e o final do massacre promovido pela elite mundial contra a população de God Valley. One Piece expressa, hoje nos animes, a importante fusão da arte e da realidade política, como porta voz não só da luta dos povos oprimidos mas do espírito de transformação de toda uma geração contra a barbárie e a miséria capitalista!