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Por que Trótski hoje?

Por Juan Dal Maso |
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Algumas reflexões em um novo aniversário de seu assassinato pelas mãos do estalinismo

Sempre que tentamos retomar a atualidade de um clássico marxista, corremos o risco da repetição, seja do que disse o próprio autor, seja de reivindicações anteriores, próprias ou alheias. No entanto, o exercício vale a pena, porque a força de um pensamento teórico-político não está dada de uma vez por todas. A mudança das circunstâncias históricas faz com que alguns aspectos desse corpo de ideias ganhem nova vitalidade em relação a outros, ao mesmo tempo em que obriga a repensar globalmente os problemas originais à luz dos nossos. Isso vale para Trotsky talvez mais do que para qualquer outro marxista, pelo tipo de problemas sobre os quais refletiu e elaborou um pensamento teórico e estratégico. Nessas linhas, tentaremos retomar, sem pretensões de exaustividade, algumas questões de seu pensamento, para refletir sobre sua atualidade.

A força da sistematicidade teórica

Um dos aportes mais importantes de Trotsky ao marxismo do século XX, além de seu papel na Revolução Russa primeiro e na oposição ao estalinismo depois, é a formulação da teoria da revolução permanente, que – embora tenha sua origem na reflexão sobre os problemas da revolução em países semicoloniais, periféricos e de desenvolvimento burguês “atrasado” – é uma teoria da revolução contemporânea, que inclui também os países imperialistas. Não repetiremos aqui toda uma série de reflexões realizadas em outros lugares sobre a questão da “forma atual” da revolução permanente e os problemas que ela coloca para a teoria.

Simplesmente assinalaremos que o aporte de Trotsky nesse terreno é fundamental, porque a teoria da revolução permite estabelecer parâmetros para compreender as tendências gerais do processo histórico e – ao mesmo tempo – as condições para a emergência do novo. Não há dúvidas de que situações em que não se verificam as dinâmicas clássicas previstas por ela constituem um desafio para a teoria. Mas um marco teórico claro e com aspirações sistemáticas permite pensar melhor a singularidade e especificidade dos processos do presente, por exemplo, a questão da relação entre revolta e revolução ou a redução da revolução permanente às suas formas elementares.

A transformação da revolução e o problema da plasticidade

Nesse contexto, uma questão central da teoria de Trotsky que devemos considerar é o conceito de transformação da revolução, utilizado para pensar a relação de continuidade/ruptura entre revolução “democrático-burguesa” e socialista na periferia, mas também para a relação entre a escala nacional e internacional da revolução, tanto quanto para as transformações no interior da sociedade pós-revolucionária.

Essa ideia de transformação da revolução envolve a de plasticidade, que é sinônimo de flexibilidade ou ductilidade, isto é, a capacidade de expandir-se ou mudar de forma de um objeto. Pode remeter a um marco teórico geral, caracterizado por uma concepção de desenvolvimento desigual e combinado do processo histórico nos marcos da etapa imperialista do capitalismo, que impõe pensar além do desenvolvimento por etapas, mas também tem relação com a forma como Trotsky pensou a questão do poder das massas.

Na perspectiva de Trotsky, a ação das massas autodeterminadas implica uma progressão geométrica da dinâmica de mobilização e auto-organização, que rompe os marcos da evolução gradual da relação de forças, impulsionando o processo além de seus objetivos iniciais, o que impede estabelecer etapas predeterminadas. A plasticidade da revolução está ligada, portanto, a certas condições históricas, mas também a uma dinâmica específica da luta de classes.

Como assinalou Alain Brossat em seu clássico estudo Nas Origens da Revolução Permanente, Trotsky passou de uma posição “sociologista”, que supervalorizava a capacidade espontânea da classe operária, a uma visão distinta que incorporava com força a importância do partido como direção política. Mas a parte produtiva desse “sociologismo” sempre se manteve no pensamento de Trotsky ao longo de toda sua trajetória: o poder das massas em sua dinâmica de autodeterminação altera a dinâmica da política. Esse fato tem raízes em uma dinâmica social, que é a organização desde a base, a partir das necessidades reais da classe trabalhadora e dos distintos setores oprimidos da sociedade. Daí também que a concepção de hegemonia de Trotsky tenha características específicas, às quais nos referiremos brevemente a seguir.

A hegemonia como dinâmica político-social

A questão da hegemonia na política contemporânea oscila entre várias caricaturas. Associada pelas extremas direitas à ideia de “batalha cultural” (que retoma as leituras sobre Gramsci das Conferências dos Exércitos Americanos dos anos 1980) e, no “progressismo” (embora também em setores da esquerda), à visão centrada na enunciação de um discurso (que remete a Ernesto Laclau e Chantal Mouffe), o conceito foi se esvaziando e se trivializando, impondo – na prática – uma má leitura de Gramsci: um Gramsci sem Maquiavel, sem análise das relações de forças e sem estratégia. Daí que recuperar a concepção de Trotsky sobre o tema seja fundamental, precisamente porque coloca o eixo naquilo que as leituras mainstream esqueceram: a relação entre hegemonia e luta de classes.

Cabe esclarecer que, originalmente, Trotsky não se convenceu da ideia. Como recorda em sua História da Revolução Russa, na véspera da Revolução de 1905, o termo havia se popularizado no bolchevismo como chave explicativa de por que não era possível a ditadura do proletariado na Rússia. No entanto, como demonstramos amplamente em Hegemonia e luta de classes, Trotsky desenvolve sua própria visão de hegemonia.

Não se trata de “fazer um discurso” nem de “agitar demandas” em geral, mas de unir as reivindicações de todos os setores oprimidos da sociedade (como as mulheres ou os povos oprimidos) com uma luta muito decidida pelas demandas próprias da classe trabalhadora, cujo desenvolvimento consequente implica a construção de seu próprio poder e formas específicas de democracia proletária (conselhos). Isso é o que denominamos uma concepção de hegemonia como dinâmica político-social, e é uma ideia potente em uma época em que a política se esvazia de conteúdo como política midiática e de redes, e as dinâmicas sociais predominantes tendem ao fragmentário, começando pela própria estrutura interna da classe trabalhadora.

Elementos para a análise da realidade mundial e da “potência hegemônica”

Outra das questões muito importantes que Trotsky aportou ao marxismo do século XX, e que tem vigência para a atualidade, é sua forma de pensar a situação mundial e o problema da potência hegemônica.

Por um lado, em suas reflexões sobre a questão do “equilíbrio capitalista”, Trotsky oferece uma concepção teórica geral que implica que – para pensar a realidade mundial – é necessário considerar a situação da economia, as relações entre os Estados e a luta de classes. Pode parecer uma obviedade, mas não deixa de ser fundamental recuperá-la em um contexto em que proliferam análises unilaterais. Além disso, fornece elementos centrais para pensar o problema da “potência hegemônica”. Na perspectiva de Trotsky, o que torna uma potência hegemônica sobre outras é uma combinação de condições próprias (relação equilibrada entre peso econômico e peso político do país, alta produtividade do trabalho e prosperidade comercial) e a relação de forças conquistada com base na iniciativa no plano comercial, político e militar, tendo a guerra como instância última de definição e redefinição dessa relação de forças.

Suas contribuições não são menores para pensar uma situação como a atual, caracterizada por um desequilíbrio no sistema mundial, em que os Estados Unidos, sob o governo de Trump, tentam resolver o declínio da hegemonia norte-americana com uma explosão de imperialismo e neocolonialismo, diante da ascensão da China.

A estratégia no posto de comando

Por último, mas não menos importante, Trotsky oferece uma leitura da questão da estratégia sem a qual não se podem entender problemas centrais do marxismo do século XX, que se entrelaçam na problemática das vias concretas para lutar pelo poder e fazer triunfar as revoluções.

A socialdemocracia da segunda metade do século XIX havia se centrado na tática, que na prática se reduzia à política eleitoral e sindical, deixando a questão da estratégia (luta pelo poder) para um futuro distante. O debate de 1910 sobre “as duas estratégias” entre Rosa Luxemburgo (aniquilamento) e Kautsky (desgaste) antecipou a questão que Trotsky desenvolveria em profundidade, a partir da experiência da Revolução Russa, de sua própria atividade como fundador do Exército Vermelho e do balanço dos processos revolucionários derrotados durante os anos 1920.

A época imperialista, com a crise da democracia burguesa e a irrupção das lutas revolucionárias de massas, colocava em toda sua dimensão a questão estratégica, de modo que não bastavam programas ou perspectivas gerais: era necessário pensar as questões concretas de como se constrói o poder da classe operária e se articulam as forças e os processos para realizar a revolução, às vezes como tarefa imediata, outras de médio e longo prazo, mas não mais como uma etapa futura do desenvolvimento do capitalismo. Essas reflexões, resgatadas em profundidade no livro Estratégia socialista e arte militar, de Emilio Albamonte e Matías Maiello, são plenamente consubstanciais às que assinalamos nos apartados anteriores: pensar com rigor uma teoria da revolução implica o mesmo rigor para as questões estratégicas, se essa teoria pretende não apenas explicar, mas também ser um fator da própria ação.

A meu ver, uma das principais tensões próprias do pensamento estratégico de Trotsky tem a ver com a relação entre a centralidade do momento insurrecional e as hipóteses que implicam um certo deslocamento da insurreição como momento único. Essa tensão está ligada, igualmente, à questão dos tempos do processo revolucionário. Nos escritos e intervenções de Trotsky sobre a revolução na Europa Ocidental no período de 1919/1924, expressa-se claramente a ambivalência entre ambas as perspectivas: de um lado, uma hipótese de um processo de guerra civil anterior à conquista do poder, que afirma uma diferença fundamental em relação à experiência russa; de outro, uma ideia de centralidade do ato insurrecional como momento decisivo, que apresenta grandes elementos de continuidade com aquela. Por sua vez, ambas as perspectivas se unem em uma tensão dialética (isto é, de interdependência e complementaridade contraditória), que só pode ser resolvida em função das necessidades concretas da luta de classes.

Reflexões desse tipo são fundamentais na atualidade, especialmente considerando as características que vêm tendo os processos mais destacados de luta de classes nas últimas décadas (fundamentalmente, revoltas por um lado e – em menor medida – grandes lutas operárias de massas, por outro).

Democracia substantiva e comunismo

Talvez uma das questões mais importantes do legado de Trotsky para a atualidade seja sua concepção da democracia soviética (ou democracia operária ou democracia socialista) e da construção do comunismo.

No marxismo, é muito forte a denúncia da “democracia pura e simples” como uma cobertura do caráter burguês da democracia no regime capitalista. Essa denúncia, certeira e necessária, não deveria ir em detrimento de uma reflexão mais ampla sobre a democracia como tal, que, sob a ótica da filosofia política, inúmeras vezes foi associada ao governo dos pobres contra os ricos (do ponto de vista social) e/ou ao método de decisão direta, baseado na Assembleia (do ponto de vista político).

A identificação do republicanismo (que busca limitar os “excessos” da democracia direta) com a democracia é algo próprio da época burguesa. Do mesmo modo, a Comuna de Paris e a Revolução Russa deram lugar a uma nova forma de organização política, que é a república operária ou soviética, na qual a dominação social da classe trabalhadora (e da maioria do povo) se combina com métodos de democracia direta (assembleias e/ou soviets, conforme o caso) e de delegação (deputados operários, comissários do povo etc.).

Daí que, para Marx e também para Lenin e Trotsky, a ditadura do proletariado seja muito mais democrática que qualquer república burguesa e, poderíamos acrescentar, a única forma de democracia substantiva (isto é, não apenas referida aos modos de decisão, mas também à igualdade material) moderna.

Em plena luta contra o estalinismo, Trotsky elaborou teoricamente um modelo de democracia soviética que combinava os mecanismos de decisão democráticos (soviets) com a plena liberdade política para todas as tendências e partidos afins à revolução, ainda que tivessem diferenças com a posição do partido predominante. Junto a isso, a proposta da discussão democrática desde as bases sobre os objetivos e mecanismos da planificação econômica era uma ferramenta fundamental para a construção consciente do socialismo durante a transição do atrasado capitalismo russo para um socialismo futuro, que não era um fim em si mesmo, mas sim uma primeira fase do comunismo: sociedade sem Estado, sem classes e sem opressões.

A modo de conclusão

Percorremos sumariamente alguns pontos importantes do pensamento teórico e político de León Trotsky. Para concluir estas linhas, o central que gostaria de destacar é que muitos de seus aportes surgem de uma atitude de abertura ao novo, de busca pela compreensão das tendências gerais da época e, ao mesmo tempo, da originalidade das situações específicas nela contidas; da vontade de se basear na experiência prática da luta de classes e, ao mesmo tempo, construir sólidas hipóteses e explicações teóricas.

Trotsky foi um dos marxistas mais originais do século XX e nos oferece ferramentas para tentar pensar o século XXI. Sua obra segue tendo um final aberto.

Bibliografia

  • Albamonte, Emilio e Maiello, Matías, Estratégia socialista e arte militar, Bs. As., Ediciones IPS, 2017.

  • Brossat, Alain, Nos Origens da Revolução Permanente. O pensamento político do jovem Trotsky, Madrid, Siglo XXI, 1976.

  • Dal Maso, Juan, Hegemonia e luta de classes. Três ensaios sobre Trotsky, Gramsci e o marxismo (2ª edição), Bs. As., Ediciones IPS, 2025.

  • Trotsky, León e outros autores, 1905, Bs. As., CEIP, 2006.

  • Trotsky, León, Para onde vai a Inglaterra?, disponível em www.ceipleontrotsky.org.

  • Trotsky, León, Como se armou a revolução. Escritos Militares de León Trotsky (seleção), Bs. As., Ediciones IPS-CEIP, 2006.

  • Trotsky, León, O Novo Curso, disponível em www.ceipleontrotsky.org.

  • Trotsky, León, História da Revolução Russa, Tomo I e Tomo II, Bs. As., Ediciones IPS-CEIP, 2017.

  • Trotsky, León, A Revolução Traída e outros escritos, Bs. As., Ediciones IPS-CEIP, 2014.

  • Trotsky, León, Os primeiros 5 anos da Internacional Comunista, Bs. As., Ediciones IPS-CEIP, 2016.

  • Trotsky, León, Natureza e dinâmica do capitalismo e da economia de transição, Bs. As., CEIP, 1999.

  • Trotsky, León, Nossas tarefas políticas, disponível em www.marxists.org.

  • Trotsky, León, Stalin, o grande organizador de derrotas, Bs. As., Ediciones IPS-CEIP, 2012.

  • Trotsky, León, A teoria da revolução permanente (Compilação), Bs. As., CEIP, 2005.

Notas de rodapé

[1] Recordemos sempre que a Comuna de Paris utilizou o sufrágio universal (com predominância de composição operária), enquanto na Revolução Russa se utilizou o sufrágio restringindo o direito de voto das classes exploradoras.

[2] Não nos detivemos no Programa de Transição, por ser um tema mais frequentemente abordado nos resgates de Trotsky.

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