Quais os objetivos de Trump e Rubio em Cuba?
Trump havia sonhado, e na quarta-feira isso se tornou realidade: o ex-presidente cubano Raúl Castro foi acusado pelo governo federal. Ele é acusado de “assassinar norte-americanos”. Enquanto isso, na ilha não se encontra nem uma gota de gasolina devido às sanções dos Estados Unidos. Isso não impediu que as autoridades recebessem o diretor da CIA em Havana, apesar de ele ter chegado para reiterar as ameaças dos EUA contra a ilha.
Na Casa Branca, costuma-se reciclar roteiros já utilizados para a segunda temporada da série “O Império Contra-Ataca na América Latina”. Agora, como já vinha sendo anunciado há meses, Cuba está no ponto de mira. Inicialmente, a ilha ocupava o terceiro lugar na lista de objetivos norte-americanos após a intervenção contra a Venezuela em janeiro e a guerra contra o Irã, iniciada em fevereiro. Recentemente, Marco Rubio, secretário de Estado e assessor de Segurança Nacional de Trump, colocou Havana no topo de suas prioridades.
Raúl Castro, acusado de conspiração e quádruplo homicídio
Sem mais legitimidade do que considerar a ilha uma “ameaça excepcional” para a segurança dos EUA, Trump precisava de uma “base legal” para justificar uma possível intervenção contra Cuba. De forma semelhante ao caso fabricado contra Nicolás Maduro, acusado de dirigir uma rede internacional de narcotráfico — o “Cartel dos Sóis”, que só existia na imaginação dos falcões republicanos —, o sistema judicial federal norte-americano vinha trabalhando há semanas em um plano similar para encontrar acusações contra figuras destacadas do governo cubano. Finalmente, na quarta-feira, 20 de maio, emitiu sua decisão: não foram apresentados cargos por enriquecimento de urânio, nem por posse de armas biológicas perigosas, nem por facilitar imigração em massa para a fronteira sul dos EUA, nem por participar do tráfico de fentanil para menores norte-americanos.
Em uma coletiva de imprensa realizada na Freedom Tower de Miami, o procurador-geral interino Todd Blanche acusou formalmente Raúl Castro, de 94 anos, de “conspiração” e quádruplo homicídio em relação a um caso que remonta a 1996. Sem sutileza alguma, Blanche afirmou: “Esta acusação não é uma farsa. Foi emitida uma ordem de prisão contra ele. Portanto, esperamos que compareça aqui voluntariamente ou não, e que seja encarcerado”.
Trinta sombras de anticastrismo
No centro da acusação está um caso de trinta anos atrás. Segundo o sistema judicial norte-americano, em 24 de fevereiro de 1996, três cidadãos norte-americanos e um cidadão cubano residentes na Flórida, membros da ONG Hermanos al Rescate, teriam sido assassinados a sangue frio a bordo de duas avionetas Cessna por caças cubanos. Raúl Castro, então Ministro da Defesa, estaria implicado junto com outros cinco funcionários cubanos. Independentemente das controvérsias sobre a localização exata onde as avionetas foram derrubadas (sobre águas internacionais, no Estreito da Flórida ou no espaço aéreo cubano), a realidade do caso é diferente.
Hermanos al Rescate foi uma das numerosas organizações anticastristas sediadas na Flórida, beneficiadas pelo apoio tácito das administrações norte-americanas. Sob o pretexto de “solidariedade” ou “apoio à democracia e liberdade”, defendiam o derrubamento das autoridades cubanas e, em alguns casos, estiveram por trás de ataques contra a ilha. Entre 1994 e 1996, as autoridades cubanas solicitaram reiteradamente à administração Clinton que pusesse fim às atividades dessa ONG, mas Washington não tomou nenhuma medida. Em 24 de fevereiro de 1996, diante de mais uma operação dos Hermanos, e após disparar um tiro de advertência contra as avionetas que, segundo Havana, haviam entrado em seu espaço aéreo sem autorização, dois caças MiG cubanos derrubaram duas das três avionetas Cessna pilotadas pelos mercenários anticastristas. Isso bastou para catapultá-los ao panteão dos “combatentes pela liberdade” norte-americanos.
Segundo roteiro: Lester Mallory, 1960
O 20 de maio ficará marcado no calendário trumpista como um “dia muito importante”, segundo o presidente. Obcecado em se tornar, antes de 4 de julho (250º aniversário da independência dos EUA), o quase messias que poderá “recuperar Cuba” onde todos os seus predecessores fracassaram, a data não foi escolhida ao acaso. De fato, nos anais do anticastrismo fervoroso, registra-se como “Dia da Independência de Cuba”, 20 de maio de 1902: quando, após quatrocentos anos de colonização espanhola e duas guerras de libertação, as autoridades militares de ocupação norte-americanas entregaram o poder ao primeiro governo soberano da ilha — sob submissão a Washington, até 1959.
Trump, no entanto, apressou-se em esclarecer que, apesar da acusação contra Castro, “não haverá escalada. Não creio que seja necessária. Este lugar [Cuba] está se desmoronando”. Este é outro roteiro, de sessenta e seis anos de idade, que Trump repete. Em abril de 1960, pouco mais de um ano após a queda do ditador pró-EUA Fulgencio Batista, o subsecretário de Estado Lester Mallory redigiu um memorando, posteriormente desclassificado, para a Casa Branca. Nele, Mallory escreveu: “Não existe uma oposição política efetiva... a única forma previsível de alienar o apoio interno é fomentar o desencanto e o descontentamento baseados na insatisfação e nas dificuldades econômicas... privando Cuba de dinheiro e suprimentos, para reduzir salários, provocar fome, desespero e o derrubamento do governo”. Arruinar um país para levar sua população ao limite: este é o mantra norte-americano para Cuba. Trump o adotou, somando dois decretos presidenciais, assinados no fim de janeiro e início de maio, para estrangular por completo a economia, privando o país de acesso ao combustível e condenando a população à fome.
Não resta nem uma gota de gasolina, mas sobram ameaças
A situação na ilha já era catastrófica há vários meses. Para os cubanos, agora é absolutamente desesperadora. As ações mais básicas, como conservar alimentos na geladeira, cozinhar, carregar um telefone ou abrir uma torneira, estão simplesmente proibidas devido ao estrangulamento energético imposto pelos EUA. Assim reconheceu em 13 de maio o Ministro de Energia e Minas, Vicente de la O Levy, que afirmou não restarem produtos refinados do último carregamento de petróleo que chegou em 31 de março a bordo do Anatoly Kolodkin, o único petroleiro autorizado por Washington a descarregar desde janeiro. A rede elétrica agora se alimenta apenas dos parques fotovoltaicos, que cobrem cerca de 10% das necessidades da ilha, e de alguns sistemas termoelétricos que produzem eletricidade exclusivamente a partir de petróleo local, extraído em quantidades muito pequenas.
Em 13 de maio, a administração Trump anunciou sua disposição de entregar 100 milhões de dólares em ajuda humanitária de emergência, desde que fosse transportada e distribuída pela Igreja Católica ou outras instituições religiosas. Isso representou um desdém ao governo cubano, que, por meio do presidente Miguel Díaz-Canel, respondeu que seria mais eficaz suspender as sanções e o embargo se Washington realmente pretendesse aliviar o sofrimento da população. Por outro lado, antes da acusação contra Castro, Marco Rubio publicou uma mensagem em vídeo, em espanhol, dirigida à população da ilha. Embora destacasse superficialmente as inconsistências e a gestão errática dos recursos nacionais cubanos por parte do conglomerado GAESA, controlado pelas Forças Armadas Revolucionárias e por uma parte significativa da economia da ilha, a mensagem de Rubio prometia aos cubanos uma nova relação entre “os dois povos e os dois países”. “A razão pela qual vocês são obrigados a sobreviver vinte e duas horas por dia sem eletricidade não se deve a um bloqueio de petróleo imposto pelos Estados Unidos”, afirmou com seriedade, antes de continuar: “A verdadeira razão pela qual vocês não têm eletricidade, nem combustível, nem alimentos é que aqueles que controlam seu país desviaram bilhões de dólares, mas nada foi utilizado para ajudar o povo”. Para não deixar dúvidas sobre o significado de seu discurso, Rubio concluiu enfatizando que “o único obstáculo no caminho de um futuro melhor para Cuba são aqueles que controlam seu país”.
Desdobramento militar, fase 1
Trump, Rubio e Pete Hegseth, o Secretário de Guerra, não são estranhos às declarações agressivas contra Havana. No entanto, o efeito acumulado de seus pronunciamentos e das sanções impostas nas últimas semanas (incluindo novas medidas contra funcionários do governo cubano anunciadas na segunda-feira, 18) está estreitando o cerco sobre Cuba. Enquanto isso, os voos de reconhecimento norte-americanos ao redor da ilha aumentaram nos últimos dias, e o USS Nimitz, um dos principais porta-aviões da Marinha dos EUA, e seu esquadrão posicionaram-se ao sul da costa cubana. Segundo fontes militares norte-americanas, esta é “apenas” uma fase inicial do desdobramento, já que uma operação militar exigiria uma concentração muito maior de recursos logísticos e tropas. O certo é que a ameaça está se tornando mais concreta.
A CIA em Havana: a armadilha e a paradoxa da negociação
Nesse contexto preocupante, por mais paradoxal que pareça, as autoridades cubanas continuam as negociações com a administração Trump, que exige sua rendição total. Havana chegou a receber, na quinta-feira, 14 de maio, uma delegação norte-americana liderada pelo diretor da CIA, John Ratcliffe. Ratcliffe, confidente de confiança de Trump, junto com o chefe do Comando Sul — que coordena a presença militar na América do Sul e no Caribe — foi um dos artífices da Operação “Determinação Absoluta” contra Caracas em janeiro. Raúl Rodríguez Castro, neto e sobrinho-neto de Raúl e Fidel Castro respectivamente, que não ocupa nenhum cargo oficial no governo, também participou das conversas. Apesar do sigilo que envolve essas negociações, a presença de Rodríguez Castro, vinculado ao conglomerado GAESA, sugere que uma facção da burocracia cubana poderia estar buscando negociar seu lugar na mudança institucional da ilha, ao mesmo tempo em que assegura sua posição em um sistema econômico que eliminaria os últimos vestígios da economia socializada e nacional derivada da Revolução de 1959. Este é precisamente o ponto que a administração norte-americana vem perseguindo há mais de seis décadas. Mas a composição da equipe negociadora cubana é uma linha vermelha para a diáspora cubano-americana anticastrista na Flórida, da qual Trump se vangloria de ter obtido 97% dos votos nas eleições presidenciais de 2024. Entre Miami e Palm Beach, ninguém quer ouvir falar em negociar com o que a imprensa norte-americana denomina “o clã Castro”.
As fragilidades das posições cubanas e nossa solidariedade
Segundo William LeoGrande, destacado especialista nas relações entre Estados Unidos e Cuba e membro do Partido Democrata, a visita de Ratcliffe é “extraordinária, dado o nível de hostilidade sem precedentes que a administração Trump tem mostrado em relação a Cuba”. Até agora, sob administrações anteriores (com exceção do primeiro mandato de Trump), “a estratégia nas negociações consistia em oferecer algumas concessões [‘cenouras’, no texto original] a Havana (...). A estratégia de Trump é pressionar os cubanos até que finalmente cedam às exigências do Tio Sam”.
Díaz-Canel denunciou a acusação contra Castro como um ato de ingerência e advertiu sobre o risco de derramamento de sangue caso Washington cumprisse suas ameaças de intervenção. Para demonstrar publicamente sua firme decisão de não ceder, as autoridades cubanas provavelmente vazaram informações sobre a aquisição de 300 drones da Rússia e do Irã. Bruno Rodríguez Parrilla, ministro das Relações Exteriores de Cuba, reiterou as exigências de Cuba de condenar o bloqueio e as sanções na cúpula dos BRICS em Nova Délhi, à qual Cuba havia sido convidada.
No entanto, manter um canal de diálogo com Washington, os sucessivos reveses registrados nos últimos meses em matéria de reformas de mercado e, finalmente, a recepção em Havana de uma figura tão sinistra quanto Ratcliffe — dado o papel da CIA nas operações encobertas na América Latina durante os últimos oitenta anos — minam seriamente a possibilidade de vislumbrar uma resistência necessária e viável às ameaças de Trump. Pelo contrário, esse diálogo, que é diálogo apenas de nome, fortalece a posição do imperialismo norte-americano e corrói ainda mais a moral da população da ilha, onde a ira contra o governo é palpável, mas que, independentemente do que pense Trump, dificilmente está predisposta a receber de braços abertos uma operação de ingerência ou uma intervenção militar. Nesse sentido, e como se faz, por exemplo, na Argentina e em outros países, diante da situação de graves ameaças contra Cuba, as organizações políticas e sindicais, incluindo aquelas que representam os trabalhadores e a juventude, deveriam impulsionar um frente unido em solidariedade à população da ilha e em oposição às ameaças dos Estados Unidos e à cumplicidade ou passividade que até agora caracterizou a atitude dos governos europeus. Em Cuba, o tempo está se esgotando.