Capa: Trégua em Pequim, rebelião em La Paz: crise de hegemonia e luta de classes

Trégua em Pequim, rebelião em La Paz: crise de hegemonia e luta de classes

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Trump chegou a Pequim enfraquecido, carregando duas guerras perdidas e necessitado de mostrar resultados. Xi Jinping, por sua vez, também precisava de fôlego para administrar problemas internos. A distensão que deixou a cúpula não resolve a disputa estrutural entre Washington e Pequim: apenas a administra. Enquanto isso, a América Latina, um dos terrenos centrais dessa disputa, encontra-se atravessada pelo levante popular na Bolívia.

Trump passa por Pequim carregando duas guerras perdidas

Na semana passada, Trump chegou à cúpula de Pequim enfraquecido e carregando o peso de duas guerras perdidas. A guerra contra o Irã, da qual ainda não sabe como sair, e a guerra de tarifas com a China, na qual teve de recuar no ano passado quando Pequim restringiu a exportação de terras raras — vitais para a indústria norte-americana, desde sistemas de defesa, aviões e eletrônica avançada. A isso se somaram os reveses judiciais sobre os tarifas, que deixaram parte de sua política comercial em suspenso. Trump pensou que tinha uma sequência de vitórias em janeiro, com o sequestro de Maduro, e Netanyahu o convenceu de que terminar com o regime iraniano estava ao alcance da mão. O plano não funcionou. O economista Paul Krugman o definiu como um presidente fracassado e debilitado, e afirmou que as políticas de protecionismo comercial que supostamente iriam incentivar a produção norte-americana estão fracassando por completo: só conseguiram perder aliados.

Um dos grandes objetivos de Trump na cúpula com Xi Jinping era voltar a Washington com acordos comerciais que pudesse apresentar como vitória. Mas, além da pompa do encontro, não houve grandes anúncios sobre nenhum dos pontos críticos que atravessam as tensões entre as duas potências. Pouco sobre a guerra tarifária, que segue em impasse em boa medida porque a China jogou a carta de seu peso no comércio mundial de terras raras, essenciais para toda a indústria de alta tecnologia, incluindo a militar. Pouco sobre a guerra no Irã, onde a China acaba de ignorar as sanções impostas a cinco refinarias chinesas por comprar petróleo iraniano e agora parece que Trump acabaria levantando essas sanções. Pouco sobre Taiwan, que é o eixo potencial de conflito militar entre os EUA e a China.

Para marcar posição, Xi Jinping fez referência novamente à chamada “armadilha de Tucídides”, formulada há alguns anos pelo teórico das relações internacionais Graham Allison, segundo a qual a ascensão de Atenas teria assustado Esparta e os levado à guerra; o paralelo seria agora entre uma China em ascensão e os Estados Unidos como potência hegemônica em declínio. Xi se encarregou de remarcar a Trump que essa “armadilha” pode ser evitada a condição de “gerir bem” a disputa em torno de Taiwan, que é uma linha vermelha para Pequim. Os Estados Unidos vêm impulsionando há décadas a militarização da ilha, enquanto a China defende seus planos de anexação.

Em uma entrevista à Fox News gravada pouco antes de deixar a capital chinesa, e falando com jornalistas no Air Force One, Trump fez uma série de comentários sobre Taiwan nos quais sugeriu que o compromisso de 44 anos dos Estados Unidos — vigente desde 1982 sob Reagan — de não negociar com a China sobre a venda de armas a Taiwan estava “desatualizado”. Disse que havia discutido “em grande detalhe” com Xi sobre o pacote de armas de 13 bilhões de dólares para Taipé já aprovado pelo Congresso, e que o via como uma moeda útil de troca.

O “giro para a Ásia” — ou seja, para a disputa com a China como eixo da política norte-americana — começou há anos com Barack Obama. Trump, quando iniciou sua primeira presidência, colocou essa disputa no centro. No entanto, a série de fracassos acumulados faz com que seja agora o próprio Trump quem esteja interessado em algum tipo de distensão. Esse cenário de relativo impasse tem como pano de fundo o desgaste crescente de Trump e o interesse de Xi Jinping em manter certa estabilidade do mercado mundial, incluindo os preços da energia e a demanda comercial ocidental.

A outra face do avanço do gigante chinês

Francis Fukuyama, o cientista político norte-americano conservador que no início dos anos 90 escreveu o famoso livro O fim da história e o último homem, mostrou-se recentemente “bastante impressionado” com o modelo chinês. Na época, foi a expressão ideológica do triunfalismo capitalista e neoliberal, quando sustentava que o capitalismo de livre mercado mais a democracia liberal haviam triunfado como “forma final” da humanidade; uma visão que começou a matizar com os anos e ainda mais com a chegada de Trump à Casa Branca. Agora destaca que a China construiu um sistema autoritário, mas com elementos de mercado, muito eficaz em aproveitar novas tecnologias, em contraste com uma democracia norte-americana em declínio e menos atraente como modelo. Que esse ideólogo do conservadorismo liberal elogie o modelo chinês é outra expressão — em um plano cultural e ideológico — da crise de hegemonia norte-americana. Outra questão é se a China pode construir um “soft power” comparável ao que os EUA desenvolveram desde o pós-guerra: seu regime de partido único e altamente repressivo não ajuda, embora isso não impeça que muitos intelectuais progressistas comprem o modelo chinês.

Mas a China enfrenta seus próprios fantasmas, pelos quais também convinha a Xi a distensão. Sobre esses problemas se fala muito menos. Como assinalava André Barbieri na entrevista para a última edição da Red Internacional, na corrida tecnológica a China multiplicou o financiamento para desenvolver alta tecnologia própria frente às restrições dos EUA — com gastos exorbitantes projetados no 15º plano quinquenal até 2030 em semicondutores, biomanufatura, setor aeroespacial, robótica e inteligência artificial —, mas ainda depende dos Estados Unidos e da Europa em chips de alta performance. Por isso Jensen Huang, da Nvidia, esteve na cúpula de Pequim, para vender chips H200 à Alibaba, Tencent e ByteDance. A isso se somam dificuldades internas consideráveis como a desaceleração econômica, a crise imobiliária, a deflação e o alto desemprego juvenil. No plano estratégico-militar, o desenvolvimento técnico militar da China coexiste com uma profunda crise na direção militar. A destituição de Jan Yoshi — general muito próximo de Xi e único membro da Comissão Militar Central com experiência de combate — foi o ponto alto de uma purga que já levou mais de 4.000 militares e 100 oficiais de alto escalão desde 2012.

Certas análises apontam, com razão, para as debilidades de Trump, mas ao mesmo tempo embelezam a política externa da China. Diz-se que se trata de uma potência pacífica, sem pretensões guerreiras. Os exercícios militares que vêm se desenvolvendo nos últimos anos sobre o estreito de Taiwan indicam outra coisa, ainda que por ora sejam preparatórios. Em um recente podcast da Novara Media afirmava-se que o capitalismo ocidental surge do colonialismo, enquanto o capitalismo chinês nunca teve colônias e por isso sua política externa seria pacifista e benévola. No entanto, a China transformou-se em poucos anos na segunda maior economia capitalista do mundo, com o segundo maior orçamento militar do planeta. Nos últimos anos deixou de ser apenas receptora de capital e oficina de mão de obra barata, para competir por nichos de acumulação de capital em escala global. Com um modelo fortemente extrativista, os capitais chineses estão se apropriando de empresas energéticas, minas, portos e outras infraestruturas-chave em países da Ásia, América Latina e África.

No plano interno, o Estado mantém uma forte repressão em locais de trabalho e estudo para sustentar essas vantagens comparativas de mão de obra barata. Isso explica, em boa parte, por que a China continua sendo um espaço tão atraente para os capitalistas, como os que viajaram com Trump a Pequim. Sobre a classe trabalhadora, o quadro desmente as visões idílicas. Como assinalava Barbieri na entrevista citada: “o poderio chinês está baseado na sobreexploração do trabalho e na repressão das lutas sociais”, com uma média de 49 horas semanais em 2025 — a maior desde 2005 — e o extenuante sistema 996 ainda habitual; mesmo assim, “o descontentamento social é muito grande na juventude trabalhadora e as greves tiveram um repique a partir de 2023”, com um aumento de 50% nos protestos no ano passado — e o surgimento de fenômenos como o tang ping (“deitar-se”) e o bailan (“deixar-se apodrecer”) — sinais de que “a greve volta a ser um meio legítimo na consciência popular”.

Essa fotografia interna ajuda a entender por que também convém a Xi certa distensão.

Distensão tática e luta estratégica: o capítulo latino-americano

Como entender então, em conjunto, o que aconteceu em Pequim? O mais preciso é lê-lo como uma pausa tática em uma luta estratégica de longo prazo. As condições que fazem essa relação ser estruturalmente antagônica seguem intactas. A disputa entre a China, uma potência capitalista com claros traços imperialistas, e o imperialismo norte-americano é estratégica. Há uma situação estrutural que diz respeito ao próprio funcionamento do capitalismo e ao papel dos Estados nacionais, que leva ambas as grandes potências ao enfrentamento, para além inclusive dos motivos pontuais esgrimidos por cada parte. Nesse marco, a cúpula de Pequim, ainda sem ter tido muitos resultados concretos, mostrou elementos de distensão entre ambas as potências. Ora, se Trump passou do enfrentamento aberto com a China que caracterizou a primeira parte de sua presidência à atitude dialoguista que mostrou na cúpula da semana passada é porque teve de recuar na guerra de tarifas contra a China; porque foi incapaz de “terminar em 24 horas” com a guerra na Ucrânia como havia prometido (de fato a guerra escala enquanto Putin faz sua própria visita nestes dias a Pequim); porque foi derrotado no Irã e está atolado no Estreito de Ormuz, com uma guerra impopular nos EUA, com uma inflação em alta, e com um desgaste interno que pode fazer com que perca inclusive o controle do Senado nas eleições de meio termo.

Um dos terrenos onde a disputa estratégica entre Washington e Pequim segue absolutamente aberta é a América Latina. Os Estados Unidos vêm tentando afirmar seu domínio depois de duas décadas em que a China avançou decisivamente: ganhou terreno como principal parceiro comercial da região, apropriou-se de empresas energéticas, mineradoras, portuárias e de infraestrutura-chave. Trump desenterrou desde o ano passado a Doutrina Monroe para reclamar a América Latina como “quintal” e disputar muito mais ativamente essa influência com Pequim. Essa ofensiva tem várias faces. Uma é a pressão direta sobre os processos políticos: o sequestro de Maduro no início do ano e o projeto neocolonial sobre a Venezuela; a manutenção e aprofundamento do bloqueio criminoso a Cuba, que continua sendo um dos instrumentos mais duros do intervencionismo norte-americano contra os povos da região; o apoio aberto aos governos de direita e ultradireita da região, desde Kast no Chile até Milei na Argentina, passando por Paz na Bolívia, entre outros.

Agora, esse avanço não se produz sem consequências. No Chile, após o fracasso do governo de Boric que desviou a revolta de 2019, o atual governo de Kast, que assumiu há apenas dois meses, já enfrenta uma recomposição do movimento estudantil com marchas importantes contra o “bencinazo” e os cortes na educação, em paralelo com uma queda acelerada da imagem do governo. Na Argentina, o governo de Milei está em queda livre com níveis de desaprovação que rondam os 65% e, diante do papel do peronismo que foi chave para que os ataques pudessem avançar — incluindo a burocracia da CGT, altamente desprestigiada — desenvolve-se um significativo fenômeno de simpatia política em torno de Myriam Bregman e da esquerda, que é uma expressão das conclusões que setores amplos da classe trabalhadora, da juventude, do movimento feminista, assim como setores da cultura e intelectuais, vêm tirando desses dois anos de luta contra esse governo. Hoje o ponto mais explosivo está na Bolívia.

Bolívia no olho do furacão

O avanço de Washington e dos governos ultradireitistas encontra resistência como vemos hoje na rebelião operária, camponesa e popular na Bolívia contra o “paquetazo” de Rodrigo Paz. O alinhamento do governo de Paz com os EUA e com a ultradireita regional é explícito, como se viu em seu apoio à ofensiva militar contra a Venezuela, ao sequestro de Maduro, ou na ajuda por parte do governo de Milei para enfrentar os bloqueios enviando dois aviões Hércules para estabelecer uma ponte entre as regiões Oriente e Ocidente do país.

Como assinalava Nathanael Hastie, dirigente da Liga Operária Revolucionária da Bolívia, em uma recente entrevista à LID+, o pano de fundo do conflito vem desde dezembro, quando o governo lançou o “paquetazo” que, com um único decreto presidencial, duplicava o preço dos combustíveis, abria as portas à flexibilização trabalhista e à entrega acelerada de recursos naturais às transnacionais, entre outras medidas. A isso se somou a Lei 1720, a lei de conversão da pequena propriedade em média propriedade que busca favorecer, através do endividamento, a concentração da terra. Enquanto isso, a Bolívia se endivida aceleradamente com o FMI e o BID e replica a agenda do Consenso de Washington de privatizações, cortes em saúde e educação. Tudo isso se inscreve na disputa entre potências na região, depois de anos de maior peso do bloco dos BRICS na Bolívia.

A repressão policial e militar durante o último fim de semana assassinou quatro pessoas, o que disparou a indignação. Nesta segunda-feira, 18/5, uma marcha multitudinária desceu de El Alto a La Paz, milhares de manifestantes enfrentaram a dura repressão no centro de La Paz, quando tentavam chegar até a Plaza Murillo. Acenderam fogueiras e ergueram barricadas diante do avanço de policiais e militares. Houve dezenas de feridos e foram detidas ao menos 127 pessoas, muitas das quais foram presas diretamente em seus domicílios. Enfrentamentos e bloqueios no centro e mais de 50 pontos de bloqueio a nível nacional.

A consigna que condensou o movimento é “Fora Paz”. Parte da própria base eleitoral de Paz — que o havia votado no segundo turno como medida defensiva contra a velha direita de Quiroga — está hoje nas ruas enfrentando o ajuste que pensava ter detido nas urnas. A mobilização combina trabalhadores mineiros, fabris, professores urbanos e rurais, trabalhadores de limpeza urbana, estudantes, juntas de bairro, marchas camponesas e indígenas. Como assinala a declaração da Liga Operária Revolucionária da Bolívia — parte da Corrente Revolução Permanente — uma questão central é a necessidade de impulsionar assembleias abertas que incorporem os sindicatos, as comunidades, o bairro, rompendo com as diferentes burocracias sempre dispostas a pactuar com o governo, e assim avançar em impor o “Fora Paz” (Fora Paz! Greve geral indefinida e bloqueio de estradas até que caia o governo dos empresários e do FMI).

As fissuras de uma crise de hegemonia

O que deixou a cúpula de Pequim não é um novo equilíbrio, mas a confirmação de que nenhuma das duas potências pode, neste momento, levar o conflito ao limite. Trump precisa de oxigênio diante do desgaste de suas guerras perdidas; Xi precisa de tempo. Mas a disputa estratégica de fundo — tecnológica, militar, monetária e geopolítica — segue intacta. A América Latina é um dos terrenos onde ela se trava. A tentativa de Washington de reafirmar seu “quintal” no sul do continente, através dos governos de Kast, Milei e Paz, encontra, no entanto, seus limites. A rebelião na Bolívia mostra que a ofensiva ultradireitista não avança sem resistência. A crise de hegemonia norte-americana não tem substituto à vista, nem no modelo chinês que agora impressiona Fukuyama, nem nas democracias liberais em declínio, mas abre cenários onde a luta de classes volta a colocar sobre a mesa a pergunta por uma saída desde o próprio movimento de massas.