Revista Casa Marx

Trotsky, em seu século e no nosso

Juan Dal Maso

Este artigo compõe o especial do Instituto Casa Marx em homenagem ao Leon Trótski, a 85 anos do seu assassinato

Um expoente particular do marxismo russo

Lev Davidovich Bronstein, mais conhecido como Leon Trotsky, nasceu em Ianovka (Ucrânia) em 7 de novembro de 1879 e morreu no México em 21 de agosto de 1940 (havia sido atacado no dia anterior por um sicário de Stálin). Entre essas duas datas viveu uma vida intensa, estreitamente ligada a alguns dos principais eventos do século XX e a uma reflexão constante sobre os problemas da luta de classes, da teoria marxista, mas também da literatura e da arte.

Com uma militância inicial no populismo, acabou se convencendo das ideias marxistas na prisão de Odessa, nos últimos anos do século XIX (havia sido detido em 1898), lendo o filósofo italiano Antonio Labriola 1 . A leitura de Labriola não era algo extravagante no marxismo russo (Plekhánov havia comentado seus ensaios sobre materialismo histórico). Mas não era tão comum que se atribuísse a Labriola a centralidade que Trotsky lhe conferiu ao reconhecê-lo como a fonte que o convenceu definitivamente das ideias que defenderia por toda a vida. Labriola havia proposto uma interpretação ou sistematização do materialismo histórico em termos de “filosofia da práxis”, combinando o conhecimento da filosofia hegeliana com a rejeição do positivismo vulgar que, na Itália, confundia Marx com Spencer. Temas que o marxismo daquele momento tratava com certa rudeza, como a relação entre estrutura e superestrutura ou a relação do marxismo com as ciências e a filosofia, eram abordados por Labriola com precisão, sensatez e conhecimento dos problemas, oferecendo uma leitura do marxismo que afirmava sua independência da ideologia burguesa. Ao mesmo tempo, oferecia ferramentas para estudar os processos históricos com um “método genético” que buscava elucidar o processo de conformação e funcionamento da sociedade capitalista, mediante um procedimento de “análise e composição” 2 , e apontava para a compreensão de sua singularidade. Todas essas características seriam depois compartilhadas e desenvolvidas pelo marxismo de Trotsky.

O marxismo russo havia se constituído nas últimas décadas do século XIX em luta contra as ideias populistas, que propunham um desenvolvimento socialista baseado na comuna camponesa sem passar pelo capitalismo. Embora Marx tivesse considerado possível a hipótese dos populistas sob certas condições e embora o tema tivesse sido longamente (e por vezes asperamente) discutido entre Engels e o intelectual populista-marxista Danielson 3 , os avanços do capitalismo russo na decomposição da comuna camponesa convenceram um grupo de marxistas, entre os quais se destacava Plekhánov, de que esse processo era inevitável. Por isso, consideravam que a aposta política dos populistas era equivocada em seus fundamentos.

Muitos anos depois, Trotsky assinalaria em sua História da Revolução Russa que, ao se concentrar nessa ideia da necessidade do desenvolvimento capitalista, o marxismo russo havia gerado uma concepção de avanço por etapas que condicionou seriamente o tratamento do problema da revolução russa. Isso se aplicava especialmente ao caso da corrente “menchevique”, que postulava uma revolução democrático-burguesa que instauraria uma democracia constitucional e realizaria a partilha agrária, dirigida pela burguesia, deixando a luta pelo poder operário e o socialismo para uma segunda etapa de ocorrência indeterminada.

No entanto, antes da consolidação dessa corrente reformista, o marxismo russo abordou ou tentou abordar a especificidade da revolução em torno da questão da hegemonia, isto é, da luta do proletariado para conquistar a direção das massas camponesas e combater em comum contra o czarismo, de maneira independente em relação à burguesia liberal. O problema da “revolução em permanência” ou “revolução permanente” (que tinha uma longa história no marxismo, mas também na política revolucionária dos séculos XVIII e XIX e que, no caso da Rússia, havia sido tratado por Riazanov em 1903) era outro dos tópicos do debate, sobre o qual Trotsky desenvolveria a primeira formulação de sua teoria da revolução permanente em 1905 (antecipada já em Antes de 9 de janeiro, escrito no final de 1904).

Durante a Revolução de 1905, Trotsky teve uma participação ativa como vice-presidente do soviete de São Petersburgo. A revolução havia seguido uma dinâmica de ascenso da luta da classe operária como eixo do processo desde o massacre de 9 de janeiro, o posterior desenvolvimento dos sovietes (organizações assembleares que surgiam nas fábricas, se organizavam em nível regional com um sistema de “delegados operários” e assumiam funções econômicas, políticas e até de ordem pública) em diferentes partes do Império Russo, as greves gerais de outubro e novembro e a greve geral e a insurreição de dezembro. Assim como os demais dirigentes do soviete, Trotsky foi detido, levado a julgamento e condenado à reclusão em prisões e povoados afastados das zonas periféricas do Império; condenação da qual se libertou fugindo, para partir rumo à Europa Ocidental.

As origens da teoria da revolução permanente

Dessa primeira Revolução russa, Trotsky tirou várias conclusões decisivas para dar início à formulação de sua teoria da revolução permanente. O papel desempenhado pelo proletariado das cidades organizado em sovietes havia mostrado que, na Revolução russa, a cidade teria hegemonia sobre o campo e o proletariado seria a classe hegemônica nas cidades. Isso reforçava a ideia de que a revolução nesse país tinha como tarefas iniciais a questão agrária e a destruição da autocracia, mas não podia se limitar a esses objetivos imediatos. Sendo a classe operária a única capaz de encabeçar a luta por essas mudanças – contra a burguesia liberal que não ousava enfrentar o czarismo – o processo a obrigaria a tomar o poder apoiando-se no campesinato. Uma vez no poder, diante da resistência da contrarrevolução em geral e da burguesia em particular, ver-se-ia obrigada a tomar medidas que garantissem o funcionamento da economia (como a administração operária das fábricas contra os lockouts), o que implicava numa transformação da revolução “democrático-burguesa” em socialista.

Naqueles anos, Trotsky tinha importantes diferenças com Lenin a respeito dos problemas de organização política e também sobre as formulações teóricas relativas ao desenvolvimento da revolução russa. Em 1904 havia publicado Nossas tarefas políticas, texto que se opunha ponto por ponto a O que fazer?, e no qual acusava Lenin de querer se erguer como ditador por cima de um Comitê Central que, por sua vez, se impunha sobre a base do partido e que, de cima para baixo, se impunha ao movimento de massas. Questionava também a ideia de fazer política sobre todas as classes da sociedade oprimidas pelo czarismo, assim como o papel dos intelectuais. Enquanto Lenin defendia a necessidade de uma organização centralizada e preparada para a luta clandestina, Trotsky rejeitava essa proposta, em nome de uma primazia do movimento espontâneo das massas. Essa posição o levaria a tentar manter, por muitos anos, uma posição intermediária entre mencheviques e bolcheviques. Ao mesmo tempo, embora Lenin e Trotsky coincidissem no rechaço ao suposto papel revolucionário da burguesia liberal, mantinham diferenças quanto à dinâmica que a revolução poderia assumir na Rússia. Essas diferenças se sintetizavam em duas fórmulas de governo: a “ditadura democrática de operários e camponeses” (Lenin) e a “ditadura do proletariado apoiado nas massas camponesas” (Trotsky). Embora hoje pareçam fórmulas muito semelhantes, a diferença residia no fato de que Lenin considerava equivocada a posição de Trotsky sobre uma transformação mais ou menos rápida da revolução democrático-burguesa em socialista, além de achar que ele subestimava a importância das tarefas democráticas (por exemplo, a instauração de uma república democrática) para a própria classe operária. Do mesmo modo, Lenin sustentava que a diferença entre mencheviques e bolcheviques não era apenas organizativa, mas fundamentalmente política. A posição bolchevique consistia em que a classe operária deveria hegemonizar o campesinato. A menchevique, ao contrário, defendia aceitar a hegemonia da burguesia liberal sobre as camadas camponesas. Esses debates se expressaram em diversos textos escritos, entre os quais podemos destacar Duas táticas da social-democracia na revolução democrática (1905) e O sentido histórico da luta interna do partido na Rússia (1911), de Lenin, e Resultados e Perspectivas (1906) e 1905 (1909), de Trotsky, como textos paradigmáticos.

Guerra, revolução e bolchevismo

A eclosão da Primeira Guerra Mundial aproximou as posições de Lenin e Trotsky, em primeiro lugar pela defesa do internacionalismo contra a traição da social-democracia alemã (que votou os créditos de guerra) e da social-democracia internacional (que em sua maioria alinhou-se com o imperialismo de seus próprios países beligerantes), e depois pelas perspectivas da revolução, sobretudo a partir da queda do czarismo em fevereiro de 1917 e do retorno de Lenin à Rússia em abril do mesmo ano. As Teses de Abril de Lenin impuseram uma mudança de orientação ao Partido Bolchevique em direção à conquista do poder pelos sovietes (dessa vez muito mais amplos e compostos por operários, camponeses e soldados). A partir desse momento, Trotsky se aproximou muito mais do Partido Bolchevique, e sua organização – chamada Interdistritos – foi incorporada ao partido. Ele assumiu um papel fundamental como agitador e propagandista de suas ideias em toda classe de instâncias. Passou a fazer parte da direção do partido e foi peça-chave na organização do trabalho político-militar que culminou na constituição do Comitê Militar Revolucionário de Petrogrado e na insurreição, para depois fundar e dirigir o Exército Vermelho na guerra contra os brancos e as potências imperialistas, entre outras funções. A partir desse momento, Trotsky considerou que havia alcançado uma confluência estratégica com Lenin, ficando em segundo plano as diferenças teóricas que haviam tido no passado, assim como as divergências políticas de caráter tático.

A Revolução russa deu lugar a uma onda de lutas revolucionárias que sacudiu o mundo colonial, assim como a Europa Ocidental. Nesse contexto fundou-se a III Internacional, à qual voltaremos em breve, enquanto o bolchevismo lutava para se manter no poder na Rússia.

Durante a Guerra Civil, os bolcheviques haviam recorrido ao que se chamou (bem ou mal) de “comunismo de guerra”. O Estado requisava dos camponeses o excedente de sua produção, deixando-lhes apenas o necessário para a subsistência. Foi uma medida tomada pelas exigências políticas e militares, diante da necessidade de colocar em pé e sustentar o Exército Vermelho, sem tempo suficiente para estudar detalhadamente as opções mais vantajosas para articular a economia do campo e da cidade. Se, por um lado, a classe operária russa e os bolcheviques saíram vitoriosos dos três anos de Guerra Civil, por outro, as condições internacionais e nacionais tornaram-se menos favoráveis ao poder soviético. Além da derrota da Revolução húngara em 1919 e da insurreição dos espartaquistas alemães, três fatos muito importantes devem ser destacados nesse sentido:

  • O retrocesso do Exército Vermelho em Varsóvia em 1920, até onde havia encurralado as tropas intervencionistas polonesas. O avanço sobre a capital polonesa estava pensado como um evento que, combinado com o levante dos operários poloneses, deveria dar lugar a uma revolução. Mas os operários poloneses faltaram ao chamado e o Exército Vermelho, vitorioso em derrotar a agressão polonesa, teve de recuar em sua tática ofensiva.

  • A derrota do movimento dos conselhos de fábrica de Turim, na Itália, em 1920, devido à traição da burocracia social-democrata. Esses dois últimos acontecimentos mudaram a correlação de forças no plano internacional. Os elementos reacionários ganharam confiança, a classe operária entrou numa dinâmica mais defensiva e a burguesia europeia começava a mostrar que não pretendia ser surpreendida como a russa. A esses eventos somou-se depois a derrota da chamada “Ação de Março” na Alemanha em 1921, que havia sido uma tentativa de greve geral insurrecional conduzida pelo Partido Comunista, sem adesão suficiente da classe operária.

  • O terceiro fato foi a insurreição de Kronstadt, que mostrou que a situação na própria Rússia apresentava sérias dificuldades. O ano de 1921 começara com graves crises. As fomes no Volga expressavam o empobrecimento do campo, produto da guerra civil. O comunismo de guerra tensionava ao máximo a relação entre os camponeses e o poder soviético, que se negavam a entregar seus excedentes. A insurreição de Kronstadt, aproveitada por elementos contrarrevolucionários mas baseada num descontentamento real, foi o sinal de alarme definitivo para uma mudança de política. A repressão desse levante será o dramático pano de fundo do X Congresso do Partido Bolchevique.

Diante deste panorama, as duas principais resoluções do X Congresso do PC russo foram a Nova Política Econômica (NEP) e a proibição das frações, medida excepcional tomada diante da delicadeza da situação, que depois o stalinismo transformaria em uma norma da nascente burocracia. Abria-se uma nova etapa na situação política da Rússia dos sovietes, mas também no âmbito da III Internacional.

Os quatro primeiros congressos da III Internacional e a revolução na Europa Ocidental

Fundada em 1919 com o impulso da Revolução russa, a III Internacional ou Internacional Comunista (IC) se propôs a estender a revolução em escala mundial. Aqui levaremos especialmente em conta os debates sobre a revolução na Europa, mas a questão nacional e colonial também foi central em suas resoluções e orientações.

Os dois primeiros congressos da Internacional Comunista (1919 e 1920) partiam da ideia de que a guerra havia colocado em crise a democracia burguesa e estabelecido as bases para a luta pela ditadura do proletariado. Nesse marco, a IC propunha a luta pelo desenvolvimento de sovietes e a criação de Partidos Comunistas que se preparassem, em um período relativamente breve, para a luta pelo poder. Essa orientação incluía o trabalho nos sindicatos e o parlamentarismo revolucionário, considerados também nos debates desses congressos como tarefas importantes dos comunistas, dentro de uma leitura das tendências da luta de classes que colocava a possibilidade de uma luta direta pelos objetivos estratégicos da revolução e do poder operário.

No entanto, o tema não era tão simples. Já em abril de 1919, Trotsky caracterizaria a revolução alemã como “uma revolução lenta”, na qual as massas operárias lutavam através de uma série de combates incessantes, enquanto a social-democracia se integrava ao regime burguês, defendendo-o inclusive pela força das armas, como havia mostrado o assassinato de Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht. Nesses combates contínuos e sangrentos, a classe operária iria forjando um partido revolucionário aguerrido, que não existia no início do ascenso de lutas operárias da imediata pós-guerra. Aqui já se colocava um dos temas que voltaria reiteradas vezes nesses anos (e que seria retomado posteriormente por Gramsci): quais eram as características que diferenciavam a revolução na Europa Ocidental da Revolução russa, que implicações tinham para a definição de uma tática (orientação nos combates parciais) e de uma estratégia (utilização desses combates para derrotar o inimigo) por parte do comunismo, e a necessidade de forjar os partidos no fragor do próprio combate, sem uma tradição prévia comparável à do bolchevismo russo.

Após o retrocesso do Exército Vermelho em Varsóvia em 1920, a derrota dos conselhos de fábrica na Itália no mesmo ano e a derrota da chamada “Ação de Março” de 1921 na Alemanha, já mencionada, a Internacional Comunista pôs em marcha a política de Frente Única, em simultâneo com a aplicação da NEP na Rússia.

A política ou tática de Frente Única tinha como antecedente a Carta Aberta (janeiro de 1921), com a qual o partido alemão havia convocado a social-democracia à ação comum em defesa das conquistas mínimas do movimento operário. Essa política havia sido formulada por Paul Levi, que depois seria expulso do partido por indisciplina e posteriormente retornaria à social-democracia.

O III Congresso da IC reuniu-se em Moscou entre 22 de junho e 12 de julho de 1921 e adotou a tática da Frente Única como orientação central. A partir da análise da situação exposta acima, Lenin e Trotsky assinalavam que os comunistas do Ocidente eram uma minoria e não estavam em condições de dirigir as massas operárias em combates decisivos. A tarefa a ser conquistada através da tática da Frente Única era a conquista da maioria. Convocando os operários social-democratas e seus dirigentes à luta comum – em defesa da jornada de 8 horas, do direito de reunião e organização sindical, contra a redução dos salários, entre outras demandas – os comunistas conseguiriam conquistar entre as massas a autoridade que estas ainda não lhes reconheciam, por não conhecer suficientemente o partido.

Essa tática, por sua vez, respondia a uma necessidade objetiva da classe operária em seu conjunto, já que os reformistas promoviam a divisão do movimento operário. Na França, haviam dividido o movimento sindical para combater os comunistas e sindicalistas revolucionários aliados ao comunismo. Na Itália, haviam aumentado as prerrogativas da burocracia sindical, impedindo a democracia interna nos sindicatos e permitindo que o fascismo em ascensão atacasse os sindicatos da indústria, onde os comunistas tinham mais peso. Na Alemanha, os sindicatos controlados pelos social-democratas se colocavam como garantes da estabilidade da ordem burguesa.

Nesse contexto, a Frente Única permitia, ao mesmo tempo, que os comunistas ganhassem influência e que se colocasse a única forma pela qual a classe operária poderia responder com força suficiente à ofensiva dos capitalistas, nas condições concretas da luta de classes da Europa Ocidental no imediato pós-guerra.

Entre 5 de novembro e 5 de dezembro de 1922, reuniu-se em Moscou o IV Congresso da IC, que voltou a ratificar a tática da Frente Única proletária e incorporou a do Governo Operário, como uma derivação dela. A partir de uma política de luta comum entre comunistas e social-democratas, o Governo Operário era uma consigna que permitia colocar o problema do poder da classe trabalhadora como consequência lógica da Frente Única. Não era exatamente a “ditadura do proletariado” que os bolcheviques haviam colocado em prática na Rússia, mas sim um passo nessa direção: um governo dos partidos operários que armasse a classe trabalhadora e desarmasse a reação como primeiras medidas. Para Trotsky, o antecedente histórico dessa política era a experiência da Comuna de Paris, que havia sido ao mesmo tempo um governo da classe operária e uma frente única de todas as suas tendências. Era um caminho para o desenvolvimento da revolução na Europa, levando em conta os elementos que já assinalamos: maior estabilidade do Estado burguês, divisão do movimento operário e peso da social-democracia, caráter ainda minoritário dos comunistas, mas também uma dinâmica de luta de classes que podia permitir que a Frente Única passasse de uma etapa defensiva a outra ofensiva. Nesse contexto, o Governo Operário era também um ponto de apoio para uma luta revolucionária pelo poder, que requeria um Partido Comunista organizado e combativo, capaz de conquistar a direção das massas operárias e populares. Com essa política, os comunistas ingressaram nos governos da Saxônia e da Turíngia junto com a ala esquerda da social-democracia, com a perspectiva de armar o proletariado e preparar a luta pelo poder, embora não tenha sido essa a política seguida pela direção do partido.

Já havíamos mencionado a caracterização de Trotsky da revolução alemã como “uma revolução lenta”. De fato, os debates travados no III e IV Congresso estão atravessados por essa ideia (formulada já por Trotsky em 1919) de que os tempos da revolução na Europa Ocidental seriam mais longos que os da revolução na Rússia. Contudo, essa afirmação se justapõe a outra: de que esses tempos longos não seriam tão longos. De fato, Trotsky enfatiza em vários de seus discursos que o trabalho de preparação para a luta ofensiva, o trabalho de conquista da maioria, poderia levar talvez alguns anos, talvez alguns meses; às vezes falava em dois anos, outras em quatro anos – que eram o tempo durante o qual a Rússia revolucionária teria de resistir à espera da revolução europeia, ao mesmo tempo em que tomava suas próprias medidas internas para se sustentar. A questão da temporalidade da revolução, entretanto, é complexa. Se tomarmos o período entre 1905 e 1917, tampouco a revolução russa foi tão “rápida”, pensada como processo em seu conjunto. Os tempos rápidos e fulminantes foram sobretudo aqueles que se deram entre fevereiro e outubro de 1917, meses em que a velocidade da revolução foi a continuidade da velocidade da guerra.

Relacionada a essa questão, Trotsky assinalava que a relação entre guerra civil e insurreição na Europa Ocidental era diferente daquela que se dera na Rússia. Enquanto na Rússia a burguesia havia sido tomada de surpresa e, depois da conquista do poder, sobreveio uma sangrenta guerra civil, na Europa Ocidental – com países de maior desenvolvimento industrial e densidade populacional, com exércitos mais preparados, com Estados mais estáveis e guardas contrarrevolucionárias previamente organizadas – essas lutas sangrentas ocorreriam antes da conquista do poder.

Assim o colocava abertamente Trotsky em seu Relatório sobre o quinto ano da revolução de Outubro e as tarefas do IV Congresso da Internacional Comunista. Ideia semelhante ele apresentaria em seu Relatório sobre a NEP do IV Congresso. Mas, diferentemente da Rússia, a conquista do poder daria lugar a uma dominação muito mais estável da classe operária. A derrota do “Outubro alemão”, em que o Partido Comunista abortou o plano de ação revolucionária no último momento, afastou por alguns anos a perspectiva da revolução europeia, ainda que já em 1926/27 tenham ocorrido importantes greves e lutas de rua na Inglaterra e na Áustria, respectivamente. À medida que a revolução internacional se estagnava, reforçavam-se as pressões conservadoras no interior da Revolução russa. Vejamos.

Da NEP à “luta contra o trotskismo”

No início da NEP, a classe operária russa já não tinha nada em comum com aquela que havia protagonizado a Revolução e as jornadas heroicas da Guerra Civil. Os trabalhadores revolucionários que não morreram na guerra foram destacados para ocupar inúmeros cargos no aparelho estatal. A produção industrial estava paralisada. Os salários cobriam apenas um quinto do custo de vida e muitos operários roubavam parte do que se produzia em suas fábricas para vender no mercado negro. Este dado é fundamental para compreender a passividade que se estendia entre as massas soviéticas, enquanto se travava a luta entre a Oposição de Esquerda e o nascente estalinismo, sendo também uma das causas da burocratização. Nesse contexto, os bolcheviques viram-se forçados a tomar em suas mãos o monopólio do poder político, em contradição com sua orientação original.

De fato, os bolcheviques buscaram garantir a liberdade de expressão às correntes que defendiam a revolução (mencheviques internacionalistas, socialistas revolucionários de esquerda, diferentes grupos anarquistas que não atuavam contra o poder soviético) e chegaram até a incorporar os SR de esquerda ao Conselho dos Comissários do Povo. Mas a tentativa de golpe organizada por esse partido em 1918 levou à sua ilegalização. Assim, os bolcheviques tiveram de sustentar a ditadura do proletariado em um país em que a classe operária havia se debilitado ao extremo, objetiva e subjetivamente, exercendo um monopólio do poder político que se impunha pela força dos fatos, mas que estava longe de ser a concepção que haviam defendido. A equação torna-se verdadeiramente monstruosa se perdermos de vista que, para Lenin e Trotsky, o destino da Revolução Russa dependia, a médio e longo prazo, do desfecho da revolução mundial, começando pelo Ocidente europeu. Tendo em mente essa perspectiva, todas as medidas mais controversas tinham um caráter conjuntural, à espera de uma melhora das condições internacionais.

A NEP permitiu uma reativação da economia, mas também trazia certos perigos. Por um lado, dava margem ao desenvolvimento de elementos que pressionavam contra o monopólio do comércio exterior para poder realizar negócios capitalistas sem limitações. Por outro, do ponto de vista da política econômica do Estado soviético, a NEP gerava uma tensão entre o mercado (que funcionava com base em critérios de lucro capitalista) e o planejamento (que pretendia organizar a produção em função da criação de infraestrutura e da satisfação das necessidades populares). Como o mercado ligado aos produtos agrícolas avançava muito mais do que a indústria — travada por problemas técnicos e políticos —, os preços dos produtos industriais eram muito mais altos do que os dos produtos agrícolas. Trotsky definiu essa situação como o “problema da tesoura”, insistindo na necessidade de aprofundar a política de planejamento econômico para resolvê-lo.

Simultaneamente, o retrocesso na luta de classes internacional, as mudanças na composição da classe operária, o regime de partido único no Estado e a proibição de frações no interior do partido foram deslocando o centro de gravidade das decisões econômicas e políticas das massas para o aparato do partido. Essa situação, somada ao descontentamento operário diante da crise industrial em 1923, deu origem ao surgimento da chamada primeira Oposição de Esquerda (também conhecida como “Oposição de 1923”), que se expressou na “Declaração dos 46”, assinada por destacados militantes bolcheviques que reivindicavam o restabelecimento da democracia interna no partido e mudanças na política econômica para melhorar a situação da classe operária.

Em Teses sobre revolução e contrarrevolução (1926), Trotsky analisou o fenômeno do retrocesso no nível de atividade social e política na Rússia soviética e as mudanças no partido. Complementar às reflexões de Christian Rakovsky em um ensaio de 1928 intitulado Os perigos profissionais do poder, esse artigo de Trotsky relacionava o clima conservador na sociedade soviética de meados da década de 1920 com uma certa regularidade histórica própria dos recuos posteriores a grandes avanços revolucionários, caracterizados pela irrupção de amplas massas com grandes expectativas, que depois se desiludiam diante das dificuldades enfrentadas por toda revolução, mas também pelo peso que esse clima conservador exercia sobre o partido revolucionário.

Esse processo de burocratização implicou uma mudança na ideologia do Partido Bolchevique, sintetizada na fórmula do “socialismo em um só país”, imposta como política oficial a partir de 1925. Essa política levou à passagem de Zinoviev e Kamenev para a oposição (antes estavam com Stalin), aproximando-se de Trotsky e formando a Oposição Unificada em 1926, enquanto Stalin mantinha um bloco com Bukhárin (promotor da política de desenvolvimento do mercado camponês). O “socialismo em um só país” significava uma grosseira deturpação da tradição do partido, que sempre havia sustentado uma perspectiva internacionalista. Mas justamente por isso, e porque desde os inícios da “luta contra o trotskismo”, em 1923, a direção oficial havia retomado os ataques contra a teoria da revolução permanente, Trotsky retomou esse debate nos planos teórico, estratégico e programático. A partir de 1928, começou a sustentar abertamente que a única alternativa ao “socialismo em um só país” era a revolução permanente, assinalando que esta não se limitava à transformação da revolução democrático-burguesa em socialista em escala nacional, mas se tratava, sobretudo, de um programa de revolução internacional.

A Oposição Unificada foi derrotada em 1927 e reprimida fisicamente na manifestação pelo décimo aniversário da revolução. Trotsky, Zinoviev e Kamenev foram excluídos da direção do partido e Trotsky foi exilado junto com Natalia Sedova para Alma-Ata (Cazaquistão), em janeiro de 1928, sendo depois deportado para Prinkipo (Turquia), onde permaneceu de 1929 até 1933.

A III Internacional diante da burocratização

A política da III Internacional sofreu os efeitos dessa deriva burocrática e conservadora. Já desde 1924 se evidenciavam problemas importantes. O V Congresso da Internacional Comunista, ao mesmo tempo em que convocava à “bolchevização” (afastamento dos setores críticos e proibição das frações), ignorava a derrota da Revolução Alemã de 1923 e adotava a tese da “radicalização dos camponeses”, que se complementava com políticas oportunistas em relação aos partidos burgueses com base camponesa, definidos então como “partidos operários e camponeses”. Entre eles incluía-se o Kuomintang de Chiang Kai Shek, que em 1926 foi nomeado presidente honorário da Internacional Comunista, o que não o impediu de reprimir os comunistas chineses, lançando-os vivos como carvão nas caldeiras das locomotivas.

Na Revolução Chinesa de 1925-1927, Stalin e Bukharin terminaram de formular uma metafísica da revolução colonial que sustentava que, do atraso do país, derivava-se a necessidade de uma “revolução nacional”, tendo a burguesia “nacional” como classe dirigente.

Isso implicou para o PC chinês a subordinação política e organizativa em relação ao Kuomintang. Tratava-se de uma política menchevique clássica de aliança com a “burguesia progressista” para uma revolução por etapas. Mas, para dar-lhe algum verniz de “bolchevismo”, Stalin e Bukharin combinavam a “teoria” da “revolução nacional” com a velha fórmula de Lenin da “ditadura democrática de operários e camponeses”, que o próprio Lenin já havia abandonado no curso de 1917, após as Teses de Abril. Quando essa política foi derrotada pela repressão aos comunistas em Xangai, em abril de 1927, Stalin e Bukharin impuseram ao PC chinês a aliança com a suposta “ala esquerda” do Kuomintang, com resultados semelhantes, para depois girar bruscamente a uma política de enfrentamento armado que teve sua expressão na derrotada insurreição de Cantão, em novembro de 1927.

Isso foi acompanhado de outras capitulações políticas, como a manutenção da aliança entre os sindicatos soviéticos e a burocracia sindical inglesa (“Comitê Anglo-Russo”), que havia deixado sozinhos os mineiros em 1926.

A generalização da teoria da revolução permanente e a luta pela IV Internacional

Depois da derrota da Revolução Chinesa e apoiando-se em suas lições, Trotsky ampliou sua teoria da revolução permanente, generalizando as experiências da Rússia e da China ao conjunto dos países coloniais e semicoloniais. Nela postulava que somente a classe operária pode realizar, à frente da nação oprimida, a resolução plena e efetiva do problema nacional e do problema agrário, para o que é necessária sua dominação política que, por sua vez, só pode se sustentar afetando a propriedade privada capitalista, transformando a revolução burguesa em socialista e, assim, em permanente.

Dessa forma, Trotsky, ao mesmo tempo em que refutava os fundamentos da política de apoio à burguesia “nacional”, seguida por Stalin e Bukharin na China, dotava a tradição marxista clássica de uma teoria da revolução em escala mundial. Os efeitos da crise de 1929, o crescimento do fascismo, a guerra civil espanhola, a constituição de um regime cada vez mais totalitário na União Soviética e os preparativos das potências rumo à guerra seriam os temas principais da política mundial nos anos seguintes.

Optando inicialmente por uma política de reformar a orientação da Internacional Comunista e do Partido Comunista da URSS, Trotsky havia tentado construir a Oposição de Esquerda Internacional como fração pública da Internacional Comunista e de seus partidos. Considerava que era um erro dar por liquidada a organização revolucionária sem lutar por modificar seu curso. Mudou essa política a partir da experiência da ascensão do nazismo na Alemanha. O Partido Comunista Alemão havia cumprido um papel desastroso, promovendo a divisão da classe operária ao centrar-se na denúncia do Partido Social-Democrata como “social-fascista”, subestimando em todo momento o perigo que significava um triunfo de Hitler e, em alguns casos, chegando inclusive a atuar em comum com os nacional-socialistas contra os social-democratas 4

Poucos meses depois do triunfo de Hitler em janeiro de 1933, diante da falta de conclusões autocríticas no Partido. Comunista Alemão sobre sua atuação, Trotsky convocava a fundar um novo partido revolucionário na Alemanha, já que o Partido Comunista havia demonstrado não poder desempenhar esse papel. Em maio do mesmo ano, ante a ausência de qualquer balanço autocrítico dos demais partidos ou da direção da Internacional Comunista, Trotsky chegou à conclusão de que era necessário lutar por novos partidos comunistas e por uma nova Internacional. Iniciava-se então uma nova etapa da vida política de Trotsky, que teria de dedicar grandes energias aos esforços por construir organizações revolucionárias em diferentes países, como Estados Unidos, França, Espanha e a própria União Soviética, a estabelecer relações de diálogo, polêmica e crítica mútua com outras tendências opositoras ao stalinismo com as quais tentaria confluir e a gerar as ferramentas teóricas, estratégicas e programáticas que permitissem dar lugar à conformação da IV Internacional.

Em julho de 1933, depois de obter visto do governo, Trotsky chegou à França, onde pôde apreciar de perto o crescimento do fascismo e o início do ascenso das lutas operárias, que levou à formação da Frente Popular e teve seu ponto mais alto em junho de 1936, com as ocupações de fábricas que o governo buscou conter mediante o reconhecimento de certos direitos à classe trabalhadora, depois cerceados a partir de 1937.

Ao mesmo tempo em que acompanhava esse processo e colaborava politicamente com o trotskismo francês, Trotsky prestaria muita atenção ao que estava ocorrendo na Espanha. Ali, o processo iniciado com a queda da monarquia, em 1931, deu lugar a um ascenso de lutas operárias, com a insurreição asturiana de 1934, cuja derrota abriu o “biênio negro”, e depois, com a ascensão da Frente Popular e a eclosão da Guerra Civil, configurou-se um cenário que, em muitos aspectos, estava definindo o futuro da Europa. Mas também os Estados Unidos do New Deal e do ascenso do CIO lhe pareciam centrais para pensar o possível desenvolvimento do movimento operário e, em especial, da IV Internacional: nos EUA estava a organização trotskista mais forte, o Socialist Workers Party (SWP).

Foram anos de rearmamento político, teórico e ideológico, diante de uma situação internacional que se tornava cada vez mais difícil para as posições revolucionárias. O “progressismo” dividia-se entre os democratas, que rejeitavam os métodos autoritários de Stalin e desconfiavam do comunismo (que identificavam com aquele), e os “amigos da URSS”, que consideravam que qualquer crítica ao stalinismo fazia “o jogo da direita”.

Trotsky tinha que combinar a tarefa de construir uma oposição marxista ao stalinismo com a de combater as ideias anticomunistas e o senso comum liberal que, em particular nos EUA, se apresentava na filosofia do pragmatismo, que influenciava decisivamente a mentalidade do movimento operário. Por esse motivo, pode-se ver em diversos textos dos anos 1930 que Trotsky dedicou boa parte de seu trabalho à explicação e fundamentação da necessidade de defender a União Soviética em caso de guerra, mas também a estabelecer uma política e uma estratégia de oposição frontal ao stalinismo. Essa ideia se formula em 1935 de maneira mais completa, com sua proposta de uma revolução política que deslocasse a burocracia soviética e estabelecesse um regime político que reconhecesse a pluralidade de todas as tendências que apoiavam a revolução, ao mesmo tempo em que restaurasse a democracia soviética e mantivesse as conquistas sociais obtidas pela revolução.

Hóspede incômodo para o governo francês, seu próximo destino foi a Noruega, onde chegou em 18 de junho de 1935. O governo “socialista”, aparentemente amistoso no começo de sua estadia, terminou colocando Trotsky em prisão domiciliar durante quatro meses e o obrigou a partir para o México em 19 de dezembro de 1936. O governo de Lázaro Cárdenas havia sido o único disposto a conceder-lhe visto. Trotsky e Natalia Sedova chegaram ao porto de Tampico em 9 de janeiro de 1937.

Os últimos anos de sua vida foram dedicados à luta para colocar de pé a IV Internacional, cuja conferência de fundação se realizou em Paris em 3 de setembro de 1938. A IV Internacional era composta por militantes de relativa experiência e sua influência se estendia a um setor minoritário, mas muito combativo, da classe trabalhadora. O informe apresentado à conferência apontava a existência de um total de cerca de 5.500 membros, distribuídos da seguinte forma: Estados Unidos: 2.500, Bélgica: 800, França: 600, Polônia: 350, Inglaterra: 170, Alemanha: 200, Tchecoslováquia: 150-200, Grécia: 100, Indochina: sem número – apesar de ser um grupo de importante influência –, Chile: 100, Cuba: 100, África do Sul: 100, Canadá: 75, Austrália: 50, Brasil: 50, Holanda: 50, Espanha: 10-30, México: 25, Suécia, Noruega, Dinamarca, Romênia, Áustria, Rússia, Bolívia, Argentina, Porto Rico, Uruguai, Venezuela, China e Itália: sem números. Segundo um informe de Rudolph Klement, responsável pela organização da conferência e assassinado pelo serviço secreto stalinista antes de sua realização, também havia partidários da IV Internacional em Marrocos, Palestina, Iugoslávia e Letônia, que não aparecem mencionados no informe da conferência 5 .

O debate sobre a IV Internacional

O tema da IV Internacional foi muito debatido dentro e fora do trotskismo. Simpatizantes sinceros das ideias de Trotsky (embora não partidários delas em sua totalidade), como Daniel Guérin, em sua história da Frente Popular Francesa6 , e o Partido Socialista Operário e Camponês (PSOP, por suas siglas em francês), ou ainda seu próprio biógrafo Isaac Deutscher, em sua famosa trilogia sobre Trotsky, consideraram que a fundação da IV Internacional havia sido um ato voluntarista7 . Guérin, em particular, teve a possibilidade de expor essas objeções em tempo real, já que conheceu pessoalmente Trotsky e foi militante da Esquerda Revolucionária da SFIO e depois do PSOP dirigido por Marceau Pivert, que se aproximou e se afastou de Trotsky em diferentes momentos.

O PSOP formou parte do Bureau de Londres, um agrupamento de vários grupos que em algum momento estiveram próximos às posições de Trotsky e que compartilhavam a ideia de uma nova internacional, mas consideravam prematuro fundar uma internacional “de quadros” e não “de massas”, já que, no período 1933-1938, não faltaram ascensos de lutas de massas, mas o stalinismo era muito forte. No entanto, esses grupos fizeram de alguma maneira “sua Internacional”, chamada Frente Operária Internacional, que terminou sendo uma espécie de imitação da IV Internacional, mas com uma política oscilante entre posições revolucionárias e reformistas. A diferença principal entre a FOI e a IV Internacional reside no fato de que da primeira hoje não resta nem memória, e da IV Internacional (com todas as dificuldades que atravessou na Segunda Guerra Mundial e suas divisões posteriores) restam suas lições, seus aportes teóricos e programáticos e a persistência do trotskismo como corrente organizada no movimento operário, na juventude, nos movimentos sociais e de mulheres e na intelectualidade em muitos países.

O Programa de Transição: conjuntura e atualidade

Trotsky considerava que o Programa de Transição não podia ser tomado como um programa acabado. Assim o disse em uma carta enviada em 12 de abril de 1938 a Rudolph Klement:

<quote> Destaco que ainda não se trata do programa da IV Internacional. O texto não contém nem a parte teórica, isto é, a análise da sociedade capitalista e de sua fase imperialista, nem o programa da revolução socialista propriamente dita. Trata-se de um programa de ação para o período intermediário. Parece-me que nossas seções necessitam deste documento. </quote>

Com a expressão “período intermediário”, Trotsky se referia à luta pelo poder da classe operária. Por isso afirma que falta “o programa da revolução socialista propriamente dita”. Detenhamo-nos brevemente na questão da transição.

Na segunda metade do século XIX, o movimento operário orientado pela socialdemocracia havia estabelecido o que se chamava de “programa mínimo”. Expressavam-no a luta pela jornada de oito horas, as melhorias nas condições de trabalho, o direito de associação ou os direitos políticos democráticos elementares. Por outro lado, o “programa máximo” colocava a revolução e o socialismo como um objetivo de fundo, mas que se percebia como distante.

A eclosão da Primeira Guerra Mundial consolidou a divisão irreversível entre a socialdemocracia, que perseguia a reforma do capitalismo, e o comunismo, que lutava pela revolução, tendo como exemplo o Partido Bolchevique e a Revolução Russa. Durante os anos entre guerras houve toda classe de processos políticos e de luta de classes. Depois vieram os processos aos quais se fazia referência no início deste artigo. As revoluções, as contrarrevoluções e a crise econômica começavam a colocar sobre a mesa a necessidade de modificar os programas, em especial essa divisão entre “programa mínimo” e “máximo”. A classe dominante percebeu a necessidade de readequações similares, estatizando os sindicatos, promovendo a intervenção do Estado para contrabalançar a crise econômica e oferecendo, dessa forma, uma tentativa de rivalizar com a saída revolucionária.

Nesse marco, a transição para Trotsky abrangia a relação entre as necessidades da classe trabalhadora e dos setores populares e seu grau de organização e consciência política; a relação entre as demandas imediatas e a contestação do capitalismo; a relação entre a mobilização sistemática das massas por suas reivindicações e a luta por um governo da classe trabalhadora e do povo.

A transição também faz referência a esse “período intermediário” de que Trotsky falava em sua carta a Rudolph Klement. Ainda não é a revolução propriamente dita, mas a luta de classes não pode se canalizar somente com o chamado “programa mínimo”; as condições de crise capitalista e os ataques patronais colocam uma disjuntiva: ou se resolvem as necessidades mais elementares da classe trabalhadora e do povo à custa de uma afetação direta do interesse dos capitalistas, ou a saída será dada pelo capitalismo, recompondo sua dominação e piorando nossas condições de vida.

Nesse sentido, o programa de transição busca estabelecer uma ponte entre a luta pelas demandas mais elementares e imediatas da classe trabalhadora e do povo e uma saída anticapitalista e socialista.

No texto do Programa de Transição, Trotsky dizia que a crise da humanidade se reduzia à crise de sua direção revolucionária. Fazia referência às derrotas que havia sofrido o movimento operário sob a direção da socialdemocracia e do stalinismo, e às dificuldades para alcançar uma direção alternativa (objetivo a que devia servir, como já dissemos, o manifesto programático). Essa definição foi tomada por certos grupos trotskistas em muitos casos como uma sentença válida para todo tempo e lugar, mas sobretudo foi questionada por aqueles que têm certa inclinação por defender as distintas variantes burocráticas nos sindicatos e movimentos sociais, como a suposta demonstração do “subjetivismo” de Trotsky.

A relação entre as bases e as direções (no movimento operário especialmente, mas também em outros movimentos) é um tema complexo. Por razões de espaço, tentaremos sintetizá-la dizendo que nem a base tem “a direção que merece”, nem tampouco está o tempo todo em aberta contradição com os dirigentes. Aqui, como em muitas outras ocasiões, vale a “análise concreta da situação concreta”. Mas não é o mesmo analisar as dificuldades para construir uma “direção revolucionária” como um problema abstrato, desde fora, do que fazer essa reflexão como parte de uma prática militante que busca que a luta de classes tome um rumo revolucionário. Para além dessa questão pontual, seria problemático tomar essa definição de Trotsky, formulada em um momento específico e em um contexto de argumentação particular, de maneira unilateral. Hoje, a crise da humanidade passa por múltiplos problemas (muitos relacionados, mas) que vão além da direção revolucionária da classe trabalhadora. No entanto, isso não quer dizer que as direções não sejam um problema. Pensemos na realidade da classe trabalhadora e no papel que têm as direções dos sindicatos, dos movimentos estudantis, dos movimentos de mulheres ou das organizações de trabalhadores desempregados, e a maioria das correntes políticas que os orientam, associadas em muitos casos às chamadas tendências “nacionais e populares” ou às “esquerdas amplas” reformistas.

Novamente: guerra e revolução

Esse intento de rearmamento programático se dava em um contexto extremamente difícil para o movimento revolucionário dirigido por Trotsky. O stalinismo tinha uma força de massas, e os preparativos das potências para a Segunda Guerra Mundial cresciam a passos agigantados, criando um clima de patriotismo contrário ao internacionalismo e à luta de classes.

A perspectiva de uma nova guerra estava presente nos debates da Internacional Comunista desde suas origens, dado que a Primeira Guerra Mundial havia deixado um cenário muito instável, caracterizado por uma “hegemonia” sobredimensionada da França na Europa continental, a decadência do Reino Unido como potência dominante desde o século XIX e a ascensão do imperialismo norte-americano como motor econômico do capitalismo mundial e como nova potência econômica, política e militar. Desde a ascensão de Hitler na Alemanha, Trotsky havia assinalado que se tornava cada vez mais concreta a perspectiva de uma guerra contra a União Soviética e de uma guerra mundial mais em geral. Documentos como “A guerra e a IV Internacional” (1934) e “A URSS na guerra” (1939) 8 sintetizaram grande parte das elaborações de Trotsky e dos trotskistas sobre a questão da guerra. Quanto ao caráter do conflito, caracterizava-o como interimperialista pelo repartimento dos mercados, das colônias e das semicolônias. Diferentemente do que afirmam certos críticos desprevenidos, isso não implicava desconhecer a especificidade do fenômeno fascista nem chamar ao “derrotismo” em geral. O que Lenin havia chamado de “derrotismo revolucionário” (a derrota do próprio país como mal menor em relação à revolução), Trotsky havia reformulado, assinalando que a luta de classes não podia se deter pela guerra, e era necessário romper qualquer subordinação à burguesia, ainda que esta proclamasse estar contra Hitler. Trotsky convocava a derrotar o fascismo, mas com os métodos e a organização independente da classe operária. Essa política, chamada de Política Militar Proletária (PMP), foi colocada em prática de fato por milhares de milicianos na Grécia e na Itália nos últimos anos da guerra e implicava combater Hitler sem se subordinar aos objetivos políticos da burguesia “democrática”. No mesmo sentido, os povos coloniais e semicoloniais deviam lutar por sua libertação, fosse contra os imperialistas fascistas ou contra os democráticos. O “Manifesto de Emergência” traça as perspectivas da IV Internacional diante da eclosão da guerra:

 Independentemente do curso da guerra, cumprimos nosso objetivo básico: explicamos aos operários que seus interesses são irreconciliáveis com os do capitalismo sedento de sangue; mobilizamos os trabalhadores contra o imperialismo; propagandeamos a unidade dos operários de todos os países beligerantes e neutros; conclamamos à fraternização entre operários e soldados dentro de cada país e entre os soldados que estão em lados opostos das trincheiras no campo de batalha; mobilizamos as mulheres e os jovens contra a guerra; preparamos constante, persistente e incansavelmente a revolução nas fábricas, nos moinhos, nas aldeias, nos quartéis, na frente e na frota. 

A IV Internacional manteve a bandeira da luta de classes, sem desconhecer o caráter específico do combate contra o nazismo (PMP). E, mais em geral, deixou levantadas as bandeiras sob as quais seguir lutando pelo comunismo, contra o liberalismo, o fascismo e o stalinismo.

A atualidade de um legado e uma teoria

Nas linhas anteriores nos referimos a alguns momentos importantes da trajetória vital de Trotsky, suas disputas estratégicas e programáticas e parte de suas tarefas político-organizativas. Seria importante incorporar também a força de seu legado no plano teórico. Cabe então destacar a importância da teoria da revolução permanente como uma contribuição central para o desenvolvimento do marxismo do século XX.

Vimos que esta teoria abarca três dimensões: a transformação da revolução “democrático-burguesa” em socialista, o caráter internacional da revolução que impede detê-la nas fronteiras de um país, e o caráter constante das mudanças políticas, sociais, econômicas e culturais na sociedade posterior à revolução. Foram feitas objeções a essa teoria — por exemplo, a de Perry Anderson — por prever algo que supostamente não ocorreu: a impossibilidade das burguesias “nacionais” de resolver a questão da independência nacional e a questão agrária. Em suas Considerações sobre o marxismo ocidental (1976), Anderson considerava que os casos da Argélia (para a primeira questão) e da Bolívia (para a segunda) mostravam que isso não era assim.

Sem entrar em detalhe sobre esses processos, pode-se assinalar que Trotsky nunca havia afirmado que direções burguesas não pudessem encabeçar lutas pela independência ou pela questão agrária. O que a teoria da revolução permanente afirma é que a “resolução íntegra e efetiva” desses problemas (isto é, uma independência real e não apenas formal e o acesso à terra de modo a não ser permanentemente ameaçado pela grande propriedade) “só pode ser concebida por meio da ditadura do proletariado”. Isso deixa aberta a possibilidade de resoluções “parciais” das tarefas democráticas e nacionais, como as citadas pelo próprio Anderson, ou como a experiência do governo de Cárdenas no México — diante do qual Trotsky aconselhava uma política independente, mas não sectária, e que lhe serviu de caso paradigmático para pensar problemas da realidade latino-americana.

Por outro lado, a trajetória do capitalismo posterior aos anos 1970 mostrou as grandes dificuldades de projetos capitalistas “nacionais” (inclusive os governos chamados “nacionais e populares” do início do século XXI na América Latina tocaram pouco ou nada na grande propriedade agrária, e os atritos que tiveram com o imperialismo se deram em geral dentro de relações de subordinação, pagando a dívida ao FMI etc.). Do ponto de vista das nulas potencialidades revolucionárias das chamadas “burguesias nacionais”, parece que a teoria da revolução permanente tem até mais atualidade hoje do que antes, o que por sua vez fundamenta a proposta de uma aliança operário-popular ou de uma hegemonia da classe trabalhadora para a revolução.

No que a teoria parece mais defasada em relação à realidade atual é em seu aspecto descritivo: a “mecânica” da transformação da revolução democrática em socialista está ausente dos processos de luta de classes atuais, que têm se detido no limiar das revoltas sem chegar a se constituir em revoluções. No entanto, esse fato não implica necessariamente uma refutação da teoria da revolução permanente em si, mas sim a ausência da condição principal que ela pressupõe: a ocorrência de revoluções. Saberemos a forma atual da revolução permanente quando processos revolucionários tiverem lugar.

O que podemos pensar, enquanto isso, é que a mecânica da revolução permanente pode se projetar também sobre a luta de classes em suas etapas prévias às revoluções. Ou seja, a ideia de um desenvolvimento que vai das lutas democráticas e nacionais até a revolução socialista serve também para pensar o modo como podem articular-se lutas por demandas sociais, ambientais, de gênero, ecológicas, dos povos originários, do proletariado precarizado e do movimento operário organizado em sindicatos, de modo que possam orientar-se para uma luta contra o capitalismo e pelo socialismo. Essa articulação contribuiria talvez não para gerar, por si mesma, uma revolução, mas sim para criar condições subjetivas para novas dinâmicas revolucionárias.

E isso mesmo tem continuidade nas outras duas dimensões da teoria da revolução permanente: o internacionalismo e o revolucionamento constante da sociedade de transição. Em síntese, a teoria da revolução permanente poderá mostrar sua potência mais cabalmente diante de processos revolucionários que hoje não temos, mas também pode servir para pensar as dinâmicas da luta de classes nos momentos prévios e preparatórios, pelo modo como busca articular demandas, sujeitos e desenvolvimento das relações de forças.

Outro aspecto a destacar nas elaborações de Trotsky é sua explicação da burocratização da Revolução Russa e do fenômeno do stalinismo. Embora seja certo que o interesse das novas gerações pelo socialismo não se veja necessariamente afetado pelo impacto da experiência dos mal chamados “socialismos reais”, nenhum projeto socialista ou comunista pode eludir as conclusões dessa experiência, dado que as possíveis dinâmicas de burocratização são um perigo real, por várias razões: situações que podem exigir centralização excessiva do poder de decisão (que depois custa reverter a favor das massas), desigualdade de tempos entre os processos em escala nacional e internacional, desigualdade entre os tempos da transição e os das expectativas das massas, que induzem parte delas à passividade — o que alimenta a dinâmica da burocratização, etc.

As análises de Trotsky sobre as contradições da URSS como economia e sociedade de transição (formação “socialista” na medida em que “defende a propriedade coletiva dos meios de produção” e “burguesa” na medida em que “a distribuição dos bens se realiza por meio de medidas capitalistas de valor”), a caracterização da burocracia como uma casta que se apropriava de uma fatia maior do excedente da produção social e seu duplo papel como sustentadora (na medida em que vivia dessas conquistas) e minadora (na medida em que reprimia e impedia o autogoverno das massas) das conquistas da Revolução, assim como sua proposta de uma revolução política que varresse a burocracia e reimplantasse o pluripartidarismo soviético, são pontos de partida incontornáveis para qualquer projeto que se proponha a um “socialismo desde baixo”.

Um terceiro aspecto a destacar do pensamento de Trotsky é sua compreensão da existência de diferentes camadas e setores em que a classe trabalhadora se encontra dividida. Enquanto convocava a uma luta por independência dos sindicatos em relação ao Estado, assinalava os limites destes, se se pretendesse tomá-los como a única e exclusiva forma de organização da classe trabalhadora. Nesse sentido, sua reivindicação dos conselhos (e de toda instância de auto-organização, como comitês de luta, comitês de ação e outros) apontava para gerar dinâmicas que permitissem a unificação das fileiras da classe trabalhadora, assim como sua articulação com todos os setores oprimidos. Essa questão é fundamental também em um marco de grande heterogeneidade de uma classe trabalhadora sobre-estendida em escala internacional.

Para além da resistência

Para concluir, gostaria de assinalar duas últimas questões. A primeira é que, em pequenos exemplos, pode-se constatar um certo interesse renovado pela figura de Trotsky. Desde o filme de Nanni Moretti Il sol dell’avvenire, que constitui uma aberta reivindicação de Trotsky como alternativa ao stalinismo e como continuidade do “comunismo de Marx e Engels”, até o interesse da juventude norte-americana por sua figura, passando pelo crescimento de pesquisas acadêmicas sobre suas ideias (entre as quais podemos destacar os livros de Thomas M. Twiss e Gabriele Mastrolillo) ou sobre o trotskismo como tendência militante, entre as quais se destacam os trabalhos de pesquisa de Aleksei Gusev e outros sobre os trotskistas presos na penitenciária de Verjneuralsk na URSS, ou o recente livro publicado pelo CEHTI sobre o trotskismo na Argentina, coordenado por Hernán Camarero e Martín Magiantini.

A segunda questão é que, com todas as dificuldades do caso, o trotskismo é uma das tradições militantes que mais continuidade teve no espectro da esquerda. Como bem assinalou Ariel Petruccelli em seu artigo “A esquerda e a crise”, a persistência na tentativa de construção de organizações partidárias permitiu fechar fileiras em momentos de retrocesso. A isso acrescentaria as questões já apontadas no apartado anterior, junto com a militância no movimento operário em momentos em que todas as tendências de esquerda o davam por morto (para além dos problemas subjetivos aos quais já nos referimos).

Mas essas questões, que dizem respeito à nossa condição de “irredutibilidade”, para retomar a expressão de Pablo Stefanoni, não implicam necessariamente em uma predominância do trotskismo em próximas e hipotéticas recomposições do marxismo. Para que a marca da tradição trotskista se torne predominante no marxismo, é necessário dar o debate, combinando a maior intransigência classista com a abertura para a discussão teórica, uma política cultural e ideológica ativa e a intervenção nas mais variadas formas da luta de classes, porque estamos em um cenário internacional (e nacional) instável e incerto. Isso inclui, por suposto, pensar as próprias condições de atualidade do legado que estamos reivindicando.

1. Ver o relato de Trotsky, L., Mi vida, Buenos Aires, Buenos Aires, Ediciones IPS-CEIP, 2012, pp. 158-161 (Obras Escogidas 2, coeditadas con el Museo Casa León Trotsky). 

2. Labriola, Antonio, La concepción materialista de la historia, México D.F., Ed. El Caballito, 1973, p. 130. 

3. Ver sobre Petruccelli, Ariel, Ciencia y utopía en Marx y en la tradición marxista, Buenos Aires, Ediciones Herramienta y Editorial El Colectivo, 2016, pp. 131-238. 

4. “¡Contra el comunismo nacional! (Lecciones del ‘Referéndum Rojo’)” em Trotsky, L., La lucha contra el fascismo en Alemania, Buenos Aires, Ediciones IPS-CEIP, 2013, pp. 56-76 (Obras Escogidas 3, coeditadas con el Museo Casa León Trotsky).

5. Trotsky, L. y otros, El programa de Transición y la fundación de la IV Internacional, Buenos Aires, Ediciones IPS-CEIP, 2008, pp. 52-59. [6] Guérin, Daniel, Front Populaire, révolution manquée, Marseille, Agone, 2013.

6. Guérin, Daniel, Front Populaire, révolution manquée , Marselha, Agone, 2013.

7. Deutscher, Isaac, El profeta desterrado, México, Ed. Era, 1979, pp. 379-381. [8] Ver ambos os textos em Trotsky, L., La Segunda Guerra Mundial y la Revolución, Buenos Aires, Ediciones IPS-CEIP, 2015 (Obras Escogidas 8, coeditadas con el Museo Casa León Trotsky).

8. Ver ambos os textos em Trotsky, L., A Segunda Guerra Mundial e a Revolução , Buenos Aires, Edições IPS-CEIP, 2015 (Obras Selecionadas 8, co-publicado com o Museu Casa León Trotsky).

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