A Geração Z sacode a Europa: retrato de uma geração que se lança ao assalto dos céus
Retrato de uma geração em meio ao caos mundial, em um momento em que demonstra sua vitalidade e audácia ao enfrentar um capitalismo cada vez mais em decomposição. Este artigo foi publicado originalmente em francês em 25/10/2026 na Armes de la Critique, parte da rede internacional La Izquierda Diario na França.
Depois de Madagascar, Nepal, Bangladesh, Peru, Marrocos ou Quênia, a Geração Z sacode a Europa. Começando pela Albânia e pela França, a revolta se estende à Itália, Alemanha, Espanha e, agora, a Portugal e à Grécia. A semelhança das palavras de ordem e o surgimento simultâneo da juventude europeia são sinais da emergência de uma nova subjetividade social, em uma Europa imersa em um processo de militarização. Para compreender plenamente as potencialidades estratégicas dessa subjetividade emergente, é necessário traçar um breve retrato dessa Geração Z, em um momento em que demonstra vitalidade e audácia exemplares em seu enfrentamento com um capitalismo cada vez mais decomposto.
Uma juventude cosmopolítica
Das palavras de ordem em favor da Palestina dos estudantes secundaristas alemães às bandeiras vermelhas, verdes, brancas e pretas nos bloqueios franceses, passando pela mobilização na Itália contra o genocídio no ano passado, as revoltas atuais estão profundamente impregnadas de solidariedade com o povo palestino. Ao contrário dos retratos de uma geração apática, individualista e pessimista, a Geração Z europeia demonstra uma ambição radical ao colocar as grandes questões de sua época e uma determinação em começar a resolvê-las.
A mobilização da “geração Gaza”, à qual os meios de comunicação se referiam há alguns anos como a “geração Covid”, depois de tê-la chamado de “geração clima”, é inseparável da experiência vivida do caos mundial (no qual os desequilíbrios planetários favorecem o surgimento de pandemias), que atuou como um acelerador da consciência.
Após as greves pelo clima, impulsionadas sobretudo por Greta Thunberg — que compareceu diante da escola secundária Paul Éluard, na França, para apoiar os estudantes —, a pandemia mundial de Covid constitui, sem dúvida, um ponto de inflexão na politização dessa geração. Depois de décadas de austeridade que dizimaram os serviços públicos de saúde, os governos ocidentais — que se recusaram tanto a investir em equipamentos que poderiam ter contido os contágios e protegido as pessoas mais vulneráveis, especialmente os idosos, quanto, posteriormente, a questionar os lucros das multinacionais farmacêuticas para realizar uma campanha de vacinação em escala mundial — viram-se obrigados a implementar um confinamento da população que deixou graves sequelas em uma parcela da juventude. A sensação de ter enfrentado um acontecimento mundial que combinava uma antecipação do fim do mundo com uma forma de autoritarismo é amplamente compartilhada. Diante da ira dos jovens, alguns reacionários chegam a formular descaradamente a pergunta: não teria sido melhor sacrificar a vida dos idosos em vez dos anos de adolescência de toda uma geração? Os lucros das empresas e um nível de investimento em medidas sanitárias realmente à altura do problema ficam, naturalmente, fora dessa equação cínica. “Cada um de nós transborda de uma raiva que não sabe como descarregar. Sentimos que nossa juventude está escapando sem que tenhamos podido vivê-la. Nunca recuperaremos os passeios, as risadas, as aventuras que não vivemos”, explicava, naquela época, uma estudante secundarista de Bra, na Itália N1.
Se subvertermos a ideia de “cosmopolítica”, que em Kant designava a tendência natural e irreversível do sistema de Estados a alcançar a paz perpétua — uma ilusão que os últimos três anos bastam para refutar —, poderíamos qualificar certos acontecimentos de nossa época como “cosmopolíticos”, no duplo sentido de que questionam a ordem mundial e, ao mesmo tempo, colocam, por sua necessidade interna, a questão de uma “política planetária” 1. Embora a pandemia seja, sem dúvida, um desses acontecimentos, o genocídio em Gaza não fez mais do que amplificar essa dinâmica. Durante três anos, centenas de milhões de pessoas testemunharam o genocídio do povo palestino, a repugnante cumplicidade de todos os governos ocidentais com Israel e uma inversão de todos os valores: aqueles que sofrem o genocídio são transformados em algozes, e aqueles que denunciam um genocídio, em potenciais terroristas.
Com Gaza, o imperialismo traçou para todos os explorados e oprimidos do planeta um horizonte de sofrimentos compartilhados, uma condição comum diante do futuro que constitui, em si mesma, a base de um internacionalismo negativo. Essa crise moral, de proporções planetárias e civilizatórias, de todas as narrativas com as quais as classes dominantes revestem seu domínio não deixou de se traduzir em um internacionalismo na ação, enquanto a juventude esteve na vanguarda do movimento internacional de solidariedade com a Palestina, dos acampamentos ao “Blocchiamo Tutto”, quando os estudantes secundaristas e universitários italianos experimentaram a força da união com os trabalhadores. Após um breve momento de refluxo, essa energia apenas aguardava um momento propício para ressurgir.
Em 16 de outubro, a jornada de greve dos estudantes secundaristas pelo clima, após um verão de calor extremo marcado por megaincêndios, mudou de natureza: enquanto Meloni tenta aprovar uma versão italiana da lei Yadan, que instrumentaliza a luta contra o antissemitismo para criminalizar o movimento de solidariedade com Gaza, a ocupação do Instituto Cavour, em Roma, espalhou-se como uma mancha de óleo, e dezenas de milhares de jovens se mobilizaram naquele dia e nos seguintes. O outro fator desencadeador da mobilização foi a introdução de um limite racista de 30% de alunos estrangeiros por turma, anunciado em 20 de setembro. Ao exigir a revogação dessas medidas, os estudantes secundaristas também se opõem, sobretudo, à militarização e à austeridade, que ocupam um lugar central em suas palavras de ordem. Enquanto o sindicato de base USB (Unione Sindacale di Base) convoca uma greve nacional contra a guerra e a militarização para 30 de outubro, a convergência com o movimento operário está na boca de todos.
Mas essa radicalidade não provém unicamente da experiência cosmopolítica dessa geração. Certamente, é preciso “interessar-se pelos desafios emergentes de se tornar adulto em um mundo particularmente em crise” para compreender essa juventude em meio ao caos mundial, como explica a socióloga Cécile Van de Velde, que destaca seu “forte desejo de unidade mundial” 2. Mas também é necessário situá-la no contexto de uma rejeição mais ampla.
Uma rebelião contra uma vida cerceada
Embora a pandemia e o genocídio em Gaza constituam dois polos extremos dessa experiência geracional — a “vida não vivida” para proteger os interesses patronais e a experiência, à distância, da morte em massa do povo palestino —, ela também é afetada em seu cotidiano pela violência e pela crise global do neoliberalismo autoritário.
Isso já era percebido por Van de Velde ao se referir ao primeiro ciclo de luta da Geração Z, que atingiu sobretudo países semicoloniais, sob o domínio do imperialismo, como Nepal, Sri Lanka, Madagascar, Peru ou Marrocos: “O sentido profundo desses movimentos é a defesa dos bens essenciais. Em toda parte, o movimento da ‘Geração Z’ se rebela contra um sentimento de desapropriação. Em Madagascar, os jovens se rebelam contra os cortes de água e eletricidade [...]. No Marrocos, trata-se sobretudo do acesso à assistência médica. No Nepal, a corrupção e a proibição das redes sociais provocaram uma grande indignação. [...] Nas manifestações marroquinas, ouve-se: ‘Não queremos estádios, queremos hospitais’”.
Jean-François Bayart, por sua vez, insiste no vínculo entre a precariedade econômica, a saturação do mercado de trabalho e o autoritarismo dos regimes servis que governam esses países a serviço do imperialismo: “Esses jovens, frequentemente com diplomas universitários e melhor conectados, não encontram seu lugar ao sol e são duramente afetados pelos efeitos dessa transformação. Muitos se veem presos entre um mercado de trabalho ‘uberizado’, dominado pela precariedade, e o fechamento das fronteiras dos países ocidentais. Para as sociedades do Sul, essa restrição da migração também se traduz em um colapso das remessas de dinheiro, fonte essencial de renda diante do declínio da ajuda internacional. A humilhação nos consulados, as mortes no deserto e no mar reacendem o ressentimento anticolonial e antiescravista” 3.
Depois dos estudantes sérvios, em 2025, foi a Albânia que esteve na vanguarda da expansão do movimento na Europa. Mal havia saído de uma mobilização massiva neste verão contra os projetos imobiliários e coloniais de Jared Kushner, que pretendia privatizar parte do litoral adriático do país para alimentar os lucros da indústria turística, a juventude voltou a ocupar as ruas contra as reformas neoliberais na universidade, a crise habitacional e do emprego e as políticas do governo de Edi Rama, no poder desde 2013. O protesto foi explosivo e vários ministérios foram incendiados.
Com a entrada em cena dos estudantes secundaristas franceses, a Geração Z chega ao coração de um centro imperialista. A história colonial do imperialismo francês, o assédio policial cotidiano nos bairros populares, as políticas do Estado que geram e reproduzem a miséria nesses lugares e os efeitos da austeridade certamente explicam por que os estudantes secundaristas dos territórios ultramarinos sob domínio francês e, posteriormente, a juventude de Seine-Saint-Denis, periferia nordeste de Paris, foram os pioneiros a assumir a dianteira dessa primeira onda. Mas, se a raiva dos estudantes secundaristas franceses se espalhou tão rapidamente, a ponto de conquistar o apoio de uma grande parcela da população, é porque também na Europa a vida da juventude está cada vez mais cerceada.
Os estudantes secundaristas denunciam, antes de tudo, um sistema de impossibilidades: a austeridade e a deterioração dos serviços públicos que impedem estudar; o excludente sistema de seleção para ingressar na universidade, chamado Parcoursup, esse “robô que decide nossas vidas”, como o descreveu uma estudante, e que impede escolher o próprio futuro; a jornada das 8h às 18h, que impede ter uma vida social, entre outras coisas. Em resumo, a Geração Z é marcada por uma rejeição massiva à heteronomia social e a toda autoridade externa. O movimento na Espanha e, agora, em Portugal contra a crise habitacional surge do mesmo sentimento.
Embora a mobilização tenha começado no final de setembro, o despejo de Maricarmen Abascal da moradia em que vivia desde 1956 e, posteriormente, sua morte no hospital, aos 87 anos, fizeram explodir a ira social acumulada. A juventude que havia se mobilizado pela Palestina está no centro da ocupação da praça Sol, em Madri. É também essa vida cerceada que impulsionou a juventude — obrigada a viver em apartamentos precários, pagando aluguéis exorbitantes, ou a permanecer na casa dos pais — a se opor ao governo de Pedro Sánchez, após oito anos de esquerda institucional no poder, e a questionar suas políticas favoráveis aos proprietários de imóveis e aos fundos abutres. O movimento foi acompanhado pelo início de uma greve por tempo indeterminado no setor educacional de Madri, em 14 de outubro, enquanto a juventude impulsionou as principais centrais sindicais a convocarem uma greve geral para 11 de novembro. A Grécia agora se soma à luta, após quinze anos de apatia social, a repressão das mobilizações da década de 2010 e um ajuste massivo, levado adiante pelo governo neorreformista de Alexis Tsipras.
Por fim, a juventude é afetada, de maneira mais ampla, pela pobreza que assola toda a sociedade. A contradição entre um mercado de trabalho saturado e uma universidade de massas — que as classes dominantes tentam resolver aumentando as mensalidades, privando os estudantes de auxílios sociais ou impondo formas cada vez mais duras de seleção social ou racista — coloca em crise a visão de futuro, enquanto o empobrecimento das famílias pesa como um duplo fardo sobre a juventude trabalhadora. Após perguntar aos estudantes secundaristas sobre seu trabalho em uma “atividade formal, informal (trabalho não declarado) [ou] ilegal (por natureza, o tráfico de drogas ou a prostituição)”, o Centro de Estudos e Pesquisas sobre Qualificações apontou, em uma nota recente, que “quase um quarto dos estudantes, e quase um em cada três estudantes secundaristas do ensino profissionalizante, declara exercer uma atividade remunerada durante o ano letivo (à tarde, nos fins de semana e durante as férias escolares, exceto as férias de verão)” 4.
Por trás de todas essas manifestações de heteronomia encontra-se, em última instância, o domínio patronal sobre nossas vidas, aquele que “transforma o trabalhador em um inválido e em uma monstruosidade ao cultivar, como em uma estufa, sua destreza produtiva, ao mesmo tempo que sufoca um mundo de impulsos e talentos produtivos”, nas palavras de Marx 5. Um poder patronal que devora o tempo vivido, tornando o presente insuportável e o futuro pouco desejável. Cada privação cotidiana, cada refeição perdida, cada “risada não vivida” é uma exigência patronal que se cumpre. E, se a juventude em luta ainda não aponta os patrões como seus inimigos diretos — exceto talvez na Espanha, onde o despejo de Maricarmen evidenciou o papel da propriedade da terra no calvário de todas as gerações do país —, ela já coloca seus interesses em questão, pelo simples fato de que nela pulsa algo de uma rejeição visceral ao estado de coisas existente. E aí reside o fundamento dessas convergências incipientes com os trabalhadores, especialmente no âmbito da educação: como lembrava um professor do liceu Feyder, em Épinay: “suas condições de estudo são nossas condições de trabalho”.
Um primeiro golpe na “mentalidade de guerra”
Essa preocupação internacionalista e essa rejeição mais ampla às opções impostas por um neoliberalismo em crise já tiveram uma importante consequência estratégica: o desenvolvimento de um novo antimilitarismo em um continente que está no centro da crise do imperialismo mundial. Por um lado, a mobilização pela Palestina se traduziu, para toda uma geração, na “conquista de um conhecimento autônomo sobre as relações sociais globais” 6. O espetáculo da cumplicidade das classes dirigentes acabou por gerar suspeitas sobre suas ambições geopolíticas e, por extensão, sobre o rearmamento. A juventude estabeleceu uma primeira distinção entre amigo e inimigo: a solidariedade com um povo oprimido transformou-se em oposição aos governos cúmplices de sua opressão. Por outro lado, a vontade de mobilizar massivamente a juventude a serviço de seus interesses reacionários é inseparável de um endurecimento autoritário contínuo — que Karl Liebknecht qualificava, em sua época, como “militarismo com finalidade interna” — e de uma política de austeridade brutal que só pode entrar ainda mais em choque com as aspirações antiautoritárias dessa geração.
Desde 2014, os Estados-membros da União Europeia duplicaram seus orçamentos militares. A guerra na Ucrânia desencadeou uma profunda crise estratégica para as burguesias europeias. Após décadas à sombra do guarda-chuva militar estadunidense, as ameaças de Trump de se retirar, suas ambições sobre as possessões coloniais francesas, dinamarquesas ou britânicas e a possibilidade de que os aliados de ontem se tornem os inimigos de amanhã levaram os imperialistas europeus a trilhar o caminho de um rearmamento em ritmo acelerado. Para evitar serem marginalizadas no cenário internacional em um confronto entre Estados Unidos, Rússia e China, as classes dominantes europeias não medem esforços, como demonstra o projeto Rearm Europe da Comissão Europeia, que busca destinar cerca de 800 bilhões de euros ao rearmamento dos exércitos europeus, em benefício de grandes consórcios como Thales, Rheinmetall ou Leonardo. Na França, o aumento vertiginoso do orçamento das leis de programação militar é a expressão local de uma mesma política aplicada em todo o continente, especialmente na Alemanha, onde Merz pretende transformar a Bundeswehr no maior exército do continente.
Esse aumento dos orçamentos implica necessariamente a destruição do sistema educacional. Das ruas de Bruxelas às de Atenas, a questão da militarização volta a aparecer diariamente nas mobilizações. “Mais dinheiro para a saúde, não para os tanques”: uma simples faixa, vista na maioria das manifestações europeias, resume o senso comum antimilitarista que está surgindo entre a juventude europeia. Também na Alemanha, a juventude se mobiliza contra o rearmamento e a extrema direita. “Os ricos querem a guerra, a juventude quer um futuro”, cantavam os estudantes secundaristas em 26 de setembro passado, por ocasião da quarta greve escolar no país contra a intenção de Merz de reintroduzir gradualmente o serviço militar e a ascensão do partido Alternativa para a Alemanha (AfD), que assumiu o controle de uma região, algo inédito para a extrema direita desde 1945. A consciência de que esse avanço em direção à militarização vem acompanhado de uma guinada cada vez mais autoritária é, por sua vez, bastante explícita, enquanto, desde 2022, os dirigentes europeus multiplicam declarações como a de Josep Borrell, então alto representante da União Europeia para as Relações Exteriores: “Estamos em tempos de guerra e precisamos ter uma mentalidade de guerra”.
A radicalidade das mobilizações das últimas semanas abre, assim, uma crise estratégica para o projeto belicista das classes dominantes europeias. O governo de Giorgia Meloni é um exemplo perfeito. Ela sonhava em transformar o imperialismo italiano no elo reacionário entre a União Europeia, os Estados Unidos e Israel, que uniria um Ocidente imaginário. Isso provocou, por sua vez, uma profunda rejeição às classes dominantes italianas — cúmplices do massacre — por parte de amplos setores da juventude e das classes populares da Itália, que agora se manifestam em massa não apenas contra o genocídio em Gaza, mas também contra o rearmamento.
Do “poder ilegítimo” ao duplo poder?
Aqui chegamos à característica mais importante da subjetividade dessa geração em movimento, que se expressa em toda a sua complexidade na ideia de “pôr fim à época contemporânea”. Sem dúvida, a radicalidade expressa pela juventude em 17 de outubro, na França, sua combatividade diante da extrema direita de Meloni ou do militarismo de Merz, assim como sua determinação diante das polícias mais militarizadas da Europa, constituem uma forma de negação da “manutenção da ordem simbólica” das classes dominantes e de seus projetos de austeridade e belicismo.
Mas essa operação de “dessacralização” baseia-se, ao mesmo tempo, na afirmação de uma cultura autônoma, como aponta Samuel Hayat: “Como demonstrou Roger Chartier no caso da Revolução Francesa, o fim do Antigo Regime havia sido possível graças a um longo processo de dessacralização das autoridades tradicionais, em particular por meio de práticas de sociabilidade que escapavam ao seu controle. Tudo indica que hoje está em curso um processo semelhante. As novas tecnologias digitais estabelecem novas formas de sociabilidade e abrem a possibilidade de uma transmissão rápida e descentralizada de informações, permitindo fenômenos de imitação, ressonância e apoio, inclusive para além das fronteiras nacionais. Essas tecnologias já demonstraram, na década de 2010, seu potencial de utilização durante os levantes juvenis, assim como sua capacidade de fazer emergir uma cultura política geracional. Nela, a independência, o senso de justiça e o desejo de igualdade desempenham um papel importante, o que faz com que os jovens prestem atenção aos discursos que denunciam uma ordem estabelecida apresentada como autoritária, injusta e desigual” 7.
Seria possível ampliar a intuição de Hayat de duas maneiras. Por um lado, essa “cultura política geracional”, que agora se expressa nas ruas da Europa, assumiu a forma daquilo que poderíamos qualificar como “poder ilegítimo” N2, que já não se contenta em lembrar à burguesia seus próprios princípios ou em interpelar as “autoridades legítimas”, mas afirma a existência de valores morais e até existenciais diferentes — particularmente no que diz respeito a Gaza e à solidariedade com os povos oprimidos.
Por outro lado, sempre que se manifesta, a juventude chama a atenção por sua capacidade de sintetizar o conjunto dos traços determinantes da conjuntura atual, relacionando-os à sua experiência vivida. “Vocês armam o país e desarmam nosso futuro. Todos os gastos do Estado são destinados a despesas militares. Vocês deram à polícia permissão para matar, em vez de dar importância às nossas escolas”, analisava uma estudante secundarista de Sarcelles. Enquanto o discurso dos poderosos tenta dividir o movimento e separar as lutas, apresentando as causas das diferentes revoltas como problemas incomparáveis e absolutamente distintos, a voz dos estudantes secundaristas possui um poder de descoisificação ou desreificação, para citar o filósofo húngaro Georg Lukács. Em História e consciência de classe (1921), ele insiste que a anarquia de um modo de produção baseado na separação dos produtores privados e na divisão do trabalho, tanto na fábrica quanto na sociedade, é a causa de um processo de “reificação” da consciência, que a impede de conectar entre si os fragmentos dispersos da totalidade social para formar uma visão de conjunto. Em comparação, o discurso dos estudantes secundaristas chama a atenção por sua capacidade de apreender a profunda coerência das diferentes injustiças que sofrem e testemunha uma “vontade de saber” radicalmente oposta à da burguesia.
Essa capacidade de síntese é muito importante. Por um lado, constitui um fator subjetivo que contribui para a expansão da revolta, não apenas entre a juventude de outros países, mas também entre outros setores da população, graças à sua capacidade de formular palavras de ordem hegemônicas. No que diz respeito ao reconhecimento dos estudantes secundaristas franceses, essa capacidade já lhes permitiu conquistar o apoio democrático da maioria da população diante da brutalidade da repressão policial, enquanto a radicalidade da juventude francesa e espanhola exerceu uma pressão considerável sobre as burocracias sindicais, que finalmente decidiram convocar uma greve para 11 de novembro, na Espanha, e 5 de novembro, na França. Por outro lado, sua força criadora evidencia, de maneira negativa, o vazio moral absoluto das classes dominantes em crise, que só responderam à ira dos estudantes com cassetetes, gás lacrimogêneo e detenções.
Essa geração abriu, assim, um campo estratégico em escala europeia. Para que esse “poder ilegítimo” possa se transformar em um “contrapoder”, para que esse sistema de valores emergentes possa se constituir como uma força material diante do Estado, a auto-organização será absolutamente decisiva. É por meio da multiplicação das assembleias gerais entre estudantes secundaristas, universitários e trabalhadores que será possível dotar essa força da coerência necessária para constituir uma alternativa ao poder vigente. Isso porque o poder da propriedade privada e do grande capital não se reduz apenas aos centros de poder do regime nem aos dispositivos policiais. Não bastará retirar das classes dominantes alguns de seus privilégios ou promover uma renovação da classe política para pôr fim ao reinado desses arquitetos da heteronomia social e desses criminosos que nos roubam a vida, denunciados pela juventude.
Desse ponto de vista, as convergências emergentes entre o movimento operário e a juventude na Itália, na Espanha ou na França apontam o caminho: as jornadas de greve nacional marcarão o ritmo das mobilizações do mês de novembro e começarão a identificar o inimigo principal. Poderão desempenhar um papel fundamental diante da guinada autoritária do Estado francês e da violência da repressão na Itália e na Espanha. Mas, sobretudo, devem servir de ponto de apoio para construir a greve por tempo indeterminado em nossos respectivos países e, talvez, avançar em direção a ações internacionalistas mais ambiciosas. Ainda é muito cedo para comparar a revolta da juventude na Europa com os grandes levantes de 1848, nos quais os povos europeus se insurgiram simultaneamente. Mas talvez já seja possível evocar essa lembrança em um momento em que, assim como naquela época, certo espectro ronda o continente…