Capa: Do crepúsculo do macronismo à crise de autoridade do Estado

Do crepúsculo do macronismo à crise de autoridade do Estado

Por Juan Chingo |
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Texto publicado originalmente em espanhol no dia 24/10/2026 no Ideas de Izquierda Argentina

O último dia 17 de outubro abriu uma etapa pré-revolucionária na França. O desgaste do poder se deparou com uma ação de massas que transbordou os mecanismos habituais de contenção e colocou em dificuldades o aparato policial. A fuga securitária tenta restabelecer uma obediência rompida nas ruas. A questão é saber se essa força pode se expandir, organizar-se e conquistar a independência política necessária para disputar uma saída.

“Por que ninguém previu isso?”, perguntam-se diferentes analistas após a jornada de 17 de outubro. O desconcerto expressa a distância entre as previsões do poder e a profundidade da cólera acumulada. Aqueles que esperavam um protesto limitado depararam-se com uma mobilização massiva, cuja determinação transbordou, em diferentes lugares, os dispositivos preparados para contê-la.

A surpresa tem raízes políticas. Os governos confundiram repetidamente as derrotas das mobilizações com o desaparecimento da capacidade de se rebelar. Interpretaram o desgaste como resignação e a dificuldade de impor uma alternativa como aceitação da ordem existente.

Essa poderosa irrupção volta a revelar o quanto se acumulou sob essa aparente normalidade. Desde 2016, a França se tornou um laboratório da luta de classes. Diferentes setores experimentaram métodos de luta, enfrentaram a repressão e constataram os limites das estratégias de suas direções. O dia 17 de outubro retoma parte dessa experiência e coloca uma questão decisiva: como transformar a disposição de confrontar o poder em uma força capaz de vencer?

A entrada das massas em cena histórica

O dia 17 introduziu um elemento que transforma qualitativamente o avançado desgaste do macronismo: setores da juventude e das classes populares entraram em ação com uma amplitude de massas e uma determinação que colocaram em dificuldades a capacidade do Estado de impor a ordem.

Estamos diante de um dos sintomas que Lenin identifica em A bancarrota da II Internacional ao definir uma situação revolucionária: a intensificação extraordinária da atividade das massas, impulsionadas pela crise e pelos próprios governantes em direção a uma ação histórica independente. Lenin articula esse fenômeno com uma crise das classes dominantes e um agravamento excepcional dos sofrimentos dos oprimidos.

No caso francês, a combinação entre uma crise política prolongada por cima e essa irrupção independente por baixo permite falar da abertura de uma etapa pré-revolucionária. Seu traço distintivo é que o desgaste do poder começa a se deparar com uma força social capaz de dificultar materialmente o exercício de sua autoridade. A intervenção ainda desigual do movimento operário e a debilidade dos organismos de auto-organização deixam em aberto até que ponto essa dinâmica pode se desenvolver.

A importância da formulação de Lenin reside no fato de que ela coloca a iniciativa das massas no centro da análise. A crise política se transforma quando os setores habitualmente submetidos às decisões alheias começam a intervir diretamente sobre elas. Essa ação independente ainda não pressupõe um programa comum nem uma direção própria: expressa a conquista de uma iniciativa capaz de alterar o curso dos acontecimentos.

Samuel Hayat situa o transbordamento policial no interior de uma erosão mais profunda da autoridade estatal. O Estado precisa que suas decisões e hierarquias sejam reconhecidas como legítimas. Entre setores da juventude, essa aceitação está se enfraquecendo.

Aqueles que hoje entram em luta conheceram governos que ignoram mobilizações massivas, degradam os serviços públicos e preservam os interesses dos mais ricos. Até mesmo as sanções eleitorais parecem incapazes de modificar o rumo das políticas. A promessa de ascensão por meio do esforço escolar perde credibilidade quando os diplomas levam a perspectivas incertas.

Essa experiência coloca em questão a legitimidade do poder para exigir obediência. O escárnio e as imagens compartilhadas nas redes contribuem para corroer a distância que protege a autoridade: um poder temido passa a ser visto como algo que pode ser desafiado. Samuel Hayat, retomando os trabalhos do historiador William H. Sewell Jr. sobre a Revolução Francesa, assinala que “O fim do Antigo Regime havia sido possível graças a um longo processo de dessacralização das autoridades tradicionais, particularmente por meio de práticas sociais que escapavam ao seu controle”. E propõe uma analogia com o presente: “Tudo parece indicar que um processo semelhante está ocorrendo hoje em dia”.

A experiência de resistir juntos também modifica a percepção que os mobilizados têm de si mesmos. Constatar que é possível se reagrupar, manter a presença nas ruas e transbordar um dispositivo policial alimenta a confiança na capacidade coletiva de agir. A perda de autoridade do poder encontra, assim, seu reverso na descoberta e na ampliação de uma força própria.

Os dados do L’ObSoCo permitem situar essa disposição em um clima social mais amplo. Antes de 17 de outubro, 57% daqueles que se posicionaram sobre a questão consideravam que seriam necessárias ações militantes violentas para obrigar os responsáveis políticos a levar em conta a opinião da população. O dado não mede uma disposição pessoal para participar dessas ações, mas mostra até que ponto se dissemina a percepção de que os canais habituais são insuficientes para fazer com que a população seja ouvida.

Da perda de autoridade ao problema de impor a ordem

A noção gramsciana de crise de autoridade permite compreender como o desgaste de uma direção política pode comprometer relações mais amplas entre governantes e governados. Mas seu emprego perde força quando se limita ao descrédito dos partidos ou à queda do consentimento.

O problema francês se torna mais agudo quando esse distanciamento alimenta uma ação que dificulta materialmente o exercício do poder. As proibições encontram resistência; os dispositivos de contenção são transbordados; a recuperação do espaço público exige esforços superiores aos previstos.

Isso não significa que o aparato repressivo esteja fraturado nem que o Estado tenha perdido globalmente o controle. Existe uma diferença entre o transbordamento de uma operação policial, uma crise prolongada da manutenção da ordem e uma ruptura da coesão estatal. Confundir esses níveis levaria a exagerar a fraqueza do adversário.

No entanto, reduzir o que ocorreu a falhas técnicas seria igualmente equivocado. Quando a amplitude e a determinação de uma mobilização tornam insuficientes os meios habituais, o problema operacional expressa uma relação política: o poder encontra uma resistência social que seus mecanismos ordinários já não conseguem absorver.

As reconstituições da jornada mostram como a multiplicação dos focos de mobilização e a mobilidade dos manifestantes obrigaram a recuos policiais em diferentes cidades. A subestimação da participação combinou-se com o desgaste acumulado durante semanas de revolta nos liceus. Os erros de preparação foram importantes, mas seu alcance só pode ser compreendido em relação à força que encontraram pela frente.

O ocaso do macronismo começa, assim, a se transformar em uma crise mais ampla de autoridade. A iniciativa popular aprofunda a crise por cima e modifica sua natureza.

A fuga securitária e seus riscos

O governo busca restabelecer uma obediência que foi rompida na prática. A centralidade da resposta securitária corresponde a essa necessidade: recuperar o controle do espaço público, separar os setores mobilizados e demonstrar que desafiar suas decisões tem um custo insuportável.

A ofensiva repressiva também busca impor um critério sobre quais formas de intervenção política são legítimas. Ao reconhecer determinados interlocutores e criminalizar as iniciativas que os transbordam, o poder tenta reconduzir a mobilização a canais que possa administrar e negociar.

A repressão pode alcançar resultados. Pode intimidar e desgastar, especialmente se as organizações operárias deixarem a juventude isolada. Mas a escalada implica riscos crescentes. Se o aparato repressivo for transbordado, o poder exibirá impotência e poderá estimular novos desafios. Se multiplicar as vítimas, poderá ampliar a indignação e favorecer a entrada de setores que até então permaneciam à margem. As imagens de dezenas de jovens amontoados em condições escandalosas no centro de detenção do tribunal de Bobigny, o ataque ao direito de manifestação que Emmanuel Macron assumiu publicamente nesta semana ou o envio do Exército, do RAID, do GIGN ou da BRI para controlar as marchas neste sábado são decisões que podem se voltar contra um governo deslegitimado. O desfecho dependerá da resposta social e política que encontrar.

O ato II, em 24 de outubro, mostrou que a intimidação não havia conseguido apagar a mobilização. De Paris a Marselha, multidões percorreram as ruas. As proibições de manifestação foram desafiadas, ao menos parcialmente, em Nantes, Lyon, Bordeaux, Lille, Metz, Tours, Montpellier, Sens, Besançon, Caen, Annonay, Lorient e Le Havre. A repressão também alimenta a determinação, como resumia uma frase presente em vários cartazes parisienses: “Eu tinha medo de vir; por isso estou aqui”.

Em Paris, a mobilização massiva conviveu com um sentimento de amargura por terem sido relegados aos arredores do Periférico [via expressa que circunda Paris, N. do T.]. Essa insatisfação também pode expressar uma vontade de ir mais longe: ter se manifestado não basta quando o poder consegue manter o protesto à distância. O governo conseguiu canalizar territorialmente a marcha, mas essa contenção não equivale a ter desativado a determinação daqueles que participaram.

Além disso, a coerção exige recursos, coordenação e coesão. Sustentar um esforço extraordinário durante um período prolongado impõe tensões ao próprio aparato. Sua capacidade deve ser avaliada concretamente, sem imaginá-lo como uma reserva ilimitada de força.

O governo pode recuperar posições por meio da repressão. Mais difícil é transformar essa recuperação em uma autoridade duradoura enquanto as causas da revolta permanecerem abertas. A fuga securitária desloca e concentra as contradições que pretende encerrar.

Uma dessas contradições reside nas bases econômicas de sua política. O governo pretende recuperar o consentimento enquanto mantém uma orientação que deteriora as condições de vida e alimenta a revolta. A pressão financeira e os compromissos de redução do déficit estreitam a margem para responder às demandas sociais, ao mesmo tempo que preservam os interesses dos grandes proprietários. A exigência de ajuste entra, assim, em colisão com uma população que rejeita novos sacrifícios. O poder mantém a possibilidade de fazer concessões cosméticas, mas uma resposta substancial em matéria de educação, salários e serviços públicos exigiria enfrentar os interesses do grande capital que sua política protege.

Essa contradição permite compreender por que o esgotamento do macronismo pode comprometer algo mais amplo do que o destino de seu presidente. Seus possíveis substitutos herdariam o conflito entre as exigências das classes dominantes e as aspirações populares que a mobilização colocou em primeiro plano. Suas respostas seriam diferentes, mas teriam de resolver o mesmo problema: em quais forças sociais se apoiar e quem fazer pagar pela crise. Por isso, a troca de governo não garante, por si só, uma recomposição duradoura da autoridade estatal.

A restauração autoritária como promessa

O desgaste do macronismo pode oferecer à extrema direita uma oportunidade para se apresentar como força de recomposição da autoridade estatal. Seu argumento consiste em atribuir a crise à fraqueza do governo e prometer uma capacidade de comando que este teria perdido.

Uma saída liderada por Le Pen buscaria se apoiar nos instrumentos presidenciais, administrativos e policiais da V República, aprofundando seu conteúdo autoritário e articulando-o a uma política de exclusão nacional e racial. A promessa de ordem permitiria reunir aspirações e interesses distintos: setores proprietários preocupados com a instabilidade, frações das classes médias amedrontadas e camadas populares às quais seria oferecida uma explicação racista para sua degradação social.

Seu projeto pode ser formulado em termos de uma recomposição bonapartista: uma tentativa de reforçar o Executivo e sua autonomia em relação à sociedade, apresentando-o como árbitro e salvador de uma nação ameaçada, ao mesmo tempo que preserva as relações fundamentais de dominação.

Sua concretização exigiria reunir apoios entre as classes dominantes, construir uma base social para a reação e conter ou derrotar os setores mobilizados. A conquista eleitoral do Executivo não resolveria essas tarefas por si só.

A profundidade da crise que abre uma oportunidade para a extrema direita também pode se converter em um obstáculo à estabilização de seu governo. A demanda por autoridade não garante que exista uma força capaz de satisfazê-la duradouramente, muito menos quando a revolta atual evidencia a força do sentimento “antiextrema direita”, uma das principais preocupações presentes nas marchas ou nos bloqueios dos estudantes do ensino médio.

A canalização por meio da conciliação de classes

Por enquanto, a extrema direita aparece como a força que canaliza as expectativas do “partido da ordem”. Mas novos saltos na luta de classes e, sobretudo, a entrada decisiva do movimento operário poderiam fortalecer outra tentativa de resolução da crise: uma alternativa governamental de esquerda que canalizasse as aspirações populares para uma saída institucional.

Mélenchon poderia ocupar um lugar central nessa tentativa. Ela assumiria um caráter de frente popular caso articulasse as organizações operárias e populares com forças políticas burguesas sob uma estratégia comum de governo, subordinando a mobilização independente à preservação dessa aliança e à continuidade do Estado capitalista.

Sua força viria de uma expectativa compreensível: transformar a energia da luta em conquistas imediatas, deter a repressão e afastar aqueles que governam. Mas essa expectativa entraria em contradição com uma estratégia que, para preservar suas alianças e sua viabilidade institucional, precisaria conter a iniciativa daqueles que a impulsionaram.

A promessa de dar uma expressão política ao movimento poderia, assim, converter-se em um mecanismo para devolver a iniciativa às instituições: moderar as reivindicações para conservar apoios, suspender as greves para facilitar uma transição ou subordinar os organismos de luta ao calendário eleitoral.

Esse desfecho não é inevitável. Uma mobilização mais profunda pode fortalecer Mélenchon e, ao mesmo tempo, gerar experiências e aspirações que ultrapassem sua estratégia. A questão decisiva é se os trabalhadores e a juventude constroem e defendem seus próprios meios de deliberação, organização e ação, mantendo sua independência também diante daqueles que se apresentam como seus representantes.

Polarização e violência reacionária

A mobilização pode suscitar movimentos de reação em outros setores sociais. Os relatos sobre comerciantes que estão se preparando para defender seus estabelecimentos, alguns adquirindo armas ou meios de defesa, merecem atenção. Por enquanto, as informações disponíveis não permitem determinar o alcance geral dessas iniciativas.

O atentado racista de Trappes e La Verrière introduz uma dimensão especialmente grave. Segundo o Le Monde, o suposto autor declarou aos policiais que queria vingar os comerciantes saqueados em 17 de outubro e selecionou suas vítimas pela cor da pele. O ataque deixou uma pessoa morta e cinco feridas.

Essas declarações mostram como a reivindicação da ordem pode se converter em uma justificativa para o terror racista: pessoas escolhidas por sua aparência são tratadas como responsáveis coletivas pela desordem social. A suposta defesa dos comerciantes serve, assim, para legitimar uma represália contra populações racializadas, independentemente de qualquer participação nos acontecimentos.

A defesa privada da propriedade e a violência racista são fenômenos diferentes, cuja articulação não deve ser presumida. Mas a motivação atribuída ao agressor revela um mecanismo concreto pelo qual eles podem se conectar: a identificação racista dos responsáveis pela desordem transforma a exigência de proteger os bens em uma vontade de punir setores inteiros da população.

Esse ato de violência não demonstra, por si só, a existência de uma reação organizada. Mas concretiza um dos perigos da situação: que a criminalização da revolta e sua identificação com um inimigo interno alimentem iniciativas violentas contra setores populares e racializados. A demanda por ordem pode oferecer um terreno de convergência entre temores sociais, defesa da propriedade e projetos reacionários.

Combater essa ameaça exige unir a defesa do movimento contra a repressão à luta contra o racismo. A solidariedade organizada nos locais de trabalho, de estudo e nos bairros deve impedir que a reação isole os setores mais expostos e fragmente aqueles que compartilham condições de exploração e precariedade.

Transformar a irrupção em uma força própria: construir a greve geral a partir das assembleias e das interprofissionais

A situação apresenta uma dupla dificuldade. O poder encontra obstáculos crescentes para se fazer obedecer, enquanto aqueles que o desafiam ainda não construíram uma capacidade equivalente de decidir os rumos políticos.

A irrupção juvenil também começa a modificar a posição das direções sindicais. Em 21 de outubro, ao sair de Matignon, Sophie Binet convocou a passagem a uma nova etapa por meio da greve e da organização de assembleias nos locais de trabalho para generalizá-la em 5 de novembro e posteriormente. A CGT formalizou essa convocação em seu comunicado do dia seguinte.

Essa mudança permite medir a pressão que a mobilização exerce sobre as organizações tradicionais do movimento operário. Mas coloca uma questão decisiva: como transformar essas declarações em uma preparação efetiva da greve, sem deixar a juventude isolada até 5 de novembro? As assembleias interprofissionais podem servir, desde já, para decidir ações, organizar a solidariedade e estabelecer vínculos diretos com os jovens mobilizados.

A generalização da greve precisa ser construída durante esse intervalo. Um dos desafios é voltar a colocar em movimento setores que estiveram na vanguarda das lutas contra Macron — trabalhadores de refinarias, ferroviários e trabalhadores da RATP, trabalhadores do setor elétrico e da coleta de resíduos —, apoiando-se em sua experiência e discutindo como superar o desgaste e o ceticismo deixados pela derrota de 2023.

Outro desafio é incorporar os trabalhadores precários, cuja participação nas ruas encontra um indício nos perfis profissionais de alguns dos detidos em 17 de outubro: entregadores, cozinheiros, trabalhadores temporários… Trata-se de construir um vínculo entre essa disposição para a mobilização e a organização coletiva em seus locais de trabalho.

Preparar o dia 5 de novembro como uma verdadeira paralisação ativa exige discutir desde já sua organização: assembleias, piquetes que sustentem e ampliem a greve, visitas aos locais de trabalho e ações de convencimento nos centros estratégicos de produção, transporte, distribuição e finanças.

Em termos mais estratégicos, a entrada do movimento operário com seus próprios métodos de luta pode modificar o terreno do confronto: estendê-lo das ruas aos locais onde a riqueza é produzida e circula, incorporar setores que ainda permanecem à margem e oferecer uma referência comum a reivindicações dispersas.

A greve geral transformaria a dificuldade do poder para controlar as ruas em um confronto sobre o funcionamento do país. Como escreve Trotsky em Una vez más, ¿adónde va Francia?:

Quaisquer que sejam as palavras de ordem e o motivo pelos quais tenha surgido a greve geral, se ela realmente abranger as massas e se essas massas estiverem decididas a lutar, a greve geral colocará inevitavelmente diante de todas as classes da nação a seguinte questão: quem será o dono da casa?

Essa dinâmica não decorre automaticamente de uma jornada nacional de paralisação. Ela pressupõe um processo de extensão da greve e de entrada em ação de novos setores, como demonstrou, em suas condições históricas específicas, o encadeamento entre a revolta juvenil e a greve operária de maio de 1968. Preparar essa perspectiva exige que os trabalhadores discutam e decidam em seus locais de trabalho, articulem suas reivindicações com as da juventude e construam organismos capazes de sustentar a luta e disputar seus rumos.

As assembleias nos locais de trabalho e estudo, os delegados com mandato e os encontros interprofissionais desempenham uma função concreta nesse processo. Permitem discutir objetivos, decidir ações e construir uma autoridade que surja da própria mobilização. Também podem articular a defesa das liberdades e a luta contra o racismo às reivindicações sociais, evitando que a reação fragmente aqueles que compartilham condições de exploração e precariedade.

A luta pela liberdade dos detidos e pela anistia dos perseguidos por participarem do movimento pode se tornar um eixo comum dessa organização. Diante da tentativa de isolar e punir os setores mais expostos, a solidariedade deve se apoiar nos locais de trabalho e estudo, fazendo da defesa dos atingidos pela repressão uma responsabilidade do conjunto do movimento.

O dia 17 revelou uma força cuja tradução política permanece em aberto. Seu futuro dependerá de que a determinação demonstrada encontre formas duradouras de organização, amplie a intervenção dos trabalhadores e conquiste independência política. A crise de autoridade abre uma possibilidade: transformar a capacidade de contestar o poder em uma força dos explorados capaz de disputar os rumos da sociedade.