Imagem de capa do artigo

A IA não pode parar: a disputa por trás do "Apocalipse"

21.09.2026

Os gigantes da IA alertam sobre os perigos de uma tecnologia fora de controle. Mas por trás do apelo para desacelerar trava-se outra batalha: Anthropic, Nvidia e Palantir disputam o futuro da indústria enquanto Estados Unidos e China competem por uma supremacia tecnológica que nenhum dos dois pode se dar ao luxo de abandonar.

Algo estranho está acontecendo no topo da indústria tecnológica norte-americana. Os mesmos empresários que competem para construir a inteligência artificial mais poderosa do mundo advertem agora que o desenvolvimento avança rápido demais.

Dario Amodei, CEO da Anthropic, propôs reduzir o ritmo em que aumentam as capacidades dos modelos de fronteira. Sam Altman, Elon Musk e Demis Hassabis apoiaram, com diferentes matizes, a necessidade de introduzir maiores mecanismos de segurança. O debate se espalhou rapidamente do Vale do Silício para Washington e, de lá, para Pequim.

Os problemas são reais. Sistemas capazes de atuar com graus crescentes de autonomia, multiplicar enormemente as capacidades ofensivas em matéria cibernética, ajudar a desenvolver agentes biológicos perigosos ou adquirir formas ainda embrionárias de autoaprendizado levantam interrogações que até poucos anos atrás pertenciam à ficção científica.

Em artigos e entrevistas recentes, Paula Bach abordou os problemas políticos e filosóficos levantados por essas possibilidades e a veracidade das afirmações apocalípticas dos grandes empresários das Big Techs. Não voltaremos aqui a esse debate.

Nos interessa outro problema que a polêmica das últimas semanas deixou particularmente exposto: a geopolítica e a economia política da inteligência artificial. Porque por trás da discussão sobre como evitar uma IA fora de controle desenvolve-se uma batalha muito mais imediata e perfeitamente humana: entre Estados Unidos e China pela supremacia tecnológica, mas também entre os próprios gigantes norte-americanos para determinar quem controlará a infraestrutura fundamental do novo capitalismo digital.

O dilema impossível: desacelerar sem perder

A proposta de desacelerar contém desde o início uma contradição. Nenhum de seus promotores propõe parar o desenvolvimento da inteligência artificial. “Reduzir o ritmo” significa introduzir avaliadores independentes, controles sobre os modelos mais avançados e, eventualmente, acordos entre empresas e Estados para impedir que a competição obrigue cada laboratório a lançar sistemas cada vez mais poderosos antes de compreender plenamente suas capacidades.

A dificuldade surge imediatamente. O próprio Amodei reconhece que este é “o dilema mais difícil”. Os incentivos econômicos para se manter na fronteira são gigantescos e a eles se soma a possibilidade de obter uma vantagem militar decisiva. Por isso propõe tentar negociar com a China algum tipo de “limite de velocidade” comum, mesmo admitindo que provavelmente seja extremamente difícil consegui-lo.

A paradoxo começa a se revelar: todos podem ter razões para temer as consequências da corrida, mas nenhum pode se dar ao luxo de ser o primeiro a abandoná-la.

Não existe uma única Big Tech

Mas há outro problema que costuma ficar oculto quando se fala genericamente do poder das “Big Techs”. As grandes empresas de tecnologia norte-americanas não constituem um bloco homogêneo. Têm interesses comuns diante do restante da economia, uma enorme capacidade de influenciar Washington e um interesse geral em preservar a supremacia tecnológica estadunidense. No entanto, ocupam posições diferentes dentro da cadeia de valor da inteligência artificial. De certa forma, a discussão sobre a segurança está trazendo à tona uma verdadeira batalha dentro do capitalismo tecnológico norte-americano.

Anthropic: regular a fronteira

A Anthropic ocupa uma posição singular. Sua hipótese estratégica é que os modelos mais avançados podem adquirir capacidades extraordinariamente superiores às atuais e que um pequeno número de laboratórios capazes de chegar a essa fronteira poderia concentrar um poder econômico sem precedentes. Nesse quadro, sua política de segurança coincide com um interesse empresarial muito concreto: introduzir avaliadores permanentes, estabelecer protocolos de segurança custosos e determinar quais empresas estão autorizadas a treinar os modelos mais avançados pode reduzir determinados riscos, mas também pode erguer uma barreira de entrada formidável.

As companhias que hoje estão na fronteira possuem bilhões de dólares, acesso privilegiado à capacidade de processamento e exércitos de pesquisadores. Uma empresa que pretenda alcançá-las teria que dispor não apenas de capital suficiente para treinar seus modelos, mas também para satisfazer toda uma arquitetura regulatória desenhada ao redor das características daqueles que já dominam o mercado. Em outras palavras, uma regulação destinada a reduzir os riscos pode ter também outro efeito: proteger o oligopólio de seus futuros concorrentes.

Nvidia, o centro do ecossistema

A Nvidia não é apenas mais um ator dentro dessa disputa: ocupa um dos pontos neurálgicos sobre os quais se ergue praticamente todo o ecossistema da inteligência artificial.

OpenAI, Anthropic, Google e os desenvolvedores de modelos abertos podem competir ferozmente entre si, mas todos precisam de uma capacidade de processamento que continua dependendo em grande medida dos chips e da infraestrutura da Nvidia. Seu negócio não consiste, portanto, em fazer com que um modelo se imponha sobre todos os outros. Pelo contrário: quanto mais modelos, aplicações, centros de dados e empresas utilizarem inteligência artificial, maior será o mercado que alimenta a Nvidia.

Daí a sua defesa dos modelos de pesos abertos e a sua resistência a uma regulação que possa restringir sua proliferação. Recentemente, Jensen Huang voltou a deixar clara a sua posição: considera que a segurança é fundamentalmente um problema de engenharia e que não são necessárias novas leis específicas para regular a IA.

Por trás dessa posição, a Nvidia tenta fortalecer as dependências que atravessam os diferentes níveis da cadeia de valor para preservar sua posição central e aumentar seu poder de barganha. Não precisa controlar diretamente os modelos se uma parte decisiva daqueles que os desenvolvem depende de sua infraestrutura.

Por isso o confronto com a Anthropic é estrutural. A Anthropic imagina um futuro no qual um pequeno número de modelos extremamente poderosos concentre uma parcela extraordinária do mercado e exige uma regulação estrita da fronteira. A Nvidia precisa exatamente do contrário: um ecossistema em expansão permanente no qual modelos fechados e abertos, gigantes tecnológicas, pequenas empresas, universidades e Estados continuem demandando quantidades crescentes de capacidade de processamento.

Thiel e Palantir: acelerar contra a China

Mas a Anthropic encontra outra oposição dentro do capitalismo tecnológico estadunidense, vinda de um lugar diferente. Peter Thiel e a Palantir compartilham com Amodei uma visão extremamente hostil da ascensão tecnológica chinesa. O que os separa não é a importância da competição com Pequim, mas o que fazer diante dela.

Para Thiel, a regulação tecnológica contém um perigo próprio. Seu imaginário político e religioso singular apresenta recorrentemente a promessa de “segurança” como o possível argumento pelo qual um poder centralizado pode impor a estagnação. Transposto para a atual disputa sobre a IA, o raciocínio conduz a uma conclusão oposta à da Anthropic: desacelerar as empresas americanas pode acabar acelerando relativamente a China.

A Palantir tem, além disso, uma posição específica dentro do ecossistema. Sua relação com a IA passa em grande medida pela defesa, inteligência e incorporação dessas tecnologias ao aparelho estatal e militar norte-americano. Não olha para a corrida principalmente a partir da possibilidade de controlar o mercado de modelos nem da venda de chips, mas da capacidade de transformar a superioridade tecnológica em poder estratégico e militar.

As fronteiras entre esses campos tampouco são absolutas. A Palantir, por exemplo, participou junto com a Nvidia, Microsoft e outras empresas da coalizão de julho em defesa dos modelos de pesos abertos. E as companhias continuam colaborando comercialmente mesmo enquanto discordam sobre a orientação geral da indústria.

O importante é que, por trás da discussão aparentemente comum sobre “a segurança da IA”, começam a aparecer estratégias empresariais diferentes. A Nvidia e a Palantir podem concordar contra a desaceleração, mas não partem do mesmo interesse: para a Nvidia, trata-se de ampliar o ecossistema do qual ocupa o centro; para a Palantir, de transformar a aceleração tecnológica em superioridade estratégica e militar diante da China.

O problema chinês divide o Vale do Silício

Esta divisão se torna ainda mais clara diante da China. Durante anos, Washington tentou frear o desenvolvimento tecnológico chinês restringindo seu acesso aos semicondutores mais avançados: se a China não pudesse acessar os chips necessários para treinar modelos de fronteira, os Estados Unidos poderiam conservar uma vantagem tecnológica decisiva. Amodei continua defendendo esta orientação e exigiu manter as restrições sobre os chips e sobre os equipamentos necessários para fabricá-los.

Mas esta política contém sua própria contradição. Jensen Huang vem alertando que excluir a China do ecossistema tecnológico norte-americano pode acabar acelerando precisamente aquilo que Washington quer evitar. Se as empresas chinesas não puderem comprar tecnologia norte-americana, terão um incentivo extraordinário para substituí-la.

Daí a posição aparentemente paradoxal da Nvidia: conservar certo grau de dependência chinesa em relação à tecnologia norte-americana pode ser mais útil do que tentar uma separação absoluta. E por trás do argumento estratégico existe, novamente, um interesse empresarial evidente: a China continua sendo um enorme mercado potencial para a Nvidia.

A disputa sobre os modelos abertos leva a divergência ainda mais longe. Huang defendeu inclusive o direito das empresas norte-americanas de utilizar modelos abertos chineses, enfrentando assim aqueles que consideram que sua difusão constitui uma ameaça à supremacia tecnológica dos Estados Unidos.

Thiel e Palantir chegam ao conflito com a Anthropic pelo caminho oposto. Não querem preservar a integração tecnológica com a China: consideram a ascensão chinesa uma ameaça estratégica. Mas precisamente por isso rejeitam uma desaceleração norte-americana que, sob sua perspectiva, poderia dar tempo ao adversário.

O paradoxo é notável. Nvidia e Palantir podem coincidir ao se opor a uma regulação restritiva da IA e, ao mesmo tempo, fazê-lo por razões quase opostas. A Anthropic ocupa uma terceira posição: combinar regulação dos modelos de fronteira com restrições tecnológicas destinadas a preservar a vantagem norte-americana sobre Pequim.

A disputa deixa de ser, assim, simplesmente entre aqueles que querem “regular” e os que querem “desregular”. É uma briga entre diferentes estratégias para organizar a supremacia tecnológica norte-americana, determinadas por sua vez pelo lugar que cada fração do capital ocupa dentro do novo complexo da inteligência artificial.

A China não quer congelar a corrida

No âmbito tecnológico, os Estados Unidos continuam sendo, por enquanto, a única “superpotência do capital”, como reconheceu há alguns meses na Europa o próprio Joe Tsai, presidente executivo e cofundador do Alibaba, que identificou nas restrições de financiamento e na profundidade financeira a principal desvantagem da China frente ao sistema norte-americano.

Mas Pequim possui outras cartas: uma enorme base industrial, capacidade estatal para concentrar recursos em setores estratégicos, gigantescas empresas tecnológicas, abundância de engenheiros e uma posição dominante em numerosas cadeias de suprimento de minerais críticos.

A batalha pela inteligência artificial é, por isso, muito mais do que uma competição entre ChatGPT e DeepSeek ou entre Claude e Kimi. É uma briga pelo conjunto da cadeia de valor. A IA precisa de chips, mas os chips precisam de energia; os centros de dados precisam de redes elétricas; os modelos precisam de centros de dados e as aplicações precisam de modelos. Quem controla um desses elos pode utilizar essa posição para negociar, pressionar ou condicionar aqueles que dependem dele.

O objetivo chinês não consiste, então, simplesmente em alcançar os Estados Unidos na corrida pelo modelo mais avançado. Consiste em reduzir progressivamente as dependências que permitiriam a Washington bloquear seu desenvolvimento tecnológico: semicondutores, software, capacidade de processamento, infraestrutura e, finalmente, modelos e aplicações próprios.

Nesse quadro, a reação chinesa ao alarme norte-americano resulta particularmente reveladora. Pequim não nega que existam riscos, mas estabelece outra hierarquia de prioridades. O desenvolvimento tecnológico vem primeiro; depois, a segurança. E os riscos fundamentais são definidos menos em termos de extinção humana do que de segurança política, cibersegurança, espionagem, dependência tecnológica e guerra.

Isso não significa que os órgãos técnicos chineses ignorem os perigos derivados do próprio desenvolvimento dos modelos. Alertaram sobre a auto-melhoria recursiva, a possibilidade de a evolução dos sistemas superar a capacidade humana de previsão e inclusive sobre modelos capazes de enganar quem os utiliza. Mas quando o problema passa para o terreno político, a questão central muda: como impedir que os riscos da IA se tornem um argumento para frear o desenvolvimento tecnológico chinês.

Para Pequim, um dos perigos centrais da inteligência artificial é precisamente o monopólio tecnológico dos países avançados e a utilização dos controles de exportação para impedir que a China acesse as tecnologias de fronteira. Por isso sua resposta aponta a reforçar sua autonomia em semicondutores e software, mobilizando recursos estatais, centros de pesquisa e empresas ao redor desses objetivos.

A partir dessa perspectiva, a proposta norte-americana de “desacelerar” adquire um significado completamente diferente. O que do Vale do Silício pode se apresentar como uma resposta a um perigo universal, de Pequim pode ser lido como um convite para congelar a hierarquia tecnológica mundial no momento exato em que os Estados Unidos ainda se encontram à frente.

Uma trégua dentro da corrida

Mas aqui surge o paradoxo mais interessante. Estados Unidos e China podem desconfiar profundamente um do outro e, no entanto, descobrir que existem riscos que nenhum dos dois pode controlar unilateralmente. Uma arma biológica desenvolvida com ajuda da IA não respeitaria fronteiras. Um sistema automatizado que desencadeie acidentalmente uma escalada militar pode prejudicar tanto Washington quanto Pequim. Daí uma ideia que há poucos anos teria parecido improvável: algum tipo de negociação entre Estados Unidos e China sobre os limites da corrida.

A analogia com o controle de armamentos durante a Guerra Fria surge inevitavelmente, embora não porque a inteligência artificial seja equivalente às armas nucleares nem porque Washington e Pequim estejam perto de estabelecer um regime comparável. As grandes potências negociaram limites nucleares não porque sua rivalidade tivesse desaparecido, mas porque essa mesma rivalidade havia produzido forças destrutivas que ameaçavam a ambas.

Mas há uma diferença fundamental: qualquer tentativa de cooperação sobre a IA nasce no meio de uma competição tecnológica, econômica e militar cada vez mais profunda. Amodei reconhece isso quando sustenta que qualquer acordo deve permitir ganhar tempo “sem sacrificar a vantagem comercial nem a liderança norte-americana”. A fórmula condensa toda a contradição: desacelerar, mas mantendo a vantagem; negociar com a China, mas impedindo que a China alcance os Estados Unidos.

A resposta de Trump leva essa lógica até suas últimas consequências. Diante dos alertas dos grandes laboratórios, rejeitou a ideia de desacelerar e resumiu sua posição em uma fórmula brutalmente simples: “quem ganha com a IA, ganha”. Para Trump, o maior perigo não é os Estados Unidos avançarem rápido demais, mas sim que qualquer limite permita à China avançar mais rápido do que os Estados Unidos.

Nisso sua posição converge parcialmente, embora por razões diferentes, com a de Thiel e Palantir: a supremacia tecnológica aparece como uma dimensão decisiva da competição estratégica com a China. A discussão sobre a segurança da IA deságua, assim, em um problema que já não pode ser resolvido dentro do Vale do Silício. Quem decide a velocidade de desenvolvimento da inteligência artificial se tornou uma questão de poder entre Estados.

E isso torna particularmente significativa a próxima reunião entre Trump e Xi. Os dois governos podem encontrar um interesse comum em impedir determinados usos da IA ou evitar mecanismos automáticos de escalada que nenhum dos dois possa controlar. Mas qualquer acordo estará atravessado por uma contradição elementar: os Estados Unidos querem limitar os riscos sem renunciar à sua vantagem; a China quer limitar os riscos sem aceitar que essa regulação congele a atual vantagem tecnológica norte-americana. A cooperação, se existir, será uma cooperação dentro da competição.

Aí surge talvez o verdadeiro problema que esta polêmica deixa a descoberto. A competição entre capitais empurra a corrida para a frente; a competição entre Estados a transforma em uma questão de poder mundial.

Por isso o grande paradoxo da inteligência artificial talvez não deva ser buscado somente em um futuro dominado por máquinas que escapem ao controle humano. Já está diante de nós: as duas principais potências do planeta começam a discutir como impor limites a uma corrida que, pelas mesmas razões econômicas e geopolíticas que as enfrentam, nenhuma das duas pode se dar ao luxo de abandonar.