Capa: Debate na França: Dirigir o movimento é domesticá-lo?

Debate na França: Dirigir o movimento é domesticá-lo?

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 Este artigo foi publicado originalmente em francês na revista Armes de la Critique, parte da rede internacional La Izquierda Diario na França.

O movimento surgido a partir do “Outubro Francês” se choca, por um lado, com as mediações da esquerda institucional e seus aparatos, diante dos quais é preciso desenvolver a auto-organização. Mas, por outro lado, também surge, entre setores da revolta, uma visão que reivindica a pura espontaneidade em si mesma. Nesse último sentido, Alessandro Stella, no site Lundi matin, contrapõe a “auto-organização” à “organização dirigente”. Aqui, propomos que é possível sustentar outra visão.

Em seu artigo de 15 de outubro, uma das (muito) poucas contribuições teórico-estratégicas ao movimento atual N1, Stella aponta um dos perigos políticos que a “juventude revolucionária” enfrenta em pleno “renascimento”: o ressurgimento de movimentos ou organizações que, em particular, exaltam a figura de dirigentes que “personalizam a luta” e desempenham um papel fundamental — sob o pretexto de apoiar ou se comprometer com a luta — nos esforços do Estado para “capturar a fera selvagem e domesticá-la”. Esse perigo existe e compartilhamos essa preocupação. Mas, dado que nos menciona como parte desse problema, ao nomear nosso porta-voz e candidato à presidência, Anasse Kazib, queremos responder retomando uma série de debates que atravessam a extrema esquerda desde 2016. Em particular, sobre a relação entre, por um lado, a auto-organização, isto é, a capacidade da classe de dotar-se de seus próprios quadros para organizar, da maneira mais ampla possível e a partir da base, a mobilização autônoma diante do Estado e da burguesia, e, por outro, o papel das organizações revolucionárias.

Ao contrapor a ideia de “organização dirigente” à de auto-organização, Stella recorre a um clichê tão “clássico” quanto caricatural, mas, sobretudo, evita o problema central, que, no entanto, mereceria toda a nossa atenção: em que condições a mobilização em curso, que deu uma guinada importante desde 17 de outubro, pode esclarecer seus objetivos e fortalecer os métodos para alcançá-los?

Horizontal, vertical?

Comecemos sintetizando a visão de auto-organização proposta por Stella: ela deve ser “horizontal, local, difusa”; trata-se de “multiplicar os vínculos horizontais, as interconexões, a coordenação dos grupos auto-organizados”, de “dar livre curso à disseminação territorial das lutas”. Isso se opõe a toda “centralização”, por definição “hierárquica” e “piramidal”, e a toda “convergência”, equiparada a uma “canalização” dos movimentos em direção a um “programa único que sintetizaria os conflitos e as esperanças”. Na origem dessa concepção encontra-se um princípio de igualdade radical e de indiferenciação que Stella formula da seguinte maneira: “Para estar dentro, para participar verdadeiramente desde dentro, é preciso colocar-se no mesmo plano, no mesmo nível que os demais, sem diferenciações. Os Coletes Amarelos entenderam isso bem e promoveram essa ideia: com o colete amarelo, todos são iguais, em pé de igualdade, independentemente da profissão que exerçam, da idade ou da maneira como se vestem. Com um colete amarelo, um corta-vento preto ou outra peça de roupa que oculte a identidade, o princípio fundamental é que a luta é coletiva, que todos são iguais, sem qualquer distinção ou hierarquia. Cada um participa do movimento de acordo com suas capacidades e possibilidades. Sem dirigentes, sem pessoas que queiram sê-lo, uma auto-organização horizontal, local e difusa”.

Devemos deduzir disso que os Homens-Aranha e os Batmans que se multiplicaram nas batalhas em torno dos lycées e diante das escolas secundárias bloqueadas são “dirigentes em potencial”? Stella retoma aqui uma concepção compartilhada no movimento autônomo, segundo a qual toda manifestação que transgrida o anonimato deve ser proscrita: nada de faixas, adesivos e bandeiras das “organizações dirigentes” (isto é, aquelas que buscam exercer poder sobre os demais), cujas ambições seriam, por definição, de apropriação. A alternativa formulada por Stella é, portanto, simples: se alguém não é favorável à “auto-organização horizontal”, é porque defende a “organização dirigente”, piramidal-hierárquica, e apoia a criação de “líderes” que “personalizam a luta” e se preparam para despojá-la de sua essência. Louis Boyard seria uma espécie de reedição de Cohn-Bendit, prefigurando uma multidão de “traidores” e novos arrivistas que um dia acabarão como deputados, senadores e afins N2.

E não haveria nada além desses dois termos da alternativa? É o que parece, se acreditarmos em Stella, que insiste em enxergar o mundo em preto e branco: qualquer organização que não seja um simples efeito do fluxo dos anônimos é necessariamente uma “organização dirigente”. “Se os estudantes secundaristas, assim como os universitários e os trabalhadores que se rebelam, têm plena consciência de que, para levar adiante uma luta, é preciso se organizar e dotar-se dos meios para continuá-la, por que seria necessária uma organização centralizada? Por que aqueles que se rebelam contra o sistema capitalista deveriam construir uma pirâmide, reproduzindo o funcionamento hierárquico que rejeitam?”

É fácil compartilhar com Stella certas críticas à estratégia política de uma organização como a França Insubmissa (LFI), ao mesmo tempo que a apoiamos diante da repressão e das escandalosas ameaças de dissolução, como sempre fizemos. Nessa estratégia, que se apoia em um “povo” que seria um reservatório de votos, cuja constituição como sujeito político culmina no plebiscito eleitoral de um líder que supostamente cristaliza todas as suas aspirações, a auto-organização das mobilizações ocupa um lugar secundário, chegando mesmo a competir com ela. A forma de composição, em série, do eleitorado difere qualitativamente da fusão de uma força social que age por si mesma [A esse respeito, sobre “série” e “fusão”, ver Emmanuel Barot, “França: Soviets, séries e fusões. Reflexões sobre a auto-organização”.], a única capaz de construir uma correlação de forças contra Macron e seu entorno. Como observou Sartre após o “tsunami” que consagrou De Gaulle nas eleições legislativas antecipadas de junho de 1968: “Os trabalhadores ou os membros das classes médias só podem assumir posições radicais na ação; se cometermos o erro — ou tivermos a astúcia — de reduzir seu movimento a uma escolha entre aparatos políticos, podemos levá-los a condenar nas urnas aquilo que acabaram de fazer nas ruas” 1.

Mélenchon tem presente esse trauma de 1968 N3, daí seu distanciamento de “saques e destruição” e a postura de salvador da instituição presidencial que adota em seu discurso mais recente N4, apresentando o serviço de ordem N5 da LFI como um paliativo diante da incapacidade das forças de segurança pública. A formação do eleitorado leva ao sacrifício da unidade do movimento.

O mesmo ocorre com as críticas contundentes que Stella dirige às burocracias sindicais. Embora sua mudança de rumo após 17 de outubro constitua uma brecha que precisa ser aproveitada, ela se explica tanto pelas pressões da base quanto pela necessidade de recuperar sua credibilidade como direções oficiais do movimento operário após aquele dia de superação. Mas seria possível reduzir o impasse da estratégia de “revolução cidadã” da LFI ou as tentativas das direções sindicais de retomar o controle a uma mera ambição de se impor como líderes, verticalizando o movimento? Seria realmente possível dar conta do que está em jogo aqui por meio da dicotomia vertical/horizontal?

Pelo contrário, poderíamos argumentar que a LFI não aspira a “dirigir” a revolta em curso: o “movimento fluido” ou “difuso” (mouvement gazeux), como o próprio Mélenchon caracterizou sua organização política em contraposição aos “partidos tradicionais”, não tem nem a capacidade N6 nem a ambição para isso. Seu desafio é, antes, negociar sua difícil tradução nas urnas, ainda que, para tanto, precise oferecer garantias ao regime, demonstrando sua capacidade de reconstruir um Estado integral em ruínas N7. A equivalência entre “verticalidade” e “canalização institucional”, que constitui, no fundo, o argumento central do artigo de Stella, condensa em uma única dimensão geométrica (vertical, portanto) a pluralidade de formas políticas que as tentativas de canalização por parte do Estado integral podem assumir.

O voto de parte dos militantes autonomistas a favor da Nova Frente Popular nas eleições legislativas antecipadas de 2024 — que se repetirá em 2027 em nome de uma lógica do “mal menor” N8 — demonstra, por outro lado, que essa simplificação geométrica não demora a transformar em complementares as duas dimensões às quais reduz o problema N9.

A auto-organização é uma batalha

Embora, tomado ao pé da letra, Stella reconheça a necessidade de “organizar-se”, ele não deixa de reproduzir, sem grande esforço de renovação, um debate que já era obsoleto desde o século XIX: o debate entre “espontaneidade” e “organização” N10. Embora o risco de uma reificação ou coisificação das estruturas organizativas seja sempre possível, e embora uma coordenação em grande escala dos focos de luta implique, por definição, possibilidades de apropriação antidemocrática, é preciso destacar, como assinalou Stathis Kouvélakis em sua análise do movimento dos Coletes Amarelos, que “contrariamente a uma visão muito difundida, mas perfeitamente enganosa, a reivindicação de ‘democracia direta’ e a ‘horizontalidade’ atribuídas a certos modos de ação ou às redes sociais não se opõem de maneira alguma ao surgimento de líderes populistas”. De fato, “ao contrário de certas percepções ingênuas, nomes e ‘figuras’ surgiram rapidamente daquele oceano de ‘horizontalidade’ e de rejeição à representação” 2.

Embora toda estrutura organizada gere uma tensão entre a dinâmica da base e as possíveis formas de enrijecimento — das quais a própria auto-organização também não está livre —, a ausência ou a rejeição de uma organização consciente desses riscos facilita ainda mais esse tipo de “cesarismo” e o surgimento de formas de burocracias internas. Sem a auto-organização das massas em luta, isto é, sem instrumentos nem espaços nos quais aqueles que lutam possam debater a orientação a seguir, as reivindicações a apresentar e os métodos de ação a adotar, não é possível conceber nenhuma estratégia revolucionária.

Por definição, existem atritos, tendências e divergências que refletem a heterogeneidade daqueles que estão envolvidos na luta. Os revolucionários que dela participam têm, assim como os demais, a tarefa de fomentar a autoatividade da classe que se expressa; têm toda a legitimidade para propor aquilo que consideram a política mais justa, ao mesmo tempo que são obrigados a demonstrar sua utilidade. Esses espaços de auto-organização — sejam chamados de comitês (de greve, de luta, de coordenação, de mobilização etc.), assembleias gerais, conselhos ou outros — nas escolas secundárias, universidades, empresas, bairros etc. são, justamente porque encarnam a forma mais flexível e democrática de tomada de decisões em escala mais ampla, os únicos meios de evitar, por meio do controle permanente dos delegados que eles próprios elegem, que alguém se autoproclame “líder”, “dirigente” ou qualquer outro título. São também a única forma de forjar objetivos comuns de luta. Esses espaços são os únicos, sem um programa preestabelecido, nos quais todas as tendências e sensibilidades podem se expressar e disputar democraticamente a “direção” do movimento — isto é, sua orientação.

Hoje, o surgimento desse tipo de estrutura só pode ser resultado de uma luta para consolidar geograficamente, ao longo do tempo e entre os diferentes setores sociais em ação, os elementos de auto-organização que se desenvolveram espontaneamente no movimento N11. Uma luta contra o governo e, evidentemente, contra as direções das escolas secundárias e das universidades, que fecham administrativamente os estabelecimentos para impedir que os estudantes secundaristas e universitários os utilizem para se organizar. Mas também contra forças políticas — por enquanto, sobretudo no movimento estudantil — que militam ativamente contra isso.

A União Estudantil, por exemplo, em consonância com a estratégia de Jean-Luc Mélenchon — de quem é a representação no movimento estudantil —, menospreza as Assembleias Gerais e procura retirar do debate coletivo a definição da agenda e dos planos do movimento, a fim de impor unilateralmente suas próprias datas e itinerários. Nesse sentido, desempenha um papel semelhante ao das burocracias sindicais, mas dentro do movimento estudantil. Por outro lado, e sem desempenhar um papel burocrático tão consolidado, a Federação Sindical Estudantil (FSE) N12 contorna as decisões das assembleias gerais — por vezes massivas — das quais participa, para realizar por conta própria ações de confronto de grande impacto, que unificam sua base em busca de emoções fortes, em vez de procurar alcançar a vitória. Ambas, por sua vez, às vezes participam das reuniões de negociação com o Ministério da Educação, como ocorreu em 7 de outubro passado.

Por fim, diversos “grupos de afinidade” informais, que se reivindicam autônomos ou libertários, diante das dificuldades impostas pela dimensão fortemente política N13 e pela magnitude do movimento, aplicam ao pé da letra, nas assembleias gerais, a orientação proposta por Stella, lutando o tempo todo contra adesivos, bandeiras e outras fotografias (embora as imagens do movimento não sejam alheias à sua expansão), para depois eles próprios não respeitarem as decisões ali votadas.

Os adversários da auto-organização contam com suas “organizações dirigentes”, formais ou informais, estatais ou não, que exercem influência sobre o movimento. A menos que se rendam imediatamente, por que seus defensores deveriam abrir mão de uma estruturação, de uma força material organizada que fortaleça a luta pela auto-organização e procure elevá-la a um novo patamar? Em todo caso, essa é a lógica que impulsiona a Révolution Permanente e a organização juvenil Le Poing Levé no interior do movimento.

Querer lutar contra essas negações da auto-organização por meio da exaltação de um horizontalismo abstrato equivale a abandonar a batalha antes mesmo de travá-la. Os adversários da auto-organização não são sensíveis a esse tipo de discurso: eles agem, organizados. Em suma, essa abordagem equivale a fundir-se com o existente, fetichizando-o. O existente aparece, assim, como o limite objetivo do possível, sem que seja concebível superá-lo. Trata-se de um modelo que, na prática, não permite nenhuma intervenção política, a não ser aproveitar, enquanto durar, a perturbação da vida cotidiana degradante que nos é imposta.

Essa abordagem parece obsoleta à luz dos primeiros balanços de 17 de outubro. Uma vertigem tomou conta daqueles que participaram da transbordante e inédita superação do dispositivo policial: e agora? Sem uma luta decidida para estruturar e consolidar, nos locais de trabalho e de estudo, a auto-organização em escala nacional — o que implica não exaltá-la nem celebrá-la como algo que sempre esteve presente, mas construí-la, lutando contra aqueles que não têm interesse em seu surgimento —, não será possível esboçar nenhuma resposta à altura do problema.

Funcionou?

Essa limitação do campo das possibilidades por meio da celebração do dado tal como ele é também se manifesta, no caso de Stella, na ausência de discussões sobre os objetivos. Certamente, ele destaca, com razão, a dinâmica de propagação da revolta estudantil: “Uma forma de ação que se espalhou por toda a França em poucos dias e se impôs na atualidade. Com pouquíssimos recursos, de boca em boca, de grupo em grupo, por meio de círculos de afinidade e, depois, pelas redes sociais”. Com isso, conclui: “É a auto-organização dos tempos modernos [...] e funcionou”.

Mas o que exatamente “funcionou”? As reivindicações dos estudantes secundaristas foram atendidas? O mundo que eles condenam desapareceu? O genocídio em Gaza terminou? A crise ecológica foi resolvida? O capitalismo finalmente se tornou coisa do passado?

“É a multiplicação dos espaços de ação, enraizados em territórios conhecidos, baseados em solidariedades e cumplicidades locais, que faz tremer os poderes”, afirma também. No entanto, a multiplicação das zonas de ação não é suficiente, por si só, para fazer tremer os poderes: na melhor das hipóteses, ela lhes complica a vida, às vezes de maneira bastante significativa. A irrupção política da juventude popular 3 contrasta com a estagnação e o ceticismo reinantes na esquerda, o que gera uma alegria legítima e compartilhada. Mas isso não deve se transformar em cegueira. Se os estudantes secundaristas fizeram o poder tremer, foi sobretudo graças ao potencial contido em sua luta, ao poder de contágio que ela representa, à sua capacidade de condensar as aspirações de amplos setores da sociedade. É por isso que a repressão foi tão feroz e sistemática. Era preciso cortar pela raiz a possibilidade política colocada por uma revolta como essa: sua aliança, sua fusão, sua coordenação com a incorporação à luta de todas as frações da sociedade que têm interesse em sua transformação radical.

Por definição, o poder teme aquilo que tem força para derrubá-lo. Ora, somente a unificação, em escala nacional, de todos os setores explorados, oprimidos e alienados, por meio da greve e da ocupação das ruas, pode abalar um Estado capitalista. A primeira, ao paralisar o funcionamento normal das relações capitalistas e colocar a questão do poder no nível dos locais de trabalho; a segunda, ao desorganizar e paralisar as forças de repressão. Somente nesse momento a pergunta se esclarece: e agora? O que faz a diferença, então, é o grau de “profissionalismo”, de eficácia, de capacidade para lidar com a emergência e pensar o movimento em prazos mais longos; para se defender, mas também passar à ofensiva; para se coordenar eficazmente em um nível pelo menos equivalente ao de todos os aparatos ideológicos, policiais, militares e do Estado-Capital, em todos os níveis — local, regional, nacional e, em última instância, internacional — de que as massas são capazes, essas massas que então irrompem na cena da história. Nesse processo, um partido organicamente vinculado ao movimento, organizado, decidido a levar a luta até o fim, forjado na experiência das lutas anteriores e enraizado nos setores estratégicos da produção não é algo supérfluo.

Que Stella fique tranquilo: os revolucionários não pretendem impor a ditadura de seu partido sobre a mobilização. Como escrevem Emilio Albamonte e Matías Maiello: “Todo partido revolucionário, para sê-lo, precisa conquistar o direito à liderança na ação, junto à vanguarda e por meio da experiência comum com a classe” 4. Em outras palavras, não existe partido revolucionário que não seja reconhecido e constantemente posto à prova pelos acontecimentos. Supor que as organizações revolucionárias independentes disponham de um poder de instrumentalização praticamente subtraído ao escrutínio público equivale a negar a inteligência coletiva, a capacidade de discernimento e o aprendizado cumulativo dos setores mobilizados.

A jornada de 17 de outubro fez o poder tremer apenas parcialmente, mas o espinho cravado está penetrando cada vez mais fundo. O “Grande Rechaço” dos estudantes secundaristas desempenhou claramente o papel que os partidos da Ordem queriam impedir: o de detonador capaz de polarizar a ira a ponto de tornar possível o início de sua unificação nas ruas.

Mais uma vez sobre a antipolítica

Apesar da variedade de preferências e cores que os caracterizam, os autonomistas de hoje retomam logicamente, embora sobre bases mais frágeis, a partitura “antipolítica” que já discutíamos há dez anos com Juan Chingo, em nossa polêmica contra o Comitê Invisível 5, isto é, uma perspectiva que não se propõe a conquistar nem convencer uma massa crítica suficientemente ampla daqueles que estão na luta N14.

Ora, se naquela época os autonomistas podiam parecer, para aqueles que viviam suas primeiras experiências políticas, uma perspectiva estratégica atraente, desde então as coisas mudaram muito: após o apogeu de 2016, os autonomistas se depararam com os becos sem saída de seu próprio modelo de ação; a extraordinária vitória representada pela conquista das reivindicações do movimento de Notre-Dame-des-Landes acabou se diluindo em uma interminável guerra intestina N15; e os Coletes Amarelos os ultrapassaram em radicalidade, sem que seus militantes desempenhassem um papel decisivo, diante da ausência de uma estratégia para estender a revolta ao movimento operário organizado, o que teria permitido mudar o rumo da situação N16.

Na luta contra a reforma da previdência, o desafio de generalizar e ampliar a greve constituiu o núcleo dos problemas estratégicos colocados ao movimento, uma preocupação que estava fora do horizonte da abordagem autonomista. Tentamos mostrar um método que teria permitido avançar nesse terreno por meio da Rede pela Greve Geral, que defendia a possibilidade de superar a estratégia de derrota imposta pelas direções sindicais, organizou uma resposta aos ataques do governo contra as greves por meio das requisições de trabalhadores e promoveu a solidariedade diante da ofensiva repressiva 6. E, se as revoltas em decorrência da morte de Nahel puderam realizar os sonhos mais delirantes do autonomismo, isso aconteceu à margem dele e sem sua participação. Por fim, o retorno das características mais decompostas do imperialismo em escala internacional colocou, como era de se esperar, a abordagem imediatista e localista do aqui e agora em dificuldades, criando novas divisões.

Embora os Soulèvements de la Terre N17 tenham expressado certa renovação autonomista e reflexões estratégicas estimulantes 7, fora dessa organização, os repetidos fracassos das estratégias autonomistas de revolta, em vez de levarem a um questionamento dessa (anti)estratégia, alimentaram a convicção de que estávamos presos em uma correlação de forças estruturalmente desfavorável, o que justificaria o apoio ao mal menor nas eleições, por meio do voto em Jean-Luc Mélenchon.

Como escreve Luc Amilcar em uma série de artigos publicados no Lundi matin, interessantes porque não tomam a derrota como algo inevitável, mas procuram identificar suas causas:

“O centro das atenções parece ter voltado pouco a pouco para a esquerda tradicional e, essencialmente, para aquela que se apresenta como ‘radical’, na figura de Mélenchon e da França Insubmissa. Essa mudança, ocorrida nos últimos anos, chegou inclusive a atrair um número nada desprezível de antigos autonomistas. Um fato inimaginável há apenas alguns anos, já que essa corrente libertária havia declarado muito explicitamente que seu objetivo era a ‘morte da esquerda’. Embora qualquer pretexto seja válido para que os meios de comunicação e a esquerda liberal enfraqueçam pela direita o partido de Mélenchon, em contrapartida, entre os partidários da revolução, são poucas as vozes que se levantam para questionar essa adesão incondicional”.

Esse apoio atingiu sua forma mais tragicômica durante a campanha da Nova Frente Popular, quando blocos de autonomistas se formavam nas manifestações em apoio a uma aliança eleitoral com o Partido Socialista (PS) e os Verdes.

Hoje, muito distante de suas origens, o próprio termo “autonomia” é utilizado por diferentes setores da extrema esquerda para defender um apoio inabalável ao projeto eleitoral de Jean-Luc Mélenchon N18. Portanto, é compreensível que nos faça sorrir o paralelismo estabelecido por Stella entre o líder da França Insubmissa e nosso companheiro e candidato Anasse Kazib N19, que, nos últimos anos, defendeu uma estratégia intransigente de independência de classe, de auto-organização dos setores em movimento e de rejeição à lógica do “mal menor”. Afinal, quem é que fala hoje da necessidade de superar a esquerda institucional?

Ainda mais grave é que a oposição mecânica entre a auto-organização e o partido dirigente tenha levado, como era de se esperar, a um desgaste que já estava inscrito desde o início. Muitos militantes, cansados das inconsistências da suposta auto-organização sem partido, foram procurar saber se o sol brilhava mais do lado dos partidos sem auto-organização... N20. Em nível local, foi possível observar, assim, como a “antiestratégia” autonomista alimentava, por vezes, o ressurgimento neostalinista, já que parte de seus militantes se juntava, por exemplo, às organizações maoístas emergentes. Para além desses casos particulares, esses dois modelos, que em teoria são diametralmente opostos, cooperam regularmente para impedir as tentativas de auto-organização no interior do movimento estudantil.

Então, afinal, auto-organização ou organização dirigente? As duas coisas, companheiros! No contexto da situação atual, não é possível imaginar uma auto-organização em larga escala sem organizações revolucionárias que coloquem a luta de classes e a auto-organização no centro dos debates. É a partir dessa perspectiva que os militantes e as militantes da Révolution Permanente estão comprometidos em toda a França, particularmente na luta para estabelecer e desenvolver assembleias gerais e coordenações intersindicais. Isso é fundamental para que se possa construir uma greve geral política que conquiste autonomia diante das burocracias políticas e sindicais.